Black-out Caiu um raio na retransmissora.Tudo parecia bem, as coisas que poderia desejar estavam ao alcance, micro robusto, internet a jato, fotografia instantânea, DVD de último tipo, TV a cabo, o mundo em minhas mãos, olhos e dedos. MP3, media player, Kodak CD, ADSL, filmes inéditos, pirataria, imagens diretas de amigos distantes, os virtuais que não se viram mas fazem falta, afeição emulada. HBO, CNN, guerra ao vivo, web cam no chat, imagem que não combina, atendo quem vejo, telefone com bina, mas não vendo a quem atendo me excluo de surpresas. Tudo completo e ao alcance do botão, do mouse, do controle remoto. Quanto tempo! Quando estas coisas foram me invadindo? Foi quando ficou perigoso sair a rua com companhias de carne e osso, quando fui assaltado na saida do cinema, na saida da casa dos meus pais, na entrada do apartamento, ou quando tornou-se caro abastecer o carro para ir a praia sem motivo relevante, ai parei de regar as idas a capital e aos lugares que me faziam crescer vendo coisas e pessoas novas e inesperadas. Bem quando estava saindo de mim, entrei nessa tecnologia, de ponta. De ponta e ao ao fundo. A luz apagada, os aparelhos calados, botões sem sentido e a vida recordada. O clique é fácil mas não a substitui. Agora cai um raio na retransmissora, sei eu quando volta a energia, mas espero conservar, aqui dentro, um gerador que me deixe atento a um entusiasmo além destas telas e luzinhas. Não tenho que prescindir minha vida a carecer de antenas, nem retornar a ter medo de raios para que ela não se apague, chega! Tudo parecia bem, mas nada esta ao alcance do que é inato, progresso extemporâneo, refugio ultrapassado.
Revelação A casa estava uma confusão, bagunça, o telefone tocando, a porta batendo, vendedores, e-mail chegando com ofertas imperdíveis. o gás que no fim teimei esperar mais uns dias, sem reserva, espero a comida esfriando antes de estar pronta. O mesmo ocorreu meses antes quando resolvi adiar um pouco o pagamento da luz, no escuro absoluto, não me perdoo, mas não corrijo. A pia transborda, comida enjoada. Sapólio o que é isto? Encardida a toalha. Outra vez a campainha, as roupas jogadas, a cama por fazer desde ... nem lembro. Os gatos reclamam de fome, a chaleira cheia não chia na esperança de ser aquecida, a porta da rua, tropeço nas roupas, nos fios jogados, achei os tênis, o tapete cuidado! A porta, cara barbuda, perdi a hora do banho, a mão ensaboada o avental não a seca, maçaneta melada minha mão escorrega, a batida na porta, com pano é que abro. Ela me olha assustada, em volta percebe, me diz encantada, orgulhosa: "Fiz falta?"
Retornos e Abandonos Sei que isso é comum, e respeito decisões alheias, mas devemos fazer uma campanha para que a Bia não nos abandone, tenho medo destas saidas temporárias que as vezes duram muito mais do que o desejado. Bia fica!!!! Da mesma forma, saudamos o retorno do Fábio Machioro no Pensagens, quem conhece agradece, quem não conhece deve visitar. Como ele mesmo disse certa vez "gente boa é outra coisa". Bom retorno!
Perfumaria Agora o Perfumaria esta um pouco mais incremetnado com fotos, som e links, é um diário pessoal, propriamente dito, e assumido, é a Blog paralela com mais jeito de Blog do que o Camafunga. O sistema de comentários que foi aplicado, ainda não estava funcionando até a pouco. Tem umas fotos novas da viagem no fotolog, pode ser assim eu consiga agradar a gregos e troianos. Para quem tem preguiça de ir até lá resumo, a ida a Porto Alegre foi muito proveitosa e tranquila, conheci The Travellers e ainda assisti Elza Soares.
Papel de Fundo
O caderno começava com rascunhos incompletos, da mesma forma que termina. A idéia, falar de fatos interessantes sem idéia do que seria. Eu era muito jovem , o caderno, o desejo de expressão, as ferramentas, mas faltava algo mais do que a iniciativa. Mais de uma vez iniciava uma frase: "aquele céu cinza, de manhã permanente...". Consigo até perceber o que seria dito, mas era cedo o céu do amanhecer que chegava antes de seu sentido, da saudade e de um passado não vivido. Como experimentasse, embora ressentido, adolescente, aquele seria o papel de parede de minhas saudades, só que ali ainda as vivia, mais, aproveitava em pleno sol e luz de dia. Ali, no caderno, algo se preparava, como uma lembrança a ser germinada, e voltava, "aquele céu cinza que o dia inicia...". Hoje sim, nuvem que traz paz e a nostalgia, capricho de uma memória confusa e seletiva. De real, só uma vez que saíamos de uma festa, carnaval, de macacão, nascer do sol assistindo, o primeiro não enquadrado pela janela do meu quarto. Foi este o momento registrado, o cenário futuro de meus melhores pensamentos, hora fantasias ou grandes desejos. E tardou para que o ambiente real não mais me influenciasse. Antes uma janela bem fechada, o silêncio da madrugada ou a solidão absoluta eram passaporte obrigatório para este envolvimento. Céu permanente de amanhecer acinzentado traduzido em paz esta aqui, agora, e é dia, tem carro passando, música moderna em órbita, ruído, luz, bichos e a viagem já começa, nem anuncia e se manifesta, há menos histórias incompletas, rascunhos começam a ficar concluidos. O caderno era só o começo e cinza o pano de fundo, o amanhecer de uma narrativa que só agora esta sendo escrita.
Modificada A pedido retomei a Perfumaria, ali publico meu Livro Caixa onde contabilizo os créditos e débitos do dia-a-dia. A secção de fotos também mudou, passo a publicar somente no Fotolog. Os amigos continuam os mesmos, os gatos estão mais gordos, os filhos mais agitados e o trabalho, bem o trabalho é o que dá mais trabalho para mudar.
Amizade Nada em especial, apenas passei para saber se estavas bem. Pois é, disseram que talvez estivesse chateada, alguém te enxergou com ar preucupado, não sei, nem tenho certeza agora. Nada em especial, passei para saber como passas. Precisas de mim, algo a meu alcance, um pouco que tenha faltado? Podiamos voltar a teclar, melhor, sair juntos, um pouco de vida real. Faz tempo que não tomo uma cerveja, nem recordo se nos encontramos este ano? Acho que não, desde que me falaste dos teus pais, se não me engano. Qual era mesmo o problema? Isso faz tanto tempo! Nada de especial, só uma vontade de falar. Tem uma foto nossa no mural do escritório, mas não sei quem falou em ti por estes dias. Entendi que precisavas me ver, ou será que não querias? Quase não saio, é isso, mas também não te encontro ao acaso, e por acaso, outro dia achei um ingresso solto e perdido na gaveta, lembra a confusão que te arranjei por causa dele? Será que foi ali que me contaste dos teus pais, não, isso faz muito tempo, e não foi tão anterior a fotografia. Prometi que te procuraria, um dia, isso, foi "quem sabe um dia"! Nada de especial, só lembranças e por isso me trouxeram. O mural tem foto antiga, anterior a nossa briga, brigamos? Mas, quem teria te soprado, o ingresso? A fotografia? Não, a falta de algo especial que me aprontasse ao dia. Nada de especial, só a vontade em te ver agora.
Amigo da Onça Depois de ter herdado e perdido, precocemente, pois criança não tinha noção do que tinha nas mãos, uma coleção com mais de 100 "últimas páginas" da Revista Cruzeiro, descubro tarde o valor do acervo desprezado. Péricles de Andrade Maranhão é o criador do "Amigo da Onça" o mais popular personagem da imprensa brasileira. Foram mais de 18 anos de publicação. Chegou a ser a atração principal da revista . Personagem malicioso e irrevrente foi a "síntese sublinhada do brasileiro" , ganhando enorme popularidade principalmente na década de 50. A origem da expressão vem desta anedota conhecida na época:
O que faria você se estivesse na selva e uma onça aparecesse na sua frente? - Dava um tiro nela. - E se você não tivesse uma arma de fogo? - Tentava furá-la com o meu facão. - E se você não tivesse um facão? - Apanhava qualquer coisa, como um pedaço de pau, para me defender. - E se não tivesse um pedaço de pau por perto? - Procurava subir na árvore mais próxima. - E se não tivesse nenhuma árvore no lugar? - Saía correndo. - E se você estivesse paralisado pelo medo? Aí, o outro, já aborrecido, retruca: - Afinal, você é meu amigo, ou amigo da onça?
Péricles suicida-se na noite de 31 de dezembro de 1961, quando deixa 2 bilhetes, reclamando da solidão, fecha as portas do seu apartamento e liga o gás. Antes, o último gesto do criador do Amigo da Onça foi colocar um aviso na porta, escrito à mão: "Não risquem fósforos". O Personagem foi continuado por mais de vinte anos, primeiro desenhado por Carlos Estevão, seguido por outros inclusive Ziraldo em uma homenagem perene a Péricles.
Transmitir
O olhar maroto impediu que tivesse a reação natural. Quase elevo meus braços, pelas peças quebradas, inutilizadas, as vezes relíquias preciosas, outras novidades nem testadas. Como o rádio desmontado, a xícara que órfã jogada, o espelho que atrairia azares, a bola atravessando a sala, vidraças. Um dia só, reagi ao extremo, prateleira inteira desaba, coleção de potes que voa, miudezas, brinquedos violados, elevo mas não baixo meus braços, não vou despedaçar-me em remorsos. Então, vou a meu tempo e relembro, promessas de castigo quebradas, o fogo na toalha se espalha, botijão próximo a cozinha, fogueira que foge ao controle, a queixa que vem da vizinha. A cinta batendo na colcha o som que assusta e ensina, o irmão quase invade a vidraça, a taça que rola por cima, a chave escondida, encontrada, a briga que nunca termina, mas mais do que isso o afeto escondido em quem recrimina, os atos de quem grita, esbraveja, com os gestos que em nada combina. Entendi meu olhar de garoto, maroto, que agora reflete, abaixo meu braço por dentro, elevo minha voz que doutrina, censuro o que não acho direito, mas aquieto meu gesto por inteiro, sou eu em parte este menino, é minha esta arte, respeito.
Eu já vi Stalone apaga a luz e sai batendo em todos, um cozinheiro cai onde fervem os pratos, o homem do sushi tentar cortar suas orelhas com um enorme facão afiado, a sirene toca e todos correm ,incendio em alto mar, o som dos socos estão sem sincronia e os dentes saltam antes de serem abatidos. Stan Muro foi quem levou o murro e Alice, a loira gostosa prefere trair o bandido. "Preciso fazer uma ligação, depois ela sera sua!", cara de cafajeste do agente da cia. Escuta no furgão, voz rouca "Alice I love you!" , "I love you too Ray" entre lágrimas, a escuta bate o fone, ligação localizada. No parque , montanha russa, ou ao lado de uma enseada, fala mal ensaiada ele a vê e ela nada, as ruopas molhadas surgem secas, o pistoleiro no navio de arma mirada, é dia mas usa infravermelho, o foco esta entre os joelhos, explode o moço e a barca, voam siris e caranguejos, a marinha enfim é avisada. Um helicóptero, Trovão Azul, se aproxima, mil armas, fuzis, guilhotina, Stalone de costas atira e a ave abatida desaba. O agente de suspensório e colete, esquece que também usa uma, Alice encosta seu rosto, nos ombros largos do mocinho, confuso atira para cima, já matou mais o coitado, que o mafioso e o traficante de cocaina. A cena passa para o quarto, a voz rouca se imagina excitada, ela se arrastando baba, mas na hora não rola é nada. Celular, último tipo avisa, esta chegando outra chamada, ele veste a roupa a um só tempo, ela fica olhando arrasada. Dos seios retira um disquete, não, mídia ultrapassada, o segredo estava nas tetas e ele que chegou tão perto. Os federais esperam na porta, não sei mais que é o mocinho, espera esta cena é de outro filme, ou será que foi a cena passada? Ela enfia a mídia no micro já que o micro não usou sua mídia. Revelado quem é a vítima, lenta se forma na tela, suspense que a música aumenta, imagem que custa na máquina, espera esta figura conheço, sou eu de cara amassada, quem mandou perder tempo assistindo porcaria enlatada.
Arte de Rua Esperei até que todos saissem, disfarçado de curioso em terra estranha, aproximei-me do artista. Atento ao que fazia, mesmo tendo perdido seu público exceto a mim, não percebe ,estou tão perto. A rapidez dos gestos, o vapor da tinta, a imagem que se forma em cores sobrepostas, a máscara jogada ao chão, o risco. Dizem, que para apreciar melhor a plástica é preciso distância, mas ali, quanto mais junto maior distinção dos detalhes. Arte de rua, e eu que pouco entendo mas percebo o sentido, transportei-me a grande galeria, não, ao atelie de grande artista, a intimidade da criação, ao momento exato, único, mágico. Não sei por que, uma gravura reproduzida as dezenas, brega, comum, vulgarizado, e me enterneço na imagem como obra prima, superior, transcendente. E ai? Perdi a máscara, o vapor da tinta que suja, evito, a rapidez do gesto, afasto, mas se emociona, para mim, é o que basta.
Memória Passado o vendaval dos Quatro Ventos e do acréscimo de visitas estrangeiras, volto a publicar no meu calmo e descansado canto. Estou lendo Um antropólogo em Marte , subtítulo Sete Histórias Paradoxais, de Oliver Sacks, neurofisiologista americano, autor da história real que deu origem ao filme Tempo de Despertar com Robert de Niro e Robin Willians no papel do médico. Em um dos relatos um paciente transforma em arte sua obsessiva memória da cidade de sua infância. De alguma forma, guardada as proporções, me identifiquei com algumas observações que reproduzo aqui, com não tenho nenhum compromisso formal com este espaço ao invés de publicar somente crônicas posso tentar também entende-las, e me entender.
"A memória enquanto função da personalidade só pode ser entendida como uma capacidade de organização e reconstrução de experiências e impressões passadas a serviço das necessidades, temores e interesses presentes.(...) Assim como não há percepção impessoal, também não há uma memória impessoal."
"A memória é apenas uma condição mínima. Por meio da memória a experiência se apresenta para receber a consagração da recordação. (...) Já que a recordação é idealidade.(...) ela envolve esforço e responsabilidade, que o ato indiferente da memória não envolve. (...) Dai a recordação ser uma arte."
A primeira citação é do psicanalista Schachtel sobre as memórias da infância e a segunta esta na introdução de Estágios no caminho da vida de Kierkegaard.
Estréia
Aceitando o convite da Bia e do Tarciso passo a fazer parte, com orgulho, da equipe de colaboradores do Quatro Ventos. Desde já agradeço a acolhida e os comentários. Aqui o post de boas vindas da Bia:
Novos ventos no blog... Esta semana mais um colega de blog veio juntar-se a nós, na agradável missão de espalhar seus pensamentos ao vento. Trata-se do Marcelo Soares, do Blog do Camafunga, que sopra seus ventos lá das paragens de Pelotas,no Rio Grande do Sul, e que tão gentilmente aceitou o convite de juntar-se a nós, na Confraria dos 4 Ventos. Fica registrado o contentamento, e a alegria, por dividir um espaço tão precioso com pessoas mais preciosas ainda.
Seja bem vindo Marcelo!!
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