"A Caverna" de José Saramago


Introdução)

Para Saramago, "a literatura sempre tem algo importante para dizer num mundo como o atual, onde o ser humano é a coisa mais descartável que há". "Perdemos o sentido do protesto, o sentido crítico, parece que vivemos no melhor dos mundos possíveis" , disse. "Vivemos rodeados de inseguranças: insegurança na sociedade, no trabalho, na vida diária", acrescentou. "A Caverna não é um manifesto político nem ideológico, mas um romance", disse Saramago, acrescentando que a obra apenas pretende que pensemos para onde vamos. Saramago assegurou ainda que "a globalização econômica é uma nova forma de totalitarismo e que a democracia é um ponto de partida e não de chegada". Em sua opinião, quando os cidadãos crêem que a têm, é quando começam a perdê-la. "Assistimos a um mundo em extinção. O único lugar seguro são os shoppings que, curiosamente, não têm janelas. E um lugar sem janelas é uma caverna". [1]

Parte I)Análise da referência a Platão e ao uso indiscriminado da tecnologia.

Quando escreveu o trecho da caverna em “A república”, Platão quis evidenciar como as pessoas podem viver na irrealidade, ou seja, constantemente enganadas por acreditarem que as sombras da vida são realmente verdadeiras. Ele sugere que esses homens vivem numa caverna e só podem ver as sombras projetadas do mundo exterior. E quão diferente é o mundo quando eles conseguem sair dessa prisão! No livro, Saramago traz a mesma idéia só que adaptada aos dias atuais. Nesse caso, a Caverna é o Centro Comercial que pode tudo: salvar vidas em seu hospital como também dar a morte em seu cemitério ou em seu departamento comercial. A Caverna engole as pessoas e as tornam prisioneiras: os consumidores atraídos pelos produtos, os fornecedores pela chance de escoar a produção, as pessoas atraídas pelas melhores condições de vida. Tudo gira em torno dele e os que são seus concorrentes sofrem por estarem se rivalizando com tamanho sistema. Essa Caverna é também exigente, pois está atenta aos gostos de seus clientes. Anseios que ele mesmo ajudou a formar. Isso acarreta uma padronização da qualidade e dos meios de produção, ou seja, os que dele dependem são massificados para atender as exigências do mercado consumidor. A arte de fazer um produto perde espaço para a quantidade. O importante é o tempo de produção e o escoamento da mesma atendendo gostos momentâneos ou permanentes custe o que custar.

Parte II)Análise das personagens e de seus comportamentos:

Cipriano: oleiro de profissão e mente. Tem um modo primitivo e rude de encarar as pessoas e as situações devido à profissão: amassar e cozinhar o barro. No entanto, é uma pessoa que sabe o real valor das pessoas reconhecendo a amizade de Marçal que o trata como pai e o ajuda na tarefa dos bonecos e o carinho, até mesmo maternal, de sua filha Marta que mesmo grávida trabalhou na olaria. É um homem “do passado” que não via a evolução dos desejos dos consumidores e os novos tempos de mudança que necessitam de produtos e serviços diferentes.

Marta: filha de Cipriano, ela é uma mulher de muitas idéias, pois foi ela quem sugeriu a construção dos bonecos. Raramente sai do sítio e todos os problemas enfrentados pelo pai são seus também. Muito mais otimista que Cipriano, se não fosse por ela, a olaria e Cipriano não teriam conseguido superar as dificuldades impostas pelo Centro

Marçal: genro de Cipriano, ele é segurança do Centro. É um dos prisioneiros da Caverna que não entende como Cipriano teima em morar em outro lugar. Tem problemas familiares e seu maior sonho é cada vez mais participar e ser “engolido”pelo Centro.

Isaura: viúva da região onde Cipriano morava e por quem Cipriano é apaixonado. Para ela, o Centro é uma entidade distante e que pouco afeta sua vida e talvez seja por isso, e por seu modo de pensar, que Cipriano tenha se apaixonou por ela.

Achado: o mais humano dos cães. Foi encontrado num dia de chuva e seus modos quase humanizados lhe valeram os bons votos de Cipriano e Marta que sempre quiseram bem o animal. É ele quem escuta os lamentos de Cipriano e procura entender os difíceis e contraditórios sentimentos humanos.

Parte III) Opinião pessoal a respeito do tema do livro

O livro trata de um tema muito atual especialmente no Brasil: a diferença de dois mundo distintos como o Centro Comercial, que é exigente, competitivo e que representa o capitalismo em sua fase moderna, e Cipriano, que representa o artesanato e o modo simples de vida. “A Caverna” exige que meditemos nas condições de vida que o homem das sociedades modernas leva: uma vida muitas vezes cega ou baseada em sombras numa parede e põe em dúvida alguns conceitos e conquistas da humanidade: a tecnologia. Apesar de ser ela fonte de todos as nossas comodidades será que não somos prisioneiros dela vivendo mais para nós mesmos do que para a comunidade? Somente com muita reflexão conseguiremos entender, porque escapar é impossível, dessa Caverna chamada “Capitalismo”.

[1] AFP; Jornal a Página da Educação", ano 10, nº 98, Janeiro 2001, p. 26.


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