Julio era tão diferente mas acabou casando com a filha do Arnaldo. Tímida, ficava cuidando a todos só pelos espaços permitidos da janela, era suficiente, mas o que faltava em campo visual, sobrava em novidades por morar em frente a praça, e do campo, onde jogávamos futebol sempre, menos , pois não lembro ter corrido tanto assim atrás de uma bola, mas de brincar de polícia e bexiguinha foragido entre as colunas largas da caixa d'agua, isso era freqüente. Éramos muitos, o Fábio, o Arthur, Cássio, Nelson, Fernando, Marcelo, Landi, Eduardo, e o filho do médico rico que um dia acabou comprando nosso estádio grudando um muro alto ao terreno onde ficávamos falando das gurias, fim de jogo. Dos amigos ele era o mais adiantado e cedo arrastava as asas para a filha do bancário, aquela que mesmo escondida, era percebida entre as frestas largas da janela. Misteriosa. Poucas se chegavam, só as mais metidas é que jogavam conosco, naquele tempo era estranho dividir pelada com meninas, Luiza, mas essa tinha jeito de homem e até cuspia no chão, Ana Paula que nunca esteve nem ali para nada, Mauro e Junior tinham respeito por elas, medo, tanto quanto pelo Boris, o cachorro desequilibrado e sem dono solto pelo terreno e que apesar de pequeno, adorava grudar em nossas canelas. Mas foi Julio que chegou de longe, nunca foi da vizinhança, pobre, o pai fazia doces na padaria da quadra, o dono, um homem de sobrancelhas grossas e cara fechada, era duro, roubava no troco e odiava atender criança, mas não ele, que escondido, nos oferecia bombas, bolachas e sonhos roubados. Julio era bom de bola e de estilo, simples. Arnaldo, cheio de manias, além de proteger sua filha, falava sozinho com seus automóveis: "Estas bem minha Belina?", "Ficaste limpa, linda Brasília!", e assim, de flanela e balde, prenunciava, "nada faltará a Nádia", não vai me dar trabalho, nem passar, nem costurar, nem perder seu tempo além de ser cuidada, mimo, então falava alto para seus carros e nós os caros meninos pretensos pretendentes para que todos ouvissem, vazio fugia as janelas olhando só para o imaginário sempre a repetir os desígnios elaborados. Nadia listrada em frestas marcava o campo onde não estava, talvez também envergonhada já que em traços cortejada, desmonta seu destino além da permissão proclamada, nem janelas nem muros altos, mas vence a simplicidade. Júlio era tão diferente mas acabou casando com a filha de Arnaldo.
Sábado, Outubro 23
Historieta
Julio era tão diferente mas acabou casando com a filha do Arnaldo. Tímida, ficava cuidando a todos só pelos espaços permitidos da janela, era suficiente, mas o que faltava em campo visual, sobrava em novidades por morar em frente a praça, e do campo, onde jogávamos futebol sempre, menos , pois não lembro ter corrido tanto assim atrás de uma bola, mas de brincar de polícia e bexiguinha foragido entre as colunas largas da caixa d'agua, isso era freqüente. Éramos muitos, o Fábio, o Arthur, Cássio, Nelson, Fernando, Marcelo, Landi, Eduardo, e o filho do médico rico que um dia acabou comprando nosso estádio grudando um muro alto ao terreno onde ficávamos falando das gurias, fim de jogo. Dos amigos ele era o mais adiantado e cedo arrastava as asas para a filha do bancário, aquela que mesmo escondida, era percebida entre as frestas largas da janela. Misteriosa. Poucas se chegavam, só as mais metidas é que jogavam conosco, naquele tempo era estranho dividir pelada com meninas, Luiza, mas essa tinha jeito de homem e até cuspia no chão, Ana Paula que nunca esteve nem ali para nada, Mauro e Junior tinham respeito por elas, medo, tanto quanto pelo Boris, o cachorro desequilibrado e sem dono solto pelo terreno e que apesar de pequeno, adorava grudar em nossas canelas. Mas foi Julio que chegou de longe, nunca foi da vizinhança, pobre, o pai fazia doces na padaria da quadra, o dono, um homem de sobrancelhas grossas e cara fechada, era duro, roubava no troco e odiava atender criança, mas não ele, que escondido, nos oferecia bombas, bolachas e sonhos roubados. Julio era bom de bola e de estilo, simples. Arnaldo, cheio de manias, além de proteger sua filha, falava sozinho com seus automóveis: "Estas bem minha Belina?", "Ficaste limpa, linda Brasília!", e assim, de flanela e balde, prenunciava, "nada faltará a Nádia", não vai me dar trabalho, nem passar, nem costurar, nem perder seu tempo além de ser cuidada, mimo, então falava alto para seus carros e nós os caros meninos pretensos pretendentes para que todos ouvissem, vazio fugia as janelas olhando só para o imaginário sempre a repetir os desígnios elaborados. Nadia listrada em frestas marcava o campo onde não estava, talvez também envergonhada já que em traços cortejada, desmonta seu destino além da permissão proclamada, nem janelas nem muros altos, mas vence a simplicidade. Júlio era tão diferente mas acabou casando com a filha de Arnaldo.
Julio era tão diferente mas acabou casando com a filha do Arnaldo. Tímida, ficava cuidando a todos só pelos espaços permitidos da janela, era suficiente, mas o que faltava em campo visual, sobrava em novidades por morar em frente a praça, e do campo, onde jogávamos futebol sempre, menos , pois não lembro ter corrido tanto assim atrás de uma bola, mas de brincar de polícia e bexiguinha foragido entre as colunas largas da caixa d'agua, isso era freqüente. Éramos muitos, o Fábio, o Arthur, Cássio, Nelson, Fernando, Marcelo, Landi, Eduardo, e o filho do médico rico que um dia acabou comprando nosso estádio grudando um muro alto ao terreno onde ficávamos falando das gurias, fim de jogo. Dos amigos ele era o mais adiantado e cedo arrastava as asas para a filha do bancário, aquela que mesmo escondida, era percebida entre as frestas largas da janela. Misteriosa. Poucas se chegavam, só as mais metidas é que jogavam conosco, naquele tempo era estranho dividir pelada com meninas, Luiza, mas essa tinha jeito de homem e até cuspia no chão, Ana Paula que nunca esteve nem ali para nada, Mauro e Junior tinham respeito por elas, medo, tanto quanto pelo Boris, o cachorro desequilibrado e sem dono solto pelo terreno e que apesar de pequeno, adorava grudar em nossas canelas. Mas foi Julio que chegou de longe, nunca foi da vizinhança, pobre, o pai fazia doces na padaria da quadra, o dono, um homem de sobrancelhas grossas e cara fechada, era duro, roubava no troco e odiava atender criança, mas não ele, que escondido, nos oferecia bombas, bolachas e sonhos roubados. Julio era bom de bola e de estilo, simples. Arnaldo, cheio de manias, além de proteger sua filha, falava sozinho com seus automóveis: "Estas bem minha Belina?", "Ficaste limpa, linda Brasília!", e assim, de flanela e balde, prenunciava, "nada faltará a Nádia", não vai me dar trabalho, nem passar, nem costurar, nem perder seu tempo além de ser cuidada, mimo, então falava alto para seus carros e nós os caros meninos pretensos pretendentes para que todos ouvissem, vazio fugia as janelas olhando só para o imaginário sempre a repetir os desígnios elaborados. Nadia listrada em frestas marcava o campo onde não estava, talvez também envergonhada já que em traços cortejada, desmonta seu destino além da permissão proclamada, nem janelas nem muros altos, mas vence a simplicidade. Júlio era tão diferente mas acabou casando com a filha de Arnaldo.
Segunda-feira, Outubro 18
Trilha
Estava ouvindo "Cry me a river" e bateu uma saudade! Não sei de que? Adolescente aprendi passos descordenados, discotecas de poucas mesas, desconforto intencional, disfarçado pelos brilhos e pelo bate-bate entremeados por passos ensaiados, dois para cá, uma voltinha, jogo de corpo, um pé de cada vez, bate-bate e então os braços elevados, paradinha, as vezes, pisos iluminados, toques estroboscópicos para corpos que dançavam só, separados. Não vivi época semelhante nem chorei desbundado sobre líquido ardente os rios do abandono, só se em outras vidas, mas os encontrei noutras vias, a do pensamento, quem sabe, da saudade do que deveria, ou gostaria, de ter sentido. Então, são estas imagens que me perseguem, como estar ali no bar enfumaçado, o som chorado da voz negra, escorregando pelos belos dentes brancos, boca vermelha disfarçada e quase caída sobre o emblemático microfone, ouço um trio sonolento em seus instrumentos, baixo, guitarra e piano, embalam com tristeza a história de um desamparo necessário, temporário até abrirem as portas e o brilho das luzes da cidade e seus pisos iluminados deixarem as histórias tristes na saudade, mas havia outra dança, ou será que não houve, a dos corpos mais colados, obumbrados pela noite a espera de outra melancolia excitada, cada vez mais elaborada para virar mais uma história a ser contada.
Estava ouvindo "Cry me a river" e bateu uma saudade! Não sei de que? Adolescente aprendi passos descordenados, discotecas de poucas mesas, desconforto intencional, disfarçado pelos brilhos e pelo bate-bate entremeados por passos ensaiados, dois para cá, uma voltinha, jogo de corpo, um pé de cada vez, bate-bate e então os braços elevados, paradinha, as vezes, pisos iluminados, toques estroboscópicos para corpos que dançavam só, separados. Não vivi época semelhante nem chorei desbundado sobre líquido ardente os rios do abandono, só se em outras vidas, mas os encontrei noutras vias, a do pensamento, quem sabe, da saudade do que deveria, ou gostaria, de ter sentido. Então, são estas imagens que me perseguem, como estar ali no bar enfumaçado, o som chorado da voz negra, escorregando pelos belos dentes brancos, boca vermelha disfarçada e quase caída sobre o emblemático microfone, ouço um trio sonolento em seus instrumentos, baixo, guitarra e piano, embalam com tristeza a história de um desamparo necessário, temporário até abrirem as portas e o brilho das luzes da cidade e seus pisos iluminados deixarem as histórias tristes na saudade, mas havia outra dança, ou será que não houve, a dos corpos mais colados, obumbrados pela noite a espera de outra melancolia excitada, cada vez mais elaborada para virar mais uma história a ser contada.
Domingo, Outubro 17
A Rua dos Cataventos
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mario Quintana
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mario Quintana
Sábado, Outubro 9
Inspiração
Enchi, as folhas soltas sobre o tampo de carvalho não combinam mais com o tema, pobre de mim, tivesse tal mesa não estaria aqui imaginando a janela aberta com um pasto europeu, flashs de filmes antigos, cenas de cavalgadas, caça a raposa, lareiras gigantescas e colunas góticas soltas num jardim muito bem cuidado. Mas cansei mesmo, vou puxar o pensamento para algo mais moderno, um sentimento pop se apropria, mas, mesmo aqui, o ar é psicodélico e a tônica são os ícones de Andy Worhol, Marilin e Coca-Cola, os passos de Tina Charles aproximam mas não apresentam nada mais recente, ressente o mofo, bolor de idéias que insistem em dirigir certas cores e sentidos que pouco ou nada vão dizer a esta gente que me lê agora, por isso as folhas brancas e o tampo de madeira, carvalho e cavalhada, pior se fosse em fórmica, depositadas num móvel funcional de cozinha, daqueles com pés metalizados, linhas pautadas esperam a esferográfica, sem graça , nenhuma vantagem em ser vintage e confirmo, ultrapassado as imagens dançam e não dizem mais nada, passei do tempo, perdido o ponto aguardo, até a próxima.
Enchi, as folhas soltas sobre o tampo de carvalho não combinam mais com o tema, pobre de mim, tivesse tal mesa não estaria aqui imaginando a janela aberta com um pasto europeu, flashs de filmes antigos, cenas de cavalgadas, caça a raposa, lareiras gigantescas e colunas góticas soltas num jardim muito bem cuidado. Mas cansei mesmo, vou puxar o pensamento para algo mais moderno, um sentimento pop se apropria, mas, mesmo aqui, o ar é psicodélico e a tônica são os ícones de Andy Worhol, Marilin e Coca-Cola, os passos de Tina Charles aproximam mas não apresentam nada mais recente, ressente o mofo, bolor de idéias que insistem em dirigir certas cores e sentidos que pouco ou nada vão dizer a esta gente que me lê agora, por isso as folhas brancas e o tampo de madeira, carvalho e cavalhada, pior se fosse em fórmica, depositadas num móvel funcional de cozinha, daqueles com pés metalizados, linhas pautadas esperam a esferográfica, sem graça , nenhuma vantagem em ser vintage e confirmo, ultrapassado as imagens dançam e não dizem mais nada, passei do tempo, perdido o ponto aguardo, até a próxima.
Terça-feira, Outubro 5
Madrugador
Sol e chuva casamento de viúva. Assim a manhã presenteou minha janela mas só por alguns momentos, e surge também, de forma mais efêmera, um arco-iris bem definido, raro de ser visto, bela imagem. Não tinha por que de acordar tão cedo, nem fui dormir com as galinhas, ou despertei por pesadelos ou ainda pelos relógios desajustados, o que não é incomum nesta casa. Lembrei, amigos jantaram aqui ontem, logo, a pia deve estar atulhada de louça, então este tempo que parece estar sobrando acabará sendo roubado para este trabalho. Puxarei as mangas para ajeitar a casa, depois saio sem hora para voltar, talvez só a noite. E não são sete horas, mas, afinal quando levantei da cama mesmo? De banho tomado, nem percebi, pode ser que tenha esquecido de dormir esta noite? O arco-iris se foi, os telhados estão secos, e poucos acreditarão que esteve chovendo, muito menos que havia um sol radiante. Louça na pia, um dia longo pela frente, sol e chuva, é casamento de viúva.
Sol e chuva casamento de viúva. Assim a manhã presenteou minha janela mas só por alguns momentos, e surge também, de forma mais efêmera, um arco-iris bem definido, raro de ser visto, bela imagem. Não tinha por que de acordar tão cedo, nem fui dormir com as galinhas, ou despertei por pesadelos ou ainda pelos relógios desajustados, o que não é incomum nesta casa. Lembrei, amigos jantaram aqui ontem, logo, a pia deve estar atulhada de louça, então este tempo que parece estar sobrando acabará sendo roubado para este trabalho. Puxarei as mangas para ajeitar a casa, depois saio sem hora para voltar, talvez só a noite. E não são sete horas, mas, afinal quando levantei da cama mesmo? De banho tomado, nem percebi, pode ser que tenha esquecido de dormir esta noite? O arco-iris se foi, os telhados estão secos, e poucos acreditarão que esteve chovendo, muito menos que havia um sol radiante. Louça na pia, um dia longo pela frente, sol e chuva, é casamento de viúva.
