Tô avisando: sai daqui enquanto é tempo!!!

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Neste mumento:
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Sexta-feira, Abril 30, 2004
 
NO FUSCA



Um fusca velho e detonado. Mas é meu. É isso o que importa.
Claro que não foi sempre assim: quando comprei, tinha até cheiro de novo - embora não fosse. Nunca tive carro novo, aliás. Nunca tive outro carro, aliás. Só esse fusca, agora velho e detonado como já disse. Mas meu. Muito meu.
Minha vida sempre esteve muito ligada ao fusca. Fiz quase tudo dentro dele. Inclusive minha filha. Isso não se fala, é verdade, não tem nada de romântico. Mas quem é que disse que fazer filho tem que ser romântico? Tem que ser prático: fazer direito. Ou como diz um amigo: fazer filho é foda!
Fiz, portanto, a filha dentro do fusca. Foi foda. Ah, sim. E fiz muitas outras coisas mais. Só não casei dentro do carro porque a minha sogra estrilou. O sogro não gostou. A futura esposa caiu em prantos e essas coisas. Um porcaria. Gente sem sensibilidade.
Por essas e por outras é que, com o passar do tempo, o fusca acabou se tornando meu melhor amigo. Era nele, dentro dele, que eu me sentia mais à vontade. No mundo lá fora era tudo formal demais, careta demais. Bom dia, boa tarde, como vai o senhor e a putaquiuspariu. Dentro do fusca eu não precisava de máscaras. Eu era eu e pronto. Sem frescuras, sem viadagem.
- Um dia eu mando tudo à merda e vou morar no fusca! - eu dizia.
As pessoas riam. Minha mulher balançava a cabeça. Minha filha, talvez por ter sido gerada dentro dele, achava a idéia interessante.
- Posso ir com você, pai?
Nunca disse que sim, nem que não. Mas no fundo a idéia não me agradava. Dividir o fusca? Mesmo ela sendo minha filha, mesmo tendo sido feita lá dentro, no banco de trás e ao som de Led Zeppelin, mesmo assim a idéia não me agradava. O fusca é coisa minha, tão íntimo quanto meu pau. Mais ainda: o fusca é como os meus pensamentos mais secretos: só interessa a mim e a ninguém é dado o direito de ficar espionando.

continua (ou não, vai saber...)



Quarta-feira, Abril 28, 2004
 
METAMORFOSE



Faz algum tempo, já: minha mãe se transformou numa vaca mas não deixou de lado antigos hábitos. Fumava enquanto mastigava o capim fresco, fazia as unhas e fofocava enquanto o leiteiro com cara de tarado enchia as mãos em suas tetas.
Tudo isso eu via com muito tédio. As mudanças, sempre. As pessoas mudam, sempre.
- E você nunca se surpreendeu com isso? - perguntaram um dia.
Não. Eu nunca me surpreendi. Isso é mesmo da natureza humana. Ou melhor, minto. Me surpreendi sim. Uma única vez. Quando um burro que pastava ao lado de mamãe se transformou no meu chefe. Fiquei horrorizado, confesso. E com um pouco de dó. Se o meu chefe tivesse se transformado num burro, OK, tá no plano. Mas o que aconteceu foi o contrário. Isso, definitivamente, vai contra toda a lógica universal. Além de ser de extremo mau gosto. Onde é que já se viu.




Segunda-feira, Abril 26, 2004


Domingo, Abril 25, 2004


Sábado, Abril 24, 2004


Quinta-feira, Abril 22, 2004
 
RAPEIDINHAS!



GEO BRASILIS
A geografia brasileira é mesmo curiosa: aqui é o único lugar do mundo onde você encontra rio em Minas e minas no Rio. Ô lugar!

NOVIDADE?
Cientistas japoneses anunciaram o nascimento do primeiro mamífero sem pai. Bom, isso deve ser novidade só lá pra eles. Na minha rua, por exemplo, eu conheço bem uns três.

NÚMEROS SAGRADOS
Levantamento ligado à CNBB revela que 41% dos padres já mantiveram relacionamento com mulheres. Uma outra parcela, como todos sabem, é chegadinha nos meninos, uns 35%, digamos. Tudo somado, aqueles que se dedicam integralmente à Igreja são apenas 24%. Estatisticamente, portanto, o pecado supera a fé.

DISTRIBUINDO
Um ladrão vem e toma o meu dinheiro. Logo depois, para prender o ladrão, a polícia quer que eu pague e também toma o meu dinheiro. Mais tarde, o governo cria um novo imposto para financiar a polícia e toma, mais uma vez, o meu dinheiro. E assim vai: pra um, pra outro, e o meu dinheiro corre mais que atleta. E ainda dizem por aí que não existe distribuição de renda nesse país.

NO PESCOÇO
E superamos Tiradentes: ele, pelo menos, morreu enforcado. Nós somos obrigados a viver assim!

CONCORRÊNCIA
No Fórum Empresarial, realizado em Comandatuba, o ministro Palocci afirmou, entre outras coisas, que o país precisa de uma política sadia. Os empresários da Perdigão, também presentes, consideraram que o governo está protegendo a concorrência.

MAIS FORTE
O homem mais forte do mundo é o americano Alan Greenspan, que é capaz de derrubar, sozinho, os mercados pelo mundo afora. E derruba com a língua, é bom que se diga.




Terça-feira, Abril 20, 2004


 
CÁ ENTRE NÓS


O negócio do Maradona nunca foi Boca Juniors.
O negócio dele é Boca de Fumo.

Se o coração deixar, ainda vai fazer uma grande carreira.

(!!!)




Domingo, Abril 18, 2004




Sábado, Abril 17, 2004


Sexta-feira, Abril 16, 2004


Terça-feira, Abril 13, 2004


Domingo, Abril 11, 2004




Sábado, Abril 10, 2004


Quinta-feira, Abril 08, 2004
 

A capital brasileira do cinema trash!






Quarta-feira, Abril 07, 2004
 
MAIS POLÊMICA!!!


Esse cara ainda vai ser excomungado...




Domingo, Abril 04, 2004






Quinta-feira, Abril 01, 2004
 


1

Todos os dias, às seis da tarde, eu ponho o meu banquinho perto da janela e espero. Às seis e dois, exatamente, ele aparece, também com o seu banquinho, perto da sua janela.
Ficamos olhando um para o outro, em silêncio, durante uma hora, ao fim da qual ele se levanta e desaparece na escuridão. Eu faço a mesma coisa, e o que me conforta é a certeza de que no dia seguinte tudo se repetirá.
Minha filha nos observa há anos - e nunca emitiu nenhuma opinião. Nunca nada a favor, nunca nada contra. Gosto desse seu comportamento. Evita constrangimentos e conversas desnecessárias.
Hoje, porém, fui obrigado a romper o silêncio:
- O desgraçado não veio! - protestei. - O filho da mãe não veio! É a primeira vez que falta...
Para me tranqüilizar, a voz até então desconhecida da minha filha:
- Calma, paizinho. Ele veio sim. Quem não está hoje é o senhor.

2

Ela já era mãe de 13 filhos quando a conheci. Uma graça de pessoa: dedicada às suas crias, dedicada a mim. E aos outros machos da espécie também, diga-se de passagem. Mas isso é antes uma virtude, é claro. Pena que tão poucos consigam enxergar assim.
Hoje, passados dois dias desde o nosso encontro, a filharada já alcança o número de 35, saudáveis e risonhas. Risonho também eu, afinal, não é sempre que se tem a oportunidade de acompanhar assim tão de perto o milagre da multiplicação. É religioso, até: seus partos, que ocorrem várias vezes por dia, trazem as crianças à terra e levam o meu espírito agradecido em direção ao céu.
Mas nem tudo é perfeito: volta e meia aparece um engraçadinho que fica insinuando coisas medonhas, meias-verdades sobre o caráter e o pudor dessa moça tão especial. No começo eu ficava nervoso, embaraçado, sem saber o que dizer. Mas agora, neste momento, sou um homem que já se pode dizer experiente. E não é pra menos: conheço essa mulher há exatas 76 crianças. Quando alguém me enche o saco, portanto, eu solto essa frase calaboca:
- Da mesma maneira que alguns fazem dinheiro e outros fazem cadeiras, ela faz filhos. Pronto!
Todos se calam diante da autoridade dessas palavras. Uns & outros dão risadinhas, é natural, mas isso não vem ao caso agora. Aos medíocres, meus caros, não é dada a sorte de conhecer determinadas maravilhas da vida.

3

Ele não se conformava: todos à sua volta estavam vivos, bem vivos, e ele ali, abandonado, morto feito um cão.
- Mas tudo na vida e na morte pode ser mudado - disse o anjo, manco da asa esquerda. - Nada é definitivo, et ceteretal, coisa & loisa. Quié que cê acha?
Ele ali, mortim, fez as contas necessárias, avaliou a situação, pesou os prós e os contras. Tudo isso em milésimos de segundo.
- Eu topo! - disse.
O anjo prontamente fez um cigarrão com algumas ervas especiais, cheirou pós de composição misteriosa e proferiu palavras a maioria delas de baixo calão. Aí então a luz se fez, fiat lux!, e ei-lo de volta, belo e garboso.
- Garboso?
- É.
Com a mortalha ainda grudada ao corpo, ele viu: todos à sua volta agora estavam mortos, bem mortos, e ele ali, mais uma vez abandonado, vivo feito um cão.
- Mas você pode mudar isso - falou o anjo. - A vida deles custa a sua. Seria muito generoso você dar a sua vida para que eles pudessem viver. Cristo fez isso, para que você vivesse. Quié que cê acha?
Ele ali, vivo mais uma vez, o milagre em carne e osso, fez novamente as contas necessárias. E concluiu:
- Eu não sou Cristo. Esses aí que se fodam.
E o mundo não ficou nem melhor nem pior por causa disso.

4

Um homem comum: de manhã, o banho demorado, a barba, o terno & a gravata, café com leite pão com manteiga, essas coisas aí tão normais.
Antes de sair, volta ao quarto. Certifica-se de que está só. E enfia a pistola automática na pasta de couro importada.
Na calçada, a mulher e a filha se despedem com beijos e abraços do homem que consideram pai marido advogado. Só nós aqui sabemos que ali vai um assassino, tranqüilo e frio como a brisa que sopra daqui pra lá.

5

Agora é assim: quando vou ao espelho, já não vejo mais o meu rosto. Dei pra beber fora de hora, parei de falar com a patroa. Um inferno. Volta e meia eu saio pra rua pelado. Visto apenas a minha melhor caradepau. Não posso fazer nada, a não ser disfarçar a minha situação com algo ainda que de remota dignidade.
Não foi sempre assim: já fui gente, é claro. Usava sapatos e camisas, canetas. Canetas! Um requinte. Ousava comer todos os dias. Eu e os meus. Que hoje nem meus são mais.
Estudei muito, como muitos da minha geração. Aprendi coisas que me foram muito úteis. Mas que a vida é real e de viés, isso eu aprendi na prática. Comendo, como agora, o pão que o diabo recusou. Pastando.
Um amigo me encontrou na rua dia desses. Ele quis desviar, eu senti, mas o segurei pelo braço. Fez cara de nojo, quase levou a mão ao nariz.
- Que é que aconteceu com você, rapaz?! - ele finalmente perguntou.
- Aconteceu - eu falei.
Ele permaneceu calado por um tempo, buscando lá nos arquivos da memória alguma daquelas palavras que as pessoas bem educadas costumam usar para situações dessa natureza. Como não encontrou nada, falou, talvez para me consolar:
- E a esperança? Você não perdeu a esperança, né?
- A esperança eu não perdi - falei. - Ainda não. O que eu perdi foi o emprego.






1