Por JOACHIM ADIS, OLIVER ZOMPRO, ESTHER MOOMBOLAH-GOAGOSES E EUGÈNE MARAIS
Imagine
ver pela primeira vez uma borboleta, um besouro, um marimbondo. Imagine o assombro
diante de um mundo tão vasto que não só contém espécies,
gêneros e famílias por descobrir, mas ordens inteiras ainda não
batizadas. Carl Lineu deve ter tido essa sensação 250 anos atrás,
ao organizar plantas e animais descobertos pouco tempo antes na taxonomia que
inventara. O mesmo deve ter acontecido com E. M. Walker, o primeiro a descrever,
em 1914, os Grylloblattodea, pequenos animais das regiões frias do hemisfério
norte, elevando para 30 o número de ordens da classe dos insetos.
A maioria dos entomologistas acreditava que o número era definitivo: embora talvez haja milhões de espécies de insetos ainda por identificar (até agora, 1,2 milhão já foi nomeada), durante quase um século pressupomos que toda espécie recém descoberta entraria numa numa dessas 30 categorias básicas. Para os biólogos, o mundo natural não parecia mais tão grande e caótico quanto antes. Mas, em junho de 2001, Zompro recebeu um pedacinho de âmbar que mudaria nossa forma de ver o mundo dos insetos, dando-nos um vislumbre da antiga alegria da descoberta – e renovando nosso assombro diante da variedade da vida.
Congelado no tempo
O pedaço de
âmbar, proveniente de um coleção da University of Hamburg,
Alemanha, foi retirado do mar Báltico. Quando a seiva da árvore
se solidificou, há cerca de 45 milhões de anos, capturou várias
larvas de insetos que pareciam completamente diferentes de qualquer coisa que
Zompro vira antes. Um mês depois, o pesquisador, que na época trabalhava
no Instituto Max Planck de Limnologia em Plön, visitou o Museu de História
Natural de Londres e a curadora Judith A. Marshal mostrou-lhe um besouro preservado
que havia sido encontrado na Tanzânia em 1950. Era claramente carcaça
de um macho adulto, mas ninguém tinha sido capaz de identificar que tipo
de inseto ele havia sido um dia. Zompro tirou algumas fotografias e voltou para
a Alemanha.
Alguns dias depois, outro pedaço de âmbar chegou pelo correio.
Este de uma coleção particular, continha um macho adulto fossilizado
de um tipo desconhecido. Quando o examinou minuciosamente as coleções
de vários museus europeus em busca de outros besouros não-identificados
parecidos com este. Mas nem depois de esquadrinhar um museu após outro,
Zompro chegou a encontrar um espécime semelhante. Entretanto, no museu
de História Natural de Berlim, acabou dando com o veio de ouro: um vidrinho
cheio de álcool continha o corpo embalsamado de uma fêmea adulta
de inseto que se parecia muito com o misterioso besouro do pedaço de
âmbar.
À medida que Zompro e Adis estudavam cuidadosamente esses dois novos
espécimes, um pré-histórico e outro encontrado no chão
da Namíbia um século antes, sua excitação aumentava.
À primeira vista, os bichos, com suas fortes pernas traseiras, lembravam
gafanhotos. Mas não tinha asas, ao contrário da maioria dos gafanhotos.
As pernas da frente eram crivadas de espinhos, como aqueles que os louva-a-deuses
usam para capturar e segurar a presa enquanto a devoram viva. Mas a cabeça
e as pernas traseiras desses insetos desconcertantes eram bem diferentes. Vistos
de cima, eram muito parecidos com bichos-pau, vegetarianos. Mas o segundo segmento
de seu corpo era curto demais para um bicho-pau, e os intestinos continham partes
de corpos de outros insetos, prova de que eram carnívoros.
As diferenças não eram triviais. Com tantas distinções
fundamentais na forma do corpo e na alimentação, foram necessárias
somente algumas horas para concluir com certeza que esses organismos não
se encaixavam em nenhuma ordem existente de insetos. Teríamos de criar
uma nova categoria para eles, onde ficassem ao lado das moscas, besouros e cupins.
Decidimos pelo nome científico Mantophasmatodea
porque os bichos pareciam um cruzamento bizarro de um louva-a-deus (ordem Mantodea)
com um bicho-pau (ordem Phasmatodea). Mas entre
nós, começamos a chamá-los de “gladiadores”,
inspirados por sua aparência assustadora e pela armadura que os cobre
no estágio de ninfa. Embora suspeitemos que os gladiadores tenham um
ancestral comum com os louva-a-deuses e os bichos-pau, vai ser preciso trabalhar
mais para determinar sua posição exata na árvore evolutiva
da vida dos insetos.
Caça ao besouro no deserto
A primeira pergunta que queríamos responder era: os gladiadores ainda
estão vivos ou a ordem extinguiu-se desde que o gladiador da Tanzânia
foi descoberto, há meio século? Adis enviou fotografias dos insetos
por e-mail a colegas do mundo todo, pedindo lhes que procurassem espécimes
semelhantes em suas coleções.
Um gladiador adulto e duas larvas foram localizadas na University of Leeds,
Inglaterra. Tinham sido encontrados no maciço de Brandberg, na Namíbia,
num momento qualquer entre 1998 e 2000. E um de nós (Marais) encontrou
dois insetos que correspondiam à descrição. Marais havia
coletado um deles pessoalmente na Namíbia em 1990; o outro foi coletado
por um estudante namíbio em 2001.
Marais viajou para a Alemanha e traçou planos com Zompro e Adis para
uma expedição à Namíbia em busca de gladiadores
vivos. No último dia de fevereiro de 2002, 10 cientistas de 5 países
partiram para o deserto tropical da Namíbia. A equipe dirigia-se a Bandberg,
um maciço circular que, como uma enorme borbulha de granito, eleva-se
1.800 metros acima de um planalto árido da província de Erongo.
A população local chama-o de Dâures: a Montanha Abrasadora.
Remota e protegida como parque nacional, Brandberg é o único lar
de vários animais endêmicos.
A busca começou no início de março num platô alto
e pedregoso circundado por penedos elevados. Zompro e John Irish, um ecologista
namíbio, batiam nos arbustos com galhos para ver se algum inseto saía
dali. Depois de algumas horas, Irish disse: “Acho que tenho algo para
você, Oliver”. Na palma de sua mão estava uma larva pequena,
um gladiador no segundo estágio de sua vida. Naquela mesma noite, outro
membro da equipe encontrou mais quatro larvas. Mal conseguíamos conter
a excitação. Desconhecida pela ciência, essa cadeia da vida
se mantivera intacta por mais de 45 milhões de anos!
O grupo queria pesquisar outras partes do maciço - e outras montanhas
próximas – mas o tempo não ajudou. As temperaturas superiores
a 44ºC tornavam árdua a descida das encostas íngremes. Aguaceiros
periódicos faziam riachos modestíssimos virar corredeiras perigosas.
Em meados de março, Zompro e seus colaboradores aventuraram-se pelas
montanhas vizinhas. Uma caçada noturna rendeu mais uma espécie
de gladiador; já tínhamos identificado quatro espécies
distintas da nova ordem. E, no dia seguinte, Zompro conseguiu fazer as primeiras
observações do comportamento dos insetos em seu ambiente natural.
A
vida de um gladiador
Uma dúzia de gladiadores havia sido capturada viva e levada para a Alemanha,
onde estávamos estudando sua biologia. Até agora descobrimos muito
pouco sobre esse novo tipo de inseto, embora a pesquisa esteja progredindo rapidamente.
Nas encostas das montanhas, vimos gladiadores escondendo-se durante o dia em
tufos de grama e gretas das rochas.
Ficavam camuflados, com
as cores do corpo fundindo-se com as plantas e pedras. Ao cair da noite saiam
para caçar.
Os gladiadores são carnívoros e comem um grande número
de outros insetos, alguns tão grandes quanto eles. Em seu ambiente natural,
vimos gladiadores devorando mariposas pequenas, traças e baratas. Em
cativeiro, parecem preferir moscas e grilos vivos. Esses insetos usam suas poderosas
pernas traseiras para imobilizar presas pequenas. Quando a refeição
é maior, eles a seguram também com as pernas medianas. As moscas
grandes primeiro são mortas com mordidas fortes no pescoço. Em
seguida, os gladiadores devoram a cabeça. Comem todas as partes de sua
presa, exceto as asas e as pernas. Vimos jovens gladiadores, quando feridos,
serem vítimas de canibalismo.
As larvas crescem muito depressa, trocando de pele várias vezes durante
seu processo de maturação. Parecem ter adaptado seu ciclo de vida
à curta estação das chuvas que, em Brandberg, dura apenas
alguns meses. Ainda não sabemos onde e quando as fêmeas dos gladiadores
põem os ovos no seu hábitat natural.
A descoberta inesperada de uma nova ordem no reino dos insetos deixou muitos
entomologistas perplexos, e grupos de pesquisa do mundo todo logo ofereceram
ajuda para dar continuidade a nosso estudo sobre o comportamento, o ciclo de
vida e a reprodução dos gladiadores.
Romano Dallai, da University of Siena, na Itália, está pesquisando
a forma e a estrutura do esperma dos machos. Equipes dirigidas por Michael F.
Whiting, da Brigham Young University, e Roger K. Butlin, da University of Leeds,
estão analisando o DNA dos gladiadores. Até o final de 2002, esses
experimentos podem nos dar uma idéia melhor de onde os Mantophasmatodea
se encaixam nos ramos da classe dos insetos, a parte mais povoada da árvore
da vida.
Mas o fato de que a evidência dessa nova ordem tenha ficado em museus,
ignorada durante décadas até um encontro casual e um estudante
alerta juntarem as peças do quebra-cabeça, deixou-nos com a pulga
atrás da orelha. Será que existem outras ordens de insetos a serem
descobertas? Para gente que adora besouros como nós, o mundo natural
de repente parece um pouco maior e mais fantástico do que imaginávamos
que fosse.
Para conhecer mais
Mantophasmatodea: A New Insect Order with Extant Members in the Afrotropics. Klaus-Dieter Klass, Oliver Zompro, Niels P. Kristensen e Joachim Adis em Science, Vol.296, pp. 1456-1459; 24 de maio de 2002.
A Review of the Order Mantophasmatodea (Insecta). O. Zompro, J. Adis e W. Weitschaft em Zoologischer Anzeiger, vol. 241 (no prelo).
Site Ordem Mantophasmatodea
: www.sungaya.de/oz/gladiator
Scientific American - Dezembro de 2002
www.sciam.com.br