Adolescência e sexualidade: algumas reflexões
Gabriela Lanzetta Haack da Rocha
Psicóloga
Atualmente, fala-se muito em liberdade, sugerindo a vivência desta em diversas áreas da vida. Fala-se em liberdade de expressão, em liberdade de escolha, e, o que aqui nos interessa, liberdade sexual.
A liberdade sexual associada a outros fatores, como a necessidade dos jovens de quebra de tabus, afirmação, contraposição à família, e, muitas vezes, a pressão do grupo de amigos e/ou do namorado, trouxe consigo uma questão importante: a vivência da sexualidade adolescente.
Contudo, não podemos falar neste tema sem antes comentar alguns pontos básicos. Em primeiro lugar, a adolescência é um processo que ocorre durante o desenvolvimento evolutivo do indivíduo, caracterizado por uma revolução bio-psico-social, e marcando a transição do estado infantil para o estado adulto. As características psicológicas deste movimento evolutivo, sua expressividade e manifestações ao nível do comportamento e da adaptação social, são dependentes da cultura e da sociedade onde o processo se desenvolve. Além disso, este processo adolescente é desencadeado, impelido e concomitante às alterações biológicas que intervém na maturação das manifestações pulsionais e são inerentes a este período. As velocidades de maturação de cada setor (biológico, psicológico e social), e das partes que os compõem, são distintas e interatuantes, dando o colorido típico que caracteriza o adolescente de nossa sociedade.
Com a chegada da puberdade, todo o organismo é invadido pela força das transformações biológicas e tomado por impulsos sexuais e agressivos, determinando o início da puberdade e do processo da adolescência.
De início, sem saber bem o significado de sua sexualidade e de como dispor dela, o adolescente pouco a pouco vai descobrindo os mistérios e os devaneios que essa situação atraente e angustiante lhe desperta. As modificações corporais bem como a masturbação são elementos que exteriorizam as mudanças internas com seus reflexos sobre a vida afetiva e emocional dos jovens.
Então, o adolescente entra nesta etapa da vida tomado por um estado de certa confusão e incoerência, entre o que lhe era conhecido e familiar, por ocasião da infância, e as transformações pelas quais está passando. Apesar de desejar atingir a vida adulta, pois é impelido por seu crescimento e maturação, teme o desconhecido que existe dentro de si.
Aos poucos, o adolescente sente o seu corpo amadurecer, e, com isto, o peso da cultura e da sociedade exercerá sobre o ele a repressão da livre expressão e experimento da genitalidade adulta. A princípio, não se interessa pela sexualidade genital, até que descobre o outro sexo, e a intensa excitação e prazer que ele lhe desperta.
Sexualidade, segundo o Vocabulário de Psicanálise, "toda a série de excitações e atividades presentes desde a infância e que procuram prazer irredutível na satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental", como ocorre com a fome, a respiração e o amor. É uma ampla função, cuja finalidade é o prazer, e, num outro plano, a procriação. E, é claro, a sexualidade vai assumir características de acordo com a idade na qual é vivida, sendo influenciada, então, pelas características adolescentes. Entretanto, é sabido que muitos jovens iniciam sua vida sexual em idades precoces, e a manutenção de uma vida sexual sem preparo e cuidado pode trazer conseqüências muito sérias para o adolescente, como a gravidez indesejada, o aborto e as doenças sexualmente transmissíveis. E, além disso, estudos tem demonstrado que muitos adolescentes, apesar de relatar conhecimento sobre métodos anticoncepcionais, não os utilizam. Diante disto, torna-se importante que se criem estratégias de prevenção, que visem diminuir a incidência de tais problemas. E, aí, questiona-se: orientar ou educar os adolescentes? E de quem é este papel?
Estas questões poderiam ser base para vários artigos e muita argumentação. Contudo, cabe aqui apenas colocá-las e abrir um espaço para que se reflita, levando em conta que, os problemas e dificuldades existem e não podem ser ignorados, mas sim falados, debatidos e estudados para que possamos, assim, ter uma melhor compreensão sobre o processo adolescente que nos permita ajudar os jovens a vivenciar de forma mais saudável, segura e prazeirosa a sua sexualidade.