A história da filosofia é comparável à arte do retrato. Não se trata de "fazer parecido", isto é, de repetir o que o filósofo disse, mas de produzir a semelhança, desnudando ao mesmo tempo o plano de imanência que ele instaurou e os novos conceitos que criou. São retratos mentais noéticos, maquínicos.

E, embora sejam feitos ordinariamente com meios filosóficos, pode-se também produzi-los esteticamente. É assim que Tinguely apresentou recentemente monumentais retratos maquínicos de filósofos, operando poderosos movimentos infinitos, conjuntos ou alternativos, redobráveis e desdobráveis, com sons, clarões, matérias de ser e imagens de pensamento, segundo planos curvos complexos.

E, todavia, se é permitido apresentar uma crítica a um artista tão grandioso, parece que a tentativa não está ainda no ponto. Nada dança no Nietzsche, enquanto que Tinguely soube tão bem, em outro lugar, fazer dançar as máquinas. O Schopenhauer nada nos revela de decisivo, quando as quatro Raízes, o véu de Maya parecem inteiramente prontos para ocupar o plano bifacial do Mundo como vontade e como representação.

O Heidegger não retém nenhum velamento-desvelamento sobre o plano de um pensamento que não pensa ainda. Talvez tivesse sido necessário prestar mais atenção ao plano de imanência traçado como máquina abstrata, e aos conceitos criados como peças da máquina. Poder-se-ia imaginar, neste sentido, um retrato maquínico de Kant, ilusões compreendidas (ver esquema acima).

1. O "Eu penso" com cabeça de boi, sonorizado, que não cessa de repetir Eu = Eu.
2. As categorias como conceitos universais (quatro grandes títulos): fios extensíveis e retrácteis seguindo o movimento circular de 3.
3. A roda móvel dos esquemas.
4. O pouco profundo riacho, o tempo como forma da interioridade na qual mergulha e emerge a roda dos esquemas.
5. O Espaço como forma da exterioridade: margens e fundo.
6. O eu passivo no fundo do riacho e como junção das duas formas.
7. Os princípios dos juízos sintéticos que percorrem o espaço-tempo.
8. O campo transcendental da experiência possível, imanente ao Eu (plano de imanência).
9. As três idéias, ou ilusões de transcendência (círculos girando no horizonte absoluto: Alma, Mundo e Deus).

Gilles Deleuze e Félix Guattari, O que é a filosofia?
O plano de imanência, Exemplo IV

> dossiê Gilles Deleuze
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