Blog do Camafunga


 

Depois de mais de quatro anos de postagens esta Blog passa a ser compartilhada, duas almas tão distintas com visões tão diferenciadas, irão dividir, além do corpo, o mesmo espaço para expressão de idéias e observações do cotidiano, seja o que Deus quiser!

 
  Crônicas do Camafunga

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Quinta-feira, Junho 24

Almoço
Não é hora para explicações mais detalhadas, em breve vou ouvir o barulho das chaves e ai não terei mais tempo. A ferragem esta fechada, no lugar abriu uma casa de tecidos, eu desejava muito aquele jogo de panelas, mas onde encontrar panelas daquele jeito se já não há mais aquele tipo de ferragem. O almoço devia estar pronto, mas fiquei aqui pensando bobagem, em breve vou ouvir o barulho das chaves e nem a mesa extendi para ao menos fingir que estava ocupado. Tinha prazer em andar naqueles corredores, minha tia era viva e eu parente da proprietária, eles também mudarm de ramo assim como a loja que atravessava a rua e agora é um pouco mais do que uma portinhola. Se tivesse aquelas panelas de ferro talvez o almoço estivesse pronto ou adiantado, teria prazer em faze-lo, ou seria só enquanto novidade? Foram vender discos meus primos, loja cheia de vinil, nacionais e importados, raros e populares. Já gostava de música, alí fiquei fascinado, passava horas a descobrir autores, temas, estilos e histórias. Catálogos demoravam meses a serem renovados e ali nem pensava em panelas, nem em horários, era conversa e convívio, o tempo passava nas trilhas que apreendia.

Já são quase meio-dia, ouço passos no corredor, mas não as chaves, a mesa , o fogo apagado as panelas que estão limpas, bem, não sou de ferro. A música é daquele tempo, isso que me perturba, a casa de discos também fechou, banalizou-se o acesso, os títulos, as referências, o tempo que podia jogar fora, o catálogo que agora é imediato. Os passos embalam as chaves, a porta, é hora, não tenho almoço, panela, ferragem e discos, primos e amigos estão longe no pensamento, não tenho desculpas, não é hora para explicações, a porta abre, as chaves, é tarde.

Terça-feira, Junho 22

Considerando
Esta época é interessante, entrada de inverno aqui no sul, apesar do inevitável frio e umidades característicos, o final de tarde é muito bonito, inspirador, até diria. Me reporta com saudade em assistir para o oeste as margens do Guaiba, mas como não tenho tido esta chance então olho para o lado, nada tão completo, mas há um colorido avermelhado, raro em outras partes, presente em minha janela. Tem uma imagem aqui, tirada ontem com minha maquina digital, simples e sem retoques.
Sobre o post anterior recebi o comentário da Claudinha, minha irmã arquiteta em Florianópolis, também encontrou-se com o bojo do centro da sala através da crõnica do Piazzola, dentei explicar, era só uma imagem, confesso que não achava bonito, mas agora que ela deu nome e griffe ao objeto, talvez eu devesse valorizar mais, mas, como o resto, é passado e o que fica é a lembrança daquela bola enorme sobre nossas cabeças, ameaçando cair ou ser batida, como a vez em que meu pai comemorando um gol engasgado fez voar o globo num estrondo despertando minha avó parkinsoniana de mãos tremulas, mais tremulas pelo susto que a deixou dispneica e arfante. Teve que ser socorrida, senão morria. Não houvesse o bojo, não fosse ele tão grande, meu pai tão fanático, talvez não tivesse ficado esta história. Vintage, vintage eram estes fatos além dos móveis, era também o colorido do fim de tarde daqueles invernos lá longe, lindos mas que não puderam ser fotografados, sem maquina digital, sem retoque, fica agora a janela aqui do lado e o recado da maninha.

Sexta-feira, Junho 18

Tango

A TV ligada no meio da sala, aquele bojo de acrílico semi-transparente, o frio fazendo clima para o tango de Piazzola, eu ali agachado descobrindo uma cultura muito próxima mas incompleta, filmes de retalhos. O acordeon agride marcando o tempo, griffe, momento próprio e eternidade. O amigo do meu pai também era músico, ou acreditava ser, o vizinho à porta para que o ouvissem se fingia portenho, a sala, reduto de intimidade, o bojo de gosto duvidoso irradiava só penumbra, um contrabaixo insinuava alguém que estivesse se aproximando. Batidas, Seu Zé, falso argentino, é morto, a TV encantava a imagem com chuvisca mas prendia pela presença forte do artista. Alguém já dormia, eu, menino insone, perdido, surpreendia pelo absorto, prenunciava amores encobertos cadenciados por melancólica melodia, identidade, drama ou poesia. Falta algum sinal de infância, a revista de quadrinhos, o tapete que acalora mas abafa, o vinil cheio de estática, elétrico e estático, era a música a embalar o pêndulo do relógio em oito que meu pai nunca deixa que se atrase. Oito membros desta orquestra em sintonia, o frio aumenta da lareira apagada, a TV resgata o centro da sala, saliência arredondada, acordeon machuca o pensamento, tento, tango, atento a uma cultura inacabada, descoberta sombria e antecipada.

Segunda-feira, Junho 7

Inocência
Foi sugerido que se soubesse tudo a respeito, as formas para investigação esgotadas, os indicios analisados, os termos e os meios testados. Tudo levava a crer, era eu o culpado. Sentença, a espera fui convencido da veracidade e relevância dos fatos, de alma algemada vivi no literal aguardo. Pequenas penas acumuladas, cúmulo por serem merecidas ainda que vistas como leves, impediram que apelasse a revisão em tempo que julgasse hábil. A determinação final, ficava acima de togados ou jurados. Ir e vir, silêncio e palavra, situações limitofres incondicionalmente acatadas. Um dia, resolvo ser condecendente e arrisco um breve exame , não importa o resultado, expus a alma a novo parecer, e, mesmo grave, sucumbi ao peso que associado parecia imenso. Sentenciado, adiantei-me ao novo agravo, afinal julguei também saber tudo a respeito, os termos, os meios, os fatos, menos os motivos, chave que faltara. Arrumei um intercessor acima de qualquer suspeita para que eu não me traisse, sem vestes ou tribunal montado, somete a palavra a substituir o silêncio. Aliviado, expandi os atos, saí do réu a me permitir mais humano, falho. Revertida a proposição, liberada a alma, esqueço a sugestão de culpa, livre, no ir e vir deliberado, encontro o intuito, a vida.

Quarta-feira, Junho 2

Consistências e inconstâncias
Nem sempre tudo foi tão claro. Não quis abrir meu holerite com medo de surpresa, a mesma em conferir notas no ginásio, ou o saldo de banco, ai que não estejam descontados cheques que passeiam atulhados pela praça. Nem tudo é tão simples como aquecer o leite no microondas acertando a temperatura, na leiteira vira, chocolate fica em grumos, e o bolo, que não tem nada a ver com isso, desanda. Nem tudo é tão direto quanto ouvir a mensagem que o cartão esta atrasado, ou um "não" impessoal por telefone, covardia. Nada tão prático quanto não ter tesouras para as embalagens que não cedem aos dentes, ou evadir da garagem onde existem mais colunas do que habilidades ao motorista. Nada é tão leve do que um dia idêntico ao outro onde as caras refletem as mesmas queixas e angústias, os tiques de rosto em expressões decoradas e desagradáveis. Nem sempre tudo é tão claro, simples e objetivo quanto agora, tesouras cegas, notas frágeis, extratos simplificados, leite derramado, cobranças e negativas, grumos, bolo abatumado

 

 

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