A mente que deseja compreender um problema deve não apenas se limitar a
compreendê-lo completamente, integralmente, mas também deve ser capaz de seguí-lo
com presteza, pois o problema nunca é estático. O problema é sempre novo, seja ele
um problema de fome, um psicológico, ou qualquer outro tipo de problema. Qualquer
crise é sempre nova; portanto, para compreendê-la, a mente precisa estar sempre
fresca, clara, suave em sua busca. Acredito que a maioria de nós reconhece a
urgência de uma revolução interior, única maneira de conseguir uma mudança radical
no que é exterior, na sociedade. Esse é o problema que preocupa a todos os que tem
intenções sérias. Como produzir na sociedade uma mudança radical, fundamental, eis
o nosso problema; e essa mudança do exterior não pode acontecer sem antes ter
ocorrido uma revolução interior. Uma vez que a sociedade é sempre estática,
qualquer ação, qualquer reforma efetuada sem essa revolução interior torna-se
igualmente estática; assim, sem essa constante revolução interior não há
esperança, porque, sem ela, a ação exterior se torna repetitiva, habitual. A ação
do relacionamento entre você e um outro, entre você e eu, é a sociedade; e,
enquanto não houver essa constante revolução interior, enquanto não houver uma
transformação psicológica criativa, essa sociedade se torna estática, não tem
qualidade de vida. E, exatamente pelo fato de não existir essa revolução interior
constante, a sociedade está se tornando cada vez mais estática, cristalizada, e
vem, portanto, se desagregando constantemente.
Qual o relacionamento que existe entre você e a miséria, entre você e a confusão, a que existe em você e ao seu redor ? Certamente essa confusão, essa desgraça, não se criou por sí própria. Você e eu a criamos; não foi uma sociedade capitalista ou socialista ou fascista, mas você e eu a criamos no nosso relacionamento um com o outro. O que você é interiormente tem sido projetado no exterior, no mundo; o que você é, o que você pensa e o que você sente, o que você faz na sua vida diária, tudo isso é projetado externamente, e isso constitui o mundo. Se somos desgraçados, confusos e caóticos no nosso interior, pela projeção, tudo isso vem a ser o mundo, a sociedade, porque o relacionamento entre você e eu, entre mim e um outro, é a sociedade - e se nosso relacionamento é confuso, egocêntrico, estreito, limitado, racional, nós projetamos isso e trazemos o caos para o mundo.
O mundo é o que você é. Então o seu problema é problema do mundo. Certamente esse é um fato básico e simples, não é verdade ? No nosso relacionamento comum ou com muitos, parece que esquecemos sempre esse ponto. Queremos produzir alterações através de um sistema ou através de uma revolução de idéias e valores baseada num sistema, esquecendo que somos você e eu que criamos a sociedade, que produzimos a confusão ou a ordem, dependendo da forma como vivemos. Sendo assim, é preciso começar pelo que está perto, ou seja, devemos nos preocupar com a nossa existência diária, com os nossos pensamentos, ações e sentimentos diários, que se revelam na maneira pela qual ganhamos a vida e no nosso relacionamento com a idéias e as crenças. Isso é a nossa existência diária, não é ? Estamos preocupados em viver, em conseguir empregos, em ganhar dinheiro; estamos preocupados com o relacionamento com a nossa família ou com os nossos vizinhos; e estamos preocupados com idéias e com crenças.
Bem, se você examinar o seu trabalho, descobrirá que ele se baseia principalmente na inveja; que ele não é apenas um meio de ganhar a vida. A sociedade é construída de tal forma que se constitui num processo de conflito constante, de constante evolução; ela se baseia na cobiça, na inveja - inveja do seu superior; o funcionário quer se tornar gerente, um pequeno exemplo, o que demonstra que ele não está apenas preocupado em ganhar a vida ou com um meio de subsistência, mas também em conquistar posição e prestígio. Essa atitude naturalmente cria confusão na sociedade, nos relacionamentos, mas se você e eu estivéssemos preocupados exclusivamente com viver, descobriríamos as formas corretas de garanti-lo, formas não baseadas na inveja. A inveja é um dos fatores mais destrutivos dos relacionamentos, pois indica o desejo de poder, de posição, e acaba por levar à política; ambas estão intimamente relacionadas. O funcionário, na sua tentativa de se tornar o gerente, acaba por se tornar um agente criador da política de poder que produz guerra; sendo assim, indiretamente ele é responsável pela guerra.
Por que a sociedade estará entrando em colapso, desmoronando como é certamente o que está ocorrendo ? Uma das razões fundamentais é que o indivíduo - você - deixou de ser criativo. Deixe-me explicar o que quero dizer. Você e eu nos tornamos imitadores, estamos copiando, interior e exteriormente. Exteriormente, quando aprendemos uma técnica, quando nos comunicamos uns com os outros em nível verbal, naturalmente tem que haver certo grau de imitação ou de cópia. Eu copio palavras. Para se tornar um engenheiro, preciso inicialmente aprender as técnicas e, a seguir, usar a técnica para construir uma ponte. Deve haver certa dose de imitação, e de cópia nas técnicas exteriores, mas quando existe imitação interior, psicológica, certamente deixamos de ser criativos. Nossa educação, nossa estrutura social, nossa chamada vida religiosa, todas elas se baseiam na imitação; ou seja, eu me encaixo em determinada fórmula social ou religiosa. Deixei de ser um indivíduo real; psicologicamente, tornei-me uma mera máquina repetidora, com certas respostas condicionadas, sejam elas budistas, cristãs, hindus, alemãs ou inglesas. Nossas respostas são condicionadas de acordo com o padrão da sociedade, seja ela oriental, ocidental, religiosa ou materialista. Assim uma das causas fundamentais da desintegração da sociedade é a imitação, e um dos agentes desintegradores é o líder, cuja verdadeira essência é a imitação.
Para que possamos compreender a natureza da sociedade em desintegração, não será importante indagar se eu e você, se o indivíduo, pode ser criativo ? Podemos perceber que quando existe imitação existe desintegração, quando existe autoridade existe cópia. E já que toda a nossa constituição mental e psicológica se baseia na autoridade, para que possamos nos tornar criativos é preciso que nos libertemos da autoridade. Não terão vocês notado que nos momentos de maior criatividade, naqueles momentos realmente felizes de interesse vital, não existe o senso de repetição e não sentimos que estamos copiando ? Esses momentos são sempre novos, diferentes, criativos e felizes. Vemos, assim, que uma das causas fundamentais da desintegração da sociedade é a cópia, e a adoração da autoridade é isso.
( Sobre o Viver Correto - Edit. Cultrix
- págs. 28 a 31 )
A pergunta surge tarde demais. Precisamos nos indagar, a despeito da ação imediata que é necessária, se é possível acabar com todas as guerras, não com um determinado tipo de guerra, a nuclear ou as convencionais, e descobrir quais são as causas da guerra. Até que essas causas sejam descobertas e anuladas, tenhamos a guerra convencional ou a nuclear, não teremos mudado e o homem destruirá o homem.
Sendo assim, a pergunta, na verdade, deveria ser : quais são, essencialmente, fundamentalmente, as causas da guerra ? Precisamos ver juntos as verdadeiras causas, não as inventadas, não as românticas, como as causas patrióticas e todas essas bobagens, mas descobrir com honestidade o motivo que leva o homem a se preparar para cometer assassinatos legalizados - a guerra. Até que pesquisemos e cheguemos à resposta, as guerras prosseguirão. Mas não estamos considerando com a necessária seriedade, ou nos dedicando com o necessário afinco, à tarefa de desvendar as causas da guerra. Deixando de lado tudo aquilo com o que defrontamos no momento atual, a proximidade do assunto, a crise atual, não poderemos juntos descobrir as verdadeiras causas e colocá-las de lado, dissolvê-las ? Isso requer o ímpeto de descobrir a verdade.
Alguém poderá perguntar: qual a origem desta divisão - o russo, o americano, o inglês, o francês, o alemão, etc - por que existe essa distinção entre homem e homem, entre raça e raça, cultura contra cultura, uma ideologia contra a outra ? Por quê ? Por que existe essa separação ? O homem dividiu a terra entre o que é seu e o que é meu - por que ? Será que buscamos encontrar segurança, proteção, num determinado grupo ou em determinada crença ou fé ? Mas as religiões também dividiram os homens, colocaram o homem contra o homem - os hindus, os muçulmanos, os cristãos, os judeus e assim por diante. O nacionalismo, com seu malfadado patriotismo, é na verdade uma forma exaltada, uma forma enobrecida de valorizar a vida em tribos. Seja numa pequena tribo, seja numa maior, existe o sentimento de estar junto, de ter a mesma língua, as mesmas superstições, o mesmo tipo de sistema político ou religioso. E com isso a pessoa se sente segura, protegida, feliz e com bem-estar. E em nome dessa segurança e bem-estar estamos dispostos a matar outros que têm o mesmo tipo de desejo de segurança, de se sentirem protegidos, de pertencer a algo. Esse terrível desejo de se identificar com um grupo, com uma bandeira, com um ritual religioso, etc, nos dá a sensação de que temos raízes, de que não vagamos a esmo. Existe o desejo, a ânsia de descobrir as próprias raízes.
E também dividimos o mundo em zonas econômicas, com todos os seus problemas. Talvez uma das principais causas da guerra seja a indústria pesada. Quando a indústria e a economia caminham de braços dados com a política, é inevitável que elas tentem sustentar uma atividade separatista de modo a manter seu status econômico. Todos os países estão fazendo isso, grandes e pequenos. As nações poderosas estão armando as pequenas - algumas discreta e sub-repticiamente, outras ostensivamente. Será que a causa da toda essa desgraça e sofrimento, e de todo o enorme dispêndio de dinheiro em armamentos, é a manutenção visível do orgulho, do desejo de ser superior aos outros ?
A Terra é nossa, não de vocês ou minha ou dele. É de se supor que devemos viver nela ajudando-nos mutuamente e não nos destruindo uns aos outros. Não se trata aqui de nenhuma tolice romântica, mas de fatos reais. O homem, porém, dividiu a terra na esperança de, no particular, encontrar a felicidade, segurança, uma sensação de inexcedível bem-estar. Até que ocorra uma mudança radical e varramos com todas as nacionalidades, com todas as ideologias, com todas as divisões religiosas, e estabeleçamos um relacionamento global, psicológico de início, interiormente antes de organizarmos o exterior - a menos que isso ocorra, as guerras continuarão. Se você faz mal aos outros, se você mata, seja por raiva ou num assassinato organizado, a que se dá o nome de guerra, você, que é o restante da humanidade, estará se destruindo.
Essa é a questão básica, a questão verdadeira, que você precisa compreender e resolver. Até que você se dedique, se envolva em erradicar essa divisão nacional, econômica e religiosa, você estará perpetuando a guerra. Você é responsável por todas as guerras, sejam elas convencionais ou nucleares.
Essa é, com efeito, uma questão urgente e importante; pode o homem, você, produzir essa mudança em você mesmo - não dizer: " Se eu mudar, será que isso tem algum valor ? Não será apenas uma gota d'água no oceano, sem efeito algum ? Que importa eu mudar ?" Essa não é a questão correta, se você me permite dizê-lo. Está errada porque você é o resto da humanidade. Você é o mundo; você não é separado do mundo. Você não é americano, russo, hindu ou muçulmano. Você pode falar uma língua diferente, ter costumes diferentes. Isso é cultura superficial - todas as culturas aparentemente são superficiais - mas a sua consciência, suas reações, sua fé, suas crenças, sua ideologias, seus medos, ansiedades, solidão, sofrimento e prazer são semelhantes àquelas do restante da humanidade. Se você mudar, isso afetará a humanidade como um todo.
É importante ter isso em mente - não de forma vaga ou superficial - ao investigar, pesquisar, buscar as causas da guerra. A guerra só poderá ser compreendida e eliminada se você e todos aqueles profundamente preocupados com a sobrevivência do homem perceberem a extrema responsabilidade pela matança dos outros. O que o fará mudar ? O que fará com que você se conscientize da terrível situação que produzimos agora ? O que fará com que você repudie todo tipo de divisão - religiosa, nacional, ética, e assim por diante ? O sofrimento fará isso ? Mas o homem carrega esse sofrimento há milhares e milhares de anos, e não mudou; busca ainda a mesma tradição, o mesmo modo de vida em tribos, a mesma divisão religiosa de " meu Deus ", do "seu Deus ".
Os deuses, ou seus representantes, são inventados pelo pensamento; eles não possuem nenhuma realidade na vida diária. Segundo a maioria das religiões, matar o semelhante é o maior dos pecados. Já antes do cristianismo os muçulmanos afirmavam isso, os budistas diziam isso, e no entanto as pessoas matam apesar de sua crença em Deus, ou de sua crença num salvador, e assim por diante; eles ainda prosseguem no caminho da matança. Será que a recompensa dos céus ou o castigo dos infernos fará com que vocês mudem ? Mas isso também já foi oferecido aos homens. E também fracassou. Nenhuma imposição externa, leis, sistemas, nada disso jamais impedirá o homem de matar. Assim como nenhuma convicção intelectual ou romântica acabará com as guerras. Elas só terminarão quando você, como o resto da humanidade, enxergar a verdade de que, enquanto existirem divisões de qualquer tipo, haverá conflitos, limitados ou amplos, estreitos ou em expansão, haverá lutas, conflito, dor. Sendo assim, você é responsável, não apenas pelos seus filhos, mas também pelo resto da humanidade. A menos que você compreenda isso profundamente, não de modo puramente idealista ou intelectual, mas sinta isso em seu próprio sangue, em sua maneira de olhar a vida, em suas açòes, você estará apoiando o assassinato organizado que é chamado de guerra. O imediatismo da percepção é mais importante do que o imediatismo de responder a uma questão que é resultado de milhares de anos ao longo dos quais o homem vem matando o homem.
O mundo está doente; e ninguém pode ajudar você, exceto você mesmo. Já tivemos líderes, especialistas, todo tipo de influência externa, incluindo Deus - sem nenhum efeito; eles não influenciaram da forma alguma o seu estado psicológico. Eles não podem guiá-lo. Nenhum estadista, mestre, guru, ninguém pode fazê-lo mais forte interiormente, ninguém pode lhe dar a suprema saúde. Enquanto você permanecer em desordem, enquanto sua casa não for mantida em condição adequada, num estado adequado, você criará o profeta externo e ele estará sempre a desencaminhá-lo. Sua casa está em desordem, e ninguém nesta terra ou no céu pode trazer a ordem para sua casa. A menos que você, por si mesmo, compreenda a natureza da desordem, a natureza do conflito, a natureza da divisão, sua casa - ou seja, você - permanecerá sempre na desordem, em guerra.
A questão não é saber quem tem o maior poderio militar; trata-se do homem contra o homem, o homem que acumulou ideologias; e estas, produzidas pelo homem, fazem com que um se volte contra o outro. Até que essas idéias, ideologias, terminem e o homem se torne responsável pelos outros seres humanos, em hipótese alguma haverá paz no mundo.
( de Krishnamurti para ele mesmo - Ojai, 31 de Março de 1983 - Sobre Conflitos - Edit. Cultrix - págs. 118 a 122 )
Para se tornar efetiva a imposição de um novo padrão, requer-se a chamada ação das massas.
Mas o novo padrão é invenção de uns poucos indivíduos, sendo a ' massa ' hipnotizada
pelos mais novos chavões, pelas promessas de uma nova Utopia. A ' massa ' é a mesma de antes, só
que agora tem novos dirigentes, novas frases, novos sacerdotes, novas doutrinas. Essa 'massa '
é formada por vós e por mim, é composta de indivíduos; a massa é fictícia, é um termo
conveniente ao jogo do explorador e do político. Os muitos são impelidos à ação, à guerra, etc.,
pelos poucos; e os poucos representam os desejos e os impulsos dos muitos.
É a transformação do indivíduo que tem a máxima importância, mas não de acordo com um
padrão qualquer. Os padrões condicionam sempre, e uma entidade condicionada está saempre em
conflito, dentro em si mesma e, por conseguinte, com a sociedade. É relativamente fácil adotar
um novo padrão de condicionamento, para substituir o velho; mas quanto ao indivíduo
libertar-se de todos os condicionamentos, isso é coisa muito diferente.
Nossa moral atual está baseada no passado ou no futuro, no tradicional ou no que 'deveria ser' .
O que 'deveria ser' é o ideal, em oposição ao que 'foi' ; é o futuro em comflito com o passado
. A não-violência é o ideal, o que 'deveria ser'; e o que 'foi' é a violência. O que 'foi' "
projeta" o que 'deveria ser' ; o ideal é de " fabricação doméstica " , sendo "projetado" pelo seu
próprio oposto - o real. A antítese é o prolongamento da tese; o oposto contém o elemento do
oposto respectivo. Sendo violenta, a mente projeta o seu oposto, o ideal de não-violência.
Diz-se que o ideal ajuda a dominar seu oposto; mas é exato ? O ideal não é uma maneira de evitar,
fugir ao que 'foi' ou ao que 'é' ? O conflito entre o real e o ideal é evidentemente um meio
de adiar a compreensão do real, e esse conflito apenas cria um outro problema, que ajuda a esconder
o problema imediato. O ideal é uma maravilhosa e respeitável fuga do real. O ideal da não-violência
, tal como o da Utopia coletiva, é fictício; o ideal, o que 'deveria ser' , ajuda a esconder e a
evitar 'o que é ' . A luta pelo ideal é busca de recompensa. Podeis abster-vos de buscar recompensas
mundanas, achando tal desejo estúpido e primitivo, como de fato é; mas a vossa luta pelo ideal
representa uma busca de recompensa, num plano diferente, o que é igualmente estúpido. O ideal é
uma compensação, um estado fictício conjurado pela mente. Sendo violenta, "separatista" e ambiciosa,
a mente projeta uma compensação agradável, a ficção a que chama ideal, Utopia, ou futuro, e se
esforça em vão para alcançá-la. Esse próprio esforço representa conflito, mas é também uma maneira
conveniente de adiar a compreensão do real. O ideal, o que 'deveria ser' , não ajuda a compreender
'o que é '; pelo contrário, impede-lhe a compreensão.
A compreensão de 'o que é ' só se torna possível quando o ideal, o que 'deveria ser' , foi apagado da mente
; isto é, quando o falso foi percebido como falso. Para se compreender o real, é preciso estar em comunhão
direta com ele; não pode existir relação com ele, através da cortina do ideal ou através da cortina do
passado, da tradição, da experiência. Estar livre da maneira errada de começar é o único problema.
Isto significa, com efeito, que se precisa compreender o condicionamento, que é a mente. Compreender
a mente, que é o movimento da vida, é compreender as dores e prazeres, a ilusão e a claridade, a
arrogância e afetação de humildade. É estar côncio do desejo e do medo.
Só no espelho das relações pode a mente ser compreendida, e deveis começar
por olhar-vos nesse espelho.
O indivíduo é essencialmente o coletivo, e a sociedade foi criada pelo indivíduo.
O indivíduo e a sociedade estão inter-relacionados; Eles não existem separadamente. O indivíduo
ergue a estrutura social, e a sociedade, ou o ambiente, molda o indivíduo.
Embora o ambiente condicione o indivíduo, este sempre pode libertar-se,
romper as cadeias que o prendem ao seu 'fundo '. O indivíduo é o criador do
próprio ambiente de que se tornou escravo; mas ele tem também o poder de
libertar-se e criar um ambiente que não lhe embote a mente, o espírito.
O indivíduo só é importante nesse sentido, isto é, ele tem a capacidade de libertar-se de seu
condicionamento e de compreender a realidade. A individualidade, que é cruel
em razão de seu condicionamento, funda uma sociedade cujos fundamentos se
assentam na violência e no antagonismo. O indivíduo só existe em relação; de outro modo
ele não existe. E é a falta de compreensão dessa relação, que está gerando conflito e confusão.
Se o indivíduo não compreende a sua relação com pessoas, com a propriedade e com as idéias
ou crenças, a mera imposição de um padrão, coletivo ou de outra ordem, é contraproducente.
( Reflexões Sobre a Vida - Págs. 93 a 96 ( partes) - Edit. Cultrix )
Em meio a tanta confusão e sofrimento, é essencial encontrar um entendimento criativo de nós mesmos, pois sem ele nenhum relacionamento é possível.
Somente através do pensar correto pode haver entendimento. Nem líderes, nem um novo conjunto de valores, nem um projeto pode produzir este entendimento
criativo; somente através do nosso próprio esforço correto pode haver entendimento correto.
Como é possível então encontrar este entendimento essencial? De onde
começaremos a descobrir o que é real, o que é verdadeiro, em toda essa
conflagração (Conflagração da segunda guerra mundial.), confusão e miséria?
Não é importante descobrirmos por nós mesmos como pensar corretamente sobre
a guerra e a paz, sobre a condição econômica e social. sobre nosso
relacionamento com os nossos companheiros?
Certamente existe uma diferença
entre o pensar correto e o pensamento correto e condicionado. Podemos ser
capazes de produzir em nós mesmos pensamento correto imitativamente, mas tal
pensamento não é o pensar correto. O pensamento correto e condicionado é
não-criativo. Mas quando soubermos como pensar corretamente por nós mesmos -
que é ser vivo, dinâmico - então é possível produzir uma cultura nova e mais
feliz.
Gostaria de, durante estas palestras, desenvolver o que me parece ser o
processo do pensar correto, para que cada um de nós seja realmente
criativo - e não meramente fechado em uma série de idéias e preconceitos.
Como vamos então começar a descobrir por nós mesmos o que é o pensar
correto? Sem o pensar correto não é possível a felicidade. Sem o pensar
correto, nossas ações, nosso comportamento, nossos afetos, não têm base.
O pensar correto não é para ser descoberto através dos livros, através do
assistir a umas poucas palestras, ou por escutar meramente algumas idéias de
pessoas sobre o que é o pensar correto. O pensar correto é para ser
descoberto por nós mesmos através de nós mesmos. O pensar correto vem com o
autoconhecimento. Sem autoconhecimento não existe pensar correto. Sem
conhecer-se a si mesmo, o que você pensa e o que sente não pode ser
verdadeiro. A raiz de todo entendimento encontra-se no entendimento de si
mesmo. Se você pode descobrir quais são as causas de seu
pensamento-sentimento, e a partir desta descoberta, saber como
pensar-sentir, então existe o começo do entendimento. Sem conhecer-se a si
mesmo, a acumulação de idéias, a aceitação de crenças e teorias não têm
base. Sem conhecer-se a si mesmo, você sempre será pego na incerteza,
dependendo do humor, das circunstâncias. Sem entender-se a si mesmo
completamente, você não pode pensar corretamente. Com certeza isto é óbvio.
Se eu não sei quais são os meus motivos, minhas intenções, meu "background"
(fundo), meus pensamentos-sentimentos particulares, como é que posso
concordar ou discordar de outra pessoa? Como posso avaliar ou estabelecer
minha relação com outra pessoa? Como posso descobrir qualquer coisa da vida
se não conheço a mim mesmo? E conhecer a mim mesmo é uma tarefa enorme, que
requer observação constante, uma vigilância meditativa.
Esta é nossa primeira tarefa, mesmo antes do problema da guerra e da paz,
dos conflitos econômicos e sociais, da morte e da imortalidade. Estas
questões vão surgir, elas hão de surgir, mas na descoberta de nós mesmos, no
entendimento de nós mesmos, estas questões serão respondidas corretamente.
Assim, aqueles que são realmente sérios nestas questões devem começar por
eles mesmos, a fim de entender o mundo do qual são uma parte. Sem
entender-se a si mesmo você não pode entender o todo.
O autoconhecimento é o começo da sabedoria. É cultivado pela busca
individual de si mesmo. Não estou colocando o indivíduo em oposição à massa
(ao coletivo). Eles não são antíteses. Você, o indivíduo, é a massa, é o
resultado da massa. Em nós, como você vai descobrir se entrar nisto
profundamente, se encontra a multiplicidade e o particular. É como um
córrego que está constantemente fluindo, deixando pequenos redemoinhos, e a
estes redemoinhos chamamos de individualidade, mas eles são o resultado
desse constante fluxo de água. Seus pensamentos-sentimentos, aquelas
atividades mentais-emocionais, não são o resultado do passado, do que
chamamos a multiplicidade? Você não tem pensamentos-sentimentos similares
aos do seu vizinho?
Assim, quando falo de indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa,
ao coletivo. Ao contrário, quero remover este antagonismo. Este antagonismo
que coloca em oposição a massa e você, indivíduo, cria confusão e conflito,
crueldade e miséria. Mas se pudermos entender como o indivíduo, você, é
parte do todo, não apenas misticamente, mas realmente, então nos
libertaremos de modo feliz e espontâneo, da maior parte do desejo de
competir, de ter sucesso, de iludir, de oprimir, de ser cruel, ou de se
tomar um seguidor ou um líder. Então veremos o problema da existência de
modo diferente. E é importante entender isto profundamente. Enquanto nos
virmos como indivíduos, separados do todo, competindo, obstruindo, em
oposição, sacrificando o coletivo pelo particular, ou sacrificando o
particular pelo coletivo, todos aqueles problemas que surgem deste
conflitante antagonismo não terão solução feliz e duradoura, pois são o
resultado do pensar-sentir incorreto.
Agora, quando falo sobre o indivíduo, não o estou colocando em oposição à
massa. O que eu sou? Sou um resultado - sou o resultado do passado, de
inúmeras camadas do passado, de uma série de causas-efeitos. E como posso
estar em oposição ao todo, ao passado, quando sou o resultado daquilo tudo?
Se eu, que sou a massa (o coletivo), se não entender a mim mesmo, não apenas
entender o que está fora da minha pele, objetivamente, mas subjetivamente,
dentro da pele, como posso entender outra pessoa, o mundo? Entender a si
mesmo requer desapego amável e tolerante. Se você não entender a si mesmo,
não entenderá nada mais. Pode ter grandes ideais, crenças e fórmulas, mas
elas não terão realidade. Serão enganos. Assim, você deve conhecer-se a si
mesmo para entender o presente - e através do presente, o passado. Do
presente conhecido, as camadas escondidas do passado são descobertas, e esta
descoberta é libertadora e criativa.
Entender a nós mesmos requer um estudo objetivo, amável, desapaixonado de
nós próprios - nós próprios sendo o organismo como um todo, nosso corpo,
nossos sentimentos, nossos pensamentos. Eles não estão separados, mas
interligados. É somente quando entendemos o organismo como um todo que
podemos ir além - e podemos descobrir coisas mais adiante, maiores, mais
vastas. Mas sem este entendimento primário, sem colocar o alicerce correto
para o pensar correto, não podemos prosseguir para alturas maiores.
Torna-se essencial produzir em cada um de nós a capacidade de descobrir o
que é verdadeiro, pois o que é descoberto é libertador, criativo. Pois o que
é descoberto é verdadeiro. Ou seja, se meramente nos conformarmos a um
padrão do que deveríamos ser, ou ceder a um anseio, isso produz certos
resultados conflitantes, confusos. Mas no processo do nosso estudo de nós
mesmos, estamos numa viagem de autodescoberta, o que traz alegria.
Existe uma certeza no pensar-sentir negativo em vez do pensar-sentir
positivo. De uma maneira positiva supomos o que somos, ou cultivamos
positivamente nossas idéias em relação a outras pessoas, ou em relação a
nossas próprias formulações. E, portanto, dependemos de autoridade, de
circunstâncias, esperando com isto estabelecer uma série de idéias e ações
positivas. Ao passo que se você examina, verá que existe concordância na
negação; existe certeza no pensar negativo, que é a mais alta forma de
pensar. Uma vez que você descobre a negação verdadeira e a concordância na
negação, então pode construir mais adiante no positivo.
A descoberta que reside no autoconhecimento é árdua, pois o começo e o fim
está em nós. Buscar felicidade, amor, esperança fora de nós leva à ilusão,
ao sofrimento; encontrar felicidade, paz, alegria dentro (de nós) requer
autoconhecimento. Somos escravos das pressões imediatas e exigências do
mundo, e somos desviados por tudo isso e dissipamos nossas energias em tudo
isso, e assim temos pouco tempo para estudar a nós mesmos. Estarmos
profundamente cientes de nossos motivos, de nossos desejos de alcançar, de
vir-a-ser, exige constante atenção interna. Sem o entendimento de nós
mesmos, mecanismos superficiais de reforma social e econômica, mesmo que
necessários e benéficos, não irão produzir unidade no mundo, mas somente
maior confusão e miséria.
Muitos de nós pensamos que a reforma econômica de uma ou outra forma vai
trazer paz ao mundo; ou que a reforma social, ou uma religião especializada
conquistando todas as outras vai trazer felicidade ao homem. Acredito que
haja algo como oitocentas ou mais seitas religiosas neste país, cada uma
competindo, fazendo proselitismo. Vocês pensam que uma religião competitiva
vai trazer paz, unidade e felicidade à humanidade? Pensam que qualquer
religião especializada seja o Hinduísmo, o Budismo ou o Cristianismo, vai
trazer paz? Ou devemos colocar de lado todas as religiões especializadas e
descobrir a realidade por nós mesmos? Quando vemos o mundo explodido por
bombas e sentimos os horrores que estão acontecendo nele; quando o mundo
está fragmentado por religiões, nacionalidades, raças e ideologias
separadas, qual é a resposta a tudo isso? Não podemos apenas continuar
vivendo uma vida curta e morrendo - e esperar que algum bem, advenha disso.
Nós não podemos deixar isso para os outros - trazer felicidade e paz à
humanidade, pois a humanidade é nós mesmos, cada um de nós. Aonde se
encontra a solução, senão em nós mesmos? Descobrir a resposta real requer
profundo pensamento-sentimento e poucos de nós estão dispostos a resolver
essa miséria. Se cada um de nós considerar esse problema como jorrando de
dentro - e não ser meramente conduzido nessa confusão e miséria pavorosa,
então iremos encontrar uma resposta simples e direta.
No estudo e, assim, no entendimento de nós mesmos, virá claridade e ordem. E
só pode haver claridade no autoconhecimento, que nutre o pensar correto. O
pensar correto vem antes da ação correta. Se nos tornarmos conscientes de
nós mesmos e assim cultivarmos o autoconhecimento de onde jorra o pensar
correto, então criaremos um espelho em nós que refletirá, sem distorções,
todos os nossos pensamentos-sentimentos.
Estar assim autoconscientes é
extremamente difícil, já que nossas mente estão acostumadas a divagar e a
estar distraídas. Suas divagações, suas distorções são de seu próprio
interesse, suas próprias criações. No entendimento disto - e não meramente
colocando isto de lado - vem o autoconhecimento e o pensar correto. É apenas
por inclusão e não por exclusão, não por aprovação ou condenação ou
comparação, que vem o entendimento.
A essência do Ensinamento de Krishnamurti, está contida na declaração que fez em
1929, quando disse: ' A verdade, é uma terra sem caminho'. Os homens dela não se
podem aproximar por qualquer organização , por qualquer credo, por qualquer
dogma, sacerdote, ou ritual, nem por qualquer conhecimento filosófico ou técnica
psicológica. Ele, (o homem) tem de encontrar a verdade através do espelho das
relações, através do percebimento do conteúdo da sua própria psique, pela
observação, e não por qualquer dissecação intelectual e analítica! O homem
construiu em si mesmo imagens, como uma cerca de segurança - imagens
religiosas, políticas, pessoais. Estas manifestam-se como símbolos, idéias,
crenças. A carga destas imagens, domina o pensamento do homem, as suas relações e
a sua vida diária. Estas imagens são a causa real dos problemas pois dividem o
homem do homem. A sua percepção da vida está "enformada"
nestes conceitos, já estabelecidos na sua mente. Este conteúdo é comum a tôda a
humanidade. A "individualidade", é o nome, a forma e a cultura superficial que
ele adquire pela tradição e pelo ambiente. A unicidade do homem não se encontra
na superficial, mas sim na completa liberdade do conteúdo da sua consciência, que
é comum a tôda a humanidade. Ele não é portanto, um "indivíduo" .
Quando o homem se tornar consciente do movimento dos seus próprios pensamentos,
ele aperceber-se-á da divisão existente entre o pensador e o pensado, entre o
observador e o observado, entre o experimentador e o experimentado. Ele descobrirá
que esta divisão é uma ilusão. Então, existirá apenas pura observação, que é
interior, sem qualquer sombra do passado ou do tempo. Este vazio temporal
interior, provoca uma mutação profunda e radical na mente.
A negação total, é a essência do positivo. Quando existe a negação de todas as
coisas trazidas à psique, pelo pensamento, só então existe amor, que é compaixão
e inteligência. "
A presente foi escrita pelo próprio Jiddu Krishnamurti, em 21 de Outubro de
1980, na qual ele sumarisa os Ensinamentos :
" A liberdade não é uma reação; a liberdade não é uma escolha. É pretensão do
homem achar, que, porque ele tem escolha, é livre. A liberdade, é pura observação
sem direção, sem medo de castigo ou
recompensa. A liberdade é sem motivo; a liberdade não se encontra no fim da
evolução do homem, mas está presente desde o primeiro passo da sua existência.
Na observação, apercebemo-nos da falta de liberdade. A liberdade é encontrada na
consciência sem escolha da nossa existência e actividade diárias. O pensamento é
tempo. O pensamento nasce da experiência e do conhecimento que são inseparáveis
do tempo e do passado. O tempo, é o inimigo psicológico do homem. Sendo as nossas
ações baseadas no conhecimento, portanto, no tempo, o homem é sempre um escravo do
passado. O pensamento é sempre limitado, daí vivermos em constante conflito e
luta. Não existe evolução psicológica.
O ponto de partida de nossos diálogos foi a questão : " Qual é o futuro da
humanidade? "
Estes diálogos constituem uma investigação série desse problema e,
à medida que prosseguiam, emergiam muitos dos temas básicos dos
ensinamentos de Krishnamurti. Assim, a questão do futuro da humanidade
parece, à primeira vista, implicar que uma solução deve, de um modo
fundamental, envolver o tempo. Todavia, como salienta Krishnamurti, o
tempo psicológico, ou o 'vir-a-ser' , é a verdadeira origem da corrente
destruidora que está pondo em risco o futuro da humanidade. Questionar o
tempo desse modo significa, porém, questionar a suficiência do pensamento
e do conhecimento enquanto meios de se lidar com esse problema. Mas se o
conhecimento e o pensamento não são suficientes, o que é, de fato,
necessário ? Isso, por sua vez, leva à questão de se a mente é limitada
pelo cérebro humano, com todo o conhecimento que ele acumulou através
dos séculos. O cérebro parece estar, irremediavelmente preso nas malhas
desse conhecimento, que hoje nos condiciona tão profundamente e que deu
origem àquilo que, de fato, é um programa irracional e autodestruidor.
Se a mente encontra-se limitada por esse estado do cérebro, então o futuro
da humanidade deve ser, realmente, muito sombrio.
No entanto, Krishnamurti não considera tais limitações inevitáveis. Ao
contrário, ele salienta que a mente é essencialmente livre da tendência
deformante inerente ao condicionamento do cérebro e que, através do
discernimento que se origina na própria atenção não direcionada, destituída
de um centro, ela pode alterar as células do cérebro e remover o
condicionamento destrutivo. Neste caso, a existência desse tipo de atenção
torna-se de importância crucial e devemos, portanto, dedicar a essa questão
a mesma intensidade de energia que geralmente dedicamos a outras atividades
da vida que realmente são de interesse vital para nós.
David Bohm
( O Futuro da Humanidade - págs. 9 e 10 (partes do prefácio) - Diálogos entre Krishnamurti e o
físico David Bohm - Edit. Cultrix ; do original 'The Ending of Time' publicado com o título 'Diálogos entre J. Krishnamurti e David Bohm' pela Edit. Cultrix,1989 )