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Letras de Música




by letras.mus.br









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Terça-feira, Novembro 30, 2004

.:: lições
COM O GRÊMIO ONDE O GRÊMIO ESTIVER




O símbolo de uma das mais caras tradições do Rio Grande do Sul, lídimo representante do nosso futebol em diversas competições internacionais, na condição de campeão brasileiro e da Copa do Brasil, Campeão Mundial interclubes, está na segunda divisão.

É impressionante o componente emocional da reação dos torcedores de um clube de futebol. Entendo o sentimento, a paixão e até certo fanatismo. Igualmente sei comprender a tristeza que o rebaixamento representa para um clube da grandeza do tricolor, fato que machuca o ego e exige muita força interior para superar. Mas é preciso ter calma. Nada como assimilar e aprender com as derrotas. Melhor considerá-la como ato obrigatório de "dar um passo atrás" para refletir e prosseguir com certeza maior. Pode também ser o tiro de misericórdia na cartolagem atual.

O futebol brasileiro este ano, mais do que no anterior, nivelou-se. Por baixo. Grandes clubes como Flamengo, Atlético Mineiro e Botafogo ainda lutam contra a possibilidade de no ano que vem disputar o campeonato do segundo escalão. Outros como Cruzeiro, Vasco e Internacional, se equilibram em posições intermediárias sem qualquer brilho. Durante a competição tivemos fases com a liderança de times considerados de menor expressão e campanhas equilibradas como a do Goiás.

A febre dos emergentes foi menor do que anteriormente, embora o São Caetano, que já pode ser considerado grande, esteja novamente freqüentando a elite que ainda aspira ao título.

Acho que a torcida do Grêmio não deve curtir desespero. Tudo bem que é ruim e de certa forma humilhante, mas o rebaixamento pode servir para repensar o futuro e voltar triunfante, como sempre foi.

Há um capítulo à parte. O conceito de rivalidade também tem que ser repensado nestes tempos. É ridículo tentar tripudiar um adversário, mesmo sabendo da sua fase ruim. Não tolero regionalismo em futebol, tanto que acho os campeonatos estaduais uma piada de mau gosto. A competição é nacional e pronto. Bairrismo então, nem se fala. É coisa de gente que acha o máximo "entubar" uma camisa do seu clube numa tal de "ampola do tempo" que será aberta não sei quando.

Coincidentemente, a torcida deste mesmo time anda cantando por aí, em alto e bom som, que o seu time "enterrou o Grêmio", mandando-o para as trevas do inferno da segunda divisão. Esquece, porém, que, julgando-se o melhor, cedeu, ao "pior", um empate com dois gols infantilmente tomados em 120 segundos, um deles já nos descontos. Isto tudo depois de estar ganhando por 3 x 0. Contaminou-se pelo vírus da arrogância e foi mordida pelo mosquito da vaidade. E se acha bi-campeã, antes da hora, a exatos 270 minutos do fim de tudo. São maus torcedores, que infelizmente têm o incentivo de uma imprensa tendenciosa em meu Estado.

Bom exemplo está lá mesmo no Rio Grande, onde uma das maiores rivalidades clubísticas produz pérolas como a divulgada hoje: "Há momentos em que até mesmo uma enorme rivalidade é deixada de lado. Na tarde desta segunda-feira, o jovem atacante Diego, do Internacional, admitiu ter ficado chateado com a queda do Grêmio para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro."

O futebol do Brasil merece coisa melhor. A essa fanática e doente torcida que me referi, cansada de quebrar seu próprio estádio e dos outros também, destruir estações tubos de transporte coletivo, bater em transeuntes, jogar objetos no gramado prejudicando seu próprio clube, eu dedico o gesto do garoto da foto. Se forem campeões, ainda duvido e torço contra, pelo menos aprendam a respeitar os adversários, a praticar o fair-play, a não desfazer das glórias alheias, virtudes somente presentes em gente educada e que vive outros sentimentos além do fanatismo.

Aos gremistas meu costumeiro respeito e admiração.

Falei. Tudo. E não me arrependo de nada!

Por Ery Roberto | 7:09 PM
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Domingo, Novembro 28, 2004

.:: rio
O SONHO E A VIDA REAL


Ontem à noite conversava com a Alicinha, minha assessora para assuntos do Rio de Janeiro. Ela se preparava para ir à Lagoa, onde 45 mil pessoas assistiam a inauguração da árvore de Natal, evento abrilhantado pela Orquestra Sinfônica Brasileira e o Coral da Fundação Bradesco.

Ficamos trocando informações sobre nossas cidades, comparando algumas coisas entre o Rio e Curitiba. Não é de hoje que acompanho todo o drama carioca e por cá sempre comentamos, em rodas de amigos, sobre a maldade que fazem (e principalmente "deixam fazer") com uma cidade símbolo de beleza, das nossas tradições brasileiras em todos os sentidos.

Momentos depois acessei reportagem fotográfica do Globo Online e me senti maravilhado com a beleza da festa, dos fogos, do evento em si e sua implícita proposta significativa de paz, harmonia e cristandade que bem representa o Natal. Na realidade, um sonho!

Momentos depois, ao acessar o site do jornal paranaense Gazeta do Povo, chamou-me à reflexão a charge do Paixão, retratando um pesadelo que é a realidade. Um paradoxo inconcebível, intolerável. O Papai Noel de Paixão pode ser qualquer um de nós. Infelizmente.


UPDATE [30.nov.2004] - Vale a pena ler no Basilides o post "O HORROR.....O HORROR", de 29.11, sobre o mesmo assunto.

Por Ery Roberto | 4:42 PM
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Sexta-feira, Novembro 26, 2004

.:: noite
A NINFETA




Minimalista,
No show da plataforma
Ela exibia depilada puberdade,
Dote mal coberto pela saia infantil,
Levantada pelo vento respirador do palco.

Talvez, nunca saiba, nem que eu cite,
Do meu pensamento no gênio Wilder.
Ali, o pecado exalava talco.

Quando terminou,
Já recomposta da seqüência,
Foi cumprir o trotteur de salão.
Aproximou-se, colado jeans.
Cheirava fumaça-jasmim.

Carícias de luzes em sua pele
Faziam o sorriso parecer suplício.
Não era nada Marilyn...

Corpo pueril,
Artificial, mente pueril,
Sensualidade ensaiada.
Lá no canto, um velho solitário
Segura a taça e embala o tédio.

Na decaída noite, ela persiste
Usando todos os sortilégios galantes.
Em casa, o rebento espera por remédio...

Por Ery Roberto | 4:02 PM
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Quinta-feira, Novembro 25, 2004


.:: rabisco


A árvore da consciência
Trouxe um fruto
Que nasceu, secou, agora esvai-se,
Sem tempo de amadurecer.
Restou-me trocar as sementes.
Replantar!

Mesmas teclas do concerto
Esgotaram sentidos em ladainha.
Esvaziou-se a platéia.
Restou-me compor outras peças
Para poder ao palco voltar.
Renovar!

Se o novo caminho a trilhar
Deixar de levar à iniciativa
Que cure suposto "trauma",
Resta-me, sem perder a ternura,
Fechar as cortinas e mudar o pomar.
Endurecer!

Por Ery Roberto | 9:05 PM
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.:: livros
ONDE NÃO SE RESPONDE




Hoje é noite da Claudia Letti. A partir das 19h, na EDIÇÕES ARTECLARA - Rua Lopes Quintas, 180 - Jd. Botânico - RJ, a nossa "afrodite" lança o primeiro volume da Coleção Literatura e Internet onde revela, com humor e sensibilidade, as histórias de uma mulher multifacetada pelo dia-a-dia.

É mais que uma coletânea de "posts" crônicas e poesias produzidos e publicados pela autora na internet em seu blog Afrodite sem Olimpo, pois Claudia não se contenta apenas com a exposição confessional do seu cotidiano, mas declara seu espanto pela amplitude do universo que a provoca, misturando elementos de diversas naturezas para decrever lindas experiências.

Daqui transmito toda minha energia positiva a esta colega blogueira, desejando-lhe uma noite de gala, onde certamente cada autógrafo haverá de se transformar em tesouro, pois certamente conterá um pouco do seu sorriso e carinho. Força Claudia!

O livro pode ser adquirido pela internet, clicando AQUI.

Por Ery Roberto | 4:57 PM
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Terça-feira, Novembro 23, 2004

.:: nos tempos do BB
EXPRESSÕES SEM SOMBRAS




Quando começou aquela febre do vídeo e todo mundo queria ter uma camera VHS, eu e Vergílio - um ex-colega do BB - fomos buscar duas concorders, da Panasonic, em São Paulo. Ele havia descolado um muambeiro com melhor preço. A viagem, além da compra, foi um bom motivo para uma escapadinha de final de semana.

Ao voltarmos fizemos planos e logo estávamos frequentando um curso na antiga Escola Fox de Vídeo e Fotografia, aqui em Curitiba. Do primeiro, pouco aproveitei. Resolvi fazer um segundo, que também ensinava edição.

Éramos doze candidatos a Spilberg, entusiasmados com nossas cameras penduradas no ombro e "meia idéia" (ainda sem data pra nascer!) na cabeça.

Hoje eu tenho vontade de reunir novamente todas as minhas visitas. Com elas cometi a indelicadeza de lhes fazer ficar horas no sofá da sala, lá em casa, tolerando aquela masturbação repetitiva de zoom in e zoom out. O movimento mais parecia alguém bêbado sofrendo para ajustar o foco de um binóculo enferrujado. Caso conseguisse, reuniria o povo, iria oferecer um bom café com tortas e pães de queijo, para pedir mil desculpas e tentar me redimir de tanta sacanagem.

Mas quem nasce pro basquete já sai calçando 46. Havia no grupo da FOX um sujeito cheio de boas idéias. Zé Roberto era diferente até quando carregava a camera, que parecia lhe obedecer com certa devoção na hora dos ajustes, nas gravações. Ao final do treinamento havia uma prova: apresentar uma produção de no máximo 5 minutos e que além de teste ainda valia um prêmio.

Ajeitei o equipamento no antigo Gol "caxotão" e fui pra Estrada da Graciosa, decidido a fazer umas tomadas e produzir o que chamei de "Descendo a Ladeira da Graça".

Zé Roberto arrumou um tripé, instalou a concorder debaixo de um orelhão da TELEPAR, ali na Rua XV, já quase na Av. Luiz Xavier, bem no ventrículo esquerdo da Boca Maldita e armou uma cilada. Mandou um amigo vestir uma daquelas placas de homem-propaganda (só visível de certa distância e presa ao peito), posicionou-o mais adiante, num ângulo favorável para a camera. Na placa estava escrito: "Se não olhar para aquela camera no orelhão, o azar é seu, não verá o sombra atrás de você".

Não havia quem não levasse um susto. Alguns davam aquele impulso parecido com uma "largada queimada de 100 m rasos". E a camera ali, registrando tudo. Era próximo ao meio-dia, hora de bom movimento. Depois de editado, com a inclusão de alguns efeitos, deu ao trabalho o título de "Expressões sem Sombras". A cena final tinha o videomaker Zé Roberto, em plano americano, mostrando a placa e o sorriso sarcástico, desaparecendo em fade out, com o Bondinho ao fundo.

A turma do curso era ruim de tudo, tanto que eu ganhei a medalha de prata (??) com minha "descida pela ladeira da graça", editada sobre a trilha musical Isn't She Lovely (Stevie Wonder) sendo tocada por ninguém menos do que Wagner Tiso e César Camargo Mariano (LP "Todas as Teclas"). A fita, coitadinha, já embolorou!

Prefiro que vocês conheçam a Estrada da Graciosa por AQUI. Vale a pena também ver o espetáculo de lugar onde se chega através dela, acessando AQUI.

Por Ery Roberto | 8:10 PM
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Segunda-feira, Novembro 22, 2004

.:: rabisco


[Parque Tanguá - Curitiba]

Receber-te, foi maior sonho realizado
Sentir-te, foi a esperança retornada
Ouvir-te, foi uma canção de amor
Abraçar-te, foi reencontro
Beijar-te, foi a alma purificar
Amar-te, foi renascer...

[hoje estes versos estão completando exatos 18 anos. Fiz pra minha filha logo que ela havia completado quatro meses de idade.]

Por Ery Roberto | 9:35 PM
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Domingo, Novembro 21, 2004

.:: a música do sul
ROMPENDO A FRONTEIRA REGIONALISTA




O tamanho deste nosso Brasil proporciona a possibilidade real da criação múltipla de ritmos e estilos sonoros. Cada região, com sua história étnica e suas influências culturais na formação da sua gente, tem uma forma diferente de se expressar.

O eixo Rio-São Paulo, além de ditar ritmos reconhecidos nacionalmente, exerce o poder de concentração, pois é formado por centros que pela sua estrutura e capacidade de divulgação atraem valores artísticos de todas as latitudes. O nordeste, região mais afinada com as tendências herdadas do afro, é um fenômeno dada a sua capacidade de exportar ritmos que se espalham facilmente por todo o território brasileiro, mas com uma particularidade única: não depende do eixão para fazer sucesso. A música nordestina é um estilo de vida. Já a parte central do país tem em Minas sua principal fonte de referência musical, marcada por movimentos tipicamente locais, como foi o "Clube da Esquina" e seus famosos criadores/integrantes. Seu sucesso também precisou passar pelos palcos do Rio e São Paulo para explodir.

O sul, diferente de tudo, é uma região onde a música parece fazer questão de manter uma fronteira. Não produzimos um ritmo que tenha contagiado o resto do país e se firmado como símbolo. Este fato se deve exclusivamente a diversidade que caracteriza a formação da nossa gente. Os processos migratórios encontraram aqui um novo odeon, mas nunca se reuniram em torno de uma proposta única de manifestação regional através da música.

O Rio Grande do Sul é uma exceção. Talvez seja o estado onde a regionalidade seja mais conhecida no país inteiro. São raízes muito fortes, plantadas nos costumes que fazem do gaúcho uma figura marcada pela autenticidade dos seus usos, crenças e coisa própria.

Num agradável paradoxo, foi lá que nasceram valores que conseguiram rasgar as linhas imaginárias dessa fronteira regionalista para mostrar ao Brasil inteiro o valor da nossa arte musical. Reputo que a querida dupla Kleiton & Kledir tenha conseguido essa façanha em função tanto do seu carisma, quanto da capacidade real de traduzir a regionalidade de forma simples, utilizando valores comuns marcados por intensa paixão e sentimentalismo.

Hoje estava ouvindo um CD com suas principais composições. A dupla gaúcha, sem qualquer contestação, é a maior representatividade de um estilo onde não se tenta exportar coisas típicas . Suas menções a cidade de Porto Alegre, e até mesmo a utilização de certo regionalismo gramático, não cultivam egocentrismo nem tão pouco trazem problemas para o consumo da sua arte. Isto, com certeza, deve-se a inteligência com que criram suas letras e arranjos, que em nenhum momento impõe a regionalidade como algo a ser aceito de qualquer forma. Sua principal virtude foi fazer de um som tipicamente sulista, uma arte com cara do Brasil.

Acho fantástico dizer ao baixo astral que basta, que deu pra ti! e prometer voltar à terra natal, lá curtir a antiga turma do bairro, imaginar que as guria tão tri afim, no Garopaba ou Bar João, que tem beladona e chimarrão. Que é bom sentir saudade da Redenção, do Fogaça e do Falcão, de um cobertor de orelha no frio e da galera colorada no Beira-Rio. Nota-se um misto de referenciais próprios e também invoca lugares e pessoas que são conhecidos por quase todo mundo. E o ar nostálgico excita através do sentimento.

Pra falar da Lagoa dos Patos, uma jóia da natureza no sul, Kleiton & Kledir encheram uma canção com pérolas que só seriam possíveis encontrar num "mar de água doce e paixão", assim como ela mesma:

Lá no fundo da lagoa
Dorme uma saudade boa
Longe desse céu sereno
O coração pequeno
E vazio ficou
Sei que a vida içou as velas
Mas em noites belas
Sou navegador
Lá no fundo da lembrança
Dorme um resto de esperança
De voltar à vida a toa
À beira da lagoa
Só molhando o pé
Seja em Tapes, São Lourenço
Barra do Ribeiro ou Arambaré


Mas foi em Paixão, que Kledir, seu criador, resumiu todo romantismo que nos marca quando buscamos cantar o amor.


Amo tua voz e tua cor
E teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete
Suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar
Ser feliz é tudo que se quer
Ah! Esse maldito fecho eclair
De repente a gente rasga a roupa
E uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar
Depois do terceiro ou quarto copo
Tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo
Não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém

Não quero ficar na tua vida
Como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme
E se encharca de perfume
Faz que tenta se matar
Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia
E essa aventura em carne e osso
Deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar
Tens um não sei que de paraíso
E o corpo mais preciso
Do que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita
E a boca mais bonita
Que a minha já tocou


O melhor da dupla foi coletado na série MILLENNIUM (Kleyton & Kledir) - 20 MÚSICAS DO SÉCULO XX. Vale a pena ouvir e viajar por estas nossas terras sulistas, nossa gente, costumes e toda nossa forma peculiar de fazer e sentir o amor.

Por Ery Roberto | 7:37 PM
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Sábado, Novembro 20, 2004

.:: arte de rua
ATITUDES RESOLVEM




A Rua das Flores, em Curitiba, é o seu palco. O transeunte apressado sabe que ele faz parte daquela via e o mais atento, que diminui a passada e até pára, conhece como ele faz o trabalho. Aqueles que arriscam participar da sua arte, conversam, ajudam, descobrem naquela figura uma rara inteligência.

Ademir Antunes dos Santos, artisticamente conhecido como PLÁ, é um catarinense radicado em Curitiba e está na batalha artística de rua há 20 anos.

O sotaque mudado para o deste da terra pinheiral e sua completa identificação com o calçadão da Rua XV, permitem dizer que Plá se transformou em uma destacada peça do mosaico curitibano de petit-pavet.

Ele compõe suas letras, interpreta-as ao violão, escreve livros, grava CDs independentes. Sua obra escrita (5 livros) é apresentada de forma inteiramente artesanal. Ao chegar no seu palco, estaciona a bicicleta no poste de iluminação, coloca os materiais sobre a floreira e estende no calçadão um tecido branco, do tipo morin. Oferece um pincel e ali sua platéia pode escrever o que vier na telha.

Estou convencido que Plá recolhe as idéias e também as transforma nos famosos pensamentos que vão parar nas páginas dos seus livros. Caça matéria prima coletiva.

O estilo Raul Seixas, seja de cantar como de pensar, é evidente, tanto que além das suas letras o Maluco Beleza é o único que eventualmente comparece ao seu repertório.

Perguntei-lhe se nesse tempo todo de vida artística foi procurado por alguém interessado em produzir sua arte. Respondeu-me que não. Apenas Jô Soares havia lhe procurado, mas que decidira não aceitar porque não concorda com aquele "sistemão da Globo".

Plá é um bom "plá". Também um bom vendedor. Este post, por exemplo, custou R$ 1,00, o preço de um livreto que ele monta xerocado com algumas das suas "verdades". Tem ficha limpa, é cidadão na plenitude dos seus direitos. É simples como seu meio de transporte e seu surrado par de sandálias, do tipo franciscano, já casado com o pedal e amante da famosa calçada da rua florida.

Ganha a vida sem tirar de ninguém. Distribui simpatia e é uma prova material e testemunhal que "atitudes resolvem". Pelo menos aquelas para as quais um ser humano, como ele, se propõe a tirar seu sustento.

O livreto que trouxe comigo contém citações que fazem pensar. Fiquem com algumas, com as quais faço uma brincadeira de associa-las a parte dos meus queridos amigos linkados neste blog. Ei-las:

» "O TEMPO AGORA NÃO É MAIS COMO FOI, E NÃO SERÁ COMO É."
[foi escrito pra você Dequinh@, a propósito do seu post "Escolhas", de 18.11.04]

» "CHAMAM DE LOUCO AQUELE QUE ENCONTROU E TRILHA O SEU PRÓPRIO CAMINHO."
[especialmente para , pelo seu post "Faltam Loucos...", de 18.11.04]
» "NÃO É FÁCIL... E QUANDO FICA FÁCIL, FICA PIOR."
[lembrei do Fernando Cals e seu Flamengo...]

» "POSSO SAIR SEM ME AUSENTAR."
[é a Kel. Ela sai, temporariamente, da blogosfera, mas não se ausenta do coração da gente...]

» "HÁ SIM LEALDADE, QUANDO HÁ VERDADEIRA AMIZADE"
[precisa pensar muito para ver aqui a fotografia da Mônica?]

» "O AMOR SE SUCEDE POR VIAS SUPERIORES A RAZÃO, POR VIAS TRAÇADAS PELO CORAÇÃO".
[é a cara da Cathy]

» "QUEM DESENVOLVE A VOCAÇÃO, CUMPRE A MISSÃO."
[é muito a Ana, em "Todos os Sentidos"]

» "O ACONTECER ESTÁ LIGADO DIRETAMENTE AO SER."
[e este é o próprio Plá...]


Acho que, por tudo, este post saiu baratíssimo!


(ATITUDES RESOLVEM é o título do segundo livro do PLÁ.)

Por Ery Roberto | 4:42 AM
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Sexta-feira, Novembro 19, 2004

.:: acontecimentos
1000º GOL DE PELÉ


Hoje o Brasil relembra o fato que talvez tenha sido a maior conquista individual de um atleta do futebol mundial. Na longínqua noite do dia 19 de novembro de 1969, trinta e cinco anos passados, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, marcava seu milésimo gol.
Eu ainda era criança e acompanhava os jogos de futebol pelo rádio. Embora não torcesse pelo Santos, tinha por Pelé a maior admiração. Há algumas partidas vinha se anunciando a possibilidade de acontecer este gol. Os comentaristas e narradores esportivos da época apostavam naquele momento mágico, que seria uma marca inédita, jamais acontecida, nunca vislumbrada por outro atleta brasileiro ou do resto do mundo.

Naquela noite eu estava sentado no degrau da porta de entrada da casa do meu pai, com um radinho de pilha ao ouvido, vibrando com a voz inesquecível do saudoso Haroldo Fernandes, da Rádio Tupi de São Paulo.

Era fissurado. Depois do gol, corri para a máquina de escrever do meu pai e eternizei numa folha de papel, que ainda tenho guardada até hoje cheia de manchas amarelas, as exatas palavras do Haroldo:

"...São decorridos 34 minutos, etapa complementar. Dia 19 de novembro de 1969, na cidade do Rio de Janeiro, Estádio Estadual do Maracanã. O rei do futebol acerta a sua coroa, ajeita o couro na marca penal. Vai tomar distância. Os jogadores do Vasco continuam reclamando. Todos os homens do Santos no meio do terreno, ninguém ao lado da grande área. Pelé dá as costas para o meio do terreno. Autoriza Manoel Amaro de Lima, bateu Pelé, é gol. Goooooooooooooooooooooooooooooool! Hisssssssssssss-tórico! Gol para placa no maior estádio do mundo. É o milésimo gol do rei do futebol, aplaudido por milhares de mãos, batendo palmas, em louvor aquele que é o maior craque do futebol internacional, rei do futebol de todos os tempos, rei dos artilheiros do mundo inteiro. Pelé - Edson Arantes do Nascimento -, a vinte e três horas e vinte e três minutos do dia 19 de novembro de 1969. O seu milésimo gol está cristalizado em Maracanã."

Espetacular. Um feito, um record, que dificilmente alguém quebrará.

Perceberam como funcionava a minha capacidade de reconstituir narrativas? Que inveja do Ery quinzão, que saudade dos velhos tempos onde pelo menos duas coisas eram melhores: minha memória e o futebol!

Por Ery Roberto | 11:18 AM
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Quinta-feira, Novembro 18, 2004

.:: imagem do dia
A NATUREZA ETERNAMENTE EM FESTA



[Foto recebida por e-mail sem menção da autoria]

Incrível! Dá até pra pensar que, mesmo aniquilada a natureza teima na sua continuação...

Por Ery Roberto | 12:42 PM
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Terça-feira, Novembro 16, 2004

.:: bon
CRÔNICAS MÔNICA




Fico imensamente feliz quando vejo meus amigos lá na página principal do Blogger. E a Mônica merece. O "Crônicas", pra mim e a maioria dos meus leitores, sempre foi uma escala obrigatória. Lá a gente pousa e recebe carinho, atenção, reciprocidade. Daqueles lugares que não dá vontade de sair mais. Com simplicidade na arte de escrever, Mônica dosa perfeitamente o humor e a seriedade das suas histórias, passando com invejável leveza mensagens que são verdadeiros bálsamos.

Parabéns amigona! Isto é merecido e incontestável.

Por Ery Roberto | 11:42 PM
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.:: neruda
AUSÊNCIA




Apenas te he dejado,
vas en mí, cristalina
o temblorosa,
o inquieta, herida por mí mismo
o colmada de amor, como cuando tus ojos
se cierran sobre el don de la vida
que sin cesar te entrego.

Amor mío,
nos hemos encontrado
sedientos y nos hemos
bebido toda el agua y la sangre,
nos encontramos
con hambre
y nos mordimos
como el fuego muerde,
dejándonos heridas.

Pero espérame,
guárdame tu dulzura.
Yo te daré también
una rosa.

Por Ery Roberto | 11:12 PM
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Domingo, Novembro 14, 2004

.:: música brasileira
MULHERES HARMONIOSAS



[Foto do site oficial - clique na imagem para ver mais]

A história da MBP registra a existência de excelentes grupos vocais femininos a exemplo do Quarteto em Cy, que consagrou-se através de suas participações nos antigos Festivais de Música, nos anos dourados da música brasileira, interpretando as obras dos monstos sagrados da composição, como Edu Lobo / Rui Guerra, Baden Powell / Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Chico Buarque de Hollanda, além de Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues e Herivelto Martins. Isto não seria tudo, pois mais recente investiriam em interpretações antológicas das músicas de Caetano, Milton, Gonzaguinha e Ivan Lins.

Outro grupo que deixou sua marca, num tempo inesquecível do disco music, nos anos 70, foram As Frenéticas, símbolo da discoteca Dancin' Days, criada pelo compositor e jornalista Nelson Motta, no Rio de Janeiro. Nós também sabíamos que eram todas "Bonitas e Gostosas" e "Perigosas".

O grupo vocal utiliza a harmonia e as infinitas possibilidades do instrumento musical mais afinado à disposição do ser humano, a sua própria voz. As tendências musicais no mundo inteiro revelaram artistas admiráveis cuja origem e formação se deu através dos grupos vocais e conjuntos corais. É sublime a junção harmônica de vozes ao produzir um som que é a expressão mais natural da capacidade de cantar.

Hoje tive contato com o fabuloso Arirê, surgido há 10 anos e considerado uma das principais revelações no Brasil pela sofisticação dos seus arranjos e perfeita combinação de vozes, que está lançando seu segundo CD - " Atenção vocal: 1,2,3,4..." uma homenagem à história musical do País.

O grupo foi formado nos anos 90, por quatro garotas estudantes de música - Gabriela Rossi, Mônica Olivetti, Selma Boragian e Virgínia Rietmann -, principalmente interessadas em executar música de alta qualidade. Este particular está visível em seu repertório, recheado das maravilhas de Johnny Alf, Roberto Menescal e Benito Juarez entre outros tantos. Renova-se através da interpreção afinada de sucessos de João Bosco e Aldir Blanc e até Tim Maia.

Seu recente CD faz uma homenagem aos grupos vocais brasileiros, como Namorados da Lua, Bando de Tangarás, Anjos do Inferno, Trio de Ouro, Os Cariocas, Quarteto em Cy, Quatro Ases e Um Coringa e MPB4. Interpretando composições que são uma verdadeira viagem na música brasileira, através de Haroldo Barbosa, Braguinha, Donga e Mauro Almeida, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Dominguinhos, Gilberto Gil, João do Vale, Antonio Maria, Ismael Neto e Paulinho da Viola, mostram que vieram para ficar e que sua música, acima de tudo, contém luz, harmonia inigualável e arranjos modernos produzidos para a múltipla capacidade interpretativa de suas vozes. É um show, que se completa pela simpatia, inteligência e beleza de cada uma das suas integrantes.

Já decidi. Quero este CD no Natal. Só falta agora achar quem será o sorteado a me presentear.

Por Ery Roberto | 5:07 PM
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.:: poesia
CECÍLIA NÃO MORREU




"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

[Cecilia Meireles - O Romanceiro da Inconfidência - 1953]

... o poeta não morre, estréia no céu!

Por Ery Roberto | 2:32 AM
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Sexta-feira, Novembro 12, 2004

.:: relações conjugais
MAIS REALISTA QUE O REI




Ontem à noite parei na Revistaria 24 Horas e li uma manchete numa dessas revistas baratas, cujo conteúdo editorial é um rosário de especulações sobre a vida alheia. Ou do cotidiano das "celebridades".

Estava lá: "Ela é mandona, ciumenta e já deu (!!) diversas coisas que eram dele. Ronaldinho está pê da cara e já repensa a relação."

A Daniela está querendo ser mais "felomenal" que o próprio fenômeno.
Gostaria de entender este particular no comportamento da moça. Será que ela está dando as coisas dele para outros ou resolveu fazer alguma doação de coisas dela que ele já considerava serem coisas dele? A gente nunca entende direito esses famosos.

Se o assunto tivesse sido comentado aqui no escritório, tenho certeza que um causídico de família já teria sentenciado: "Tá vendo, as mulheres são todas iguais!"

Apesar de toda evolução que se percebe nas relações conjugais, é intrigante observar como a possessividade resiste e até aumenta. Fico imaginando o poder daquele bocão soltando torpedos contra o craque, nas manchetes dessas revistas, em caso de uma ruptura. Pelo ritmo do andor, parece que o fenômeno amarrou o bode no poste errado.

Daí vem o outro lado de certas questões destas relações modernas, principalmente das "estrelas", caso comece a entrar água no bote. Onde Ronaldo achará lugar no estômago para engulir todo aquele festival de marketing que foi feito em cima do fato de ter encontrado a mulher ideal, a quem, inclusive, devia sua recuperação e o decantado auge físico, aos incentivos e "bons tratamentos" da Bocarelli? Esses caras falam demais. Aliás, jogador de futebol deveria ser mudo. Fernando Cals que o diga a partir da sua observação sobre o recente comportamento "falante" do Júnior Baiano no Fla.

Mas, voltando ao assunto, fica uma vez mais bem explícito que esse escancaramento que se dá às relações só serve para a imprensa colocar mais carvão no churrasco. Quando as partes caem na real a picanha já virou sola de sapato.

Certo mesmo estão alguns famosos por aí. A gente até se espanta quando o cara esteve numa festa, evento, viagem com uma fulana de tal, "sua esposa" há décadas. E tem muitos, não é invenção. Porisso que gosto do comportamento de um exemplo de atleta, "celebridade", como Zico, no que diz respeito à sua vida particular.

Acho que Ronaldinho marcou o primeiro gol contra da carreira. Fora dos gramados. Dentro do quadrilátero das suas, ainda, não resolvidas pretensões amorosas. Expressionante!

Sei lá. Se o fenômeno está "pê" da cara, com todo esse ciúme que dizem rolar da parte dela, é bem provável que a Bocarelli já tenha encomendado o trombone. Quando ela começar a executar, sai de baixo! A "cara" vai virar "vida"! Não confio em mulher de boca grande...

Por Ery Roberto | 6:18 PM
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Quinta-feira, Novembro 11, 2004

.:: rabisco


[Imagem de Mickael Whelan]

Já é tarde amor
O tempo fez da ausência um lapso
Que nos nega o atalho provável
Estamos além de nós mesmos
Em opostas cardealidades

Como retomar do meu ponto o teu norte
E vencer este quase infinito lapso
Sem recaminhar por antigas feridas?
Nego-me a clamar que retrocedas
Esta dor tu não mereces

E mesmo que eu me rotacione
Que retroatravesse o vale das lágrimas
Permaneceremos em igual abstração
Por não teres mais vivido meu eu
Por não deixares teu eu reviver-me

Então não refaças nosso sonho
Pelo menos nesta estação
Já que apagaste, reescreve na alma meu nome
Pois só o teu indelével na minha
Não faz ponte que atravesse indiferenças

Por Ery Roberto | 2:04 PM
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Quarta-feira, Novembro 10, 2004

.:: realidade social
O NOME DA FAVELA

[Esta crônica trata alguns personagens de forma impessoal por questões éticas]


Imagem de Abbas/Magnum Photos

Ocorreu-me certa curiosidade sobre o nome dado à favela. Bem verdade que muitas assumiram o nome do antigo bairro em que se localizam, mas certamente em outras a designação deve ter um pouco da criatividade do povo.

É interessante, principalmente para quem não conhece o Rio e toda sua história, ficar imaginando uma Rocinha em plena capital. E Parada de Lucas, será que hospedaram um médico por lá? Paradoxo chamar uma favela de Vila Ideal ou Cidade de Deus. Será? Por outro lado tem Vidigal, nome que soa chique na antítese da pobreza.

Em São Paulo tem uma favela mais recente que chamaram de Recanto dos Humildes. Certamente não foi o poder público municipal que assim a designou.

Conheço determinadas regiões onde foram construídas vilas com incentivo habitacional das antigas Cooperativas, a maior parte, hoje, falidas, cujo núcleo se deteriorou com o tempo e a crise brasileira, que agora são conhecidas por favelas da COHAB. O nome tem tudo a ver, pois o abandono das prefeituras e as invasões, construções irregulares e desordenadas de barracos apadrinharam o batismo.

Aqui em Curitiba, a maior favela tem uma história interessante neste particular. Durante muito tempo denominada Favela do Capanema, por estar cravada no bairro homônimo, às margens do poluído rio Belém, bem alí próxima ao legendário Estádio Durival de Brito e Silva (propriedade do Clube Atlético Ferroviário, hoje Paraná Clube), é um exemplo difícil de entender.

Tudo bem Favela do Capanema, mas com o advento do Jardim Botânico, construído ali defronte, a história mudou. A municipalidade acabou alterando o tal zoneamento e criou o Bairro Jardim Botânico e não seria "chique" para Curitiba, a capital ecológica do Brasil, ter sua mais conhecida favela denominada de "Jardim Botânico". Mudaram o nome do aglomerado humano para Vila Pinto.

Lembro que houve certa polêmica e surgiu um chio dos moradores. No auge de uma propaganda televisiva que tratava o distinto por "bráulio", a favela passou a ser conhecida por Vila Bráulio.

Por força do meu trabalho, algum tempo atrás eu ia sempre à Vila Pinto. Conheci algumas pessoas por lá e nenhuma delas soube me explicar quem foi esse tal Pinto, recém homenageado. Seria um ex-morador do local? Um garanhão conhecido? O rei da prole? O negão cheio de paixão, meio como personagem do pagode? Nada disso, ninguém sabe ninguém viu!

Mais recente, conheci um senhor, velho contador de histórias, hoje meio devedor da justiça, mas boa praça. Este chegou perto. Certo dia me contava, com toda sua gíria, o caso da filha de um vizinho. A mocinha, 16 anos, havia passado por nós, defronte à casa onde conversávamos. Estava grávida. Ela deixava na gente um misto de tristeza e admiração. Era linda! Magra, alta, de pele alva como as polacas de Trevisan, cabelos encaracolados e um par de olhos com um azul que o céu de Curitiba deveria ter inveja. Mas tinha o semblante triste e desconhecia o sorriso tão aberto dessa idade.

Contou-me o velho que aquele rebento seria o segundo. A loirinha, maltrapilha e descalça, era a penúltima de uma prole de dezesseis irmãos. O pai dela já contabilizava 68 netos e 13 bisnetos. Fora os que ele não sabia. Só que genros, de verdade, só tinha quatro. E o velho ainda me recomendou: "entenda como quiser, meu filho!"

Ao final, ele que tem apenas dois filhos, encaçapou uma frase pra lá de elucidativa. "é porisso que isto aqui virou a Vila Pinto. Mas é um pinto bem entonado, assim, com orgulho: PIN-TO!"

Explicatum est! Talvez oeste também. "Você já pensou se a gente tivesse que arrumar uma justificativa para tantas orquídeas? Isto nós deixamos para o Lerner, lá do outro lado do asfalto, na estufa botânica da Da. Fanchette Rischbieter".

Ri demais com o velho condenado.

É, isto aqui(ali) também é um pedaço de Brasil, ai, ai... Por isto tem este espírito brincalhão, apesar da alma sofrida por tantas carências e desprezos. Do poder público e até de nós mesmos...


DUAS ÓTICAS SOBRE QUESTÕES HABITACIONAIS NO BRASIL

"O aumento vertiginoso das favelas, dos condomínios fechados, shopping centers e centros empresariais ao longo das décadas de 80 e 90 revela essa fragmentação socioterritorial da cidade, que compartimentaliza os territórios, promovendo uma vida urbana confinada em circunscrições controladas, protegidas ou vulneráveis, de alta e baixa renda."

- [Raquel Rolnik, São Paulo - urbanista, professora do Mestrado em Urbanismo da FAU-PUC Campinas e técnica do Instituto Polis. Foi Diretora de Planejamento da cidade de São Paulo (1989-92) e é autora dos livros "A Cidade e a Lei"(Studio Nobel/FAPESP), "O que é cidade" (Brasiliense) e "Folha Explica São Paulo" (Publifolha)]


"A favela foi a maior das minhas escolas. O meu mundo é a favela, mas o que me preocupa não é somente a favela da Vila Prudente, mas sim a sua totalidade. Vejo esse fenômeno como efeito, cuja causa não está dentro dela. E isso representa muito bem o sistema. Faz parte do sistema do mundo capitalista. O que eu vejo: favelas, miséria no campo, miséria em todos os setores, eu atribuo a causa das favelas a essa miséria toda. Condeno o sistema, condeno os conservadores desse sistema, que não aceitam nem mudanças, nem renovação de estruturas".

- [Manoel Francisco Espíndola (1915-1990), presidente da Sociedade Amigos da Favela e coordenador das favelas de São Paulo. Espíndola chegou a São Paulo no ano de 1957. Sem moradia, foi viver na favela da Vila Prudente (naquela época, só havia mais uma favela na cidade, a do Vergueiro, já extinta), começando sua longa batalha contra a discriminação dos favelados. Lutou também pelo direito a serviços públicos, como sistema de esgotos, água, luz, ambulatório e educação de qualidade. Sua visão sobre a questão da moradia era abrangente e aguda.]

Por Ery Roberto | 2:09 PM
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Terça-feira, Novembro 09, 2004

.:: drogas
ATÉ ONDE VAI A TOLERÂNCIA?



[Imagens da Metropolitan Police Service - London]

O impacto capaz de causar a série de fotos mostradas pela Revista VEJA - Edição 1879, de 10.11 -, em reportagem sobre a Campanha antidrogas promovida pela Scotland Yard, em Londres, é devastador.

A campanha

"Não deixe que traficantes mudem a cara do seu bairro". Esta chamada e a série de fotos chocantes, colocadas em cartazes, anúncios e até discos de papelão para apoiar copos de cerveja, embora sob a expectativa pessimista de especialistas e até mesmo da polícia sobre seus resultados, pretende ir mais além. O objetivo é também incentivar a população ao hábito da denúncia anônima sobre a presença de traficantes nas imediações de dezessete bairros londrinos.
É neste aspecto que a campanha ganha valor. Não há como combater um mal tão destruidor sem atacar suas origens. Pelo menos aquela que está mais próxima da população. A simples punição de usuários, em qualquer que seja o nível - psicológico ou jurídico - não basta, pois assemelha-se ao ato de ministrar antitérmicos para baixar a febre do paciente sem diagnosticar-lhe a infecção.

As fotos

O material básico da campanha londrina foi fornecido pela polícia americana, tirado do prontuário de três viciadas, presas em diversas ocasiões por crimes relacionados com sua dependência.
A série de Roseanne Holland (ao início), da Flórida, detida pela primeira vez aos 29 anos e a partir daí, seguidamente, até os 37, retrata uma degradação física terrível pelos efeitos do uso do crack. A outra, de Melissa Collara (abaixo), também da Flórida, presa dezessete vezes por prostituição, é vista em outro cartaz, primeiro aos 18, depois aos 21 anos, com as feições devastadas também pelo crack. Segundo se cogita, essas mulheres já devem ter entrado em óbito.

Penny Wood (ao lado), de Chicago, estampada nos cartazes aos 36 e aos 40 anos, arrasada pelas anfetaminas, está viva e recebe tratamento há 18 meses. Ela apóia a campanha com um depoimento escrito, dizendo: "Não só a desfiguração externa é intensa - o efeito dentro do corpo é pior ainda".


Registra a reportagem que num prazo de quatro a oito anos, as três mulheres definharam, fisicamente, de maneira assustadora. Faces normais se transformaram em rostos encovados e enrugados, dentes estragados, todo sinal de vitalidade parece ter sido sugado por um aspirador gigante. "Um dos efeitos mais visíveis das drogas estimulantes, como a cocaína, é o emagrecimento extremo, pela perda quase total de apetite. Sob efeito da droga, o usuário não se alimenta, o corpo começa a sofrer de subnutrição e desidratação e, nesse estado, o organismo é acometido por infecções diversas", explica o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Escola Paulista de Medicina.

E nós?

Lendo sobre isto fiquei pensando sobre o comportamento da população brasileira com relação ao problema. Aqui, em algumas capitais, também existe o serviço de denúncia anônima, mas nunca soube notícia da sua eficácia. Nosso comportamento é questionável. Costumamos sentir o problema, de forma mais intensa, apenas quando ele eventualmente atinge alguém do nosso círculo familiar. Por outro lado, a realidade do vício no Brasil tem outros contornos. A traficância já dominou territórios, impôs sua ditadura e se transformou num poder paralelo, mata e dá proteção para poder se manter.

Além disto, é constrangedor, em casos como o do cantor(?) Belo, que não está preso por delito cometido na qualidade de usuário, mas sim por envolvimento direto com o tráfico, ser bajulado por fãs que se instalam com cartazes pedindo sua liberdade defronte ao local onde se encontra custodiado.

É triste ver uma imagem assim, como a divulgada hoje pelo jornal "O Globo". Acredito que este tipo de atitude seja produzido apenas com a avaliação automática da emotividade. O fato tem fronteiras maiores. Se Belo é inocente, por que foi levado a mentir no primeiro depoimento, conforme ele mesmo mencionou numa fita, gravada com o objetivo de sua própria defesa? Por que se mantinha, recentemente, escondido em local minuciosamente preparado dentro da sua própria casa?

O tráfico é um delito cometido contra a sociedade. Sua conseqüência é a destruição de valores e da própria vida humana em benefício do suposto poder e do ganho fácil. Se alguém o comete e é julgado dentro do cumprimento de todos os ritos que exige a legislação, inclusive o da observância do princípio da ampla defesa, o que questionar?

O ato do fã clube soa-me como total divergência de princípios. Será que lá estariam, de igual modo, pedindo a liberdade de algum traficante ou de qualquer cidadão envolvido em crime hediondo, caso tivessem sofrido conseqüências para si ou para algum de seus familiares?

É preciso, primeiro, tirar a roupa da hipocrisia, para depois vestir as fardas da guerrilha contra as drogas. Aliás, a verdadeira paz, em nosso tempo, passa obrigatoriamente pela aniquilação deste "poder", que inexplicavelmente o "aceitamos" cada dia mais...

Por Ery Roberto | 6:33 PM
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Segunda-feira, Novembro 08, 2004

.:: imagem do dia

Hoje queria escrever sobre paz, porém uma montagem com algumas imagens bem atuais construiu o meu pensamento. Façamos dela uma prece.

Por Ery Roberto | 7:58 PM
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Sexta-feira, Novembro 05, 2004

.:: rabisco paródico



"desenho14-crayon1956" by Enrico Bianco

Eu sei porque a gente cresce
E deixa o guri distante:
É só pra ter lembranças
No banzo da velhice entrante.

Onde andará a faceirinha
Que me ensinou o "abecê"?
Ataulfo, caro amigo,
Quero cantar como você!

Onde andará a professorinha?
Saudade faz doer o coração.
Sonho um abraço apertado
Pra devotar-lhe a gratidão.

Eu era igual a toda gurizada,
Vivia na tal "roda de bolinha"
Jogando umas contas azuis
Como os olhos da professorinha.

Agora vejo no gude refletido
Seu doce olhar de saber,
Um pedaço da velha infância -
Princípio do querer crescer.


[Ataulfo Alves - 1909 ~ 1969 - compôs Meus Tempos de Criança, onde cantava sua paixão por Mariazinha, a professora, que era feliz e não sabia...]

Por Ery Roberto | 2:19 PM
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Quinta-feira, Novembro 04, 2004

.:: nos tempos do BB
FAZENDO POESIA NO DIA-A-DIA




Quem me acompanha já percebeu que menciono sempre aqui os meus tempos de funcionário do Banco do Brasil. Isto não ocorre apenas porque ao servir naquela instituição, por longos vinte anos, tive um aprendizado profissional inigualável e uma convivência humana sem precedentes. Ocorre, também, porque foi um período fértil de alegrias, de trocas constantes, de ajuda mútua e principalmente de realizações pessoais.

Lá encontrei e tive alguns dos meus melhores amigos, muitos preservados até hoje, embora por exigência do Banco ou da própria vida, certos deles estejam bem longe daqui.

De 1978 a 1992 eu trabalhei numa unidade encarregada do processamento de serviços e comunicações, o CESEC São José dos Pinhais (a 20 km de Curitiba). Éramos por volta de 400 funcionários, distribuídos em quatro turnos. Como servi em todos eles, conheci toda aquela turma.

Quando a unidade completou seu décimo aniversário, em 1988, fomos desafiados a criar alguma coisa que pudesse marcar o evento. O chefe, João Luis da Silva Pinto, um dos grandes amigos que tive, sabia do talento de alguns funcionários com as letras. Incentivou o Artur Roberto Roman a organizar uma exposição dos poemas dos funcionários, que durante uma semana foram mostrados em cartazes pelos corredores do prédio.

Dalí surgiu outra idéia: perpetuar, numa antologia, os melhores poemas. Artur pegou uma SCOPUS-Nexus 2600, uma impressora RIMA XT180 (nossa! essas coisas devem estar hoje no museu do Banco!), dois colaboradores (Bogdan e Marco Aurélio) e materizou o sonho.

Trabalhávamos com máquinas, computadores e toneladas de papéis, mas nem por isto fomos capazes de nos tornar autômatos. Na apresentação do trabalho, João Luiz disse: "Quanto ao aspecto emocional, estou seguro de minha afirmação, pois a Antologia está aí para gritar que não somos bits, comandos ou programas. Nela os bits transformaram-se em letras, os comandos em palavras e os programas em estrofes. A Antologia está digitada. Cabe ao leitor o processamento e a conferência. Bom, trabalho...". Coube-me a frase da última página: "Fica mais uma vez provado que também podemos ser bancários...".

O poema do último post, "TUDO", com pequenas alterações, fez parte daquela mostra e da Antologia.

Hoje quero que vocês fiquem com duas maravilhas de composição, também integrantes do trabalho, da autoria do grande amigo JOSÉ LUIZ CASELA (ainda funcionário do BB e professor da PUC-Pr).


DISSONÂNCIA

Calado
Sinfonia que acaba
Em cada acorde do silêncio
Calado
sintonia que acorda
No silêncio dos olhos que fecham o dia

Colados
Silêncio e olhos,
Vagueiam...
Abrindo-fechando...
Orquestrando vagalumes
Que no acende-acaba
Acordam a noite
E desacordam o dia


FRAÇÃO ETERNA

Enquanto finito
Sem reter flores,
Raízes...
Nem último alento.

Após a terra ter vencido
Seguirei vazio,
Arremetido sem as sombras
Entre os olhos (já sem brilho).

Enquanto finito
Fração de vida exposta
Resta-me somente esta alma
Alugada...
Infinito emprestado
Oferecendo a Ti um abrigo.

Por Ery Roberto | 3:45 PM
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Quarta-feira, Novembro 03, 2004

.:: rabisco antigo
TUDO




É tudo sentir o sol
Penetrar seu calor,
Sentir o cheiro da flor,
Trazer-te a presença surgida do sonho.

É tudo sair pelas tardes,
Beijar teu rosto, tocar teu corpo.
Depois,
Contemplar estrelas que só aparecem pra nós.
É tudo dizer-te com música
Que a vida nos espera em qualquer canto.

É tudo sair pela praia deserta, areia macia,
Sentir somente a tua companhia.
É tudo abraçar-te mulher,
Na certeza do teu amor, no acalanto desses lábios
Tão doces como mel.
É tudo, quase sentir o céu...

Por Ery Roberto | 10:32 PM
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Terça-feira, Novembro 02, 2004



.:: eua
QUEM VENCERÁ?




Agora, 17h52, horário de verão, no Brasil. Segundo as previsões, ainda hoje à noite saberemos quem será o novo presidente dos EUA. Bush, auto-confiante, afirmou confiar no julgamento do povo. Nada de novidade, vindo de um senhor prepotente, que acha que a vitória do autoritarismo republicano será o melhor para os americanos e para o mundo todo. De outro lado, o senador Kerry, o democrata, pediu aos eleitores 'um novo começo' [*].

Acho que a América e o mundo têm direito a um recomeço e estou com Kerry. Chega de sofismas. Chega da força bruta, da inconseqüência, está na hora de unir as pessoas e, acima de tudo, preservar o caráter salutar da alternância. Os anos Bush não foram bons, nem para os americanos, nem para o resto do mundo. A violência não se combate com mais sangue. É preciso mudar o curso, não sem antes estabelecer novas diretrizes através da guinada ideológica.

Embora o panorama identifique uma acirrada disputa, ainda confio na lucidez do povo americano. A atual circunstância, caso Kerry seja o vencedor, fará com que seu objetivo primeiro seja o de unir as correntes contrárias, reunificar o pensamento de um país dividido, o que particularmente entendo que tenha maiores condições que o atual presidente.

John Kerry declarou: "O presidente já fez uma escolha. Ele fez uma escolha sem um plano para conquistar a paz", disse Kerry a partidários em La Crosse. "Precisamos de um comandante-em-chefe que saiba trazer outros países à mesa de negociações".

O mundo aguarda. Em silêncio... Aqui também formamos expectativas, revenciando nossos mortos. Inegavelmente, muitos vítimas de um estado de coisas que têm tudo a ver com a pobreza e o caos social cuja origem encontra certa convergência com a política internacional da qual os americanos são personagens importantes, pois não há como negar a interferência capitalista daquela potência sobre o mundo.

[*] - COMEÇAR DE NOVO
(Ivan Lins / Vitor Martins)

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido...

Por Ery Roberto | 5:52 PM
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.:: matemática
ALÔ, FAÇA ESTA CONTA




1- digite os 3 primeiros algarismos do número do seu telefone (não dá certo com número de celular, nem número de telefone com 8 dígitos);
2- multiplique por 80;
3- some 1;
4- multiplique por 250;
5- some com os 4 últimos algarismos do mesmo telefone;
6- some com os 4 últimos algarismos de novo;
7- diminua 250;
8- divida por 2.

E então, reconhece o resultado?

Por Ery Roberto | 4:01 PM
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