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Gina roía as unhas, não conseguia se ver mãe solteira, se pudesse voltar atrás, talvez não cometesse tantas besteiras. Ela deixara os estudos não só para cuidar de sua gravidez, mas também pra esconder sua vergonha. Rui não tinha o direito de abandoná-la assim tão frágil. Marilda e Gustavo ficaram furiosos quando souberam da vida que estava crescendo dentro da filha e a expulsaram de casa. Agora ela estava ali, deitada na cama de uma pensão, com o ventre crescido. Ela passava a mão sobre a barriga como se estivesse acariciando seu bebê, imaginando as feições do pequeno ser. Bateram na porta,Gina assustou-se , ouvindo o barulho da porta mais alto, levantou-se e a abriu, era a dona Cristina com uma bandeja onde tinha um copo de leite e uma porção de biscoitinhos de chocolate. Gina arregalou os olhos.
- Pra quem é tudo isso, Cris? - Ela já tinhha intimidade com a baixinha gorda de cabelos negros e grisalhos, por isso a chamava de Cris em vez de Cristina ou dona Cristina.
- Ora... pra você,menina!
- Não precisava se importar.
- Deixe de bobagem, faço questão.
- Gina fez um sinal de sim com a cabeça, pegando a bandeja da mão da senhora.
- Muito obrigada, não tenho nem como agradecer...
- É só dizer obrigada, ora bolas! - Disse ela num tom de brincadeira, soltando uma gostosa gargalhada, encostou a porta e deu as costas, e caminhou em direção a cozinha.
Gina nunca havia comido biscoitinhos tão gostosos quanto o de Cristina, ela realmente tinha um dom para cozinhar, era incrível. Depois de devorar todos os biscoitinhos e o leite, bateu-lhe uma tristeza, começou a pensar na vida miserável que teria, não teria mais a regalia de filha única de pais ricos, ia viver com simplicidade e batalha para dar de comer ao seu bebê. Ficou sufocada, sentiu vontade de fugir daquela pensão e ir pra bem longe... bem longe... onde ninguém pudesse a encontrar, abriu a porta e foi andando com passos rápidos, passou pela cozinha, todos da pensão estavam lá, sentados na mesa. Olham-na como quem olha um alienígena, a menina continuou andando.
- Aonde você vai, menina Gina? - indagou o seu Domenico com a boca cheia de macarrão. Gina fitou-o com olhar frio.
- Já volto. - e saiu da cozinha quase correndo, o pessoal da pensão se entreolhou, não sabiam direito o que se passava na mente da garota de 17 anos que estava grávida, era difícil de responder esse "enigma", antes quando morava na casa dos pais, a menina tratava todos com hospitalidade, era de bem com a vida e vivia sorrindo, depois que seus pais a tiraram de casa, ela ficou com uma amargura sem igual nos olhos, uns já tinham a visto com os olhos miúdos e cheios de lágrimas, como podia uma guria tão linda e cheia de vida acabar assim? Tristeza dava nos que a viam cair em um buraco sem fundo...pobre menina.
* * * * * * * * *
Gina estava ficando cansada, não caminhava assim faz tempo, uma gota de suor escorreu-lhe na testa, precisava sentar e descansar pelo menos um minuto, olhou o parque em que estava. Ele era enorme, havia muitas crianças brincando, lá tinha cavalinhos, roda-gigante, aviãozinho e uma montanha russa. Um parquinho meio pobre, mas Gina via a alegria nos olhos de cada criança que passava por ela, imagina um dia poder vir no parquinho com seu filho, ou quem sabe filha... Foi acordada com o esbarrão de uma mulher, que deu um sorriso amarelo e se desculpou. Gina sentiu as pernas tremerem, e lembrou-se que estava procurando um lugar pra sentar. De longe,viu um banco vazio, ele estava bem no finalzinho do parque, quase ninguém o via, era meio "reservado", como se aquele banco estivesse esperando pela sua chegada. Ela não pensou duas vezes. Abriu caminho com a mão para poder passar entre as pessoas. Em fim chegou ao lugar desejado e sentou-se. Passou a mão do rosto para tirar a mecha de cabelo que caíra em seu rosto. Tirou o prendedor de cabelo que já não os segurava, ajeitou os fios loiros e compridos e novamente os prendeu no bico-de-pato. Reparou que ia haver um show no parquinho, pois lá estava armado um palco com jogo de luzes e estava cheio de jovens desesperadas.
De quem será esse show? Pensou ela. Vendo muitas garotas correndo na sua frente, uma até deu uma bolsada no rosto de Gina, que resmungou alguma coisa. Ela viu alguém se sentando ao seu lado, um pouco mais afastado, no outro lado do banco. A pessoa estava com um capuz preto, que a impedia de ver o rosto. Gina esticou o pescoço para tentar ver a pessoa, mas ela virou a cara.
- Está tudo bem?
- Ahã. - Disse a pessoa. Tinha voz máscula.Era um homem, Gina tinha certeza.
- Está bem mesmo?
- Já disse que sim! - disse ele, num berro só. A voz dele parecia um trovão, daqueles que dava nas piores tempestades já vistas. Gina sentiu um embrulho no estômago, uma náusea tão grande. Ela fez cara feia. O homem fitou-a , só assim ela conseguiu ver o rosto dele. Ele tinha olhos castanhos claros. Lindos!
- Tudo bem, moça? - Gina percebeu na voz do cara, um pouco de preocupação
- Acho que sim. - Disse ela, desfazendo-se da cara feia. O homem se virou novamente e baixou a cabeça.
- Me diz o que é - Gina disse balbuciando - , você ta fugindo da polícia? - O homem deu uma gargalhada, agora parecia que o gelo havia quebrado. Gina se arrependeu de ter falado aquilo, agora estava parecendo uma boba!
Gina riu. O homem era realmente muito louco!
- Meu nome é Gina Sinclair. – Disse ela.
- O meu é Caio.
- Caio do que? Se um dia eu quiser te procurar, não vou ver cada Caio do mundo até chegar em ti, não é? – Ela disse entre risos.
- Caio Gordon – Disse ele, um pouco embaraçado. Caio Gordon? Pensou Gina, arregalando os olhos. Sempre ouvira falar do guitarrista da banda mais famosa da cidade, a banda “The Guys”, mas nunca imaginaria estar conversando com ele.
Então está explicado o jeito estranho e o capuz. Sem perceber, Gina estava de boca aberta. Caio deu uma risada.
- Você não vai querer me assediar, não? – Brincou o rapaz.
- Não. Garotos de hoje... não respeitam nem as grávidas – Disse ela, logo depois se arrependendo, não era pra ela ter tocado no assunto Sentiu-se boba novamente. O menino olhou para sua barriga. Antes que ele falasse algo, ela olhou o seu relógio, ele estava parado, mas serviria para ajudá-la a fugir. Gina se levantou do banco.
- Vou indo.
- Por quê?
- Moro em pensão, não avisei aonde ia, eles devem estar preocupados. - Disse ela muito séria. Deu as costas e foi caminhando lentamente.
- Sinclair! – Gritou Caio. Ela olhou pelo rabo do olho. –, nos vemos em breve? – Ela não respondeu. Sorriu. Voltou-se para frente e continuou a andar.
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O vento batia, fazendo os cabelos de Gina bagunçar novamente, o vestido de menina não escondia a Saliência da barriga. Gina caminhava, não estava com pressa, muito menos preocupada com o pessoal da pensão. Estava envergonhada, fugiu antes que o garoto ficasse assustado e estranho com ela, como todos fizeram. Chegou a porta da pensão, imaginando a bronca que iria levar de Cristina.
Mas e ai? Ela não é minha mãe.Não tem o direito de brigar comigo! Pensou ela, indignada.
Entrou na pensão. A porta estava apenas encostada. E ao contrário do que pensou, todos estavam dormindo. Olhou em cima da mesa um bilhete que dizia
“Querida Gina, nós estamos muito preocupados com você. Todos da pensão te amam não se esqueça disso.
Fomos dormir porque não sabíamos ao certo que horas você chegaria, são mais de meia noite. Não fique brava, por favor.
Com carinho, Cris.”
Gina sempre soube do carinho que todos tinham por ela, mas estava feliz por Cris fazê-la lembrar que não estava só nessa.
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Gina se acordou com o sol batendo-lhe na cara. Olhou a janela aberta. Como podia ter se esquecido de fechar a janela? . Sentou na beira da cama, olhou seus pés. Ficou mexendo-os para frente e para trás, como uma criança. Levantou. Calçou a pantufa de coelhinho, pegou seu roupão e o vestiu. Foi andando até a cozinha sem ânimo nenhum, mal levantava os pés para andar, arrastava-os.
- Bom dia pra todo mundo.
- Bom dia. – Respondeu Heloísa. – Tudo bem?
- Sim – Disse Gina com um sorriso amarelo no rosto. – melhor impossível, Helô. – Deu um beijo no rosto da menina, virou-se e deu um abraço em Cristina e Olavo, que estavam cozinhando (como sempre!)
- Cadê o resto do pessoal? – Indagou ela, vendo a cozinha meio vazia.
- O Jeremmy e o Domenico foram trabalhar bem cedinho, a Cláudinha já tomou café e está no quarto cuidando do Marcos que está doente e a Virgínia disse estar com a virose do Marcos e foi ao hospital. É mole? Quando um não vem tomar café os outros sempre arranjam desculpas pra não virem! – Disse Cris dando uma panelada de leve na cabeça de Olavo, que ria descontroladamente – Cuidado pra não babar em cima da minha tapioca, Olavo! – O menino calou-se.
- É, não é mole... ainda mais quando tem que agüentar o mala do Olavo! – Brincou Heloísa, enfiando um pedaço de pão na boca. Gina e Cristina gargalharam. Olavo ficou sério.
- Eu sou muito mais melhor que você! – Ai sim, todas riram e nem mesmo o próprio Olavo conseguiu segurar o riso. Que gafe!
Depois de tomar café e se arrumar, Gina estava enjoada de ficar só ali, estava de licença a maternidade. Não estava trabalhando, e também, era muito cansativo trabalhar como garçonete da “Gingo & Cia”, Lá vivia lotado, e ela não conseguia ter um minuto de sossego. Resolveu ir passear um pouco. Saiu e foi caminhar pelas ruas. Ora essa... sentiu uma vontade incontrolável de tomar sorvete de abacaxi com passas.
Que estranho, meu Deus! Assustou-se ela. De novo essas vontades malucas!
Foi andando rápido até a primeira sorveteria que viu,pediu um sorvete de abacaxi, tomou-o como criança. Droga,só faltava as passas!
- Sinclair? – Gina ouviu uma voz atrás dela, não podia acreditar. Era Caio.
Droga, droga ,droga, mil vezes droga! De novo esse menino, e ainda vai me ver assim, fazendo minhas “gulas” de grávida!
Gina virou-se para olhar o menino, dessa vez ele estava sem capuz, dava pra ver os olhos castanhos claros e a luz do sol refletindo no cabelo dourado, todos da sorveteria o olhavam. Umas meninas lá no fundo davam gritinhos e fofocavam alguma coisa.
- Gordon... – Disse ela, num ar de quem ta triste.
- Nunca imaginei encontrar você aqui. – Disse o garoto vendo Gina se sentar numa cadeira de madeira.
- Também nunca imaginei te ver por aqui,menino. – Falou ela fingindo que estava feliz com a presença dele. Poderia estar se sentindo mal o que fosse,mas nunca o trataria com ignorância.
- Posso? – Perguntou ele apontando para cadeira ao lado dela. A moça fez um sinal de sim com a cabeça. Ele se sentou.
- Naquele dia você foi tão rápido.
- Sou arisca. – O menino sorriu
- Percebi. – Ela mal olhava para ele, estava contemplando o sorvete.
- Como será que eles fazem isso?
- Isso o que? As pessoas ariscas? Como fazem todas as outras. – Ele deu uma risada.
- Não fale besteiras. Estou falando do sorvete.
- Ah, pergunte pra quem faz. Sou músico, não sorveteiro. – A menina levantou o rosto e o olhou brava.
- Estou falando sério. – Ele colocou as mãos na cabeça.
- Meu Deus, ela quer me matar! – e começou a rir com sarcasmo.
- Vou fazer você engolir esse sorvete inteiro se não parar de me irritar!
- Mmm, então vai ser um castigo gostoso! – Gina fitou-o abafando um riso.
- Ah, agora a bravinha ta calma?
- Ah – disse ela soltando uma gargalhada estranha –, ser bravinha não quer dizer não poder rir, não é? – Caio não segurou o riso, a menina ria estranho, parecia com o barulho que os burros faziam.
- Ta bom, bravinha. Posso lhe fazer um pedido?
- Sim, se não for de casamento. – Ela riu de novo, sem acompanhamento, parou quando viu que o garoto não ria. Ela apertou os lábios – Desculpa.
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Gina não acreditava que tinha aceitado passear com aquele “estranho”. Todos que passavam por ela e Caio, ficavam os olhando, os olhares indagavam a razão do lindo Caio Gordon estar com uma grávida! . Gina se sentiu estranha, mas não estava incomodada, Caio começava a lhe agradar. Eles caminhavam lado a lado. Uma menina parou na frente dele
- Caio Gordon! – Disse ela arregalando os olhos. Ele fez sinal de sim com a cabeça. A menina passou as mãos pela face de Caio, deslizou para os músculos dos braços. Agarrou-lhe.
- Não acredito! Você não sabe como eu te amo! – Os olhos da menina brilhavam, os cabelos negros bagunçados. Caio se aproveitou, abraçou a. Deu um riso malicioso. Gina sentiu-se uma vela. Que menina dada! . Caio e a menina desprenderam-se. Ele olhou para os seios da menina quase descobertos. Gina o cutucou com o cotovelo. A menina novamente tocou nas faces do menino,soltou um gritinho, deu-lhe as costas e se juntou a um grupo de meninas que o olhavam dando risinhos. Caio arregalou os olhos e gritou
- Corre! – saiu correndo vendo as garotas do grupo bem atrás dele. Gina olhou o menino longe.
- To grávida, meu bem. Corre você, ninguém vai querer me agarrar! – Caio voltou, pegou Gina nos braços e correu com dificuldades.
- Disse pra você ir só. Me deixe no chão. Agora!
- Convidei você pra passear, não vou deixá-la só. – Disse ele com dificuldade.
- Ah, não me venha com cavalheirismo. Tarado!
- Tarado? Eu?
- Sim, ou era eu que tava agarrando e olhando as mamas da menina siliconada? – Ele riu.
- Coisas bonitas são feitas pra se olhar. – A voz quase não saiu, mas ela ouviu muito bem. Olhou que as meninas tinham parado.
- Ora... não fuja das suas amiguinhas, que, afinal, pararam de te seguir. – Ele se inclinou até ver que os pés de Gina estavam no chão.
- Agora quem está falando bobagem é você. – Ela o olhou com fúria, fez como aquelas meninas, deu as costas e foi caminhando.
- Até mais, bravinha.
- Até nunca mais, tarado! – Berrou ela sem ao menos olhar para trás. Caio conseguia a irritar só com o olhar, era incrível!
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Caio caminhou até a casa onde morava com os quatro integrantes da banda The guys. Tirou os sapatos na porta e entrou. Olhou a bagunça que sempre permanecia lá. Havia uma sala logo na entrada e também cartas de baralho, restos de cerveja no fundo dos copos e um cinzeiro cheio de cinzas de cigarro em cima de uma mesa de ferro onde tinham quatro cadeiras
O menino se acordou com os olhos vermelhos e grandes.
- Você bebeu de novo,seu patife! – Berrou Caio.
- Zó um potinho azim ó – Disse Guga com a voz embaçada e torta, quase juntando o dedão com o indicador. Guga era o vocalista da banda, era alcoólatra, estava tentando parar, mas muitas vezes tinha recaídas.
Caio não agüentava mais aquele “peso” em sua vida. Um dia a banda se destruiria por causa das “loiras” de Guga, e ele as vezes chegava a odiá-lo com todas as suas forças, chegara a se achar sem entranhas!
Pedrinho, Diego e Matteo apareceram na porta que ligava a sala com a cozinha. Caio os censurou com o olhar.
- Não tenho nada a ver com isso. – Disse Matteo apontando para Guga.
- Por que o deixaram beber? Estão ficado loucos? Querem acabar com a vida dele e a de vocês? É isso? – Ele deu uma pausa, todos ficaram calados. Então ele prosseguiu - ... Vão em frente, seus bando de gala seca! – Caio passou pela porta com violência esbarrando nos ombros de Matteo e Diego, que estavam com uma expressão de “To nem ai”...
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Gina estava muito feliz, não queria que nada acabasse com sua alegria. Fernanda e João lhe deram um berço de bebê, eles eram os donos da padaria da rua, e eles a adoravam assim como ela os adorava! Amanhã Gina iria saber o sexo do bebê, a euforia era grande, seria menina ou menino?
Olhou-se no espelho e viu que sua barriga estava maior. Sorriu. Estar grávida não a atordoava como todos achavam a deixava mais forte, mais humana e ao mesmo tempo santa, porque ali acontecia um milagre, o da vida.
Gina fez um coque no cabelo e o prendeu com uma liga. Abriu a porta e foi caminhando lentamente em direção a sala.
Dona Cristina, Olavo, Fernanda, João, Heloísa e Virgínia estavam lá todos espremidos num sofá com um saco de pipoca passando de mão em mão, vendo uma partida de futebol. Olavo levantou-se. Todos os outros respiraram.
- Em fim o bolinho de arroz saiu daqui – brincou Heloísa. Gina não sabia o porquê de Heloísa brincar tanto com o bolinho de arroz. Talvez fosse amor...
- Érrr... Engraçadinha. Eu vou pegar uma cadeira pra nossa mamãe – Retrucou o menino gordinho e branquelo, puxando uma cadeira de balanço para o lado do sofá.
- Agora sente-se, Gina – Ele sorriu. Gina retribuiu o sorriso e se sentou.
- Obrigada, Olavo – Disse ela antes que ele voltasse a se espremer no sofá com os outros.
- Passa a pipoca, por favor. – Pediu ela, logo depois recebendo o saco de pipoca das mãos de João.
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Caio pensava em Gina, aqueles cabelos loiros e compridos, a pele clara e macia, o jeito... Era incrivelmente ridículo como ele ficava bobo ao menos com a presença da moça que ele havia conhecido a dois dias. Guga entrou no quarto onde estava Caio. Fitou-o olhando para o teto sentado, com as pernas em outra cadeira em frente à televisão. Guga já não estava mais tão bêbado, depois de ter tomado um banho e um café preto feito pela própria mamãe.
- Talvez tenha sido falta de consciência da minha parte. – Disse ele, com a voz quase sumida.
- Com certeza foi – Retrucou Caio.
- Estou aqui tentando me desculpas,não me diminua!
- Não estou diminuindo você. Sabe por quê? Porque você mesmo está se encarregando disso – Disse ele, firme com as palavras.
- Brother, eu juro que dessa vez eu paro. – Caio não acreditou, mas do que adiantaria ele ficar brigando com o amigo?
- Está bem.
- É menina!
Todos da pensão vibraram com a notícia. Olavo olhou Gina com os olhos brilhando, como se a qualquer momento fosse chorar lagos. Gina abraçou-o e sorriu. Olavo gostava muito da moça e o sentimento era recíproco, eles se conheciam desde os 10 anos de idade, quando ela o salvou de um libertino que queria bater no pequeno. Ele sempre fora um menino gordinho, branquelo, de cabelos muito lisos e negros meio azulados e todos sempre zoavam no garotinho. Depois que começou a andar com a “famosa” Gina Sinclair parece que todos começaram a respeitá-lo. Ele mudara demais e agora estavam morando juntos e ali na frente dela, ele se emocionava com a notícia da vinda da menininha de Gina.
- Parabéns, Gina!
- Obrigada, querido.
Aii, que vontade de comer morango com chantili! Pensou ela.
- O que está desejando, Gigi? – Disse o menino, com cara de sabichão.
- Ãhn?
- Pela cara que você fez... Ta desejando algo.
- Morango com chantili, é mole? – Ela riu.
- Vou ver onde arranjo pra você. Com o chantili não se preocupe tem aqui. Vi na geladeira.
- Ok, mas vá rápido.
O menino levantou uma sobrancelha, virou de costas e se foi a procura morangos.
Gina caminhava com uma cartela cheia de morangos em uma mão e na outra trazia uma tigelinha com chantili. Mergulhou um morango na tigela, o tirou e enfiou na boca de uma vez só. Lambeu os dedos. Sentia pena de Olavo, ele nem era pai de sua filha, mas às vezes reagia como se fosse, andou quase toda a cidade em busca de morangos e conseguiu. Agora Gina estava lá, se deliciando com eles. Foi caminhando com passos ritmados. Avistou alguém familiar de costas. Aproximou-se. A pessoa se virou, era Caio. Gina sorriu. E mais alguém? É, Caio estava acompanhado de uma ruiva, alta e cheia de sardas. O sorriso se desfez. Ela reparou que ele estava com os braços em volta da mulher. Ele a olhou. Gina sentiu-se ridícula. Novamente uma náusea incontrolável a fez se desesperar. Ela olhou para os lados, se agachou com dificuldade ao lado de uma vala, e lá mesmo vomitou, deixando o morango e o chantili estatelados no chão. Caio arregalou os olhos, a ruiva fez uma careta de nojo. O guitarrista soltou-se da moça e se agachou ao lado de Gina. Quando ela parou, levou as mãos sobre a boca, com uma expressão de susto.
- Você está bem? – Ela balançou a cabeça afirmativamente. - Quer que eu te leve até sua casa?
Ela percebeu a preocupação que ele tava. Levantou-se.
- Não precisa. Vou só. – Disse ela fitando o rapaz se levantando também.
Ele foi até a ruiva e cochichou algo no ouvido dela.
Gina pôs-se a andar novamente, mas agora os passos rápidos e sem ritmo. Sentiu uma mão gelada a tocar no ombro. Virou-se.
- Faço questão de te levar até lá.
Gina anuiu, sabia que seria melhor ter alguém para levá-la até a pensão.
Caio espantou-se ao ver a pensão não tão rica de Cris. Era uma casa de dois andares. As paredes brancas estavam cheias de limo, as janelas de madeiras eram velhas, estavam caindo aos pedaços!
- Ah, então é aqui que a srta. Gina Sinclair se esconde?
- Não é um esconderijo, Caio. É apenas uma pensão. Sinto-lhe em dizer que a vida não é brincadeira, e nem todos são como o Batman que tem sua Batcaverna. A vida nos dá o que pode, e temos de aceitar. Mas se você quer ver a realidade como um conto de fadas. Vá em frente e conheça o esconderijo da “Mulher Real”.
- Pois saiba que podemos contrariar a vida, Srta.
- Ah, é? Então me diga como.
- Querendo mudá-la. Como acha que criaturas que vieram no quinto dos infernos conseguiram fama na cidade? Aceitando ser apenas normais é que não é.
- Deixe de ser sarcástico. Estou falando da minha realidade, não das estrelinhas da cidade.
- Sarcástica está sendo você.
- Sarcástica é a mãe!
- Lhe ofereço ajuda e você me paga assim?
- Se soubesse que precisaria pagar algo não aceitaria.
- Mas aceitou, e agora terá de pagar. – Caio olhou Gina nos olhos, via que a moça sentia-se atordoada. Pegou-lhe as mãos. Gina soltou-as.
- Passe bem, Gordon. – Antes que terminasse a frase, ela já estava de costas, caminhando ao procurar refúgio dentro da velha pensão.
- Não vai me convidar para entrar?
- O senhor “estrelinha” talvez não goste de ver que a caverna não é como deseja. – Retrucou ela, logo fechando a porta com violência.
Na manhã seguinte, Gina estava sem ânimo, sentou-se na cama e ficou lá, paradas por um longo tempo. Os pensamentos tomavam conta de sua cabeça, ela remoia o seu tudo o que havia passado. Sentia raiva, vontade de quebrar tudo. Era estranho sentir-se de tal forma, sempre foi pé no chão e se conformava com o que tinha. Será que aquela história de “Contrariar a vida” suposta por Caio era o que estava perturbando-a?
Sentiu vontade de ficar na cama pra sempre. Jogou-se em cima da cocha fofa, agarrou o travesseiro, e puxou o lençol para cima, cobrindo o corpo todo e só deixando a cabeça de fora. Adormeceu depois de mais ou menos quinze minutos.
Gina queria acordar-se mas as pálpebras não obedeciam seus comandos. Algo dizia para se acordar, mas não estava conseguindo. Tinha a impressão de estar andando e der repente, caiu. Acordou-se ofegante.