As Sem-Razões do Amor
Eu te amo porque te amo, Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor
Carlos Drummond de Andrade
Mordido A verdade é que há alguns dias não como direito. Isso acontecia antes, quando os desencantos eram maiores do que o apetite e os palpites intragáveis interfiriam no desejo do desejum. Cheguei a emagrecer mais de 20 quilos, havia sobra. Depois as decepções tornaram-se rotineiras e percebi que não valia viver a mingua. Alguns amigos obcecados, desejavam fechar também a boca a tristeza, já eu, não aproveitava a inapetência para manter a forma e da mesma maneira que emagrecia, passada a melancolina, ocupava novamente minhas calças. Por isso nunca me desfiz delas, números variados e extremos, exagerados, quase um outro ao ventre se ausentava mas voltava. Desta vez o impacto é outro, não me tenho por tão triste, e depressão não esta plantada, mas o desejo, o pecado e a gula se afastaram. Cheguei no restaurante junto com a notícia. Fútil, fiz o pedido sem a menor vontade, lembrei dela, da que estampava na manchete do jornal o mesmo sorriso impudente. Será que estava perto? Maria Margareth, ou algo parecido. O prato fosse "Calamares com arroz de ervilhas" ou um "Comercial do Beto", estariam condenados. Intragável, pela falta ou pelo excesso, tentei esquece-la, pouco tinha sido pelo que estava representada. Pedi "Peixe cozido com batatas e couve flor", o primeiro rico em fosfóro talvez riscasse estes pensamentos que queimavam em minha cabeça, já as batatas por vulgares interessante seria morde-las, mesmo duras, na revanche, e a couve, flor alimentícia um afeto prático mas insuficiente, dei-lhe outras que não funcionaram. Escolhido virei a página, os dentes protusos não percebia à época, a beleza também passava longe. Enfadonho deixei metade do pedido ao prato, estava mesmo inapetente. A verdade é que há alguns dias já não como direito, não comia antes mas mesmo assim engordava, o peso peredido era o malogro disfarçado em depressão. Não como mas vou me desfazer das calças largas chega de vai e vem de celulite e humor instável, quero a mordida prazeirosa e descomplicada de culpas. Há muito que ando sem fome, mas desta vez vou me guardar de outros dentes.
Crise Antes tomei um Valium. Eram tantos os boletos que emboletado resolvi jogá-los para o alto. Não importa onde caíssem, não seriam contemplados, meus credores que esperassem era um só um ato, insensato. Calculadora já não soma se abstrai em algarismos, insistente traço deitado obstrui meus resultados. Saldo não salva, tento pensar positivo. Primeiro recorro aos básicos, água, luz e telefone, cena grotesca me vejo a rastejar em breu profunda, o caminho por sebo marcado em busca de um pouco de água, estarei incomunicável, cadê meu celular, socorro! Sem créditos e fora da linha, bem melhor pagar estas contas. Insisto na TV assinada, dela não consigo dar cabo, perco filme, noticiário o esporte do momento, nem reflito a tela muda não posso fugir do tormento da programação inapropriada. Geladeira esvaziada, leite-coca e quase nada. Não adianta sou viciado em cafeína engarrafada, compro fardos, que falte alfaces, não me farto de outros gazes. Tem também a empregada, como um tanto do salário. Vou passar a fazer a cama, preparar os enlatados, varrer tudo por semana, lavar roupa, limpar o vaso, mas não sei passar direito, passo mal a ensopado, minha roupa amarrotada e o tempero exagerado. Isso é herança de apartado, quem mandou não casar direito, além da pensão que me mingua estou a essa todo amarrado.Que fique a serviçal, que sem ela passo mal.. Ai meu Deus o que é que eu faço, de onde extraio mais um resto. Falta ainda a prestação do carro, poucas compras do comércio, meus sapatos estavam velhos, minhas calças desbotadas. Socorro, cadê o dinheiro? Sinto-me desamparado! Esquecer o carnê do auto até onde for possível, depois se falta combustível abasteço aos pouquinhos. O micro com ADSL, me mantém conectado, meus filhos vivem de pesquisa, tenho que estar atualizado. A pensão irredutível como a ex, interessada, não entende minhas dívidas, estas contas em salada. Aluguel desajustado, vizinhança tão seleta, um tem carro importado, outro nem para bicicleta. É a crise quem diria, estou preocupado. Emboleto-me em boletos, e aviso aos interessados , devo, não nego, pagarei aos poucos sempre, enquanto não for cobrado, do contrário me afundo, e depois já soterrado, ninguém mais recebe nada e eu me declaro aliviado.
Inapetência Bolinho de batata com carne moída , amolecido, água mineral sem gás de marca exótica, lembrança da última viagem, mas ainda água, um patinho opaco de tampa frouxa de tanto ir e vir da geladeira, por dentro improvisada marmita forrada por papel higiênico mal cortado, encharcado em óleo fazendo as vezes de filtro absorvente. Eis meu almoço! Pobre, tanto estudo para atravessar o meio-dia só e mal alimentado. Quem diria! Há, absorvente, lembrei que devia ter deixado dinheiro na escrivaninha, Clarisse, naqueles dias, ficará magoada e úmida. Também, não tinha troco, sequer valor inteiro. Vou me preparar para a janta, mais bolinho em represália, frito encharcado embalado em papel que não enxuga. Aqui o movimento é pequeno mas basta abrir o vasilhame para que me gritem: "Tem gente esperando no balcão.". Daí o meio bolinho ou um quarto, volta para o ninho espalhando flocos de carne fria e mal temperada. Tenha apetite para desejar tais iguarias, iguais aos sonhos de almoços de negócios em restaurantes finos, empresário! Emprestei minha vida a escriturário afinando o vinho em vinagre que uso para manter menos cor de ferrugem minha alface, hoje não veio. São quase treze horas e não par de pingar gente. Será que não comem, ou estariam também evitando rituais nojentos como de feijão boiando em nata? Pobres! E eu que estudei tanto estou aqui catando carne miúda espalhada com dedos sujos engordurados.Droga, mais um, e diz que é urgente. Limpo a mão no uniforme limpo, agora sim Clarisse me mata, agora sim bolinho de batata, fria marmita engordurada.
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