Blog do Camafunga


 

Depois de mais de quatro anos de postagens esta Blog passa a ser compartilhada, duas almas tão distintas com visões tão diferenciadas, irão dividir, além do corpo, o mesmo espaço para expressão de idéias e observações do cotidiano, seja o que Deus quiser!

 
  Crônicas do Camafunga

visitas desde agosto de 2001

 

Segunda-feira, Novembro 29

Troca
Bem pessoal, tenho pensado em mudar de emprego, anda sou daqueles que vestem a camiseta por um ideal como se fosse próprio, bobagem, pelo menos nas empresas menos atentas não passamos de uma peça descartável. Antes tarde, acho melhor pegar minha engrenagem enquanto funcional e produtiva e partir para outros mecanismos, espero que ninguem tão próximo leia e interprete, afinal preciso dar aviso prévio, mas não aqui nem tão cedo.

Sexta-feira, Novembro 26

Passagem
Tanto tempo prometia uma visita que cheguei a duvidar que um dia realmente viesse, parecia má vontade aquele jeito relaxado de cuidar dos amigos, mas quem o conhecia entendia, ou então, de vez deixava de gosta-lo. Entrou como se tivesse passado por aqui ontem, sem sentido, manteve observações sobre o comprimento da samambaia e da escasses rareada dos meus cabelos, o tempo só passa deste lado, mas ainda perguntou, displicentemente, pelos filhos, interesse de herança, gélido, e deu um pouco mais do que dois ou três goles no mate sempre reclamando da pouca temperatura da água. Sem tempo para perguntar onde esteve realmente todo este intervalo, iniciava ali outro, provavelmente mais prolongado como tem sido também elástica sua ausência. Nem falei da morte da Terezinha ou sobre os vizinhos novos que, sem querer, estouraram o vaso que sinalizava a escada, um dos raros presentes deixados pelos corredores. Talvez sofresse pelos cacos, menos pela amiga que cansara de tentar comunicar suas saudades. Do nada ensaiou um abraço e um já volto, prometeu me visitar, mas continuo a duvidar que venha realmente.

Quarta-feira, Novembro 17

Abandono
Esqueci que tinha compromisso marcado, esqueci que ainda me esperavam mesmo que minha demora fosse o suficiente para deixar o recado. Deveria. Passei várias vezes por aquela entrada, mas era como se nem soubesse o endereço, como se as coisas ali vividas nem houvessem ocorrido. Era muito semelhante em fatos, mas ao mesmo tempo não seria mais eu, nem que quisesse, outro sorriso aberto ou o olhar que dizia: " te esperava tanto", ali não sou eu que aguardo e deixo que ao tempo a tentativa de transmitir esta mensagem. Que entenda.

Segunda-feira, Novembro 8

Feira do Livro
Semana passada aproveitei para visitar a Feira do Livro de Porto Alegre, ela é proclamada como a maior da América Latina, mas, como todo gaúcho é meio exagerado prefiro apenas comentar que o espaço é realmente grande, e cada vez maior nestes anos que a ando visitando. Gente, muita gente, muito chimarrão pendurado, lanches, atrações paralelas sob a área prazeirosa na Praça da Alfândega forrada por árvores e cercada por aqueles museus maravilhosos, um "baita" passeio, como dizem por aqui. Infelizmente, o que chateia é não encontrar o principal, títulos que empolguem, dezenas de bancas repetem as mesmas publicações ou os mesmos temas, e da-lhe auto-ajuda, e sobram livros religiosos, a quando vejo um título interessante, mais auto-ajuda, sem contar alguns best-selers que me nego a ler, mesmo que não sejam tão ruíns mas, Còdigo da Vinte puxando "Decifrando", "Analizando", "Quebrando", "Entendendo", "Fartando"... fica meio demais! Por falar nisso vi intelectuais defendendo teorias conspiratórias dos cavalheiros templares atravessando séculos, acho que ouvi até Bin Laden ser citado, torres gêmeas como sinal do paralelismo associado ao traço semiótico do gênio revivido, mas isso já deve ter sido previsto até por Nostradamus, e nesta salada prefiro me refugiar a outra época em que o chique era ter lido o Nome da Rosa, mesmo que poucos tenham realmente conseguido, mas, pelo menos, até as obras complementares como o pós-escrito procuravam interpretar Umberto Eco, ambos bem mais ricos e fundamentados. Melhor ainda os tempos em que Mario Quintana caminhava pelas barraquinhas, mais simples, mas de conteúdo bem mais profundo, como ele, e isso eu pude ver também, por isso esta queixa, este comentário melancólico e crítico, gostaria de ter aproveitado melhor e reter na lembrança desta mais do que o entorno, pessoas passando e comida.

Quarta-feira, Novembro 3

Tempo
Parecia um pinto molhado pelo tanto que já havia corrido sob as aguás daquela chuva inesperada, necessário pelo curto espaço entre uma tarefa e outra, o carro distante e a falta de um guarda-chuva permitiam só um instante sob a proteção da marquize daquele sobrado e dai voltar a fugir, porque não era produtivo perder mais tempo, só uma estacionada, momento, mas, pela janela lá de cima, escapava sonoro "Say a Little Prayer", acho que na voz entusiasmada de Aretha Franklin, tão gospel que esqueci o atraso e me refiz na prece, e no refrão onde "Forever and ever" pareciam manter o tempo em espera, para sempre, ou enquanto durasse a música. A chuva intensa e os compromissos perderam o sentido naquele abrigo minúsculo transformado em templo de religião nenhuma, escape a rigidez das horas, minutos e segundos que fizeram de mim um simples pinto molhado.

 

 

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