Passeio Já passei por esta esquina, não tenho bem certeza, é tudo tão diferente e distante, mas ao mesmo tempo próximo no sentido. Direta, esquerda. A tarde se arrasta, e o tempo, apesar de cosmopolita, também se particulariza nestas cidades que se revelam. Contorno, mas não retrocedo, na busca acabo me achando, espero. Mão dupla, aqui é raro, pista larga, e muitas pessoas. Pessoas que não conheço mas que parecem mais familiares que as antigas, vejo nelas o meu jeito, esperados gestos, minhas idiossincrasias, reflexos. Procuro desvios, então, cortorno e busco mais, e mais voltas. Não é tão comum estar aqui, embora fosse o que quisesse, nem morei de fato apesar de sentir-me desde sempre nato, nasci em alguma destas ruas e abriguei-me outrora, como agora, em uma destas longas e intermináveis avenidas.
Acordei como em casa, o carro, visto de cima, abandonado, era um intrumento ainda úmido pelo sereno da noite, ficou lá correndo risco, percorremos os mesmos perigos, mas acho falso qualquer receio, aqui é centro, estou no meio de todos os riscos, e realizado. As luzes da noite revelaram mais do que o sol, que mesmo atrasado, voltará e cairá novamente, mas há uma continuidade de perpetuam e que se completam, como as voltas a preparar novos prazeres, retornos e possibilidades. Voltas e mais voltas me poem dúvida se já não passei por este tempo.
Saudade Adeus! Não quis insistir, nem adiantaria, ou sera que era o esperado? Imprevisto foi que virasse as costas e, mãos nos bolsos, não impostas, desse de ombros como aliviado. E não era isso, mas percebi o clima e entrei na nova referência. Caminhar pela avenida com a grama ainda úmida, o vendedor de doces solitário a frente , o cão sujo que acompanhava desde a orla, a praia, único elemento fora da estação, tudo ajeitado, pronta a cena de um abandono roteirizado, só senti não estar com os fones, "Angel of the Morning" cairia bem, não ficasse ridículo o apetrecho, queria me enxergar por cima, o principal elemento desta paisagem, despojado, de andar cabisbaixo, arrastado pela brisa de maresia iluminado pelo tom nublado dos prédios vazios e descuidados, mesmo imaginária, melhor a música criada pelo sentido, "Angel of the Morning" , e já era a tarde, muda, que se mixe em liberdade uma "Praias Desertas" ou outra dor poetica associada. Antes, por ali, já havia tomado um "capeta", o mais forçado dos meus porres juvenis, raros, como andar embriagado por entender que outro momento era criado até virar saudade. Forçada é a melancolia alimentada para o prazer da descoberta e da memória. Adeus, e voltaras mais tarde!
Inesperado A nota dizia que haveria mudanças. Os colegas, que não costumam ler circulares, não avaliaram da sucinta frase o conteúdo radical que se escondia. A começar pelo mobiliário, que apesar de ser o mesmo, estava disposto a permitir o livre transito do sucesso e da fortuna, Feng Shui encomendado pelo diretor, via internet, a um sábio chinês que morava em Vila Madalena. Ficara confortável, apesar da bananeira gigante que inclinada do vaso dificultava a visão da única janela, ou do galo de madeira crua que pousado em cima da mesa de trabalho empurrara o computador para a antiga mesinha do café. Mas este era o ano da ave macho, e juntamente com o elemento rude, trariam novo crescimento, a esperança de prosperidade e muito, muito otimismo, já a bananeira talvez fosse apenas uma implicância para impedir a distração estreita mas colorida que espiava da avenida. A crise era evidente, mas os lanches estavam liberados, desde que, previamente determinados, e a mim sobrou cardápio indiano no primeiro dia, Tarka Daal, parecido com comida molhada de gato, anafrodisíaca, visto que, desde então, o maior desejo era fugir destes intervalos, mas, como não havia mais café, melhor aderir à escolha da diretoria. Divididos em turmas, para que não surgissem rebeldias, fiquei com quem não gostava, nos isolaram das meninas, pior, surgiram bichos a substituir outras alegrias. Chegou Amon e Iris raros gerbos egípcios, nada mais do que ratos para atrair mais freguesia. Abríamos com uma prece, uma seita desconexa, mantra de energia sonora repetida como: "tenho sucesso", "cadê meu queijo", "deixa que me economize". Não há mais lâmpadas, luz zenital e azimute, muitas fendas e quebras nas paredes, depois só velas para prolongar o expediente. A nota dizia: "Haverá Mudanças", quem diria.
 Tunel do Tempo  Esta foto, com direito a título e inscrições, foi enviada pelo Gilnei, colega da época. Sou a orelha atrás do Salsicha.
Simca O veículo era escuro, não existia cores metálicas, apenas adereços e muitos frisos cromados, rabos de peixe e outras espículas sem qualquer sentido funcional ou aerodinâmico, ali, só a prolongar partidas ou chegadas, um charme de um tempo onde até para o tempo havia mais espaço. Ele, só nas mãos, manobrava firme as mudanças enquanto ouvia John Coltrane sem desconfiar que isso ainda seria cult, mais que novidade. Rodas com friso branco, pasta gomosa que ondulava os ralos cabelos o forte cheiro de borracha ou de perfume contrabandeado, não faz nenhuma diferença. Mofo, alto encosto, alto posto de brigada. Revistas jogadas no banco traseiro como fonte única e autorizada, filtro às grandes novidades, notas e fotos, fatos e milagres, muitas e falsas imagens, preto e branco ou coloridas num tom fraco como as noticias que já nasciam desbotadas. Por nada, havia napa e vinil, censura e brilhantina, petroleo fácil e seus derivados a esbanjar octanagem, menos as mulheres, mais cobertas, na espera a serem desveladas. Véu, não era tímida a realidade, não para este que se esconde num painel incrementado, conta-giros, conta-tempo e contam histórias, conforto agora é ter a mente livre de outra época, sugiro certa libertinagem. O motorista agora é gás, por aqui evocam as senhoras e suas discretas obscenidades, não é só carro que é escuro, mas o tempo aprisonou-se em espaços, exíguos passos para chegar a esta passagem.
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