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(Conferência sobre a Escritora do Douro, Agustina Bessa-Luís, pronunciada no Salão Nobre da Casa do Douro, em 29 de Março de 2003, na presença da Autora, pelo Diretor do jornal Amadora-Sintra, Dr. Altino M. Cardoso)

 

PODER MATRIARCAL NO DOURO, segundo Agustina.

 

Agustina é criadora de uma obra literária poderosa, com um estilo compacto e um discurso floreado de estilhaços de espaço e de tempo, tecidos em vitrais narrativos que é preciso pacientemente recolher e descodificar; mas a sua descodificação é apaixonante.

Torna-se claro que, por ser difícil e, ainda por cima, obrigatória, A SIBILA origina entre os alunos de Literatura Portuguesa reacções por vezes radicalizadas.

Felizmente para os professores, a maioria das candidaturas aos Cursos de Letras das Universidades, é constituída por raparigas. Quando pedagogicamente desafiadas, elas ficam encantadas com a gradual descoberta do mundo latente ou virtual do Poder feminino que actua para além das barreiras sociais.

Nós, durienses, conhecemos mulheres assim, recolhidas e discretas, que se transcendem e espiritualizam, ganhando uma nova dimensão pela assimilação do apelo espiritual ligado à posse ancestral da terra.

 

Esquematizei esta intervenção em dois pólos complementados:

 

1. O espaço e o homem duriense – em que será situada a problemática do poder matriarcal;

 

2. As mulheres e o seu universo de limitações e poderes – que constituem o cerne deste estudo.

 

O Douro está presente em algumas das obras mais significativas de Agustina Bessa-Luís, que passou grandes e importantes espaços da sua juventude em Ariz. São dela as seguintes palavras, numa entrevista de 1983 a Mª João Avillez:

 

O Douro...bem, gostava de sublinhar que não o descrevo por ser mais digno ou superior mas por ser mais conhecido por mim. Quando traduzo o contacto com uma experiência ela tem que ser a minha. Conheço bem o Douro desde a minha infância. Os tempos mais marcantes dessa infância e mesmo da adolescência foram lá passados. Entre os meus 15 e 19 anos, no tempo da formação da minha personalidade, da cultura, do contacto com os livros, o Douro era onde eu vivia. Esses quatro anos foram definitivos, tão importantes que me levaram depois a privilegiar esta região.

 

Noutra entrevista, ao JN em 1955, a Escritora concede-nos as coordenadas do recanto da casa de sua mãe, D. Laura, em Ariz-Godim, onde começou a escrever:

 

Chovia muito num pátio, a água das caleiras batia nas folhas das hidrângeas, que brilhavam como faróis do outro lado da janela. O outro lado da janela e a chuva são para todo o espírito criador uma oportunidade – eu aproveitei-a rigorosamente: escrevi um romance. 

 

De Ariz, com uma bela panorâmica sobre a Régua, ela podia partilhar a atracção de todos nós pela luz e a mística do rio, encimada pelo apelo da Serra de S. Domingos. A grandiosa bacia reguense proporcionava-lhe um cenário de esplendor e de mistério, adequado à profunda análise da dialéctica do homem duriense, tão marcante em muitos dos seus romances.

 

Como caracteriza a Autora a Região?

Em primeiro lugar, não deixa de sublinhar o reconhecimento pela obra ingente de tornar produtivo aquele solo pedregoso:

 

JF276 Nesse tempo, o Douro ganhou em prosperidade e elevação, fixaram-se os costumes, ganhou-se a personalidade do lavrador onerado de dívidas, teimoso no calo de arrotear a vinha e fazer dela outra coisa que não pedregal de cabreiro e trilho de ladrões. Mas dura até hoje o terrível discurso da paisagem, a sombria tristeza dos ermos onde se ouve, como um som fantasma, o chiar dos carros de bois carregados de pipas, e cujos aros das rodas faziam lume nas pedras.

 

Região assim, suspensa entre os dois abismos do céu e da terra, desencadeia dinâmicas heróicas e trágicas: o lavrador tanto se agigantava ao mundo dos titãs como experimentava todos os infernos da ruína:

 

JF266 ... o Douro aparecia como um emirato árabe. Por tradição, o Douro era fantasioso e «luxento», como dizia Celsa Adelaide. Os Touro Azul, através de gerações de taberneiros e de gente sobranceira que mais depressa roubava do que pedia, tinham conhecido bem o carácter de região. Ainda lá estavam as pedras de armas dos fidalgos que, como último recurso, tinham no Douro o salão de receber e a tumba para a lápide que era o último pergaminho. Abastardado e em ruínas,como era exemplo a casa de Joana Viterbina, conservava um cibo de memória com bailes e jantares onde se consumia a renda de um ano. Mas quando o tempo era de escassez, quando a vinha tinha doença, quando gelava em vez de haver calor temperado, quando não se fazia a redra, não se deitava o sulfato, não se erguiam os muros derrocados pelas enxurradas, o lavrador abraçava-se ao seu capote, levantava a gorra da samarra e deixava-se ir na onda. Jogava a feijões e escorropichava cálices de vinho de um preço extraordinário. E quando voltava uma boa colheita, caiava os telhados e ia para o Porto ao teatro, fazer barafunda a vaiar ou aplaudir as cantoras, as actrizes, o que fosse...

JF 314 (Camila) lembrou-se como o pai saía de casa, levando com ele um relógio embrulhado em papel de jornal, o que parecia mais miserável. Como se não houvesse outra maneira de transportar uma coisa preciosa. Parecia um personagem de Dostoiewski, o que não admirava porque ambos deviam saber bastante desse tráfico do jogo e da fome do pano verde.

MO19 A propriedade era como uma amante cara. Gastava os homens até à medula, comia-lhes a carne com os dentudos galhos e a pedra dos socalcos.

 

Torna-se claro que os homens do Douro presentes nos romances de Agustina são não raro despojados da sua aura de heróis desbravadores de mundos  criadores de riqueza. Sociologicamente, essa aura contribui para o estagnamento sócio-cultural, que se sente, hoje, no desprestígio que se tem sentido na Região que actualmente está obrigada a merecer o título de Património Mundial:

 

MO11 O prestígio local estava dependente da cultura de uma sociedade em constante crise de organização, ou pelas epidemias do seu vinhedo, ou pelos desgastes da avareza e da penúria.

MO15 O lavrador  era uma espécie de místico que a filoxera estremeceu, mas que sobrevive  ainda numa certa alegoria onde lampeja o espírito rácico;(...) no Douro é particularmente evidente essa convulsão de opiniões que expulsam tudo o que não se refere aos seus costumes e à sua organização modelada pelo clima, a sedentaridade, a minúcia de uma cultura e o método que repudia transformações e crescimento. Diferente do que pensam os economistas, uma área produtiva não se destina apenas a ser rentável; sobretudo é uma área onde a vida se condensa e transmite. (...) O perigo de uma civilização local é o de ela se tornar incomunicável; com o Douro, com o Nordeste trasmontano, com o país inteiro talvez passa-se isto. (...) E a pessoa provincial dificilmente se recupera para a universalidade da esperança, ficando-se no diálogo com os mortos e o colóquio com os antepassados.

 

São palavras proféticas, sobretudo estas últimas. O Homem do Douro – agora internacionalmente conhecido – está comprometido com o Futuro e com a Esperança.

Tem de definitivamente as merecer!

É preciso banir dos noticiários os abusos provincianos dos que, só por serem da cepa familiar de A ou B, assumem as administrações e a política sem estarem honestamente preparados:

 

MO27 Cresceu uma geração de pedantes, ociosos, jogadores e loucos típicos a quem o dinheiro fazia o efeito de uma droga dura.

MO20 ... os casinos da Foz só abriam para o lavrador do Douro; se ele vendia os vinhos, jogava-se com arrojo e fantasia; e não era só o proprietário calaceiro e sombrio que vivia num chalé com glicínias sobre o portão, mas era sobretudo o fidalgo de que a província estava sortida, a franja cortesã cortada pela República e que nos seus solares rurais organizava uma vida confidencial, com os seus cavalos e as suas partidas de gamão.

JF 294 Achava que António era um desses parasitas, um piolho da pior espécie. Camila pensou (e riu-se outra vez) se haveria piores ou melhores piolhos. Com certeza havia: piolhos brancos, como os que vivem na pele dos mendigos, piolhos pretos e encarnados. Havia muitas raças de piolhos.

 

Não temos tempo para dar uma ideia da construção do mundo feminino agustiniano duriense. Dezenas de mulheres perpassam nas páginas. Deixando de lado a problemática das mulheres não proprietárias de quintas, limitei-me a folhear três narrativas, dois romances e e um conto: MENINOS DE OURO e JÓIA DE FAMÍLIA, romances (para ilustrar aspectos sociológicos do Douro e as Mulheres objecto deste estudo) e A MATANÇA, um conto publicado em 1971, que ilustrará, mais concentradamente, o Caminho percorrido por outra Mulher até à identificação com a vida e com a felicidade imanente à própria terra, eivada de panteísmo e simbologia. Irei recortar personagens femininas que ilustrararão, creio que de forma adequada, o carácter matriarcal proposto como tema. A SIBILA servirá, às vezes, como referência para a assunção agustiniana do poder pela Mulher.

As mulheres assumiam o encargo ancestral de pôr cama e mesa, ter, criar e educar os filhos e administrar a economia rural. Enquanto o homem dá provimento, por assim dizer, à macroeconomia, não dando atenção a pormenores, elas passam a pente fino toda a micro-economia familiar, que inclui os serviçais. Têm além disso outra função antiga e importantíssima: são as ‘relações públicas’ da ‘empresa’ familiar, transmitindo a adquirindo aquela cultura que leva os antropólogos a sustentar que, quando morre uma velha, se perde uma completa enciclopédia.

 

Já A SIBILA atesta:

 

Ainda que simulem obedecer e optar pelo vanguardismo dos costumes, as mulheres são rebarbativas às inovações. No fundo da sua natureza, há um apelo ao primitivo, ao antigo, ao passado, ao já experimentado e, sob esse aspecto, não há fantasias para elas. talvez vivam mais profundamente integradas nos moldes genéricos da vida; mais do que elas o homem se influencia pelas suas noções de tempo e de espaço, o que o faz circunscrever-se não à vida, mas a determinada época.

 

A dona de casa assumia-se como senhora e centro hierárquico de toda a actividade doméstica e, por vezes, ganhava autonomia em todos os negócios da propriedade.

O mobiliário herdado não era objecto de discussão: - A SIBILA marca esse dever conservador que transcende o próprio tempo geracional:

 

... o sortilégio dos velhos móveis, nos quais se auscultam segredos, e se rondam,e se contemplam, como na obsecação de um mistério que resta insolúvel e acaso se pode encontrar .

 

E, noutro lugar:

 

Tudo era um tanto sujo, usado e possuindo essa patina melancólica, familiar e simpática, das coisas que atravessam várias gerações, sem serem substituídas.

 

Esta modéstia, contrastante com a riqueza longamente acumulada, nunca fora banida do dia-a-dia de Ana das Cales, aliás Ana Guedes.

Ana das Cales, uma grande dama, proprietária de vários solares no Douro, riquíssima,

 

MO21 Falar de Ana das Cales era o mesmo que dizer Rainha Vitória. (...) ao passar no meio dos bardos, agachava-se frequentemente para recolher uma vara de videira perdida que ia depor nas suas braseiras, cuja chama se via, de longe arder, alta, azul na manhã vidrada de cincelo.

MO26 não nascera evidentemente em casa de muita grandeza, ou de nenhuma até. (...) asseguravam ter conhecido Ana de Cales entre as barricas de sardinha, no cais da meia-laranja, na Régua. (...)O pai era lembrado como um velho sempre rpovido de um lenço tabaqueiro e de humor ríspido. Aos domingos eram vistos na igreja de Loureiro.

MO26 Não trazia jóias, excepto um anel com nó de ouro que qualquer lavradeira remediada podia comprar num ourives de feira. (...)MO 27 Ela defendia-se bem do ridículo, usando cores sóbrias, o bronze e a granadina preta, vitando os vestidos de cauda que as suas vizinhas arrastavam pelos caminhos barrentos. Trazia saias redondas e as mangas justas e, o que era insólito, jamais um avental, um fichu, uma medalha, uma rosácea no cabelo, ou qualquer distintivo feminino muito acentuado.

MO 27 Aos 15 anos era já uma mulher de negócios e casou com um primo, não sem agrado, para resolver uma questão de extremas e arredondar o património. Esses casamentos com primos não eram apenas uma táctica financeira, mas correspondiam a um prconceito próprio; resumiam a fidelidade tribal que prefere sempre as alianças muito provadas na mesma raiz e nos mesmos hábitos. O primo era como o irmão para as dinastias egípcias: reunia o discurso da consanguinidade que afinal dispões de todos os meios para prevenir a política dos partidos, e tinha a vantagem de produzir uma só memória histórica, o que era fortalecer a autoridade do clã.

 

A aquisição do estatuto de mulher casada, elevada muito jovem a mentora e continuadora da propriedade familiar, desenrolava-se assim segundo normas dificilmente contornáveis, de modo geral encaixadas numa separação de classes ou de castas resistente. As famílias proprietárias  procuravam manter e alargar a propriedade. Os casamentos por conveniência de continuidade e fortalecimento familiar estavam generalizados.

 

JF 288 Ao contrário dos homens, que em ser falados tiram honra, as mulheres no que é discreto fazem fortuna. Casar depressa elimina desejos que se podem tornar hábitos. E, depois de casar, esperam de tudo enganos, que é a melhor maneira de não serem enganadas.

 

E, quando a Casa obteve estatuto de fidalguia, por via do casamento de um seu primo com uma , o Comendador (que ela tinha amado), Ana das Cales detestou.

 

MO 26 E, no entanto, apreciava enormemente a força do dinheiro e, desde a morte do pai, um proprietário bastante rude, algo licencioso mas cumpridor em matéria de religião, ela não deixara de acrescentar o património, mercê de negócios cada vez mais arrojados, talvez com alguma usura à mistura. O padre-mestre deixara-lhe a quinta de Cales, num lugar sobranceiro à Régua, com a casa tradicional, com onze janelas na fachada e os armazéns sob o sobrado assente em vigas de riga, Ana de Cales acrescentou à traça original as mansardas e as clarabóias; no resto, a casa ficou com o seu ar de paquete, branca, com três chaminés sobre o beiral e os telhados salpicados de cal para a defender do calor. Em 1960, Ana Guedes era conhecida definitivamente por Ana de Cales e a sua fortuna ascendera a cem milhões de cruzados.

 

As casas das quintas tinham um sobrado com um alçapão que dava para o armazém térreo. Contava-se que a lendária Ferreirinha entrava pela calada da noite nas suas numerosas quintas incógnita e, entreabrindo o alçapão, vigiava os caseiros que lhe punham espiches nos tonéis e, sozinhos ou com amigos, lhe bebiam o vinho ‘aconchegado’ com um naco de broa, umas febras ou mesmo umas lascas de bacalhau. Depois da operação os espiches eram cortados rente à madeira dos tonéis e disfarçados com borra de vinho. Se fosse altura de brincar, diríamos que, naquela altura, o vinho ainda não se escapulia pelo chão...

Outra operação de economia doméstica bem controlada era a distribuição do azeite às criadas. Ou do açúcar.

 

(Continua na coluna ao lado ---->)

Estou a referir uma época em que o trabalhador ficava geralmente sem trabalho no fim-de.vindima e, quando ia dar o dia, levava a broa de casa para acompanhar uma dúzia de azeitonas que eram fornecidas para o almoço – a primeira refeição do dia.

 

Outra mulher, embora menos ligada ao Douro, mas a quem atribuímos o estatuto de matriarca, por ser dotada de uma personalidade impressionantemente poderosa é Camila, da JÓIA DE FAMÍLIA.

É importante para o nosso ponto de vista porque se situa entre as mulheres mais materialistas ou primitivas e as mais complexas psicologicamente, dotadas de verdadeira ascese espiritualista.

Camila é capaz de sofrer ferreamente situações indignas e humilhantes.

 

Quando se apercebeu que o pai a entregara às carícias de um parceiro de jogo, no cinema às escuras, como meio de pagar uma dívida (contraída nos moldes de uma honra), não se assustou. Daí que não proferisse qualquer queixa. O pai não queria degradá-la mas aproveitar uma ocasião de se desfazer de uma má jogada. Ela não se deixou impressionar pelo satanismo do sexo, apena jogou o seu próprio trunfo, o que ninguém podia imaginar que ela tinha na mão: o facto de não se prestar a uma crise de identidade. Ela não tinha uma personalidade múltipla, mas unica e consideravelmenta épica. (...) As pessoas que não têm personalidade múltipla são as chamadas figuras épicas. (...) Como Joana d’Arc.

 

Joana d’Arc riu-se da vida e da morte. Camila fez o mesmo perante a dignidade e a indignidade:

 

JF 311 Camila lembrava-se do episódio com o pai na sala de cinema e dos assédios (...)Sentia uma revolta a que se seguia um  momento de reflexão que fazia com que as coisas voltassem ao princípio. (...) JF 264  Eu não sou boa. Toda a gente julga que eu sou boa, e não sou. Não faço mal a ninguém, é uma questão de disciplina, como pôr a mão na coca quando se boceja. Mas não sou boa.

 

Mulher bonita e aparentando laxismo moral, tinha despoletado paixões em todos os homens, de fora e de dentro da própria casa. Mas não se preocupava com o acessório: sempre manteve os olhos fixos no essencial.

JF 415 Camila era agora uma viúva rica. JF 332 Continuava a levantar suspeitas porque se vestia bem demais e não tolerava sair sem ser maquilhada. O (segundo) casamento era uma maneira de reduzir a solidão a um uso do mundo sem o ter que desprezar.

JF 342 Ela, Camila, não tinha personalidade, a mãe dizia-lhe (...) Ela não tinha essa força. Deu conta que amava tudo o que a terra lhe oferecia, o bem e o mal, e as amarguras pareciam-lhe quase doces se as devia àqueles a quem amava. Gostaria de ter nascido santa. Mas a santidade não lhe interessava, era cheia de intenções paralelas, de astúcia, de paixão instável.  (...) JF 299 Tinha a ideia de que era uma pessoa de Deus, designada e não escolhida.

 

É uma situação semelhante à de Moisés, que, contra a sua vontade, foi designado por Jeová para conduzir o povo eleito e não suportava a sua unicidade e solidão relacionada com o transcendente, que o separava dos simples mortais...

Óscar Lopes refere, em finíssima análise, a capacidade de amar para além de toda a compreensão assumida por Quina n’A SIBILA e pelas outras grandes mulheres agustinianas:

 

Nalgumas páginas, aliás admiráveis, Bessa Luís descreve a eclosão desta “faculdade de amor além de toda a compreensão” de Quina, num estado em que a protagonista, frente a frente com a morte, sofre a crise da sua noção de individualidade, tida até antão como realizando-se no individualismo económico rural e na admiração supersticiosa do próximo.

 

Muitas outras mulheres agustinianas se transcendem na própria condição de serviço – o próprio casamento é serviço. Em todas elas se verifica a capacidade de velar pelas coisas essenciais: os filhos, a família – o que não é sinónimo de marido. É, antes, ligação à terra - nobreza ab imo.

Quando estimuladas pelos meandros positivos ou negativos de um ambiente, rural ou citadino, adverso, pelo menos tendencialmente, elas conseguem não apenas tudo suportar, mas ainda chegar ao amadurecimento e. logo, à descoberta de formas de poder e, claro, à consciência desse poder. Uma aparente indiferença, como a de Camila, não deve ser interpretada como falta de inteligência (muito menos leviandade). Trata-se, geralmente, de pensar a longo prazo. Melhor: prever o próprio prazo.

 

(...) assim ela (Quina) vivia, intensamenta adaptada com essa capacidade selvagem de defesa, de astúcia, de previsão e pré-conhecimento da vida e das coisas (...) Aos poucos, foi ganhando títulos de adivinha, de mulher de virtude, que nunca repudiou completamente, ainda que lhe repugnasse ser comparada a qualquer explorador de ingenuidades broncas. - A SIBILA

 

Absorvido o poder, dá-se a sagração matriarcal - a transcendentalização. Esta nobreza basta para que a Mulher, mesmo solteira, se realize: Estou a pensar em Germa (A SIBILA)

 

Germa, aos poucos, fora achando como que revelações cintilantes em todos os fragmentos que reconstituía de Quina, e ela apareceu-lhe, por fim, como um ser raro e apaixonante.

 

A sua função é panteísta, pois não se processa obrigatoriamente nos moldes religiosos ortodoxos tradicionais. Vamos recorrer, ainda à SIBILA:

 

Quina começou a rezar... Não era uma prece litúrgica. Era mais. Era um clamor doce, imperativo e quente, um alento de fé feito de pura espiritualidade como só se encontra nesses clãs primitivos, para quem a solidão e a natureza são excelsas formas de pensamento e apelos de união com o mistério protector e terrível.

 

Outra Mulher agustiniana, que, como Quina n’A SIBILA, não casa, mantendo um vínculo autosuficiente e hierático com a propriedade da terra transmitida através do sangue:

Trata-se de Carriça, personagem do conto A MATANÇA.

A matança do porco envolve a totalidade da comunidade familiar - o conceito original famulus-família inclui senhores e assalariados.

A economia rural situa-se, desde logo, na sobrevivência do descendente de Adão, proscrito do paraíso e obrigado a ganhar o pão com o suar do seu rosto. A matar para viver.

Isto é: uma situação de violência sofrida de um ser superior é compensada por uma situação de violência exercida sobre um ser inferior.

Nem todos os componentes do universo serviçal da quinta são caracterizados por Agustina dentro da norma rural, isto é, seres planos, quase autómatos com funções normalizadas pelos contornos ancestrais, com base na necessidade de comer.

Através de Avelino (criado com um ligeiro desequilíbrio, como Custódio, n’A SIBILA) são dados, de modo impressionista, os pormenores do prazer de matar um animal a sangue frio.

    A desmesura (de que fala Régio) atinge os actos, os espaços e pessoas, até, mesmo, à anormalidade.

 

Era ele (Avelino) quem ajudava a matança, quem segurava as grandes orelhas loiras sobre a carreta e apresentava a garganta da vítima, onde se abria um golpe fino, como o que se faz numa folha de papel; o sangue manava nas suas mãos... (...)

Um fedor pastoso espalhava-se, os cascos desprendiam-se das unhas e as crianças iam recolhê-los, analisando o seu fresco interior de concha onde um pequeno friso de sangue cristalizava. (...)

 

As mulheres também desempenhavam uma função importante no cerimonial da matança. Não pela força que empunha a faca mas pela liturgia do aproveitamento máximo dos recursos alimentares suínos, desde a carne ao sangue e às miudezas e às próprias tripas.

Todo o espaço se associa no enorme e desmesurado cerimonial:

 

... na cozinha uma fogueira altíssima (...). Quem passava no caminho e via nos vidros o clarão dourado julgava que toda a casa ardia. (...)

(Ana) Acarretava braçadas de gravetos, decapitava árvores inteiras, arrastava como cadáveres, pelos pés, os troncos dos eucaliptos derrubados; era um delapidar de lenhas, uma provocação ardorosa ao sinistro (...)

As sombras dançavam nas paredes, e as manchas inqualificáveis dessas paredes pareciam animar-se, soltar braços e pernas, agitar cabeleiras, abrir bocas hilariantes.

 

O fogo é comum a outras narrativas, nomeadamente na cozinha dos MENINOS DE OURO de Ana de Cales, onde a fogueira é denominada

 

Brasame, de um vermelho carnal.

 

E  Hipólita, na sua generosidade, apesar da alcunha de ‘Assanhada’, distribuía a carne de um dos dois porcos que matava pela vizinhança, como presente ou esmola. Havia sempre grande excitação de festa algo dionisíaca:

 

No tempo da matança a casa enchia-se dum estrugir de gorduras, dum rechinar de carnes, dum tremeluzir de facas que esquartejam; estrelas de sangue fresco caíam no chão da eira, o cheiro do pêlo chamuscado e os archotes no ar branco da manhã traziam à alma uma espécie de pasmo primitivo, uma cólera que não se sabia como nascia e o que significava.

 

O narrador quase insinua, na sua descrição cheia de conotações, uma cena do inferno. De que homens e mulheres não têm medo, superiorizando e vingando em seres inferiores a sua própria condição de inferiores, expulsos do paraíso onde não teriam de trabalhar nem matar para comer.

Ana, já muito velha,

bêbeda logo às 4 da manhã,

é a

guardadora do fogo

 

a lembrar o próprio Diabo, se, contra Deus, pronunciasse um non servio avinhado.

 

O cerimonial do fogo e da matança davam transcendência cósmica, panteísta, à quinta.  Dava-lhe, também, dignidade e prestígio na comunidade circundante.

Mas apenas Carriça, filha mais nova da casa e moça casadoira, tinha intuição disso e começou a assumir essa consciência que sacralizava violentamente o panteísmo ancestral da carne e do espírito no sangue e na terra.

As outras mulheres da casa

 

vestiam-se com uma elegância sensual

 

Mas Carriça, assume uma simbologia de sacerdotiza, segundo a Professora Teresa Rita Lopes, já que, além de se lavar com aguardente, aparece paramentada para o grande ritual com

 

um avental de linho manchado de sangue e respirando toda ela um ardor extenuado; porque, desde a madrugada, já quando Ana acendia a sua fogueira trágica para fazer café, ela andava a pé pela casa, depois de banhar os pés e o pescoço com aguardente

 

A ablução e a assepcia são exigidos à entrada do altar do sacrifício

Por causa da sua penetrante clarividência, logo aos 22 anos começou a ser escutada pelo clã:

 

M141 deu entrada no círculo familiar, passou a merecer ouvidos nas questões melindrosas da honra e dos negócios e revelou-se extraordinariamente competente na sua missão de administradore e de fazedora de heranças; a própria mãe deixou-lhe campo livre e já não censurava de ânimo leve nenhuma das suas acções; estava consumada a autoridade de Carriça, mulher profunda e tenaz, andarilha como a morte para obter resultados que nunca chegava a explicar totalmente e que ninguém sabia se eram ganho ou perda, mas que acrescentavam sempre o seu prestígio.

 

A promoção trouxe-lhe a sua conformada solidão, de que passou a usufruir em liberdade após a debandada dos velhos e dos homens da família.

 

M 135 Ela achava os homens uma espécie de que a sua própria natureza se emancipava; e embora lhes guardasse como que um reconhecimento profundo, que provinha talvez do pressentimento de uma verdade antiga de que eles tinham sido provavelmente os intérpretes, Carriça não os encarava senão, por assim dizer, no intervalo da sua autêntica actividade.

Encontrava neles não sabia que extraordinária frivolidade fosse nos seus sentimentos e batalhas, ou no empreendimento mais cabal de uma ideia; mas isso, com certeza, provinha do facto de toda a atmosfera da casa estar impregnada duma fictícia honra e da grandeza vulgar administrada pelos homens, como seu próprio pai e irmãos, volúveis, sensuais e incapazes de verificar a contradição deplorável em que agiam.

 

Quando tem um pretendente

 

(...) ela não pensava num marido, nomeava à sua geração um ascendente.

Ela preferia talvez alguém como Avelino. (...)Era ele quem ajudava à matança (...)

 

Ficou com Avelino, o dragão guardador, violento mas serviçal como um cão. Carriça, extravasando os contornos dos gostos femininos da casa, preferia-o, não só porque era mais uma forma de mais-valia de ligação ao húmus, eficácia e poder, a acrescentar ao da propriedade, mas também por aqueles

 

olhos loucos, dum azul desesperado.

 

A razão profunda da sua ternura hipnótica e irremediável é a mesma que, n’A SIBILA, Quina sente por Custódio:  é que

 

“Nunca ninguém a considerara tão única, tão imprescindível, tão suprema” .

 

Despeço-me confessando-vos a minha honra por participar nesta acção cultural dedicada à insigne Escritora do Douro. Nós, homens e mulheres do Douro, temos uma dívida de gratidão para com ela, pela dádiva enorme dos seus livros: tão únicos, tão imprescindíveis, tão supremos!

 

Obrigado.

___________________

Siglas:

MO - MENINOS DE OURO

JF - JÓIA DE FAMÍLIA

M - Conto A MATANÇA (livro A BRUSCA)

 

    29 de Março de 2003

            Altino Moreira Cardoso

 

assinatura anual - 7,50 Euros

assinatura vitalícia - 100,00 euros

E-mail: jornalamasintra@sapo.pt

 

Jornal Amadora-Sintra

Avª Vitorino Nemésio, 1 - 1º Dtº 2725, Mem Martins - Portugal

Telefones: 21920 81 88 / 21920 81 68 (Portugal)

 

 

 

 

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