O inferno Astral e a espinha na testa Acordei disposto a enfrentar adversidades, pensei, engano. As notícias de blackout e caos não haviam me afetado até ligar o chuveiro.Corpo nu, água gelada, era o prenúncio do clima que me aguardava. Há alguns dias , persiana quebrada, não conseguia dormir direito pela luz que insistentemente pelo quarto se alargava. O chuveiro estragado, rompida a primeira resistência do dia, impede o balsamo reconfortante de um banho morno e meus músculos continuariam tensos pelo sono incomodado. Foram alguns os pesadelos sendo um deles mais vivido. Quando o sol clareou indiscreto minhas pupilas recobertas, era como a luz que me delatava, o rádio relógio a sirene, um filme de perseguição desenfreada. No sonho, o filme pesadelo, precisava chegar ao banco, conta estourada, e tentando permanecer limpo posterguei meu despertar à fuga quase perdendo a hora do trabalho. Sujo, permaneci sem banho, mas, pelo menos, faria a barba.Imagem que o espelho retratara, no meio da testa uma mácula infectada. Imaginei-me fétido, mal dormido, sujo e aquele sinal resumindo tudo. Humor irritado nos músculos contraídos contrariados, duros. Lombalgia e um dia inteiro de trabalho, duro. O Banco, as contas, as costas, dividas, duro. O abscesso imaturo, duro. Amoleço, chega! Não podia ficar contemplando uma pereba braba, barba , lâmina desajeitada marca talho raso na cara. Sangue pinga distante da porcaria, antes tivesse a decepado em cura. Corro , papel higiênico na face, é tarde acho que perdi o transporte operário. Minha auto estima afunda pútrida e escorre como o sangue que com o papel desliza. Vermelho, palhaço. Paro. Bati a porta e esqueci as chaves . Penso, não chega a ser uma novidade. Na rua não há espelhos só a imagem que por mim é fraca. Retorno, sento a calçada, perdi o chuveiro , a resistência eu troco. Pústula, que fique em casa e durma. Sonho que volte a tempo de evitar a caça, o banco a tempo de fazer o depósito . Crédito, ainda é o que mais falta, com tempo, a espinha seca e apaga.
Notícias do Submundo André foi algemado, surrado em praça pública. Menino de rua de rosto bonito, desde Alvorada onde a mãe abandonando-o chorava sem arrependimento. Soube por um padre que o havia ajudado assim como os primeiros que tentaram adota-lo, pelo rosto bonito um pouco judiado, novamente sem arrependimentos algumas vezes abandonado. Crescido o suficiente, mudou-se para esta cidade, do albergue para a praça onde o vi sendo espancado. O rosto marcado, mais ainda judiado, ajudou nos programas para damas ou senhores, favores trocados. Um teto de instantes, prazer até ser largado. Começou com pequenos furtos, as mesmas damas, os senhores a troca dos trocados, sem arrependimentos, ja estava calejado . O conheci em trabalho social, droga, irrecuperável. Mas falava de família tudo muito fantasiado, que uma mãe o aguardaria, que um pai seria encontrado, só o haviam dado um tempo para que a vida lhe ensinasse. Agora, adulterado, rosto bandido, parte rasgado, encontro André sendo algemado, surrado em praça pública, onde fora sua morada. Entro dentro do abandono por não ter o que ser feito é uma crõnica de outro mundo do qual não estou afeito. Mas, não perco meu afeto e meu arrependimento de ter entendido quanto a tempo que este fim estava perto.
Roubados
Tem que ter culhão!: "'Quando as rodas do trem começam o seu giro lento, quando eu escuto este clan-clan que começa estalando devagar, quando sinto que o eixo vai se espreguiçando sobre o dormente, os trilhos vem vindo e vão se indo cada vez mais rápido, a poeira começa a querer entrar na boca, o vento varrendo os olhos, meu cabelos se bagunçam mais e meu sorriso matinal vem dar o ar da graça, é nessa hora que começo a me sentir vivo denovo.' "
Corsario: "Se a memória dos sentimentos fosse tão tenaz quanto a memória intelectual, a persistente lembrança das nossas dores tornaria a vida insuportável."
Bienal da Dúvida O tema da Bienal do Mercosul deste ano, ou subtítulo, é: "Arte não responde. Pergunta.". Pode ser, pode ser que eu tenha perdido um pouco da sensibilidade àqueles grandes espaços, às instalações, vídeos, fotos grotescas, como de homens atropelados, mulheres quase decepadas. Sinceramente, pode ser que tenha ficado "porta" e devesse eu estar ali plantado sobre uns grãos de arroz e feijão simbolizando a burrice brasileira, como tentara explicar uma moderadora da exposição. De qualquer forma, como faço sempre, reclamo mas volto para receber as perguntas cada vez mais sem respostas. Prefiro a escrita, o desenho ou o grafite de rua onde não preciso de moderadores e se não entender, azar de quem não soube se expressar direito. Algo mais no Perfumaria.
Releitura A sutileza de intercalar ausênca e presença nos dois ultimos posts, o surgimento mais esporádico de algo novo a ser dito, mas mais do que isso, como se houvesse preparando algo revolucionário, nada claro ou definido, perturba uma audiencia cética ao retorno. Perdido? Não estarei como crisálida a gerar outro ser dentro da mesma espécie? Ou quebrada as rotinas revolucionar a aparencia apenas por trocar de estilo? Não sei, nem percebo! Intercalando sentimentos fora do mundo da fantasia clareio o que deve ser lido mais do que ser escrito, e parto a um encontro comigo que espero que traga uma volta mais definitiva.
Presente Acordei ja percebendo, não era mais a mesma coisa Acreditando num desejo, mesmo que não configurado, surgia como num impeto, devia ser realizado.
Motivada a mudança, um sinal a ser marcado, como um elo, uma aliança o sentido assinalado. Um broche ou brasão por vencer o esquecimento uma caneta mais preciosa que registre o momento Mas foi um anel, como na música, que traçou o que seria O que era escondido acordava aquele dia Mais certeza no futuro, esperança Quem diria!
Normalmente minha ausência quando mais prolongada, prenuncia uma mudança que não fora programada e ao invés da procura de uma desculpa esfarrapada, vou aos poetas para dizer que desta vez não fora nada.
O enterrado vivo É sempre no passado aquele orgasmo, é sempre no presente aquele duplo, é sempre no futuro aquele pânico.
É sempre no meu peito aquela garra. É sempre no meu tédio aquele aceno. É sempre no meu sono aquela guerra.
É sempre no meu trato o amplo distrato. Sempre na minha firma a antiga fúria. Sempre no mesmo engano outro retrato.
É sempre nos meus pulos o limite. É sempre nos meus lábios a estampilha. É sempre no meu não aquele trauma.
Sempre no meu amor a noite rompe. Sempre dentro de mim meu inimigo. E sempre no meu sempre a mesma ausência.
Carlos Drummond de Andrade
Amigo Veríssimo, vero que foste franco, mas o post anterior tinha endereço certo e pelo jeito foi recebido. Não faço isso, reescrever os fatos, mas sentindo autorizado agora, refaço o texto menos fantasiado. Quem sabe assim entendas , não que seja necessário.
Ali me declarei a Lorena, não uma mas várias vezes. Foi num banco de praça, tardinha quase noite, quando isso era possível. Ela morava na frente, cuidavamos a janela onde vez por outra do alto seu pai nos observava. Escondíamos pelas copas das árvores que altas davam sombra também na sala e no quarto. Boa época , hoje os michês e as prostitutas ocupam nosso espaço e foi o que vi lá da fresta. Tomei coragem em procura-la, pensei que mesmo tarde ainda havia tempo para ser escutado. Fora menino entusiasmado, pensei ser correspondido, nada. Deu-se um tempo, seria muito. Mudava de assunto, como agora o da chuva que se anunciara. Palavras perdidas na sutileza dos gestos não correspondidos. A janela aberta trouxe saudades mas junto a percepção da negativa, as nuvens eram reais como os fatos presos no passado. Lorena não me escutava, não seria hora embora esperasse.
Lorena nunca existiu, nem a janela ou o pai dela, só a praça e a sombra das árvores onde abrigado surgiu esta idéia. Mas vale a história que justifique o imaginado, mais vale o sentido mesmo que não explicado.
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