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Matéria
e Tradução realizada por: A Roda dos
Mundos de Saint Seiya Desde o lançamento do filme de introdução da Saga Celeste temos noção, de modo oficial, das dimensões e mundos paralelos no universo de Saint Seiya. Em nosso próprio site já temos um ótimo artigo sobre isto escrito pelo Allan Montenegro (veja aqui). Todo modo, neste texto tentaremos não analisar somente o que já é de conhecimento de todos, mas sim contrapormos estas concepções às de origem puramente mitológica (incluso teorias modernas, como gnósticas, teosóficas e rosa-crucianas, que são, por sua vez, interpretações contemporâneas destes mitos antigos). Ou seja, não é uma matéria meramente expositiva de fatos conclusivos, mas sim do campo especulativo e interpretativo. Todo modo, espero que seja do agrado, mas aviso antecipadamente que o conteúdo aqui presente será denso e extenso, muitas vezes fugindo ao tema do site com o intuito de melhor desenvolvimento da questão, o que pode ser, para alguns, muito maçante. Enfim... Todo modo não queremos dizer que o autor 'se inspirou' nas diversas fontes e tradições citadas abaixo - se provavelmente se inspirou em algo foi em crenças até mais superficiais, banais, como a numerologia oriental, ou a tabula de elementos alquímica.
Este quadro ilustra bem os mundos atualmente desenvolvidos em Saint Seiya:
Lembremos que estes mundos, realidades, dimensões extra-planares, não são necessariamente em termos materiais, físicos e separados entre si por unidades astronômicas. Podem apresentar manifestações terrenas ou serem totalmente alheios à Terra. Separados as vezes por rios adimensionais, outras vezes pelo próprio cosmo, pelos sentidos. Em japonês os termos Tenkai, Meikai, Makai, Kaikai e Sekai significam justamente Barreira, ou Mundo, Celeste, dos Mortos, dos Demônios, Marinho, e a Terra. 4 destas 5 esferas estão separadas do domínio humano pela Fronteira do 9º Sentido, a Grande Vontade (Big Will), o Sentido Divino. Especificamente no enredo estes reinos não foram representados, somente aludidos e melhor falaremos sobre eles mais a frente. Do Reino Celestial e Demoníaco muito pouco sabemos. Mas e o Reino de Hades, e o Submarino de Poseidon? Sim, cada um é parte integrante da esfera principal, contudo apresentando suas peculiaridades (que refletem, especialmente, as características de seus deuses). No primeiro, o Submundo de Hades, fato marcante é a Fronteira do 8º Sentido, que ali distingue os vivos dos mortos. Este mesmo fator parece não estar presente no Reino Submarino se consideramos o "Plano" dos Sete Pilares como este domínio. Entretanto, não seria o verdadeiro Reino Submarino de Poseidon aquele destruído eras atrás por aqueles 8 Cavaleiros de Ouro mais fortes e retratado no Hipermito? A Atlântida, pois é sabido que só muito tardiamente Poseidon construiria seus Sete Pilares e o Templo de Sounion. Todavia, a imposição do 8º Sentido agiria da mesma forma naquele reino? Disso pouco sabemos, mas percebe-se que a noção de distinção entre vivos e mortos no Reino Marinho não 'vem muito ao caso', devendo assim em cada 'reino elemental' agir de determinada maneira. Sob o domínio do Éter, por inúmeras fontes tido como o elemento do espírito, o 8º sentido tornar-se-ia a barreira do Arayashiki. A atuação frente aos demais elementos pode ser conjecturada por passagens mitológicas, tais como no Reino Celestial de Semi-Deuses/Semi-Humanos das lendas gregas, dotados não somente de um poder extra-humano (que poderia ser explicado pelo 7º Sentido, mas por algo a mais, uma herança divina, seja por benção ou genealogia) e no Reino Demoníaco de Incorporações de inúmeras tradições, formadores de seres Meio-Humanos/Meio Demônios (Giborins e Nephelins, gigantes criados do cruzamento de anjos caídos e mulheres; Daiphires, do cruzamento de Rakshasas e humanas são alguns exemplos). Recordemo-nos da capacidade e atuação distinta do cosmos em cada ser. Somente graças ao cosmos um animal pôde ser deturpado e ter originado Cérberos, ou seja, frente a cada ser, a cada reino elemental, o cosmos ao nível do 8º Sentido pode explicar diversas lendas de seres bizarros, como silenos, sátiros, ictiocentauros, tritões, etc... Onde, nos mitos, tais seres não são deuses (de poder absoluto) mas também não se encontram abaixo dos humanos hierarquicamente.
Deste modo, os Sete Pilares podem ser melhor representados pela zona abrangida por aquele número 4 no diagrama. Assim, o número 1 seria o Monte Olimpo, 2 o Castelo Heinsten de Hades em Tuttlingen, na Alemanha, e 3 o Pandemônio, de Lúcifer. Meros canais, ou manifestações divinas na Terra, elos entre dimensões paralelas. Em quase todos estes portais se encontram os famigerados 'campos de proteção' (mas estes campos não se restringem a eles). Explicado isto, vamos ao passo seguinte, contrapor este sistema aos 'clássicos'.
A Cabala - A Árvore da Vida
Sem desespero, tentarei expor o pouco que conheço sobre este modelo. A Cabala é um modelo de interpretação, um paradigma, não é por si só uma filosofia ou religião, e assim sendo existem diversas correntes e modos de exercício deste estudo (como a Cabala Hebraica, Cristã, Hermética, Thelema, etc... - este trabalho é um arranjo de conceitos retirados destas visões). Exerce(u) forte influência na teologia, filosofia, medicina e outras ciências naturais, angariando nomes de respeito como Agrippa, Paracelsus, Henry Morus, Van Helmont, Blavatsky e Spinoza, dentre outros. Seu arcabouço encontra-se no Sepher Yetzirah, ou O Livro da Criação (ספר יזיר) e no Sepher Ha-Zohar, mais conhecido apenas por Zohar (זה), ou O Livro do Esplendor - ambos da tradição rabínica . O primeiro aborda a cosmologia física da criação do universo do modo que podia ser compreendida à época. O segundo trata mais especificamente de "Deus", de espíritos, da alma humana e do verbo. *Existem também fragmentos do Sepher Ha-Bahir (ספר הבהי) que é publicado quase sempre junto com o Zohar e do Siphra Dzeniutha, O Livro dos Mistérios.
Abreviando a introdução, a Cabala é o sistema que revela a criação do universo, e suas leis. O Sepher Yetzirah alude à 3 Trindades (Sepharim) que representam o Mundo Celestial ou Arquétipo (S'for - o número, a existência), o Mundo Estelar (Sippur - a palavra, o verbo manifestado, o Logos grego) e o Mundo Elemental (Sapher - a escrita, a criação), além do Mundo Terreno (Asiyah) e do próprio Deus. Os mistérios são dissolvidos em 32 Caminhos: as 10 Esferas (Sephiroth, Sephirah no singular) e 22 Cartas. As Esferas ilustram o processo de nascimento do universo, desde o 1º ato (O Espírito de Deus), passando pelos elementos (2º Ar; 3º Água; 4º Fogo), finalizando com as dimensões (5º Alturas; 6º Profundezas; 7º Leste; 8º Oeste; 9º Sul; 10º Norte). *atenção, não está na ordem dos Sephiroth.
Assim do Espírito de Deus, de seu sopro, veio o Ar. Do Ar veio a Água. Da Água surgiu o Fogo. Do Fogo as Alturas e as Profundezas. E destas últimas o Leste e o Oeste, o Norte e o Sul. A citação de Franck revela que os Sephiroth revelam o Ayn Soph, o supremo conhecimento. As Cartas se subdividem em 3 Cartas Mãe, Fundamentais; 7 Cartas Dúbias; e 12 Cartas Singulares. A bem da verdade, representam as letras do alfabeto hebraico (pela lenda, esta é a origem do alfabeto). Assim sendo, são 3 vogais, 7 semi-vogais e 12 consoantes. (As 22 Cartas do Tarô também surgem disto).
Vermelho - Fundamentais. Azul - Dúbias. Preto - Singulares. Para visualizar as letras você precisa ter instalada em seu computador a fonte Lucida Sans Unicode.
As três Fundamentais são uma balança, sendo Aleph o Ar, Men a Água e Sin o Fogo, com a primeira entre as outras duas, equilibrando-as. Tudo foi criado a partir delas. Marco profundo da Santíssima Trindade. Repare também que Sin, o Fogo, é da mesma raiz que em inglês quer dizer "pecado", enquanto Aleph, como na passagem "Eu sou o Alpha e o Omega", é a virtude divina. Dizem alguns que Men é justamente o homem, entre o bem e o mal (raiz semelhante a man no inglês, homem português, etc...). As sete Dúbias representam os pólos opostos do universo. Podendo representar tanto a sabedoria, riqueza, fertilidade, vida, domínio, paz e beleza; quanto a tolice, pobreza, esterilidade, morte, dependência, guerra e feiúra. (Tudo pela ordem). Também representam as 7 dimensões (Altura, Profundidade, Leste, Oeste, Norte e Sul) mas o local central, ponto base. Tal como os "sete planetas", os sete dias da semana e os "sete portões" do homem (olhos, ouvidos, narinas e boca - engraçado que eles não consideram ... é!). E ainda os sete céus, sete terras, sete mares, sete rios, sete desertos, sete semanas do Pentecostes, e os sete anos vezes sete do jubileu.
Podendo representar ambos os pólos do universo, o número sete e estas letras simbolizam Deus, o tudo, como o Tao, a força que harmoniza o Yin e o Yang (ao passo que Lúcifer é 6, o quase e o pretendente de sua onipotência, vejam neste mesmo alfabeto que 6 é transcrito como a letra Vau (v, w), por este motivo dizem ser a internet o símbolo do demônio, pois 666 = vau, vau, vau = www). As doze Singulares representam os 12 signos, os 12 meses, os 12 órgãos, os interpontos cardeais (incluso altura e profundidade), 12 apóstolos... a simbologia é ampla. OK, antes de aprofundarmos mais nas 22 Cartas, voltemos aos Sephiroth e, principalmente, aos mundos. Guardem esta explicação:
Vimos logo de cara que a criação é dividida em quatro mundos principais, S'for, Sippur, Sapher e Asiyah englobados em três trindades de Esferas (Planos, Dimensões, etc...), onde o Asiyah (Malkuth, a Terra) e Kether, o supremo plano, ficam alheios. Logo: Kether, a alta-coroa, não forma um 'mundo', sendo interpretado como a própria força motriz do universo (Deus, Demiurgo, Ancião dos Dias, Altíssimo, Cosmo, Caos, Ginnungagap, Kunitokotachi, Atma, Tao, Kundalini, Brahma, Fohat, etc.).
Binah-Hochma-Tipheret formam a Trindade Atziluth do Mundo Arquétipo (S'for). Giburah-Hesed-Tipheret formam a Trindade Bariah, ou Briah, do Mundo Estelar (Sippur). Hod-Netzach-Yesod formam a Trindade Yetzirah do Mundo Elemental (Sapher). Malkuth forma o Reino da Terra (Asiyah, Assiah, ou Olam Hamotava). Reparem que as duas primeiras trindades formam um prisma (o verbo), cujo vértice encontra-se em Tipheret. E este mesmo Sephiroth participa, junto da última trindade, de outro prisma (a matéria). Sendo assim a Terra a condensação destes dois elementos, o verbo, vida, e a matéria, carne, resultante em Adão Cádmon (אדם קדמו - mais conhecido entre os otakus como o Adam Kadamon de Angel Sanctuary), o ser humano primordial, arquétipo. *Outras versões da Cabala, como a Hermética, dizem ser Sandalphon - que parece ser somente uma corruptela do nome, pois sua raiz 'and', 'ander', 'andros' quer dizer homem tal como 'adâm'. Analisando o prisma material temos: Tipheret - o Sol (fogo). Netzach - Vênus (ar). Hod - Mercúrio (éter). Yesod - a Lua (água). E, obviamente, Malkuth - a Terra (terra) como vértice. Somente para constar: Todos se encontram, astronomicamente, no interior da órbita da Terra. Ora, temos assim justamente o mesmo esquema elemental de mundos apresentado inicialmente como padrão de Saint Seiya. Aplicando com mais rigor a teoria do anime podemos pensar então que o quadrilátero da base do prisma material são os reinos palpáveis aos humanos, de sua compreensão, ou seja, o Reino dos Mortos (Hod - Éter), o Reino dos Demônios (Tipheret - Fogo), o Reino Marinho (Yesod - Água), e o Reino Celestial (Netzach - Ar). Mas, e quanto ao prisma verbal?
A Cabala Nórdica - Árvore da Vida Yggdrasil.
Para estendermos a compreensão sobre o assunto usaremos um esquema de outra Árvore da Vida que não a Cabala, a Yggdrasil nórdica.
Esta árvore simboliza o universo e cada parte sua representa um mundo de diferentes entidades. De suas raízes à copa é percorrido todos os mundo inferiores aos superiores, estando ao centro e enrolada no tronco, Jormungard, a serpente da Terra (por vezes confundida com Midgard). Reza lenda que a raíz desta árvore é sustentada sobre um reino de fogo e calor, o Muspelheim (terra dos gigantes de fogo - clara alusão ao centro magmático da Terra), - estando ainda abaixo deste o abismo absoluto do Niflheim - e erguida por três raízes:
A primeira raíz era o Helheim, morada da alva Morte, de seu fiel cão de guarda Garm e de numerosas serpentes. A segunda era Jotünheim, reino de gelo e água onde habitavam poderosos gigantes ao qual, seu degelo dera origem à vida na Terra, conforme a oitava estrofe do Voluspo (ora, dizem que a vida surgira da água...). E a última, mais elevada e ao centro, Midgardheim, o mundo dos homens. No Grimnismol, Sturlusson prossegue ilustrando os ramos superiores com afinco, principalmente o último, Asgardheim, morada dos Deuses Ases (ou Aesires). Os outros são Ljossalfheim, terra dos altos-elfos ou elfos do ar e da luz; Svartalfheim, terra dos elfos-negros, sombras e aparições; e Vanaheim, terra dos Vanes (ou Vanires), deuses do mar. *Sturlusson não nos deixa claro todos os mundos de Yggdrasil, somente caracteriza com detalhes oito deles, deixando suposições sobre o último, provavelmente Svartalfheim, ou Nidavellir, mundo sombrio das profundezas e dos anões, todo modo a nomenclatura não altera a sistemática proposta.
Nesta imagem vemos alguns dos mundos da tradição das antigas Sagas. Percebam que este esquema apresenta altura e profundidade em uma clara dualidade de pureza/corrupção no contraste entre os reinos superiores e inferiores. Enfim, assim temos novamente os elementos, Fogo, Água (Gelo), Ar e, conseqüentemente, Éter (em Svartalfheim). Tudo isto nos permite a seguinte comparação:
Está então ordenado o prisma verbal da cabala hebraica como sendo envoltos e adjacentes, extensões mais puras dos primeiros, ou em termos específicos, incompreensíveis a razão humana, ou ainda em termos de Saint Seiya, territórios do 9º Sentido, por classificação meramente mitológica. Por conseguinte:
Contudo, por que motivos tal atribuição? Por revelação da própria cabala, vejamos aqueles 22 Caminhos por entre os Sephirah.
Os Caminhos da Cabala
Tentarei não complicar o que já é por demais complicado. A cabala, como viram até agora, abrange uma gama de dogmas e ensinamentos não só do judaísmo, é possível encontrar vestígios de inúmeras religiões e mitologias antigas e sistematizá-las em um grande conceito. Para fixar melhor os dados e facilitar a compreensão disponibilizarei aqui uma grande coletânea de sinônimos para estes 'mundos' em cada uma das principais mitologias (por enquanto ainda incompleta, mas amplamente viável para consultas).
A Cabala retrata especialmente o destino do Homem, de Malkuth à Kether, da Terra à Deus, do Microcosmo ao Macrocosmo. Estes caminhos são todos atalhos que, hora menos hora, realizarão este fado. Pois bem, Kether (lembrem-se que seus sinônimos são inúmeros) compreende tudo, de seu domínio surge o Bem e o Mau dado ao homem em livre arbítrio como caminhos que ele por ventura possa escolher (a alegoria da árvore do bem e do mal na bíblia é a mesma cabala), contudo, não importando que caminho possa escolher, ambos conduzirão à Deus, cedo ou tarde (dogma problemático este para a igreja e algumas outras religiões desta vertente, mas continuemos), tal como os budistas, hinduístas e espíritas acreditam. De Kether, do Tao, surge a força harmonizadora do Yin e do Yang, do Bem e do Mal, a terceira via das doutrinas budistas, representado pelo 3º Caminho (Ghimel) ligado à Tipheret. Este Sephiroth é o que apresenta mais caminhos que partem de e chegam a si. E assim deixaremos para o explicar com o andamento da teoria. O quarto caminho entre o Hochma e Binah, entre o Olimpo e o Tártaro, ou melhor, entre o Paraíso e o Inferno é a Luz e a Sabedoria e inicia o prisma verbal. Como diria Shaka, a maneira mais fácil de cair ao inferno é pelo próprio paraíso, ou seja. A Sabedoria leva à Luz, ao mesmo tempo que à perdição (É o caso do anjo caído Samael, vulgo Lúcifer, o portador da luz). O sexto e oitavo caminhos são extensões de suas respectivas características. O caminho do rigor liga a inteligência (Binah) ao medo (Giburah) enquanto a piedade liga sabedoria (Hochma) a magnificência (Hesed). Ou seja, seja pelas agruras do inferno, por medo e malícia, pelo fogo da justiça divina (simbolizado pelo sétimo caminho) ou pela bondade do perdão e do arrependimento, pelas águas da piedade divina (simbolizada pelo quinto caminho) a humanidade alcançará seu destino. O mesmo pode ser dito para o décimo e duodécimo caminho, forças da esquerda e da direita representam fatores que não são nem bons nem maus, sem dotes de moral e valor, contudo são antagônicos e somente compreendidos pelo nono caminho, o da Justiça aliada a Piedade, ou seja, ao bom legislador. Eis o término dos caminhos do prisma verbal. Chegamos à Tipheret. O Domínio do Fogo (Muspelheim), alusão ao Sol e ao Inferno. Centro da Cabala, da Geometria e da Simetria, e assim sendo, possuí atributos ambíguos. Enquanto parte do prisma verbal retrata o fogo santo, o fogo da centelha divina, o ANIMA MUNDI da vida. Enquanto parte do prisma material representa o fogo das paixões tão características as emoções humanas, e daí todas as suas vicissitudes. Recebe de Hochma, do paraíso, as águas da piedade, enquanto de Binah, o fogo do inferno (abismo, pois já é um) e da justiça divina. Seu reino elemental do fogo conduz ao padecimento do espírito (Giburah - Hel, Hades, etc...) pelo duodécimo caminho ou a reencarnação (Hesed - Vanaheim, Reino Marinho, águas da purificação antes do renascimento) pelo décimo. Também une-se aos outros três mundo materiais elementares. Pelo décimo quinto trajeto a centelha divina é adicionada ao Reino da Fundação, Yesod (Elemento Água), ou seja, o sopro divino é catalisado por este elemento para a criação (justamente como vemos nas experiências químicas que tentam reproduzir a Terra de bilhões de anos atrás com oceanos de proteínas e aminoácidos, coacervados e etc)... Confesso que pelo que estudei até o momento não compreendi muito bem a simbologia a que se referem os caminhos dos Signos e da Menorá (que é um candelabro sagrado de sete velas dos judeus - pelo que sub-entendo deve-se referir a Lei e a prevenção dos sete pecados). Todo modo, sendo vias de mão-dupla como todas as outras sua importância se encontram no fato de se unirem a Hod (antecâmara do Hades, inferno denso e material de éter) e Netzach (rejubilo e paz espiritual no 'primeiro céu'), vistos que estes se unem a Yesod pelos caminhos dezesseis e vinte (a destruição e a conservação). Digo, reparem no prisma de uma das imagens anteriores, é que são inversamente proporcionais, ou seja, Tipheret é ligado à Yesod pela criação, e Yesod ligado aos outros dois pela destruição e conservação, desta maneira Tipheret também o deve ser, mas por vias invertidas. (Hod ligado à Tipheret pela conservação, ou ao menos preceitos e Netzach ligado à Tipheret pela destruição, ou ao menos sua recordação de cuidado representada justamente pelo Menorá). Netzach (paraísos materiais) e Hod (infernos materiais) são ligados diretamente aos caminhos da Piedade e Rigor pelos trajetos onze e treze, assim entrelaçando cada um em uma ramificação destinada aos paraísos e infernos verbais (cósmicos, transcendentais, tais como o nirvana e o samsara). E também ligados entre si pelo caminho da vitória e da honra (ou glória), o que retrata a confusão que estas duas emoções podem causar à noções morais - para uns manter sua honra é vital e absolutamente louvável, mas a custo de que? humilhar-se as vezes em detrimento da vitória e da honra revela-se como um verdadeiro caráter digno, todavia uma vida desgarrada e desonrada não possui a menor estima, por isso tal união entre os dois reinos. Enfim, só nos resta tomarmos os caminhos que partem de e levam à Malkuth, a Terra. No caminho 22 ao chegar é a vida, nascente e vigorosa, no sentido de Yesod (centelha divina + água) para Malkuth (onde receberá o períspirito de Hod e o sopro divino de Netzach), ao partir é a morte, julgadora e pueril, no sentido de Malkuth para Tipheret. Contudo esta é, por assim dizer, uma morte neutra (não tão densa em pecados e virtudes) cujo espírito reencarnará posteriormente em Hesed ou receberá seu devido quinhão em Giburah (ambos pós passagem em Tipheret). Outros dois caminhos partem com a morte de Malkuth, um para Netzach, paraíso material, outro para Hod, inferno material (de éter, bom lembrar - quando assim o digo, o inferno do próprio espírito, composto de éter).
A Evolução ou Destino na Roda dos Mundos.
Vimos a Cabala até agora no sentido horizontal e de seus caminhos, porém agora, seguindo o budismo, por exemplo, vejamos o sentido vertical. De baixo para cima se verá a trajetória rumo a mundos cada vez menos densos e materiais, cada vez mais próximo de Deus e seus inúmeros nomes. O caminho da direita, Jaquin, o Pilar * da Misericórdia, leve e suave; o caminho da esquerda, Boaz, o Pilar da Severidade, justo e pesado; e o caminho do meio, chamado Balança, aquele sem apego algum as paixões, nem as boas nem as ruins. O sentido inverso revelará o nascimento do homem e de todos os seus atributos. *Alusão aos dois principais pilares do Templo de Salomão, conforme 3Rs 7, 21; 2Par 3, 17; Jer 52, 22. Lido da direita para a esquerda temos Jaquin Boaz, ou seja "Ele [Deus] estabeleceu [o Templo] solidamente".
Este é um esboço da parte teórica da Cabala como vista no Yetzirah e no Zohar. Permitam-me agora um pequeno a parte sobre as aplicações praticas decorrentes da Cabala. Basicamente são duas, a Exegética (práticas de desmistificação de significados ocultos) e a Taumatúrgica (exercícios de ritos mágicos e sobrenaturais). A doutrina exegética é fundada na teoria de que Moisés recebera de Deus no Sinai as chaves necessárias para poder desvendar os mistérios escondidos por detrás de cada mínima letra da Cabala e do Pentateuco. Estas chaves chegaram à modernidade como sendo a Gematria, o Notarikon e o Temura. Gematria se trata do valor numérico e do poder das letras, suas formas e as vezes sua posição em determinadas palavras. Uma análise aritmética e figurativa que deu origem a, por muitas vezes charlatã, numerologia. Notarikon é quando uma letra significa algo por inteiro ou uma pessoa, uma abreviação. E quando junta de outras, formam novos sentidos e significados. Temura é a permutação das letras, a troca de posição através de alguns métodos combinatórios, os mais famosos são o Athbash e o Albam (que possuem estes nomes justamente por começarem a seqüência de inversão com estas letras):
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