Pessoas

Todos os dias as mesmas. Silêncio, estranho, quase nem se falam, nem eu. A hora, quase madrugada, muito cedo para que a sociabilidade tenha despertado, a falta de vontade para encarar o trabalho contribuem para este isolamento. Uma vez, quando esqueci a etiqueta pendurada, por um sorriso fui abordado, mas foi isso, ninguém mais me sorrira ou sequer comprimentara. Bom dia! Que nada. Até onde? Interessa? Mesmo que desça em mesma parada. A viagem é longa, outra cidade, o assunto nulo. Também eu me ausentava, mas como chovia seguido, uma marquize aproximava, exiguo espaço que apertava. Hoje foi diferente, distanciamento físico transformou-me espectador. Mesmo cedo, expressoões e posturas explicavam, analisava. Professores, funcionários públicos, alguns operários, profissões se revelavam e mais do que em silêncio percebi, consigo dialogavam. Que será que discutiam, contas vencidas, pouco salário, amores que lhe esperavam, esperanças vencidas, projetos, filhos, bons ou problemáticos, família, a casa, o amor na despedida, ficar mais tempo, casa? Então o ônibus se aproxima, olhares vagos para a porta em fila, por cima, nem educados, nem instintivos, entram nele segurando suas vagas. Pessoas, meio vacas. Amanhã os mesmos rostos, silêncio, estranho silêncio que entre eles não se falam, nem eu, será que é a hora?
Interpretação João Cabral de Melo Neto". Revista 34 Letras; Rio de Janeiro; março de 1989. p. 34
No dia-a-dia do engenho, toda a semana, durante, cochichavam-me em segredo: saiu um novo romance. E da feira do domingo me traziam conspirantes para que os lesse e explicasse um romance de barbante. Sentados na roda morta de um carro de boi, sem jante, ouviam o folheto guenzo , a seu leitor semelhante, com as peripécias de espanto preditas pelos feirantes. Embora as coisas contadas e todo o mirabolante, em nada ou pouco variassem nos crimes, no amor, nos lances, e soassem como sabidas de outros folhetos migrantes, a tensão era tão densa, subia tão alarmante, que o leitor que lia aquilo como puro alto-falante, e, sem querer, imantara todos ali, circunstantes, receava que confundissem o de perto com o distante, o ali com o espaço mágico, seu franzino com o gigante, e que o acabassem tomando pelo autor imaginante ou tivesse que afrontar as brabezas do brigante. (E acabaria, não fossem contar tudo à Casa-grande: na moita morta do engenho, um filho-engenho, perante cassacos do eito e de tudo, se estava dando ao desplante de ler letra analfabeta de curumba, no caçanje próprio dos cegos de feira, muitas vezes meliantes. )
Mario Quintana Eu que já me senti retratado por este poeta em muitas situações do pensamento, encontrei algumas coisas interessantes. Socorro Araujo com seu projeto Fotografando Mario Quintana, algumas frases antológicas: "Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo.", disponíveis na pequena biografia deste site, quem sabe, ele por ele mesmo. ou conhecer sua antiga morada, hoje transformada em Casa de Cultura, imperdível passeio a quem vai a Porto Alegre.
A Verdadeira Arte de Viajar
A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa, Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo. Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali... Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
(Quintana in "A cor do invisível")
Vaidade

Tudo inicia com Juracy a amiga que vendia Avon, não, foi antes, quando o salário do Egídio tornara-se insuficiente e ela teve que ir a luta. Auxiliar de limpeza na prefeitura, concursada, um emprego caído do céu. Toda vida de colônia, rural, as coisas da rua e da cidade muito pouco conhecia, ou nada, exceto o que a filha Eliza, adolescente, lhe trazia, mas só até onde conversavam, e era pouco. As modas das revistas, os costumes que não entendia, o medo que nem sabia a que lhe atribuia. A mãe tosca não lhe ensinara, e será que da filha apreenderia? Em casa, a TV lhe assistia, entender não entendia. Até Paulo, namorado jovem da filha que insistia, a perturbava, o que será que ele queria? Amigas. Desajeitada, ajustou-se no novo convivio. Colegas, Syrlei, Eva e Jandyra. Egídio, primeiro namorado, marido, vinte anos de rústica companhia. Atenta e assustada, entendia a seu modo o que dali viveria. Chegaram os perfumes, cremes, sapatos, sapatilhas, tentada e encantada moldava-se no que via. Eva, a avançada, solta, escolada, Syrlei mal resolvida e que adora dar pitada. Coitado do Egídio, tornou-se obsoleto antes mesmo dos vestidos, e haja creme para encobrir nova alegria, que diga Assis, o colega que a tudo assistia, jovem, compreensivo, melhor companhia. Entendera Eliza, o que faria? E pensar que começou quando Juracy lhe vendeu Avon, ou foi antes, quando Egídio tornara-se insuficiente.
Cinco Minutos ou Zumbi me pega Este é o tempo que tenho antes de sair para trabalhar, e olha que hoje por aqui é feriado, Feriado do Zumbi. Ano passado escrevi sobre isso:"...Não vou comentar o mérito do homenageado, nem se é ético um feriado de cunho racista, entretanto, hoje, véspera da data anunciada como Dia do Zumbi aguardamos com ansiedade a decisão judicial a respeito da aplicabilidade, ou não, da folga municipal por aqui. Pelo calor que se firma, o sol que promete e o vislumbrar de uma tarde junto ao mar, assumo! Como disse FHC, somos todos negros nesta terra. Se ele é, também sou. E viva Zumbi, salve os palmares (os da praia, é claro)! ..." Desta vez o feriado, confirmado, reafirma o preconceito que existe por aqui, e chega com chuva, não vai dar praia, e eu, não por protesto, mas por ncessidade, vou ao trabalho.Existiu Zumbi malandro? Nossa, estou atrasado...fui!
Renovando A espera sempre era grande, e não faltavam motivos para que eventualmente se separassem. O trabalho que não combinava em horários, a família presente que requisitava, alguns amigos que não podiam ser negligenciados, o que seria direito, correto. Achavam sempre que não daria certo e a despedida definitiva era presente em cada tchau, até logo. Os conhecidos, poucos, também desacreditavam. Poderia ter sido mais fácil, mas como eles mesmos já tentaram, mais fácil não foi melhor ou mais certo, e desta forma, e também porque se amavam, continuavam da mesma forma, um adeus e um reencontro. Quem sabe não fosse este o segredo, bem, estão ai até hoje, afinal, como dizia o poeta, a vida é a arte do encontro, mesmo que muitos não acreditem.
Utilidade Pública - Não compre CD com Anti-cópía Boicote os cds com proteção anti-cópia. Peço licença ao Charles e reproduzo o post do dia 13.11 do Blog dele.
"O Paulo Eduardo Neves, do clássico site Samba e Choro, lançou a campanha Boicote os discos com proteção anti-cópia. Os motivos estão lá, de forma clara, mostrando que CDs com mecanismo anti-cópias são um atentado ao consumidor e à própria memória cultural da humanidade.
E se é para falar sobre CDs anti-cópia, que tal um caso que ocorreu hoje de manhã? Pois uma colega da trabalho chegou aqui com o CD Tribalistas que uma amiga dela emprestou e foi ouvir no computador. O som ficou simplesmente horrível, parecendo um rádio fm mal sintonizado. Não, não é exagero, é fato. Como ela costuma ouvir CDs no computador daqui do trabalho e no computador da casa dela, ela desistiu de comprar o CD. Ou seja: com esse mecanismo a única coisa que a gravadora conseguiu foi perder uma cliente. 
Ah! Claro! A pergunta que não quer calar: É possivel fazer uma cópia desse CD? Claro que sim! Basta conectar um CD-Player no inline do computador, usar esse programa para capturar o audio da placa de som e esse para gerar um MP3. E a qualidade, como fica? Melhor que o próprio CD rodando no computador. É mole ou quer mais?"
Saber mais.
Sinal dos Tempos Seu pai ou avô podem ter usado, e nem sabiam. A moda que tira do armário não escandalizava no passado, ou as coisas não tinham o sentido que tem hoje ou o preconceito era menor. Que nada! Você compraria? (clique aqui)
Publicidade extraida da revista Seleções de Janeiro de 1953
Primeiro Ato A hora propícia, ficou a esperar. Não ia atiçar o inimigo, mas bem que desejava o enfrentamento. Tempo, muito tempo de armas recolhidas, prontas, aptas, funcionantes. Escondido em si, um arsenal tamanho, de meter medo, medo de si mesmo. Talvez por isso tivesse controlado. Um guerrilheiro, e nem sabia.  Obediente e calmo, disfarçado em resignado, sofre um revolucionário. Faltou a oportunidade propícia da hora. Segundo AtoMais tranquilo percebe, não vale a pena. Pena. Perda de tempo. Apaziguado sem ir a luta retoma a rotina. Que digam: passivo, acomodado. Menos acovardado que prudente fecha as caixas, ajeita os armários. Tirana a vida que impõe outra postura, tirana aquela que não promete nada e de repente acaba. Calma! Controla-se na incerteza de saber que é finito. EpílogoNão há hora mais propícia, nem furor ou enfrentamento. Tempo, muito tempo de armas velhas recolhidas, obsoleto, despreparadas. Escondido em si, medo tamanho, arsenal de dó de si. Do que valeu ficar tranquilo, apaziguado sem ir a luta? Foram-se oportunidades, acovardado na incerteza do que é finito, morre cedo um revolucinário.
Rio Branco
 Algum fim-de-semana, não muito freqüentes, mas sempre inesquecíveis. Teria sido no Fuca? Quem sabe naquele quatro portas? Que idade meu pai teria? Menos de trinta. Íamos buscar o René e a Gila, a Glória que devia ser uma adolescente, minha mãe também. Tenho uma foto, todos na frente da casa das calças Far-West, barra virada tecido apeluciado padrão escocês. Sucesso no Pedro Osório, poucos tinham. Mas de quando será este instantâneo? O avô foi dos primeiros a ter uma Polaroid colorida, me vejo no exato momento. Tinha também uma revista de quadrinhos castelhana, feia, mal impressa, mais um dos suvenires que com o doce de leite e as blusas de lã sempre trazíamos. O avô e a avó já foram, faz muito tempo que não atravesso a fronteira. A última vez, inclusive, tive sensação de terra arrasada, muita pobreza e abandono, portanto, melhor manter as boas lembranças, hoje o mercosul permite que se compre o doce da Conaprole na esquina, deixa, assim ficam os bons sentimentos da infância já que a foto esta quase apagada.
Tribunal do Juri "A verdade sempre resplandece no fim, quando todos já foram embora."
Júlio Ceron - escritor espanhol Perdi a razão. Quem mandou na hora exata,momento errado ter aquela vontade de rir. Devia ter imaginado, não daria certo. No primeiro dia o marido mata esposa e filha, depois atenta contra a cunhada. Alguns anos se passaram mas esta ainda chora, plateia acolhe. Espetáculo de horrores que uma defensora, pública, não justifica. Show do Ratinho organizado, nem tanto pois não respeitam-se horários e fumam em local impróprio. Surpresa em meio aos jurados, um ex-interno que conheci no sanatório. Imagino o juizo do sem juizo a julgar aquele povo desgraçado. Tentei escapar apresentando meu ofício, mas nem isso mais a medicina oferece, imunidade para miséria não faz parte do curriculo. Ontem um pedreiro que matou um assaltante. Perguntaram sobre impedimento, se alguém ja tinha um parecer prévio, seria liberado, quase levanto a mão: "Doutora eu estou impedido.. li a matéria no jornal, na segunda linha decidi - o pedreiro é inocente, e matou por inocencia, apesar de estar na praça as quatro da manhã fazendo sei lá o que... Se não quer livrar o obreiro libera eu primeiro!". Desta vez não fui sorteado mas tenho que voltar outro dia. É hoje, estou aqui. O pirado foi afastado deve ter tido uma crise no julgamento passado, vim melhor arrumado pode ser que me percebam e por fim me mandem embora. Crime do dia, contrariado, senhor aposentado atira em caixa do banco quando não encontra seu numerário. Ouvi meu nome ser chamado, momento errado, hora exata, não contive a gargalhada. Atonita a juiza decide, o senhor esta libertado!
Ainda que mal
Carlos Drummond de Andrade
ainda que mal pergunte, ainda que mal respondas; ainda que mal te entenda, ainda que mal repitas; ainda que mal insista, ainda que mal desculpes; ainda que mal me exprima, ainda que mal me julgues; ainda que mal me mostre, ainda que mal me vejas; ainda que mal te encare, ainda que mal te furtes; ainda que mal te siga, ainda que mal te voltes; ainda que mal te ame, ainda que mal o saibas; ainda que mal te agarre, ainda que mal te mates; ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio, me salvo e me dano: amor.
Menos ADSL Ja que continuo sem conexão, reproduzo a mensagem que enviei a Brasil Telecom esta manhã.
Estou desde o dia 18 de outubro a espera de qualificaçao de linha para ADSL. Neste período entrei em contato inúmera vezes com o "suporte tecnico" sendo sempre informado que teria meu problema resolvido em vinte e quatro horas. Neste tempo, desde a instalação do modem, tive sucesso em conectar-me por apenas umas 10 horas, em um serviço que com certeza terei que pagar pelo tempo integral. Todos os testes com hardware, modem, provedor, etc, foram feitos por tecnicos das empresas envolvidas, sendo por fim, após mais de uma semana, diagnosticado um "problema na central". Isso já sabíamos, nos primeiros momentos, no entanto, insistiram a postergar soluções, "empurrando" o defeito a responsabilidade de terceiros (provedor, fornecedor do modem, assistencia tecnica do micro, Bill Gates, e meu gato, por ter dormido em cima do aparelho). Identificado a questão, pelo menos pelo que parece, permaneço sem qualquer conexão, exceto as discadas gratuitas, ja que me desfiz do plano de meu antigo provedor. Arrependido, somo os prejuizos financeiros que vão além da conta que sera inutilmente paga, ja que, internet mais do que uma opção de lazer é parte de minhas ferramentas de trabalho, uso deste meio, pois apesar das dezenas de telefonemas, não me senti ouvido. Minha confiança a em ser pelo menos respeitado, esta se perdendo, ao limite, tomarei outras providências. Atenciosamente
Possível
Aliviado sentiu-se disposto, pensou vestir roupas claras, coloridas. Talvez dispensasse seus remédios, livre, procuraria seus amigos. Uma festa, todos a uma pizzaria, voltaria a contar-lhes vantagens, nada em ser exibido, mas poder exibir-se, livre. Retomaria projetos, enfim, desligar por um tempo a geladeira. Livres, ele, eles e o improvável. Tempo, nos olhos remelas, sonho, fora um sonho, entusiasmo de quem não havia acordado direito.
Lamento
Podia dedicar este espaço para jogar minhas críticas ao serviço de ADSL da Brasil Telecom, mas já fiz isso alguns dias. Justificar aos meus amigos meu silêncio pela total falta de conexão, justo quendo começava a me mostrar como usuário de Banda Larga, é vexatório. Dois dias de uso e a conexão foi-se, 20 ou mais telefonemas, 10 ou mais promessas de solução, todas para "em vinte e quatro horas", deixaram vinte dias em espera. Sem paciência, e tardiamente, num ataque de histeria, mandei a call girl calar a boca quando, pela milésima vez, retornava a pergunta:"Qual o modelo do seu modem?" Script pré-elaborado, de quem nem sabia o que perguntava, num interminável looping de questões repetidas."Trataremos seu problema com prioridade...", imagino! Mas foi só quando perdi totalmente a paciência é que fui elogiado: "Obrigado pela sua compreensão...". Socorro, a autômata esta mal programada, se isso é suporte tecnico precisarei de um maior para sustentar meu saco, cheio. Enfim, pagando um serviço que não usufrui, deixei tudo a cargo do Procon, volto ao Yahoo acesso gratuito, preparo um chimarrão, e com calma, espero uns quarenta ou cinquenta minutos para que minha caixa de correspondencia se esvazie lentamente. ADSL, não recomendo!
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