Mais Guerra
A imagem ao lado foi extraida da capa do almanaque Eu Sei Tudo de dezembro de 1939. Era um momento dramático, o auge da segunda guerra mundial, no interior da revista, as invenções européias para proteger crianças e bebês da eminencia de gases tóxicos. Loucura. Mais de sessenta anos se passaram, com toda a tecnologia disponível instrumentos como estes estão defasados, ridículos talvez. Mudam as armas, mudam as defesas, mas o temor, o pânico que envolve quem pode sofrer estes ataques são os mesmos, afinal são instintívos. Triste é saber que o homem não muda sua essência de conquista e belicosidade, para isso a tecnologia aperfeicou as armas, adaptou suas defesas, mas, infelizmente, parece que pouco conseguiu evoluir em sua natureza animal e primitiva. Diplomacia e tecnologia não disfarçam a irracionalidade nata deste bicho.
Gataria Presente inesperado, mais um gato para a casa. Pensei dizer não, mas, acostumado com a Fulvia, não resisti o olhar pidão daquele felino novinho. Dois meses, me disse a velinha, e ja esta pronto para uso. Desvermifugado, banho tomado, anti-pulgas e aquela cara achatada pedindo para ficar. Ele seria irmão mais moço da moça que ja mora aqui há quase um ano. Sabia que se os guris vissem ele não sairia, e tentei esconde-lo até onde pude. Surpresa foi a reação da primeira, tranfigurada, invadida, mostrou-se muito mais arisca que pudesse imaginar, agressiva foi capaz de me arranhar as mãos e baforar aquele hálito desagradável no rosto. Agora ao perceber, relacionamento impossível, ou pelo menos, muito tumultuado, me questiono, o que fazer. Logo, abro mão de alguma crônica mais profunda para fazer um questionamento mais mundano, e mundano estando na moda aproveito o outro conflito e contigo reflito: O que faço? Me armo de paciencia e dou um tempo até que Iraque e EUA achem um concenso? Intercedo, mesmo que inutilmente, como a ONU na procura da paz ou parto direto para o uso de armas químicas exterminando ambos indiscriminadamente? Aguardo de mãos atadas, digo, com ataduras!
Incidente
Pensei ouvir Chet Baker, chegar em casa, só, silêncio, férias momentâneas, não devo nada a ninguém. A volta mais longa por um descuido fico sem carro, IPVA vencido, policial truculento e algumas horas na estrada, veículo rebocado, humor alterado. Não discuto, sou educado, ao poder resignado. Amanhã ou depois retorno, 150 km, paciência. Malas e radinho, fome e frio. Mosquitos. Não deixaram ser fotografados, situação inusitada. Escuto rock alternativo, que alternativa, aqui não pega mais nada, tirante isto "não devo nada a ninguém" é uma mentira. A boa vontade de um amigo para o resgate é arrastada, duas horas, três quase madrugada. Vacas não dormem? Aprendo. O churrasco, pizza, suco, me sucumbem baixo abdômen. À volta, não resta nada pouca luz e mato, e a vaca que não dorme. Tirei tantos pics bem que merecia uma imagem, acocorado, porém educado. Que o guarda fosse a... fui! Pensei ouvir noticias, pilha fraca, ambulâncias passam e eu sem socorro peno na estrada. Altas horas, guardanapos, coca quente. Minha resistência não se verga, sento cansado. Porta envidraçada, encostado, estala, quebra o vidro da guarida. Porque não tomei o cafezinho enquanto a moça ali estava. Mas, tinha banheiro, fechado, tarde! Houve um acidente, morte, estrada trancada. Espantaram-se mosquitos, passa tempo, passa. Tenho equilíbrio, não grito, não mujo, vacas insones vou ver a lua, escorrego, escuro, mato, pasto alto, pega-pega nas calças e umidade. Bosta! Companheira, agora é mais tarde ainda. Socorro! Chego sem carro, Chet Baker é um babaca, me deixem só amanhã eu resolvo o que posso.
Bobs
Pode parecer mentira, talvez eu tenha exagerado* um pouco no retoque da imagem, mas ontem o "vazamento" do preparo do Bush antes de anunciar a início dos ataques é o melhor ícone da guerra que se inicia. Com um ar inexpressivo, como que se fosse pedir a um filho que trocasse de canal, ou a perguntar para a esposa se estava bem para aquela formatura insossa, ou qualquer outro compromisso social sem importância, Mrs. President comunica: "Sob minhas ordens, as forças da coalizão começaram a atacar alvos militares importantes a fim de minar a resistência de Saddam Hussein(...) Não aceitaremos nada menos que a vitória." Não entendo mais este mundo em que vivemos. Neste momento, pela CNN, assisto o intenso bombardeio que cai sobre Bagda, tenho medo do que sinto, depois de poucos minutos o espetáculo pirotécnico faz esquecer que existem vidas em torno deles. Deus me salve de ser insensível, não quero o olhar inexpressivo, basta esse louco e seus penteados, sua cobiça e de seus aliados.
*Foto modificada com Adobe Photoshop
Preguiça A porta batia e nem vento havia. Achei que fosse a gata a correr pela casa, por isso costumo me fechar no quarto. Olhando a janela só pequenas linhas de luz, acho que a noite é clara, não deverá chover amanha nem no fim de semana quando pretendo viajar. Uma noite dessas foi o som que ligou sozinho gritando Imagine com John, pensei que fosse um espírito e mesmo racionalmente convencido custei a voltar a dormir. Amanhã é o mesmo dia, foi-se a expectativa de grandes fatos, terei que inventar minhas novas histórias. Se não venta porque bate esta porta? O som quando surgiu por conta não queria desligar e eu desisti assim como agora, abrir a janela é trabalhoso, mesmo sabendo que em noite clara a visão daqui é muito agradável . Esta hora costumo ter fome, me satisfaço com um copo de leite, mas, nem isso, prefiro ficar esperando quem sabe a porta se feche, a gata ajude, o sono vença e a fome se mude. Amanhã, as mesmas caras, a esta hora me parecem mais feias, durante o dia até nem ligo, mas se deixar me assolam como espectros que não deixam descansar, fantasmas! Quero dormir, não quero, preciso. Acho que ouvi um miado, engraçado parece tão distante! Parou de bater a porta, sera que ela foi ver a lua? E eu aqui, narcotizado por um sono de prazo vencido. Sumiu o miado, o ruido de porta entreaberta. Adeus! Deixa assim, amanhã vejo se ainda tenho a bichana. "Image only people..." e leite morno.
Intervalo Depois de uns comentários mais depressivos trago um cartoon interessante de Chaval. Dizem que "em terra de carniça todo mundo é meio urubu", se for assim, algo semelhante esta ocorrendo cá por esta terra. E tire proveito de quem puder, também "faz parte".

Chaval é o pseudônimo de Yvan Le Louam, cartunista francês, que usou o humor negro como forma de expressão.
Nada Mudou

Estamos a poucos minutos, horas, ou quem sabe até que eu termine de escrever ja tenha começado mais uma guerra. Há alguns dias coloquei um link para a página do Unidet for Peace e tenho acompanhado a movimentação inútil pela paz que vários povos vem fazendo. De tudo que possa ser dito é interessante a coluna de Sérgio Abrantes na edição da Veja de 12 de março. "Fora de seu Tempo", e nós aqui tentando absorver e entender a nova ordem mundial. Desistam!
Incapaz Em São Vendelino vendem capacitores por baixos preços. Não sei onde isso fica, nem para que realmente servem estas coisas, tão pouco me importam barato mas a escada recém-pintada, em cor amarelo gemada, dava o tom de anos cinquenta e de estranho só a TV pendurada. O que tem uma coisa com a outra? O pátio, e também a bicharada! Pato, peru e galinha, um coelho sempre assustado, o pavão sujo despenado, o perdigueiro agitado. Meu pai, que sempre vendeu férias, não deixou que conhecesse a serra, talvez estivesse lá São Vendelino, capaz . Do pouco em distâncias que lembro, em tempo e estradas percorridas, encontro a casa dos avós, escorrego, na frente a praça da igreja, na esquina o portão que não fecha. Não era tão longe mas vejo, as peças em caixas jogadas, entulho que nunca se arruma, só vê quem as mantem bagunçadas. O avô de curioso a radiotécnico, perdido em tvs em pedaços, vitrolas , fios, transistores, antenas frequencias trocadas. Válvulas! Ali talvez estivesse a peça que agora anuncia. Mas, onde diabos fica São Vendelino, que são estes capacitores, que lembranças soltas me trazem? Talvez seja essa minha sina, tentar recompor o passado, incapaz, capacitores, perdi de vez sintonia.
Perdido Hoje escrevi meu melhor post, estava muito bom mesmo. Inspirado sentei em frente ao micro e a um só tempo falei em poesia de toda saudade que sentia. Emocionado, após texto terminado, liguei para um amigo. Queria que opinasse, mas sabia estava simples, completo emocionado. Minha mãe teria orgulho, seria reverenciado, meu Ego resplandecente fingiria não ter-se importado. Poderia descansar por uns dias e assim não dizer nada, já havia me exposto o suficiente, era um talento aclamado. No entanto ao salvar o post, talvez um comando errado, o que era para ser lido perdeu-se sem ser guardado. Agora foi-se o empenho, inspiração abafada, no lugar ficam estas linhas tortas de desculpa esfarrapada. Sobre o fato, vai-se a obra, verdadeira obra de arte ou seria uma mentira, a expor o ponto fraco de quem só desejaria ter algo para ser lembrado?
Missíva
Quando mudou-se havia esperança de retorno logo. Não aguentaria, sentenciava quem a detinha, sofreira por saudade creditava quem lhe amava. As visitas longas em intervalos breves cada vez mais breves a intervalos longos. Espera. Cartas pesadas, e não a presença física, em papel guardadas eram raros pedaços de vida em lembranças leves. Aguarda. Feriado que se aproxima, remota esperança de vinda. Pouco sabiam se havia engordado, que estivesse linda, casada ou desimpedida. O tempo não passa, para alguns seria, e também não perdoa para quem expia. Anseia. Nas vezes que por aqui passara se dizia estranha, íntima deslocada. Era estrangeira apátria do local que se criara. O feriado veio, a saudade mata, nem avisa, ausência calada. A quem controla, a perda, pior de quem amara. O papel consola, mas em data errada, só reforça a ausência sem hora marcada.
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