Blog do Camafunga


 

Depois de mais de quatro anos de postagens esta Blog passa a ser compartilhada, duas almas tão distintas com visões tão diferenciadas, irão dividir, além do corpo, o mesmo espaço para expressão de idéias e observações do cotidiano, seja o que Deus quiser!

 
  Crônicas do Camafunga

visitas desde agosto de 2001

 

Segunda-feira, Outubro 31

Rememorando

Não costumo republicar nada, mas este foi a pedido:

Memória

Tic...Tac...Tic...Tac... Minha avó sentada, mãos tremulas de Parkinson.
Tic...Tac...Tic...Tac... O gato debruçado, quase caindo da pilha de livros, a cola atrapalha minha leitura árida de anatomia, entre forames e ósteos Greg espana a monotonia, mas contamina com bocejos o meu cansaço sobre a matéria.
Tic...Tac...Tic...Tac... Um copo de leite recém esfriado não permanece por muito vazio e aguardo a trégua de músculos e nomes em latim, o gato mia, a avó ronrona dormindo na cadeira quase a minha frente, só a mão balança.
Tic...Tac...Tic...Tac... O pêndulo do relógio em oito, a sede acalma, o sol discreto estreitado ilumina a lata que recende a ferrugem opaca, biscoitos São Jorge, imagens me esperam, história e nostalgia, a anciã é minha memória e companhia.
Tic...Tac...Tic...Tac... Cansado, reponho o alimento, levanto, o gato de soslaio me observava, boceja, a avó sobressalta, vou a cozinha, volto, a lata aberta no colo dela me chama, imagens se agitam para virar lembranças que não vivi mas acordam minha velha.
Tic...Tac...Tic...Tac... O copo, leite, sento ao lado e escuto as mesmas passagens, personagens que não conhecia, sangue que me pertence, além da anatomia árida, mortos criam vida, velhos se mostram como crianças, minha mãe no berço, meu tio no triciclo, meu avô, que nunca conheci, passeando garboso na mesma rua que ontem havia me inspirado.
Tic...Tac...Tic...Tac... A mão balança, a voz da avó se repete como novidade, e eu também me faço acreditar em saber em nostalgia remota do que não foi sentido. Alimento-me, a trégua, o leite, o afeto, a companhia.
Tic...Tac...Tic...Tac... O pêndulo, o balanço das mãos da minha avó, o Parkinson. Um beijo na testa, a lata fecha, as imagens descansam, o gato me espera, os forames e os ósteos são suportáveis, volto aos livros, a cola abana minhas memórias.
Saudade!

Quinta-feira, Outubro 20

Lixeira

Sinto falta de um cesto real, aqui ao lado, onde pudesse resgatar idéias incompletas, soltas em quantidade, perdidas pelos tropeços e disfarces da memória, mas é tudo tão efêmero nesta máquina, um toque, del, e RAM, volatiza-se o que devia ser melhor entendido. Então, quem seria a menina que a pouco pedia que não se afastasse, e as crianças que anunciavam no berço, só pelo olhar, um destino sem esperança, companheiras um passeio infantil desamparado, um texto em gestação, talvez dali a construção de um sentimento muito antigo. Digitei estas palavras, mas esta coisa não perdoa e se os dedos são rápidos via-se a esperança em decifra-los. Queria papel, rugas de agora onde pudesse desdobrar as entrelinhas, misturar rascunhos no caminho do sentido, mas não encontro nem lixeira nem atalhos, só esta memória que domina e controla, dona do significado e das chaves, aliada da tecnologia, até qua a luz nos apague.

Sábado, Outubro 15

Raposa Lusitana


Da onda dos podcasts o que mais gosto são os programas de Luis Gaspar, textos falados de grandes e desconhecidos autores de lingua portuguesa. É um dos endereços mais assinados do itunes music store, e os aprecio desde o início. Já esta pela 12ª edição, e apesar de te-lo encontrado por acaso faço minha tarefa de divulga-lo.
O poema acima é apenas uma amostra, e não é um podcast, mas vale para mostrar a qualidade da narrativa e o bom gosto na seleção dos textos. Para assinar, o endereço a ser procurado, no music store, por exemplo, é algo como Palavras de Ouro - Estúdio Raposa. Bom proveito!

Terça-feira, Outubro 4

Inapetência

Andressa não sorria. Quem iria bater a porta aquela hora? A comida no fogo onde legumes, de má vontade, pulam da água exageradamente aquecida. Podia ser o rapaz do gás, calor único da moradia. As luzes permaneceram acesas, mais uma noite, nem percebia, assim como a TV que não desligava a total falta de companhia, perdera uma ave, catorrita, primeiro pelo interesse, não ouvia o que queria, depois, por desprezar-lhe a básica necessidade da vida, Andressa também não comia, que digam as frutas apodrecidas. Interna, nada dizia. Cala, repulsa até telefone, mais após a última despedida, cortaram a linha, e não há outra conta em dia.
Insistem nessa campainha, a porta intransponível, até que do fogo, a falta, acalma a alegria, melhor abrir e ver quem seria, não há como resistir sem energia. Serão vizinhos? Não, reclusa há muito recusa comitiva e é só do televisor que a imagem avisa, é meio-dia. Sobra aquecido um caldo insosso onde naufragam caules murchos e escurecidos.
Andressa não queria, ainda chamam, a chave gira, lenta como a inapetência a embrulhar o estômago fraco, anorexia. Náusea é fome indefinida, o gás, o fogo que a movia. Ringe, roncam, dobradinha e dobradiça até, enfim, o encontro num sorriso: "Foi daqui que pediram pizza?".

 

 

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