Durante
mais de uma década, o caso da reencarnação de Bridey Murphy provocou espanto,
irrisão e controvérsia. Apresentamos a seguir, pela pena de um conceituado
filósofo, uma reavaliação do caso. Ducasse é Professor Emérito de Filosofia, da
Universidade Brown, de Providence, no Estado de Rhode Island. Este estudo foi
publicado pela primeira vez, com o título de “Como se Encontra Hoje o Caso da
Procura de Bridey Murphy”, na “Revista da Sociedade Americana de Pesquisas
Psíquicas”, em janeiro de 1962.
O livro recentemente publicado e muito discutido, “The Search for Bridey Murphy” (A Procura de Bridey Murphy), Nova York, 1962, trata das seis tentativas feitas por seu autor, Mr. Morey Bernstein, entre 29 de novembro de 1952 e 29 de agosto de 1953, para fazer voltar à consciência de uma paciente profundamente hipnotizada, “Ruth Mills Simmons” (pseudônimo de Virginia Burns Tighe), uma vida anterior à atual, e para obter dela pormenores concernentes àquela vida que pudessem ser verificados, mas que não pudessem ser por ela conhecidos, de qualquer maneira normal.
A experiência se mostrou notavelmente bem-sucedida, e conseguiu-se esclarecer um certo número de pormenores obscuros acerca da Irlanda, que a paciente em transe forneceu. Isso e a forma coloquial – reproduzida palavra por palavra no livro – em que foram apresentados aqueles pormenores intrinsecamente monótonos deram à idéia da reencarnação uma solidez que a tornou mais plausível para os leitores do livro do que as explicações de que dispunham antes. E isso, por sua vez, abriu-lhes os olhos para o fato de que a reencarnação, se for verdade, pode oferecer uma explicação racional para as grandes disparidades – de outro modo tão chocantes para o sentimento de justiça humano – que marcam, desde o nascimento, a capacidade e o destino dos indivíduos.
Devido a isso o livro se tornou um best seller, quase imediatamente após a sua publicação. A idéia da reencarnação, porém, contraria tanto as crenças religiosas dominantes no Ocidente como certas presunções que, embora realmente gratuitas, predominam atualmente nos círculos científicos ocidentais. Em conseqüência, o súbito aparecimento da hipótese da reencarnação perante a atenção pública levou os representantes, tanto da ortodoxia religiosa como da ortodoxia científica, a atacarem o livro.
Os aspectos sociológicos do caso Bridey Murphy apresentavam um interesse excepcional, mesmo se deixando de lado as provas a favor da reencarnação que se admitia fossem por ele oferecidas. Com efeito, constituíam eles eloqüentes contribuições à psicologia da crença e da descrença, tanto nos cientistas que se aproximavam da “terra encantada” do paranormal como dos guardiães dos dogmas religiosos. Por esses motivos, e porque o caso ainda é bem lembrado hoje, será interessante rever e discutir aqui todos os aspectos daquele interessante episódio.
1- O
Hipnotizador e Autor e a sua Paciente.
O autor do livro, Morey Bernstein, é um homem de negócios do Estado de Colorado, formado pela Universidade de Pennsylvania. Seus estudos, segundo parece, não incluíram um curso de psicologia anormal, pois foi somente mais tarde que ele – depois de inesperadamente assistir a uma demonstração particular de hipnotismo – pôs de lado a sua descrença na realidade da hipnose. A partir de então passou a estudar o assunto e a fazer experiências de hipnotismo. Por ocasião da primeira das sessões “Bridey Murphy”, em 1952, ele tinha cerca de 10 anos de experiência do hipnotismo, já hipnotizara centenas de pessoas e, em muitas dessas experiências, fizera com que os pacientes regressassem a várias fases de sua infância. Assim, embora os mais recentes ataques ao livro tenham insistentemente chamado Bernstein de hipnotizador “amador”, ele o é no sentido de não cobrar honorários pelos serviços prestados, mas não no sentido de lhe faltar experiência prática, ou de não estar bem enfronhado na literatura sobre o assunto. Sob esses dois últimos aspectos, ele, sem sombra de dúvida, está muito mais capacitado do que estavam diversos médicos e dentistas participantes dos seminários que freqüentou, e os quais, por serem diplomados, recebiam um certificado autorizando a se utilizarem do hipnotismo em sua prática médica ou odontológica.
Um conhecido de Bernstein, familiarizado com a idéia da reencarnação, chamou a sua atenção para o assunto, e ele ficou sabendo, então, que tinham sido feitas tentativas, à primeira vista bem-sucedidas, por alguns hipnotizadores, para levar seus pacientes a se recordarem de fatos ocorridos antes de seu nascimento ou concepção. Isso o levou a fazer uma experiência semelhante com uma de suas pacientes, Virginia Tighe, a “Ruth Simmons” de seu futuro livro.
Virginia, uma senhora casada, nascera em 27 de abril de 1923 e era do casal George Burns, que residia em Madison, no Estado de Wisconsin. O casamento dos Burns não durou muito tempo, e, pouco depois de Virginia fazer três anos, a irmã de seu pai, Sra. Myrte Grung, levou-a para Chicago, para morar em companhia dela e de seu marido, um norueguês. Ali, Virginia teve uma vida normal, fazendo o curso primário e secundário, e, afinal, cursando durante um ano e meio a Universidade do Noroeste. Aos vinte anos, casou-se com um jovem do Corpo Aéreo do Exército, que morreu na guerra um ano depois. Mais tarde, casou-se em Denver com seu atual marido, o comerciante Hugh Broan Tighe. Tiveram três filhos. Em Pueblo, Estado do Colorado, onde moraram durante alguns anos, Virginia e seu marido travaram conhecimento com o casal Bernstein.
Quando Bernstein resolveu tentar fazer regredir a consciência de um paciente hipnotizado a uma vida anterior, ocorreu-lhe a idéia de que a probabilidade de êxito seria muito maior em um paciente capaz de uma hipnose profunda, sonambúlica. Lembrou-se então que, algum tempo antes de ter tido idéia de tentar a regressão a uma vida anterior, hipnotizara por duas vezes a Sra. Tighe, e ela prontamente atingira aquele estado hipnótico. Isso e o fato de Virginia ignorar de todo o seu recente interesse pela reencarnação o levaram a pensar nela como paciente em suas experiências sobre a regressão. Embora ela e o marido tivessem o tempo ocupado por atividade de diversa natureza, o casal acabou concordando. As seis sessões que constituem a base do livro foram realizadas, com intervalos, no decorrer dos meses seguintes, tendo sido gravadas em fitas.
2-
Aparecimento de Bridey Murphy Durante os Transes de Virginia
Embora nem Virginia nem Berstein nunca tivessem estado na Irlanda, logo que ela caiu no estado de profunda hipnose regressou primeiro à infância, mas, instruída para ir além de sua vida atual, e contar o que via, ela começou a descrever episódios de uma vida em que era Bridey (Bridget) Kathleen Murphy, uma irlandesa nascida em Cork, em 1798, filha de um advogado protestante de Cork, Duncan Murphy, e de sua esposa, Kathleen. Disse que cursara uma escola dirigida por uma tal Sra. Strayne e que tinha um irmão chamado Duncan Blaine Murphy, que se casou com a filha da Sra. Strayne, Aimeé. Tinha tido um outro irmão, que morreu ainda criancinha. Aos vinte anos de idade, Bridey casou-se, em uma cerimônia protestante, com um católico, Sean Brian Joseph McCarthy, filho de um advogado de Cork. Brian e Bridey se mudaram para Belfast, onde ele estudara e onde, segundo Bridey, acabou lecionando Direito na Universidade da Rainha. Em Belfast, realizou-se nova cerimônia matrimonial, com um sacerdote católico, o Padre John Joseph Gorman, na Igreja de Santa Teresa. O casal não teve filhos. Ela viveu até os 66 anos e foi – para usar a sua expressão – “ditched” (metida em um fosso), isto é, enterrada em Belfast em 1864. Muitas outras de sua informações referiam-se a coisas que pareciam muito improváveis para Virginia ter conhecimento de uma maneira normal, mas que poderiam ser verificadas ou rejeitadas. E a “procura” de Bridey Murphy consiste na procura que se fez de fatos ou registros que pudessem confirmar ou desautorizar tais revelações.
3-
Principais Documentos da Controvérsia Sobre Bridey Murphy
Não se procurará, no que se segue, rever todos os pontos especiais em torno dos quais se fez o debate na controvérsia Bridey Murphy. Devem, contudo, ser mencionados os principais documentos que, juntos, constituem a história do caso, e nos quais se baseiam as conclusões que serão oferecidas. Para facilitar as citações, será usado um símbolo para cada documento, usando-se as iniciais do título do documento em questão.
As primeiras informações sobre as experiências de regressão no caso Bridey Murphy apareceram em 12, 19 e 26 de setembro de 1954, em “Empire”, suplemento dominical do jornal “Denver Post”, em três artigos, intitulados “A Estranha Procura de Bridey Murphy”, da autoria do jornalista William J. Barker.
Seguiu-se um artigo intitulado “More about Bridey” (Mais acerca de Bridey) no “Empire” de 5 de dezembro de 1954.
O documento seguinte é o próprio livro “The Search for Bridey Murphy” de Bernstein, publicado em janeiro de 1956 por Doubleday & Co. O último capítulo revela os resultados, até então, da investigação que o editor do livro promovera por intermédio de um escritório de advocacia e várias bibliotecas e agências de detetive da Irlanda. Posteriormente, o Chicago Daily News, que estava publicando um resumo do livro, deu instruções ao seu representante em Londres, Ernie Hill, para ir à Irlanda e lá permanecer por três dias, promovendo novas pesquisas, de Cork a Belfast. Em vista, contudo, da extensão do território a ser coberto e da exigüidade do tempo autorizado, essa iniciativa dificilmente teria êxito, e realmente se revelou infrutífera.
Mais tarde, o diretor do Denver Post enviou William J. Barker à Irlanda para uma permanência de três semanas com igual incumbência. O que aquele jornalista encontrou e deixou de encontrar foi objetivamente revelado em um suplemento de doze páginas do jornal, em 11 de março de 1956, intitulado “The Truth About Bridey Murphy” (A Verdade Acerca de Bridey Murphy).
A revista Life, em seu número 19 de março de 1956, publicou um artigo em duas partes, uma das quais se intitulava “Here Are Facts About Bridey that Reports Found in Ireland” (Eis os Fatos Acerca de Bridey que os Repórteres Verificaram na Irlanda). Anunciava-se que aquela parte fora compilada com base nas informações de W. J. Barker, Ernie Hill e da própria correspondente de Life, Ruth Lynam.
A segunda parte do artigo da Life intitulava-se “Here Are Opinions of Scientists About Bridey’s Reincarnation” (Eis a Opinião de Cientistas Acerca da “Reencarnação” de Bridey) e apresentava os pontos de vista de dois psiquiatras, Drs. J. Schneck e L. Wolberg, a respeito do caso.
O documento seguinte consiste em uma série de artigos publicados em maio e junho de 1956 pelo Chicago American, e reproduzidos em outras publicações de Hearst (San Francisco Examiner, New York Journal American), procurando mostrar que as supostas lembranças de Virginia de uma vida como Bridey Murphy na Irlanda eram, na realidade, recordações, guardadas no subconsciente, de sua infância em Madison, Estado de Wiscosin, e em Chicago, de misturas com casos ocorridos na Irlanda, com os quais – afirmava um dos artigos – fora “regalada” por uma tia que era “irlandesa como os lagos de Killarney”. Outro dos artigos do Chicago American dizia que a verdadeira Bridey Murphy fora encontrada, e era uma tal Bridie Murphy Corkell, cuja casa em Chicago ficava em uma rua transversal a uma das ruas em que Virginia residira.
Em 17 de junho de 1956, o Denver Post publicou um artigo de autoria de um dos seus redatores, Robert Byers, intitulado “Chicago Newspaper Charges Unproved” (Não Comprovadas as Acusações do Jornal de Chicago), que comentava criticamente as alegações da série de artigos do Chicago American.
Em 25 de junho de 1956, Life publicou uma curta reportagem,”Bridey Search Ends at Last” resumindo as afirmações do Chicago American (Termina Afinal a Procura de Bridie), e publicando uma fotografia de Bridie Corkell com seus netos.
Também em junho de 1956 foi publicada uma edição tipo livro de bolso de “The Search for Bridey Murphy”, à qual foi acrescentada um capítulo, da autoria de William J. Barker, sobre as investigações na Irlanda, da autoria de William J. Barker, sobre as investigações na Irlanda, apresentando de maneira convincente as principais conclusões que, apesar de várias alegações, parecem válidas à luz dos resultados das investigações feitas por ele mesmo e por outros, salientando que “a autobiografia de Bridey se sustenta fantasticamente bem, à luz dos fatos difíceis de serem obtidos que acumulei”.
Na primavera de 1956 foi publicado em Nova Iork pela editora Julian Press um livro, A Scientific Report on “The Search for Bridey Murphy” (Relatório Científico sobre, etc.), com capítulos assinados pelos Drs. M. V. Kline, Bowers, Marcuse, Raginsky e Shapiro, e uma introdução do Dr. Rosen.
Em outubro de 1956, o Dever Post publicou, em seis números, uma entrevista de Virginia para o jornalista W.J.Barker, intitulada “How Bridey Changed My Life” (Como Bridey Mudou a Minha Vida), na qual ela comentava várias coisas que tinham sido publicadas a seu respeito.
Além dos trabalhos acima citados, apareceram inúmeros outros em jornais e revistas sobre o caso, da autoria de psiquiatras, psicanalistas e outros profissionais.
Assim, por exemplo, o número de verão de 1956 da revista Tomorrow contém vários.
O caso também provocou uma série de artigos nos números de março a dezembro de 1956 da revista mensal teosófica Ancient Wisdow (Sabedoria Antiga), alguns tratando da própria encarnação, e outros chamando a atenção para os pontos fracos da série de artigos do American.
Passando em revista o SRSBM, no número de janeiro de 1957 do Journal A. S. P. R, o Dr. Ian Stevenson, chefe do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade da Virginia, manifesta sua decepção com o livro, apresentando um certo número de razões para isso.
4-
Afirmações de Bridey que Não Foram Confirmadas Até Agora
Nenhuma confirmação se conseguiu ainda que um advogado chamado Duncan Murphy e sua esposa Kathleen tenham vivido em Cork, em 1798, e que tiveram naquele ano uma filha, Bridget Kathleen; nem que uma certa Bridget Kathleen Murphy tenha se casado em Cork com um católico chamado Sean Brian Joseph McCarthy; nem que ela tenha morrido em Belfast, no ano de 1864; nem que houvesse em Belfast, naquele tempo, uma igreja de Santa Teresa; nem que tenha havido um padre chamado John Joseph Gorman que, segundo disse Bridey, ali realizou uma segunda cerimônia matrimonial.
Não é de surpreender, todavia, que não se tenha encontrado o menor sinal de sua vida, seu casamento e sua morte, uma vez que, a não ser alguns arquivos eclesiásticos, não havia estatísticas dignas de tal nome na Irlanda antes de 1864. Na verdade, seria mais do que surpreendente se se encontrasse qualquer sinal dela e de sua família, tendo-se em conta a impressão que Bernstein teve logo, e que o próprio leitor poderá verificar pelas conversas gravadas entre Bridey e Bernstein: que as referências a seu pai e seu marido como “advogados” eram, em parte, uma tentativa de valorizar sua família socialmente, e, em parte, motivadas pelo fato de ter Bridey apenas uma vaga idéia de suas atividades fora de casa, ou o que era, realmente, um advogado. Em certo ponto, ela diz que seu pai era um cropper (ceifador), isto é, um agricultor, e menciona corretamente o que era cultivado ali, na ocasião. O pai pode também ter trabalhado parte do tempo em algum cartório ou escritório de advocacia. No que diz respeito ao marido de Bridey, no fim do capítulo que publicou na edição de livro de bolso, Barker se diz convencido de que Sean (John) Brian McCarthy não era advogado, mas sim um guarda-livros, que trabalhou para várias casas comerciais de Belfast e talvez também para o Queen’s College. Sua convicção se apóia no fato de constar do Anuário de Belfast, de 1858-59, o nome de John’Carthy como escrevente, e no de 1861-2 como guarda-livros.
5- Exemplos
das Afirmações de Bridey que Foram Confirmadas
As informações sobre a personalidade de Bridey , por outro lado, que foram confirmadas, não obstante (no caso de algumas delas) a opinião de entendidas no sentido de que podem não estar corretas, são apresentadas com referência às verificações comprobatórias, no capítulo escrito por Barker para a edição do livro de bolso. Constituem, como o título do capítulo indica, “As investigações sobre Bridey na Irlanda”. Para invalidá-las seria preciso mostrar que Virginia se inteirou de maneira normal, nos Estados Unidos, de fatos corriqueiros ocorridos na Irlanda há um século. A tentativa do Chicago American em tal sentido falhou, sem sombra de dúvida. O máximo que pode ter conseguido foi mostrar que algumas das afirmações de Virginia, mas não aquelas que dizem respeito à presença de Bridey na Irlanda, talvez estejam relacionadas com suas experiências infantis em Chicago.
Para se expor todos os fatos essenciais, as explicações apresentadas para os mesmos de uma maneira ortodoxa e as refutações a essas explicações, seria necessário dispormos de muito mais espaço do que o que temos aqui. No entanto, alguns exemplos evidenciarão a falta de base para a crença – agora muito espalhada, devido aos ataques da ortodoxia ao livro de Bernstein – de que todos os aspectos intrigantes do caso de Bridey Murphy na Irlanda foram explicados satisfatoriamente à maneira ortodoxa.
Bridey menciona os nomes de dois merceeiros de Belfast dos quais comprava víveres: Farr e John Carrigan. Depois de trabalhosas buscas, realizadas pelo bibliotecário-chefe de Belfast, John Babbington e seus auxiliares, verificou-se que aquelas duas mercearias estavam registradas no anuário de Belfast para 1865-66, o qual estava sendo preparado por ocasião da morte de Bridey, em 1864. Além disso, Barker informa que aqueles eram “os únicos indivíduos daqueles nomes que exploravam o comércio de gêneros alimentícios”, naquela época. Bridey disse também que, no seu tempo, funcionavam em Belfast uma grande companhia fabricante de cabos e cordas e uma tabacaria; e isso foi confirmado. Também mencionou uma casa que vendia artigos para senhoras, Cadenn’s, da qual não foi encontrado qualquer vestígio. Os anuários, porém, mencionam nomes de indivíduos, e não de casas comerciais, e é possível que o dono da casa Cadenn’s não se chamasse Cadenn.
Ainda mais impressionante que a comprovação da existência de Farr e John Carrigan, porém, é o fato de que algumas afirmações de Bridey que, segundo os especialistas em Irlanda, eram irreconciliáveis com os fatos conhecidos, na realidade, como ficou comprovado mais tarde, eram perfeitamente conciliáveis. Vejamos um exemplo.
A primeira das afirmações atribuídas a Bridey, na gravação da primeira sessão, foi a de que, aos quatro anos de idade, isto é, em 1802, tinha raspado toda a pintura de sua cama, que era “uma cama de metal”, e que, por isso, levou uma terrível surra. Life (em FABI) afirma que “as camas de ferro não tinham sido introduzidas na Irlanda até, pelo menos, 1850”. No entato, o Dr. E.J. Dingwall diz que “estavam sendo anunciadas pela Siderúrgica Hive em Cork, em janeiro de 1830...camas de ferro portáteis que eram muito usadas na Irlanda naquela época, embora seja um tanto duvidoso que fossem comuns em 1802”. A Enciclopédia Britânica (edição de 1950) informa que “as camas de ferro apareceram no século XVIII”. Assim, Bridey, podia ter tido uma cama de ferro em Cork, no ano de 1802.
Além disso, porém, deve-se chamar a atenção para o fato de que, no relatório sobre a gravação, Bridey não fala em cama de ferro, mas em cama de metal, e o fato, recentemente noticiado, que um exame cuidadoso da gravação parece mostrar que a palavra (que, como muitas outras faladas por Virginia em transe, não era claramente articulada), não era metal, mas little (pequeno), isto é, uma caminha.
Isso se torna mais provável pelo fato de que dificilmente alguém – ainda mais uma criança de quatro anos – iria se referir a uma cama de metal, e sim – como todos os comentaristas do episódio fizeram notar espontaneamente – a uma cama de ferro, ou, se fosse o caso, a uma cama de bronze.
Um dos artigos do Chicago American afirma que a tia que trouxera Virginia para Chicago se lembrava de que naquela cidade, quando Virginia tinha seis ou sete anos, a menina de fato estragara a sua cama, e levara uma surra, e que Virginia se lembrava disso, e tinha comentado o caso, rindo, com a tia, quando uns doze anos depois ganhou uma mobília de quarto como presente de aniversário.
Virginia, por outro lado, disse a Robert Byers (CNCU) que não se lembra do caso e, especialmente, que nunca o comentou com um parente, quando aos dezoito anos ganhou uma mobília de quarto. É bom saber-se, no que concerne às supostas declarações feitas por seus parentes (cujos nomes o jornal não menciona), que Virginia afirmou a Barker que “tanto Hugh como meus parentes de Chicago são muito contrários a todo o fenômeno Bridey, por motivos religiosos”. Isso os levaria, ainda que involuntariamente, a deturpar os fatos.
Além disso, não se pode esquecer que a revelação a respeito dos estragos feitos na cama e do espancamento foi a primeira feita por Virginia, supostamente como Bridey, e se seguiu imediatamente às declarações relativas à lembrança do que a paciente fizera antes. É possível, portanto, que a lembrança do incidente diga respeito à sua própria infância, e não à menina que, interrogada, logo em seguida, de qual era o seu nome , disse que se chamava Bridey.
Seja como for, não ficou demonstrado que não havia camas de metal em Cork, em 1802, mas no máximo que, provavelmente, tais móveis não eram comuns, à época, naquela cidade. Assim – mesmo se Bridey disse “metal” e não “little” – não ficou, realmente, provado que ela não pudesse se lembrar de uma cama de metal em Cork, no ano de 1802.
Vejamos outro fato: foi dito e repetido que dificilmente a casa de Bridey em Cork poderia ter sido de madeira, em vista daquele material na Irlanda.
Segundo a transcrição da primeira gravação, quando perguntaram a Bridey em que casa morava, ela respondeu: “É uma bonita casa... uma casa de madeira (wood house)...branca...tem dois pavimentos”. Aqui, de novo, porém, um exame mais cuidadoso da gravação parece mostrar que a palavra que Bridey articulou não foi “wood”, mas “good”(boa): “uma bonita casa...uma boa casa...” Isto é mais do que provável, porque – como Life espontaneamente comentou – em via de regra ninguém usaria a expressão “wood house”, e sim “wooden house”.
Logo depois de citar o trecho assim mencionado, o artigo de Life acrescenta: “e era chamada “The Meadows” (Prados). Mas a referência à passagem em que “The Meadows” são mencionados pela primeira vez (segunda gravação) mostra que Bridey não disse que a casa se chamava “The Meadows”. A pergunta feita foi a seguinte: “Qual era o seu endereço em Cork?”, e a resposta: “Era...The Meadows...apenas The Meadows” (TSBM). Na terceira gravação, também,lhe foi perguntado: “Onde eram The Meadows em Cork?”, e ela respondeu: “Eram... onde eu morava” (TSBM, Livro de Bolso, pág. 183). Além disso, o artigo do Denver Post reproduz, em sua página 9, uma seção de uma planta de Cork em 1801, mostrando uma zona chamada Mardike Meadows, onde estava assinalada a existência de meia dúzia de casas.
Assim, as declarações de Bridey a respeito de sua casa em Cork não estão em desacordo com os fatos conhecidos. Ao contrário, suas afirmações são de todo compatíveis com o que as pesquisas realizadas na Irlanda mostraram que Cork tinha sido realmente.
Passemos agora à declaração de Bridey de que seu marido ensinara Direito na Queen´s University de Belfast, algum tempo depois de 1847.Life contesta tal afirmação, não se valendo da sugestão de Barker no sentido de que Brian McCarthy provavelmente não era advogado, mas argumentando que não havia escola de Direito ali na ocasião, nem no Queen´s College antes de 1849, nem na Queen´s University antes de 1908.
Isso, contudo, é um erro. Na realidade, em 19 de dezembro de 1845, a Rainha Victoria ordenou “que será fundada...uma Faculdade para estudantes de artes, direito, física...que será chamada Faculdade da rainha, Belfast”. Ao mesmo tempo, ela fundou as faculdades de Cork e Galway. Depois em 15 de agosto de 1850, fundou a “Universidade da Rainha na Irlanda”, determinando que “as mencionadas Faculdades da Rainha serão e ... são aqui constituídas faculdades de nossa Universidade”. Ainda aqui, portanto, as declarações de Bridey estão de acordo com a realidade, e as afirmações em contrário se baseiam em um erro de fato.
Bridey falou, ainda, de “...saquinhos de arroz...” que eram presos na perna por um elástico: “É um sinal de pureza”. O redator da Life especializado em folclore comentou, segundo foi publicado: “Tolice! O arroz nunca fez parte das tradição popular da Irlanda. O trigo, a aveia e as batatas sim, há séculos. Mas o arroz, nunca!”
No entanto, a Irlanda começou a importar arroz em 1750. Sem dúvida, passaram-se alguns anos antes que o produto fosse bem conhecido ali. E são necessários mais alguns anos para surgir uma “tradição”, espontaneamente, em um certo número de indivíduos. Sendo branco, o arroz naturalmente iria sugerir a idéia de pureza a alguns de seus primeiros usuários. É menos evidente porque acabou simbolizando a fertilidade. De qualquer maneira, o que tem importância para a questão de se saber se as declarações de Bridey representam uma lembrança verdadeira de uma vida anterior na Irlanda não é verificar se o arroz fez parte das tradições populares de lá, mas somente constatar se é ou não possível que a brancura daquele cereal, até então desconhecido no país, não tenha chamado a atenção de alguns de seus primeiros consumidores e levá-los a ter a idéia de simbolizar a pureza no arroz, do mesmo modo que os botões brancos da laranjeira são usados hoje para representar a pureza da noiva, isto é, a virgindade. E, nesse sentido, a resposta dever ser positiva, segundo tudo indica. Na verdade, pode ter sido imaginado que o arroz, como símbolo da pureza, ajudaria uma jovem a preservar a sua pureza, se fosse colocado em saquinhos presos à perna, do mesmo modo que ainda hoje as crianças usam medalhas de santos para as ajudarem a se comportar de acordo com os preceitos de sua religião.
No que se refere ao fato de Bridey usar, ao se referir ao enterro de mortos, a palavra “ditching” e não “buring”, sem sombra de dúvida Life tem razão, quando diz que “ditch” não é o mesmo que “bury”. No entanto, a própria Life lembra que “ditching” era usado para designar os enterros em massa de muita gente que morreu durante a fome de 1845-47. É muito provável, portanto, como sugere o Professor Seamus Kavanaugh, da Universidade de Cork, que muitas pessoas usassem “ditch” coloquialmente, no sentido de “bury”.
Bridey usou, também, as palavras “tup”,no sentido de “rounder”(bêbado, vagabundo, na gíria) e “linen”(linho), no sentido de handkerchief (lenço). Life observa que “o erudito Hayward...achou muito engraçada a idéia de que tup, linen...possam ser palavras gaélicas.”É um mistério completo, porém, saber onde Hayward descobriu que Bridey, ou Bernstein, tenha dito que linen é uma palavra gaélica. Bridey só se referiu a “linen”uma vez, quando, tendo espirrado durante a quarta sessão, pediu um lenço. E o Professor Kavanaugh afirma que a palavra era usada, no tempo de Bridey, como sinônimo de handkerchief .
No que concerne a “tup”,é certo que a palavra não é gaélica. É uma palavra do médio inglês, de origem desconhecida, cujo significado é “carneiro macho”, mas tendo também outros significados na gíria. Bridey citou “tup”, quando Bernstein lhe pediu para dizer algumas palavras gaélicas. Não se pode esquecer, porém, que Bridey não é lingüista, e , além do mais, como se vê de TSBM, para ela “gaélico” significa, essencialmente, “a linguagem que os camponeses usam”.É mais do que natural que as palavras de origem inglesa tenham se misturado com o linguajar do homem do campo, e Barker afirma que, na verdade, o Professor Kavanaugh encontrou aquela palavra no dicionário, no sentido que Bridey lhe deu.
Bridey também
usou a palavra “lough”para designar rios e lagos. E Life –
segundo parece baseando-se na autoridade de Hayward – sustenta que lough
não significa “rio”, mas somente “lago”. No entanto, o Dicionário de Murray,
que deve ser pelo menos tão autorizado quanto Hayward, registra “low”
como uma variante arcaica de “lough”, significando “lago, rio, água”(Vol. VI, pág. 271).
Barker salienta ainda que, não obstante a afirmação de Hayward de que “nenhum irlandês se referia a outro como um orange, mas sempre como um orangeman (membro de uma sociedade secreta protestante) ou orangewoman”, não se lembra “de quem quer que fosse, na Irlanda, questionasse quanto ao emprego do termo da gíria orange como sinônimo de orangewoman”.
A respeito da afirmação de Bridey de que lera, ou de quem sua mãe lera para ela, um livro sobre os sofrimentos de Deirdre, Life sustenta que, de acordo com The English Catalogue – “que apresenta uma lista completa de livros pulicados entre 1800 e o presente” – a primeira menção do nome de Deirdre em um título foi na peça “The Sorrows of Deirdre”, publicada em 1905. Barker, porém , menciona uma “brochura barata, publicada em 1808 por Bolton, intitulada “The Song of Deirdre and the Death of the sons of Unasch” (A Canção de Deirdre e a Morte dos Filhos de Usnach). Assim, mais uma vez as declarações de Bridey se mostram consistentes com os fatos, muito embora Virginia Tighe não pudesse saber que tal brochura tivesse existido, nem tivesse qualquer interesse na questão, ao passo que Life, que se mostrava tão interessada, e cujas fontes de informações sem dúvida eram tão amplas quanto as de Barker, deixou de lado aquela brochura de 1808.
Uma outra afirmação de Bridey é de que em seu tempo uma das moedas correntes era a de dois pence. Isso é correto, mas muito pouca gente sabe que tal moeda só foi usada na Irlanda entre 1797 e 1850.
O capítulo de Barker menciona um certo número de outros fatos mencionados por Bridey nas gravações, que foram contestados por algumas pessoas supostamente conhecedoras da história na Irlanda, mas confirmados por investigações posteriores. Os fatos já citados, porém, são suficientes para evidenciar não só que os tão exaltados especialistas não são oniscientes, como também que as afirmações daqueles que criticam idéias suscetíveis de causar espanto têm de ser verificadas com tanto cuidado quanto as afirmações dos defensores de tais idéias. Realmente, como já foi repetidamente salientado, a tentação de confundir o desejo com a realidade e as conclusões emocionais são mais acentuados do lado da ortodoxia religiosa da época e do lugar em questão, ou do lado do “bom senso científico da época”, do que do lado dos defensores de concepções paradoxais à primeira vista.
Levando tudo em consideração, os termos da investigação de Barker, mostrando os pontos em que Bridey estava certa e os peritos errados, constitui a feição central do caso Bridey Murphy, no que concerne à questão de se saber se existe qualquer prova empírica de que a mente humana sobrevive à morte, quer seja sob a forma de um estado desencarnado, que seja sob a forma da reencarnação. As provas que o caso Bridey Murphy apresentam a favor da sobrevivência consistem, essencialmente, no fato de que informações corretas de coisas obscuras foram fornecidas pelos lábios de Virgínia em transe, e no fato de ser difícil mesmo imaginar como ela poderia, de um modo normal, ficar conhecendo , acerca da Irlanda de mais de um século atrás, pormenores tão numerosos e tão desinteressantes em si mesmos, e para cuja confirmação, saliente-se, os pesquisadores tiveram de trabalhar tão arduamente, o que não torna surpreendente o fato de alguns deles não terem podido ser verificados, mas muito ao contrário, surpreendente que tantos deles pudessem ter sido confirmados.
6- Alegação de que as Declarações Verídicas de Bridey Podem ser Identificadas como Fatos Ocorridos em sua Infância e Esquecidos.
Vamos agora, examinar sucintamente a alegação do Chicago American, no sentido de que existem fatos que explicam as afirmações de Virginia no papel de Bridey Murphy como sendo simples reminiscência e dramatizações, sob os efeitos da hipnose, de ocorrências esquecidas de sua infância e juventude em Madison e Chicago.
Em seu livro “A verdade Acerca de Bridey Murphy”, Barker apresenta um relatório objetivo das confirmações que obteve e das que não conseguiu obter durante as suas três semanas na Irlanda. Naquele relatório, ele não é nem a favor nem contra a suposição de que Bridey e Virginia eram duas encarnações diferentes de um mesmo indivíduo, mas deixemos o próprio leitor tirar suas conclusões, se tal for o caso. Ao contrário de Barker, contudo, muitos dos artigos publicados em jornais e revistas constituem evidentes tentativas de exorcismar o demônio que, disfarçado no livro de Bernstein, tentava as centenas de milhares de seus leitores para que acreditassem na reencarnação – doutrina heterodoxa, tanto para a teologia cristã contemporânea como para a psicologia. Na verdade, um dos artigos do “Denver Post” salienta que o Reverendo Wally White declarou “claramente que o seu objetivo era o de desmascarar a reencarnação, devido ao seu ataque às doutrinas religiosas estabelecidas”.
Os artigos do American mal mencionam a maior parte dos fatos resumidos por Barker em CFBI, que mostram o caso tal como ele realmente é, isto é, considerando-se Bridey como uma “edição” anterior de Virginia. Ao contrário, o American rejeita todos eles, sob a alegação de que Virginia foi “regalada” com casos sobre a Irlanda por uma sua tia que era “tão irlandesa quanto os lagos de Killarney”.
Virginia, no entanto, declara que a mencionada tia, Sra. Marie Burns, nasceu em Nova York, era de ascendência escocesa-irlandesa e passou a maior parte da vida em Chicago, “Na verdade, só vim a conhece-la bem quando ela veio morar conosco, e eu tinha, então, dezoito anos. Não se vai acreditar, portanto, que ela tenha ‘me regalado’ com casos sobre a Irlanda quando eu era criancinha, não é mesmo?”. Acrescenta Virginia, que não se lembra de que alguém lhe tenha contado algo acerca da Irlanda, em qualquer ocasião, e que só sabe acerca daquele país as coisas que todo o mundo sabe.
O artigo, porém , parece considerar o simples fato da Tia Marie estar morando com Virginia, quando esta última saiu de Chicago, uma confirmação da afirmação de que “parece provável que algumas das referências à Irlanda feitas por Bridey ... se baseiam em casos contados por Tia Marie (San Francisco Examiner, 5 de junho de 1965). Os artigos do American, ignorando assim, virtualmente , as provas reais da existência de Bridey, concentram a sua atenção em ocorrências “paralelas” – alguns exemplos dos quais serão citados a seguir – na infância de Virginia , deixando inteiramente de lado a questão essencial, que se baseia, como vimos, na verificação de obscuros aspectos da Irlanda, pelos quais se deduz que as afirmações de Bridey constituem lembranças autênticas daquele país.
Como exemplo do “sucesso” do American, encontrando na infância de Virginia várias das declarações de Bridey sobre a Irlanda, podem ser mencionadas as suas “descobertas” em Madison relativas ao nome do Padre John Joseph Gorman que casou Bridey, e ao endereço de Bridey em Cork :”The Meadows”. O que o repórter do American descobriu em Madison foi que, a cem pés de distância da casa de Blair Street onde Virginia morava em Madison, essa rua era atravessada pela Gorham Street; que a um e meio quarteirão da casa fica a igreja luterana de St. John (São João), e que o pastor daquela igreja, freqüentada pelos pais da menina de três anos, se chamava John N. Walsted! O repórter, porém, não precisava ter ido tão longe para encontrar homens chamados John. Pode-se afirmar que no mesmo quarteirão de sua casa, ou em qualquer quarteirão de qualquer cidade dos Estados Unidos, pode-se encontrar meia dúzia de Johns.
A respeito de :”The Meadows”(Os Prados), a descoberta do American é que “a menos de dois quarteirões da casa de Ruth (isto é, da casa de Virginia em Madison) há um parque, em frente de um lago, um ‘prado’, onde ela deve ter brincado muitas vezes”.
A descoberta mais sensacional do American em Madison, porém, foi a de que, como Bridey, “Ruth (isto é, Virginia) tinha um irmãozinho que morreu”, aliás, nasceu morto, em 29 de outubro de 1927. O fato, porém, é que Virginia nunca teve um irmão, natimorto ou não. Na verdade, a referência a esse mítico irmão só apareceu na versão original do artigo, em Chicago, na edição de 14 de junho de 1954, não tendo sido distribuído aos outros jornais da cadeia.
Outro exemplo típico dos “paralelos” que as investigações do American descobriram refere-se ao fato de Virginia, de repente, ter espirrado com força, no decorrer da quarta sessão de hipnotismo. Uma sua amiga, à qual o artigo se refere apenas com Ann, teria dito: “Se alguém espirrava forte, era Ruth”.
E daí? – é lícito perguntar-se. Bridey não estava contando, na ocasião, que tivesse espirrado na Irlanda. Quem espirrou foi o nariz de Virginia, da mesma forma que a laringe e os lábios de Virginia estavam transmitindo as lembranças de Bridey.
O fato de Bridey ter pedido depois um “linen” (linho) é atribuído, pelo artigo, à circunstância de “Ann” sempre chamar seus lenços brancos de linho de “lenços brancos de linho”. Seria supérfluo comentar os outros paralelos.
O San Francisco Examiner, de Hearst, que reproduziu o artigo do número 28 de maio de 1956 do Chicago American, da autoria do Reverendo Wally White, pastor do tabernáculo do Evangelho de Chicago, salientou que a investigação do American “foi lançada depois que se ficou sabendo que a Sra. Simmons (isto é, Virginia Tighe) freqüentara, na infância, a escola dominical do Reverendo White”.
O leitor deduzirá, portanto, que o Reverendo White conhecera Virginia, quando menina, em Chicago. É interessante, pois, saber o que respondeu Virginia, quando interrogada a respeito, por Baker. Disse ela (HBCL): “Freqüentei a escola dominical do Tabernáculo do Evangelho em Chicago dos quatro aos treze anos, pouco mais ou menos”. O Reverendo Wally White “não estava lá, quando eu estive. A primeira vez que o vi foi neste verão (1956), quando ele apareceu de repente, na porta de nossa casa, aqui em Pueblo...dizendo que queria rezar por mim”.
Vê-se, portanto, que a menção do nome daquele pastor nos títulos de vários dos artigos do American constituía um truque psicológico, visando os piedosos, mas ingênuos, leitores que, vendo o nome do reverendo como autor do artigo, e achando que ele fora o pastor cuja igreja Virginia freqüentava em Chicago, presumiam que ele devia saber, por conhecimento próprio, os fatos relacionados com a sua infância e a sua juventude; que os artigos se baseavam em observações diretas, e que, portanto, uma vez que os sacerdotes falam a verdade, os artigos não poderiam ser contestados.
O incidente da cama estragada e do castigo que acarretou, em torno do qual o American fez tanto espalhafato, pode se referir à vida de Virginia em Chicago, e não à de Bridey em Cork. Isso, contudo, é muito menos provável no caso do “Tio Plezz” de Bridey.
O American afirma que se trata, realmente, de “um funcionário municipal aposentado, de 61 anos”, à procura do qual os repórteres “esquadrinharam Chicago” e cujo primeiro nome é Plezz. O jornal, contudo, omite o seu sobrenome e o seu endereço, “ a fim de proteger a sua intimidade”. No entanto, refere-se ele e à sua mulher como velhos amigos da tia que criou Virginia em Chicago, afirmando que ele e sua mulher visitavam Virginia e seus tios duas ou três vezes por semana, que as visitas eram retribuídas, e que ele e duas de suas filhas costumavam brincar com Virginia. “Plezz” disse que se lembrava “muito bem do tempo em que Virginia tinha três ou quatro anos, até estar cursando a oitava série”, isto é, quando ela teria de 13 para 14 anos. Isso significa um estreito relacionamento, durante cerca de dez anos.
Que o leitor, porém, pergunte a si mesmo se é lícito acreditar na existência de um tal “Tio Plezz” em Chicago, diante do fato de Virginia, aos 33 anos de idade, não ter “qualquer lembrança consciente de tal pessoa”, nem mesmo de seu nome, como declarou solenemente, quando interrogada por Barker (HBCL).
Em 29 de maio de 1956, o jornal de Chicago afirmou que Virginia “tomou as suas primeiras aulas de declamação com uma certa Sra. H. S. M.” (não identificada além destas iniciais). Logo em seguida, apresenta longos trechos de peças de teatro em dialeto irlandês, e diz que Ruth (isto é, Virginia) os decorava.
Esta justaposição imediata levaria o leitor apressado a concluir que a professora era a autoridade responsável para a identificação dos trechos citados e para confirmar que Virginia os decorava. Uma leitura mais cuidadosa, no entanto, revela que o artigo se abstém, cautelosamente, de fazer tal assertativa. Diz apenas, com todos os ff e rr, que Virginia os decorava.
O que a professora mencionada ensinava, segundo parece, era dicção, e não declamação,e, portanto, nada tem a ver com argumentação ou discussão. E o que Virginia tem a dizer sobre o assunto é: “Tomei lições de dicção, em 1935 ou 1936...era uma senhora endinheirada... que dava aquelas lições de graça para pequenos grupos de jovens... Quando eu tinha doze ou treze anos freqüentava as suas aulas, depois da escola, em certos dias. Infelizmente, acho que não adiantou nada, pois não me lembro, exatamente, de coisa alguma que ela nos ensinava” (HBCL).
Robert Byers, do Denver Post, localizou aquela professora, a Sra. Harry G. Saulnier. Ela se lembrava que “Virginia foi minha aluna durante pouco tempo, mas não deve ter sido uma aluna medíocre, pois não me lembro dela mutio bem”. Não se lembrava especificamente – acrescentou – “dos trechos que a Sra. Tighe decorava”, mas que, de qualquer maneira, nunca ouvira falar da peça “Mr. Dooley on Archey Road” que, segundo o American, Virginia aprendera (CNCU).
No que concerne às “jigas irlandesas”, que o jornal afirma que Virginia aprendeu a dançar, ela as identificou como tendo sido o black bottom e o charleston!
O apogeu da série de artigos do Chicago American, contudo, foi a descoberta de uma tal Sra. Bridie Murphy Corkell, que morou em uma das ruas transversais àquela onde moravam Virginia e os seus pais adotivos em Chicago, e por cujo filho, John, Virginia teria sido “loucamente apaixonada”.
Virginia se lembra que John tinha o apelido de “Buddy Corkell”, mas quanto à suposta paixão por ele, comenta: “Meu Deus do céu! Ele era sete ou oito anos mais velho do que eu. Já estava casado, quando fiquei na idade de ter qualquer interesse sentimental por algum rapaz”. Também se lembra da Sra. Corkell, mas, embora o artigo afirme que ela “esteve em casa dos Corkell muitas vezes”, Virginia jamais falou com a Sra. Corkell, e nem o artigo diz que ela tenha falado.
Além disso, Virginia nunca soube que o nome de batismo da Sra. Corkell fosse Bridie, e ainda menos se o seu sobrenome de solteira era Murphy, se é que era mesmo. Realmente, quando o Denver Post tentou comprovar tal coisa, a Sra. Corkell não atendeu ao telefone. Quando o repórter Bob Byers perguntou ao padre de sua paróquia em Chicago, ele confirmou que o seu nome de batismo era Bridie, mas não soube dizer se o de solteira era Murphy. O mesmo aconteceu com o Reverendo Wally White.
Dificilmente, porém, o leitor adivinhará quem era essa tal Sra. Corkell, que o American “descobriu”. Por uma das estranhas coincidências no caso, a Sra. Bridie (Murphy?) Corkell era mãe do editor do suplemento dominical do Chicago American, quando os artigos foram publicados!
7-
Comentários de Psiquiatras Sobre o Caso Bridey Murphy
O primeiro artigo de Life (OSAB) diz que “os psiquiatras que estudaram o caso não têm dúvidas de que, se Ruth Simmons pudesse lhes revelar completamente a sua vida, de preferência no estado de hipnose, eles poderiam terminar abruptamente a procura de Bridey Murphy”.
O que tal opinião realmente representa, contudo, é apenas o apego de tais psiquiatras ao princípio metodológico segundo o qual um fenômeno, cuja causa não foi realmente observada, deve ter causas presumivelmente semelhantes às de um outro fenômeno parecido e que foram devidamente constatadas. Sem dúvida, trata-se de um bom processo científico, mas somente enquanto, a fim de se conseguir aplica-lo, não se tenha de ignorar certas diferenças entre o antigo fenômeno e o novo; ou não se tenha de forjar semelhanças que não foram encontradas. Com efeito, se não fossem tais limitações à aplicabilidade daquele princípio metodológico, jamais seriam descobertas as leis naturais ainda desconhecidas; todos os fatos novos teriam de ser desfigurados, a fim de se ajustarem ao leito de Procusto dos meios de explicação já conhecidos.
O aparecimento – seja espontâneo, seja sob hipnose – de personalidades aparentemente diferentes do paciente, mas, na realidade porções dissociadas de sua própria personalidade total, é hoje um fenômeno bem conhecido. Há, contudo, casos de novas personalidades emergentes que resistem tenazmente à assimilação aos casos de mera dissociação, seja porque a nova personalidade denota possuir conhecimentos que o indivíduo, através de cujo corpo ela se expressa, certamente nunca teve, ou, pelo menos, muito provavelmente nunca teve.
Assim sendo, não consiste na aplicação de um processo científico, mas, ao contrário, de um recurso preconcebido e conservador, a opinião de alguns psiquiatras, no caso Bridey Murphy, segundo a qual Virginia deve ter aprendido, de algum modo, os fatos e dados relativos à Irlanda mencionados por Bridey. As declarações feitas, a propósito, por alguns especialistas, levaram um lúcido e imparcial psiquiatra de Denver, Dr. Jule Eisenbud, a dizer que, no caso Bridey Murphy, “os psiquiatras e psicólogos foram levados a um palavrório mais vazio do que Bridey em seus piores momentos”. E outro psiquiatra igualmente culto e de espírito largo e aberto, o Dr. Ian Stevenson, acusa os autores do “Relatório Científico”, de terem presumido, gratuitamente, ab initio, qua as lembranças de uma encarnação passada não constituíam uma explicação válida das afirmações confirmadas de Virginia, ignorando, evidentemente, alguns dos fatos apurados por Barker na Irlanda, e recorrendo ao velho truque de explicar os dados “analisando” os motivos de Bernstein.
Na verdade, transformar toda questão intrigante ad rem em uma questão ad hominem é a moléstia profissional de que os psiquiatras são mais atacados! Nos psiquiatras por ela afetados, podem surgir fantasias ainda mais fantásticas do que a de seus pacientes. Revele, ou não, aquele soi disant “Relatório Científico” motivos ocultos em Bernstein e Virginia, o fato é que mostra claramente a argumentação emotiva que o livro de Bernstein provocou no psiquismo dos supostamente frios cientistas que redigiram o relatório.
Não se deve esquecer, a propósito, que os psiquiatras levam em consideração o hipnotismo essencialmente como um instrumento de terapia, e que, mesmo que as noções a que chegaram do que é um estado hipnótico “de verdade” ou do que é a “verdadeira” natureza da inter-relação entre o paciente e o hipnotizador sejam válidas para finalidades terapêuticas, tais noções são, ao contrário, limitadas e mesquinhas, quando se aplicam ao hipnotismo em geral. Tais noções tornam-se, então, os dogmas de uma crença, que funcionam, de certo modo, como os antolhos dos cavalos: limitam a atenção e as hipóteses aos “seguidores” de tais dogmas apenas a um determinado segmento das inúmeras possibilidades do hipnotismo, ou das possíveis significações de algumas das coisas que ocorrem na hipnose.
Assim, por exemplo, o Dr. Raginsky, no estudo “Hipnose Médica” com que contribuiu para o “Relatório”, comenta o fato de, na sexta sessão, ter Bridey conversado com Bernstein, chegando mesmo a fazer-lhe algumas perguntas. Isso, diz o Dr. Raginsky, “dificilmente seria um verdadeiro estado hipnótico”, pois Virginia deixou de ser “a paciente hipnotizada típica, passiva e receptiva”.
Iss porque o horizonte do Dr. Raginsky é especificadamente o da hipnose médica, e por “verdadeiro” estado hipnótico ele, portanto, só admite o estado hipnótico adequado às finalidades médicas, jamais lhe ocorrendo a idéia de que o comportamento do paciente naquela ocasião pudesse ser a prova de que a hipnose é, às vezes, eficiente para certas finalidades alheias à psiquiatria, em particular para despertar capacidades paranormais no paciente, tal como a capacidade de se lembrar de uma vida que realmente precedeu o seu nascimento e concepção, ou a capacidade para a telepatia ou clarividência, que os primeiros hipnotizadores despertavam, às vezes, com êxito, em seus pacientes. O sucesso daqueles “mesmeristas” ou “magnetizadores”, em comparação com o fracasso habitual dos hipnotizadores de conseguirem hoje a mesma coisa, talvez se explique pelo fato de serem os processos dos primeiros, ainda que condicionados por dogmas que, mesmo sendo como os do presente, um tanto fantasiosos, eram contudo diferentes e, em verdade, eficientes quanto à finalidade de despertarem capacidades paranormais latentes.
O campo do hipnotismo apresenta a peculiaridade de, nele, qualquer crença determinada acalentada pelo hipnotizador quanto à relação do hipnotizado com o hipnotizador – por exemplo, a crença de que o hipnotizado é passivo e receptivo, e o hipnotizador ativo e diretivo – leva a gerar , automaticamente, provas empíricas de sua própria correção! Com efeito, a crença do hipotizador quanto à natureza da relação entre ele próprio e o paciente condiciona a própria atitude do hipnotizador, o tom de sua voz, seus modos e, em particular, o processo de indução da hipnose; e essas características do seu comportamento acarretam poderosas sugestões quanto ao papel determinado que o paciente deve representar. E a fiel execução, por parte do paciente, do papel que lhe foi imposto automaticamente é que o hipnotizador acredita ser o papel do hipnotizado na “verdadeira” relação entre os dois, e é, então, considerado pelo hipnotizador como a prova que confirma quanto é correta a sua concepção com tal relação.
A medicina não é uma ciência, e sim uma arte prática que, contudo, como outros ramos afins, avança tanto quanto pode no conhecimento das ciências até agora conquistadas. No caso da medicina, as ciências relevantes são, principalmente, a física, a química e a biologia. A psicologia,quer em sua modalidade behavorista, que na fisiológica, que recente, mas não totalmente, foi admitida na companhia daquelas ciências adultas, tem contribuído muito pouco para a medicina, até agora. E a psiquiatria, que por enquanto não passa de um ramo infantil da medicina, tem ainda menos direito, que a maioria dos ramos mais velhos, à condição de ciência. O título do livro, “Relatório Científico” sobre “A Procura de Bridey Murphy”, é, portanto, ingenuamente pretensioso. O fato é que. Quanto mais realmente cientista é um psiquiatra, tanto menos pontifica em nome da Ciência, como fazem, em muitos lugares, os autores daquele livro.
8- Que
Conclusões Sobre o Caso Podem e Não Podem ser Tiradas
Podemos agora resumir o resultado de nosso exame e comentários sobre o caso Bridey Murphy. Ele é, por um lado, a constatação de que nem os artigos de jornais e revistas que mencionamos e comentamos, nem os comentários do chamado “Relatório Científico” e de outros psiquiatras, hostis à hipótese da reencarnação, conseguiram desmentir, ou mesmo apresentar um sólido argumento contrário à possibilidade de muitas das declarações da personalidade de Bridey serem lembranças verdadeiras de uma vida anterior de Virginia Tighe, há mais de um século, na Irlanda.
Por outro lado, por motivos outros que não os apresentados por vários críticos hostis, mas que não dispomos de espaço para examinar detidamente, as constatações, resumidas por Baker, dos pontos obscuros na Irlanda, mencionados por Bridey nas seis conversas com Bernstein, não provam que Virginia seja a reencarnação de Bridey, nem oferecem argumentos muito ponderáveis a seu favor. Em compensação, constituem uma prova bem valiosa de que, nos transes hipnóticos, manifestaram-se conhecimentos paranormais de uma ou outra de várias espécies possíveis, relacionados com fatos desconhecidos, ocorridos no Século XIX, na Irlanda.