Pai Há alguns meses talvez, ou até ano, soube que meu pai estava escrevendo algumas crônicas. Com a reserva que lhe é característica, o pouco que pude entender é que se tratava de algo relacionado a sua cidade natal. Um crime, algumas pequenas viagens à busca de documentos e um contato um pouco maior com o irmão jornalista, que acabou falecendo, eram os poucos elementos que me interessaram saber, minto, possível saber, ao ir além desta reserva mútua que a nós é característica. No mesmo período, estimulado por alguns amigos, também passei a juntar textos, sem muita regra é verdade, mas já com a intenção de também publicá-los, quem sabe. A história de um assassinato, a rigidez de um coronel do interior gaúcho misturavam-se aos julgamentos prévios que vinham em contra-ponto as sentidas crônicas que me caracterizam. "Amplexos" e "Tribunal", projetos paralelos, até que o dele, mais regrado, deu-se por concluído, pronto. Era então hora de apresentá-lo, a mesma relutância em desejar mostrar-se e de não querer ser visto, isso é nosso, dificultava. Um pouco de ciúmes ao saber que meu irmão lera antes, um tanto de curiosidade crítica em fortalecer idéias pré-estabelecidas acabei cedendo a ambos, preparei-me então para ler tal história, estranha. Não tenho como expressar o submergir de cada linha, sem parar em um só tempo a viajar em sua infância. Repleta de referências conhecidas em nomes e locais que, de passagem, alguma vez me haviam sido apresentados, outras inesperadas, mas entendidas, visualizadas na essência do que queria ser dito. Mais que o crime, ou a rigidez crua do coronel associada, um caminho para um sentimento nostálgico, afetivo e profundo, descobri meu pai como criança, um guri matreiro, sensível ao mesmo tempo frágil e determinado, e sem vergonha, transposta aqui qualquer dificuldade, emocionei-me verdadeiramente na descoberta, enquanto há tempo, de enxergá-lo humano.
SMS Sabia que não iria durar muito, fora assim das outras vezes, mas a novidade fazia o peito estourar, e então explodiriam vontades esquecidas. A mensagem dizia, "estou nas nuvens", responderia com algo menos sólido ainda. Sentado no jardim, exposição, carros entrando e saindo, olhares que se atropelam, e alguem lá dentro a disfarçar seu sumiço. Não era mais um amor adolescente, mas os sonhos eram os mesmos, intensos extrapolados. A grama úmida deixou a marca da incoerência na calça de trabalho, notariam, ele não. A mensagem repetida, as nuvens esparsas não se juntam, com isso o sol não se ofusca, cega. Queria chegar em casa, sair a rua, falar, conhecer, descobrir, mas não pensar, voltar a sair, declarar-se e ser correspondido. O tempo é curto em horas para um dia só, o trabalho é prisão até o novo encontro, até parar de tremer os dedos para responder o recado profundo. "Estou nas nuvens".
O Navegante (Sidney Miller)
Quero um montão de tábuas e um motor de pano Pra passear meu corpo e adormecer meu sono Na esburacada estrada do oceano
Aportarei meu barco apenas de ano em ano E onde houver silêncio eu ficarei cantando Pra não deixar morrer o gesto humano
Entenderei as águas e os peixes passando E se me perguntarem pra onde vou e quando Responderei, apenas navegando, apenas navegando
Embarcarei comigo feminino encanto Pra que não falte a vida quando for preciso Uma razão mais forte que o espanto, mais forte que o espanto
Semearei meu sangue, meu amor, meu rosto Pra que depois de mim eu possa estar presente Entre as canções que eu não houver composto
Naufragarei um dia em pleno mar sem dono E submerso em lendas como como um visitante Entre os recifes dormirei meu sono
Momento Queria chamar atenção a si, havia perdido a esperança da descoberta de algum talento novo ou um dote oculto, se tivesse estaria mesmo muito escondido. Os irmãos eram músicos ou escritores, outro um conquistador de espaços, ele não, mal conseguia expressar-se em suas necessidades mais básicas, fome, sede e cansaço. E eram dias a uma obsrvação inútil como os papéis rasgados dentro da cesta a procura de uma forma de dizer o que desejava. Do encontro, além dos olhares que se aproximavam, a certeza de ser superado, por isso, as horas a frente de folhas em branco dirigindo sentimentos que não se orientavam. Igual em outras vezes, até que que desista, até que apareça, mais uma vez, um sinal, um desejo e cobrança. Queria poder ajuda-lo, é mais fácil divagar e conduzir o pensamento alheio, queria tentar antes que desista e perca a chance do olhar que se aproxima, como o tempo, que não se importa em ser notado e parte.
Nuvem O que vejo aqui ao lado é o mesmo clima dos últimos dias, céu nublado e muita umidade no ar. Tem uma lenda que esta cidade é a mais úmida do mundo, minto, perderia para Londres, mais um afetamento bairrista desta provincia que vive de mitos, melhor se tiverem um tom europeu, vitoriano, mas o que se vê pelas ruas é mais cara de Idade Média e pobreza. Em trapos mendigos e meninos estendem a mão por moedas, mas serve um lanche ou um cigarro, a esta altura moilhados pelo "fog" que cobre a visão e não permite que se tenha um horizonte mais interessante. Do mesmo modo o frio é mais desagradável ou o calor, que cozinha a vapor mesmo na sombra. É neste misto de geladeira de borracha mole e sauna úmida com a porta lacrada que vamos levando a vida. Por isso olho pela janela e não vejo nada a não ser nuvens, estou dentro delas, tem sido assim sempre, como nos últimos dias..
Multiply Depis da onda do Orkut recebi o convite para o Multiply, a proposta é semelhante com rede de amigos, etc, mas ao mesmo tempo traz algo mais completo para quem quer se expor na net, tem direto a fotos, um noticiário próprio, eventos, agenda pública etc. Quem quiser conferir Multiply.
Careca´s Blues A grama estava alta sem corte como os pelos que sobraram naquela cabeça espaçada de idéias e cuidados. Houve época que um bom blues serviria de trilha para embalar os desgostos semeados, criados ou fertilizados como os poucos fios de cabelo que restavam. "Trouble in mind" e um licor adocicado, a janela a imitar o sul americano, mesmo sendo aqui a américa do sul. Cultura emprestada onde o pasto cresce sem ajuda e nada espanta os pássaros, cotovias e sabiás no revés de corvos e abutres, que mesmo entonados valem menos que a tristeza roteirizada que anula a percepção do efetivo enredo. "Nobody knows you when you´re down and out" e o dia passa rapidinho e a noite atravessa um bom banho ou uma roupa ajeitada, um passeio além da paisagem emprestada, tomada de uma canção de trabalho, triste, melancólica. No espelho encardido, fim de dia, ferrugem mancha a face alva e as bochechas rubras, fotos antigas tem mais vigor e verdade, alisa fios de trama insuficiente para um cerzido que disfarce. Brecha calva no calvário do pensamento e tristeza desnecessária, só a grama cresce sem cuidado.
Romance de Aluguel Hoje acordei com espírito de noite e boemia, mais para Reginaldo Rossi do que pra Chico Buarque, o despertador tocou "Você não me ensinou a te esquecer" na versão Bruno e Marrone, pior, assimilei o conteúdo e segui o dia repetindo "...agora que faço eu da vida sem você...". Pena ontem ter ficado em casa vendo seriado europeu na TV a Cabo ao invés de ter partido para o Bar da Bete enchido a cara, me sufocado no cigarro alheio, debulhado em lágrimas secas uma profunda dor de corno, mas não, há tempos não sinto nada disso, que não vivo a melancolia passageira e romântica que releio nestas letras bregas. Sem graça esta vida organizada e analisada, purificada, quero chorar um pouco. Meu radinho não pega mais Nelson Gonçalves, lamentável!
Oco A vontade era dizer que estava com dor de barriga, e que minha mãe me esperava em casa, abrigo. Que mãe nem casa, nem possibilidade de fuga tive, precisei preparar o ânimo para escutar suas sabatinas. Matemática, acusou-me de erro nos cálculos, o produto era apenas o resto de uma operação incompleta cuja raiz estava no infinito, imensa, imensurável. Português, não havia chance para o subjuntivo da dúvida, nem para flexão dos verbos irregulares só o imperativo e alguns adjetivos inapropriados, como posse, dor e acomodado, ou seria possuído, doído e incomodado. E não ouvia a sineta, sem permissão devida, mudei de matéria, história, que se repete mas não consegue ser aprendida, geografia, da instabilidade de climas ao passeio por terras áridas, dos povos que não se entendem, quase animais, mas isso é biologia, seres em simbiose, comensais, recreio. Era a trégua que esperava, mas, por pouco tempo, muito pouco, então, antes do retorno, volto a induzir a dor do estômago ou seriam realmente gazes, saturno, e seus anéis de gazes, cólon, grosso, cheio de gazes, explodo! Misturei temas e nem fui argüido, só testado no limite de uma dor de barriga. Mãe, me chama para casa!
Contesto Foi necessário quatro ou cinco dias para que a resposta viesse a altura. Primeiro a tempestade, em clima de melancolia desviou o sentido para carros embaçados e guarda-chuvas negros pelo alto abareirrados. Bonitas moças em gabardines longas, as lojas semi-abertas de final de tarde a compor clima europeu apesar do calor dos trópicos. Tropeço do dilúvio para o enxuto do orçamento, contas que afastam ainda mais o pensamento, notas atrasadas, promissórias e promessas de não fazer isso novamente, de evitar erros e enfrentar de vez a história. E a resposta? Chegam os filhos para acalmar o destino, a fuga é um indício não verdade. Réplica que espera, a envelhecer rapidamente perde o sentido cada momento. Por fim, passado os dias, amadurece em imagens, calmas as vezes abaladas, a antever outro confronto, atitudes montadas nestas cenas, cinematograficas e eloquentes, há quatro dias convincentes, mas não hoje. Chuva, moças, portas fechadas, fachadas de contas altas e atrasadas como a resposta ensaiada e elaborada para que ficasse a altura mas que não diz mais nada.
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