Tô avisando: sai daqui enquanto é tempo!!!

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Quarta-feira, Março 31, 2004


Terça-feira, Março 30, 2004


Sábado, Março 27, 2004




Sexta-feira, Março 26, 2004


Quarta-feira, Março 24, 2004
 
A PROVA DOS NOVE



Dormir com uma pessoa é fácil. Difícil é acordar com ela. Você aí deve saber do que eu tô falando. Ou será que nunca foi dormir com uma princesa e acordou com uma bruxa? E você, menina, quantas vezes foi para a cama nos braços de um príncipe e despertou ao lado de um sapo roncador?
Pois é. A manhã seguinte é a grande prova dos nove. Quem consegue ir além da bruxa e do sapo atingiu aquele estágio que as novelas e as revistas especializadas costumam chamar de amor. Mas que raio, afinal, é esse tal de amor?
Todo mundo, antes e depois de mim, de você, já fez a mesma pergunta. Sócrates, por exemplo, achava que o amor era Berenice, sua cabra leiteira e amante. Cabral, que nos descobriu, achava que o grande amor da sua vida era Santa Maria, a jeitosa e curvilínea caravela do seu rival Cristóvão Colombo.
Nem um nem outro, porém, alcançou a objetividade do meu vizinho Mané, pra quem o amor é uma caminhada às escuras, a dois passos do abismo e sem rede de proteção.
Grande figura, esse Mané. Vez em quando ele volta ao assunto e sempre traz uma pérola na manga: "O amor é como pisar nos meus ovos", ele diz, sério. Ou ainda: "Amor é quando eu me jogo prum lado, ela pro outro mas nenhum de nós dois cai".
Equilíbrio, portanto. O eterno sobedesce nosso de cada dia. Muito mais que sexo: a certeza de que é a mão do outro, da outra, que vai te dar o apoio suficiente para chegar do outro lado. É o meio que possibilita o fim.
Dia desses o Mané me contou um caso acontecido há uns 20 anos com a Zefa, sua atual e eterna mulher: estavam lá os dois no bico do corvo, ele desempregado, ela sem emprego. De repente um cheiro de guardado envolveu o ninho dos pombos. O Mané, a doçura em pessoa, perguntou:
- Minha linda, cê bufou?
- Bufei, bem.
- Que romântico! - falou ele, e caíram os dois na risada.
Não fosse o equilíbrio do casal, a relação teria acabado ali mesmo. E o Mané, sábio, ainda arrematou com essa:
- E eu só continuo acordando com a minha bruxa porque sei que toda noite ela se faz princesa pra mim.




Domingo, Março 21, 2004


Quinta-feira, Março 18, 2004
 

É ou não é um perfeito retrato americano?




Quarta-feira, Março 17, 2004
 
Você já sentiu que a grande imprensa
tá te enrolando?

O FAZENDO MÉDIA
vai direto ao ponto!

Vai lá!







 
O HOMEM IMAGINÁRIO




Ela tem três olhos, mas isso não me incomoda nem um pouco. Pelo contrário: são três olhos belíssimos, um deles um pouco torto, é verdade, mas ainda assim. Tem também uma cauda enorme, na qual tropeço de vez em sempre, mas isso pouco me importa. Às vezes, quando furiosa por coisas mínimas ou máximas, dependendo da posição dos astros ou do resultado das loterias, ela costuma me chicotear a bunda com a ponta espinhuda da caudalheira - mas eu até que curto isso. E dizer aos outros que ela tem o maior rabo do mundo me enche de orgulho.
Essa mulher aí, com seus 300 quilos e escamas de navalha, pra mim, não tem defeito algum. Os maldosos de plantão, que estão por aí feito piranhas alucinadas, costumam dizer que o seu hálito venenoso e suas quatro mãos frias configuram, sim, graves defeitos. Eu não ligo. Sei do seu coração direito, aquele que fica logo abaixo dos outros dois.
Conheço essa mulher desde que a arranquei das páginas de um livro antigo. Lembro como se fosse hoje: ela tava lá, imóvel e triste figura, esperando por mim. Quando abri o livro (era uma feira, acho, ou Bienal, ou ainda no buteco do Zé, que servia cachaça com torresmo & clássicos literários no balcão), o destino já estava traçado: bati os olhos nela, ela sorriu pra mim com o primeiro dos seus maxilares. Amor à primeira vista, caralho, é claro que sim.
Depois desse encontro digno de filme, nos transformamos em alvo de preconceito de toda espécie: os meus não a aceitaram (não aceitam até hoje), os dela não me aceitaram (e não mudaram de opinião). Tentamos, é claro, convencê-los de qualquer forma, argumentar religiosamente, oferecemos um dinheirinho por fora, et cetera, mas não teve jeito. Acabamos mandando todo mundo sifudê. Tínhamos um ao outro e a promessa de um amor eterno enquanto duro pela frente.
Hoje, portanto, estamos aí pro que der e vier. Às vezes ela pisa em mim com uma de suas 12 patas, mas eu, cristão, ofereço a outra face (ou a outra costela, dependendo da fratura). É o amor, gente, o amor.
A única coisa que me incomoda um pouco nessa história natural e edificante é a sensação de que ela não me leva muito a sério. Nunca falou nada a respeito, é claro, mas tenho cá as minhas dúvidas. É como se eu desconfiasse de chifres. Uma grande bobagem - afinal, quem tem chifres é ela, oito, de várias formas e tamanhos.
Mesmo assim, eu tenho cá as minhas convicções. Ela pode até não acreditar em mim, achar que sou imaginário, mas eu acredito nela do jeito que ela é ou possa vir a ser. Isso é o suficiente, é o que sustenta e suporta o nosso amor.




Sexta-feira, Março 12, 2004
 
EU FIZ, MAS É O OUTRO QUEM TOCA




Sim, meu caro, é isso aí: há muito tempo atrás, antes mesmo de inventarem essa tal de redundância, aqui era o mais puro sossego. Não havia absolutamente nada, necas de pitibiribas, porra nenhuma pra fazer, e eu achava que assim era bom. Achava e, devo acrescentar, ainda acho. Mas não posso, não pude negar essa putaria civilizatória, de formas que o que temos hoje pela frente pode ser classificado de qualquer coisa, menos de imobilismo de minha parte.
Assim posto, vam'então: tava eu lá no bem-bom, água de coco me refrescando a güela, quando me veio súbito o pensamento: noitedia são necessários; guerrepaz; riqueza e pobreza; cartões de crédito e chópim centeres, ora pois!
Olha, se ajeite e me escute: fui tomado por um baita susto, o coco se me escapou da mão feito curió em fuga de gaiola. Tava em falta, tudo em falta! Credencruiz, vixe Maria da porra serena! Cabia a mim dar o provimento de tudo isso...
- E de muito mais!
Como é de meu feitio, ignorei o travessão acima, a fala do Outro, pois se há coisa que não admito é sujeito oculto que se infiltra nas minhas linhas tortas brandindo razões e desrazões feito rolempé só porque se acha no direito.
- Tô no direito sim e aporrinho até você levantar essa bunda gorda dessa rede de terceira e criar aquilo que lhe compete!
Ah, saco! Levantei sim, mas não a bunda gorda, porque isso não tenho. Aliás, não sou, nunca fui de fazer algo só porque alguém me manda com voz de general. Levantei porque é da minha vontade, o livre arbítrio exercido por quem mais de direito. Levantei, portanto, fixei o olhar no horizonte e sonhei automóveis, ferraris vermelhas e aviões de cruzar os céis e barcos iates para não fazer nada. Prontamente, é claro, voltou a preguiça, e a visão do coco recém rolado de minha mão me devolveu à horizontalidade que é minha postura predileta desde sempre. E pensei, porque a posição mais conveniente para o pensamento é deitado, tão aí todos os filósofos mortos e enterrados que não me deixam mentir. Essa pensamentaiada toda, porém, juntada a refrescância da água de coco, provocou em mim uma sonolência ducarái, de modos que capotei no mais deleitoso dos sonos & sonhos. Tenho cá pra mim o seguinte: o pensar em si é muito estéril porque carece de ação cinematográfica. O sonho já é outro papo: o sonho é o pensamento em ação! Sendo assim, dormir e sonhar é a maneira mais fantástica e eficiente de pensar que já se inventou por aí, que eu inventei, aliás modestamente, mas que ninguém reconheceu até hoje como muitas outras de minhas obras.
- Larga mão de boiolice e faz o teu trabaio, rapá! - interrompeu o Outro, mais uma vez.
Às vezes eu acho que ninguém me respeita mais! Essa história, em verdade que vos digo, aconteceu lá no começo, vocês sabem, mas parece que foi assim desde sempre, um e outro aqui & ali sempre dando pitaco nas minhas coisas e me mandando fazer aquilo que eu já sei porque é de minha natureza saber e fazer. E fiz, então, como era de se esperar. E mais: fi-lo porque qui-lo, como disse um ignorante plagiador que nasceu bilhões de anos depois de mim e achava ter descoberto a roda.
Mas aí, depois de criado este seu mundão sem portera, eu percebi que tava tudo muito bom, muito bem, tudo certim feito pagamento de patrão. Que fazer, catsu!?
- Criaí a cobra, a maçã, a revista Preibói pra estimular os membros inferiores, cocaína pra relaxar, as colunas sociais, a política e a TV pra foder com tudo isso...
Horizontalizei-me mais uma vez e pensei, pensei, pensei, como é cruel pensar assim. E tive uma idéia:
- Tudo isso só vai funcionar se eu criar o Homem.
O Outro, que ainda hoje não sai do meu pé, foi lacônico:
- Demorô.
Serviço concluído, voltei pra minha água de coco. Muito pouco tem mudado desde então, mas o Outro tem dado provas de que sabe administrar muito bem essa bagunça. Azar dele, ora pois.




Quinta-feira, Março 11, 2004


Quarta-feira, Março 03, 2004
 
O ARMÁRIO


Certa vez, num tempo não muito distante deste em que vivemos agora, o presidente de um país mui conhecido nosso se orgulhava de seu armário repleto de escândalos.
- Dentro desse armário temos para todos os gostos e bolsos - dizia aos seus interlocutores. - Escândalos meus, dos outros, centenas, milhares de escândalos dos mais variados tipos e tamanhos.
Escândalos financeiros?
Tem!
Morais?
Tem!
Políticos?
Assim, ó!
Um dia, vindo sabe-se lá de onde, apareceu um homem probo que ficou escandalizado ao saber do armário de escândalos. Foi ter imediatamente com o presidente.
- Como é que Vossa Excelência permite uma aberração dessas?
- Permitindo.
- Como é que deseja mudar o país agindo dessa maneira?
- E quem é que disse que eu quero mudar alguma coisa?
- Quantos escândalos têm aí nesse armário?
- Uns 100 mil, por aí.
- Isso é um escândalo!
- 100 mil e um, portanto.
- E qual é o escândalo mais grave, mais imoral, mais escabroso que tem aí dentro?
O presidente acendeu um charuto escandalosamente fedido, coçou a barbinha já grisalha e falou:
- Bem se vê que o senhor não é um homem de política. Se fosse, saberia que o escândalo mais grave é sempre o próximo.




Segunda-feira, Março 01, 2004




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