Veja abaixo neste conto de ficção de Claude Piron, como
a humanidade vai nos julgar pelo fato de negligenciarmos o esperanto. (Brincando
com seu computador, meu amigo J.L. – ele insiste que eu não diga seu nome -
por um acaso encontrou um programa que o possibilitou um acesso a um arquivo do
tempo futuro, mais precisamente a uma série de documentos digitados nos anos
2050.
Infelizmente
ele não percebeu exatamente o que ele fez, e agora ele não encontra novamente
o caminho para chegar ao tal valoroso documento. Mas tive uma sorte grande
porque tendo visto que o texto era sobre comunicação lingüística, ele teve a
idéia de imprimi-lo porque ele sabe que tenho grande interesse sobre o assunto.
Eis o texto...).
Senhores
jurados,
Vocês ouviram os depoimentos. Não
resumirei as provas dos fatos porque seria perda de tempo. Elas são mais do que
eloqüentes. Mas quero alertá-los sobre um ponto, ou seja, como que freqüentemente
as testemunhas usaram a expressão “como se”: “eles agiram como se não
houvesse alternativa”, “como se não houvessem fatos possíveis de serem
controlados”, “como se nossa proposta fosse ridícula”,
“como se a língua concernente não existisse”, etc... etc... O
retorno a esta palavra, enfatiza, como persistentemente os acusados
negligenciaram a realidade. Eles supostamente pertencem
a uma elite política, econômica, cultural, universitária ou social do
mundo; eles tinham cargos de grande prestígio e responsabilidade; as decisões
deles influíram na vida de todos os habitantes do planeta, entretanto eles
agiram sem sentimento de responsabilidade, como se fossem alunos do jardim de
infância. E agora – vocês os ouviram – eles podem se defender dizendo:
“Nós não sabíamos”, “Nós
não podíamos imaginar que era assim”.
Como era possível este
desconhecimento? Será que eles nunca viram viajantes em situações desagradáveis
por não poderem se comunicar com os habitantes locais? Será que eles não
notaram que o investimento de nossa comunidade mundial no ensino de línguas era
gigante, mas os resultados miseráveis? Quando eles participavam de reuniões
internacionais eles não tinham consciência que intérpretes estavam nos
guinches, que a voz ouvida não era a do orador, que o uso simultâneo de tantas
línguas necessariamente custava muitíssimo? Será que eles não sabiam que por
todo o mundo milhões e milhões de crianças estressam seus cérebros tentando
dominar a língua inglesa, a qual se mostra tão esquiva, que em média, após 7
anos de aprendizado com quatro horas por semana, de cada 100 alunos, apenas um
é capaz de eficientemente usá-la? Será que eles não leram nos jornais sobre
os aviões que sofreram acidente pela
não comunicação lingüística entre a torre de comando e o piloto?. Alguns
deles têm o inglês como língua materna. Será que eles nunca se sentiram
superiores em relação aos estrangeiros com os quais eles falavam, e será que
eles nunca se perguntaram se isto era normal e justo? Outros não tinham o inglês
como língua materna. Será que estes nunca se sentiram inferiores aos seus
colegas de língua inglesa? Será que estes nunca sentiam aborrecidos numa
discussão, porque as palavras necessárias não lhes vinham na memória,
enquanto que os outros podiam explorar todas as riquezas de sua língua materna?
Como é possível viver em nossa sociedade e não perceber que o problema lingüistico
existe?
Vamos supor algo impossível e imagine que eles conseguiram viver uma vida internacional, nunca reconhecendo os aspectos negativos da realidade lingüistica. Em seus níveis na sociedade, será que eles poderiam competentemente ter responsabilidades em escala mundial, não sabendo como a comunicação funciona? Era o dever deles saber, ainda mais porque eles tinham o dinheiro e os empregados para coletar informações, para organizar pesquisas, se necessário. O motivo pelo qual eles não sabiam é que o tema não os interessava. E isto não os interessava por falta de compaixão: eles não eram capazes de fremir com o sofrimento; cumplicidade com o semelhante não havia neles. Com uma indiferença escandalosa eles ignoravam a sorte de milhares de refugiados e trabalhadores estrangeiros , onde a incapacidade de se entenderem, pela falta de uma língua comum, era a fonte de injustiça e miséria psicológica, e até de morte. Vocês ouviram as testemunhas. Não vai ser fácil esquecer o caso do hospital alemão, onde 50 por cento dos pacientes morreram após enxerto, apenas porque, por falta de uma língua comum com os empregados do hospital e enfermeiros, eles não entenderam as instruções dadas para eles. Estas realidades, nossas “elites” ignoraram. Se a polícia tratou injustamente um estrangeiro porque este não conseguia fazer se entender, isto não incomodou a elite. Se o diretor de uma pequena empresa não conseguiu receber para a sua companhia um contrato importante porque o seu nível de inglês não era adequado para o tratado, por que isto as perturbaria? Se o dinheiro muito importante para toda as espécies de objetivos sociais foi abundantemente jogado no abismo profundo da comunicação lingüística burocrática, sobre isto eles assobiaram. E no entanto! Será que não era uma de suas responsabilidades escolher humanamente, o que fazer com o dinheiro recebido dos cidadãos?
Pegarei apenas um exemplo, entre os
muitos dos quais poderia citar. Enquanto os acusados tiveram o poder , muitas
crianças africanas morreram de desidratação: esta falta de água no organismo
foi tão estrema que as crianças não podiam produzir lágrimas quando elas
deviam chorar. Curar uma criança custava apenas 5 centavos de dólar. Mas não
foi possível encontrar dinheiro
para salvar crianças que foram lançadas neste horror. Não é estranho que ao
mesmo tempo, a União Européia diariamente gastava
milhões de dólares para traduzir a carga diária de 3 milhões de
palavras?
Quando
os acusados foram informados sobre as tragédias diárias , por exemplo sobre a
fome mundial, com uma compaixão aparente, eles balançaram a cabeça a se
lamentarem sobre a falta de dinheiro, mas fizeram isto sem sentir algo errado
nestas organizações que traduzem milhões de palavras ao custo de 2 dólares
por palavra. Que elite é esta? Será que não é evidente até mesmo para uma
pessoa simples que aquilo que se gasta com um objetivo não é disponível para
outro? E que, como resultado, definir prioridades convenientes é o dever moral
mais sério?
Apesar
disto, em todas as organizações internacionais, e delas existem muitas, eles
nunca exitaram em atribuir gigantesca quantidade
de dinheiro aos serviços lingüisticos. Aliás, nunca veio na cabeça deles a
idéia de efetivar estudos
objetivos sobre quanto os multifacetários problemas lingüisticos custam para a
sociedade mundial e quais as maneiras de resolvê-los. A sociedade poderia ser
lingüisticamente melhor organizada? Eis uma pergunta que eles nunca fizeram
para si. “Nós fizemos aquilo que era possível. Não havia outra solução”,
eles afirmam.
Será verdade que não existia
outra solução? Mas o Esperanto existia! Ele já era usado há um século. Para
aqueles que mostrara-se suficientemente sábios para apropriá-lo, ele
proporcionou comunicação admirável sem obrigar a investir nem mesmo um vintém
em serviços lingüísticos, sem discriminação entre os povos e após um
investimento de tempo e dedicação moderados (já era sabido que 6 meses de
Esperanto conduzia a um nível de comunicação
igual ao que se gasta para seis anos de inglês). Mas para os distintos
membros de nossa “elite”, esta alternativa, esta maneira de resolver o
problema lingüistico com uma relação custo-benefício mais favorável,
simplesmente não existia. Quando alguém chamava a atenção sobre
ele - e isto acontecia com freqüência; as provas estão em vosso
processo – eles sistematicamente impunham uma série de argumentos, sempre os
mesmos, sempre excludentes, nunca tendo controlado tal validade.
“O Esperanto não funciona”,
eles diziam, enquanto que era fácil participar de uma reunião internacional ou
um Congresso em Esperanto para descobrir que este instrumento de comunicação
lingüistica funciona melhor que qualquer outro sistema rival, seja o inglês,
seja a tradução simultânea, ou outro qualquer.
“Ele
é artificial”, eles diziam, se recusando a, quando convidados, verem crianças
brincando e rindo em Esperanto com uma tal espontaneidade de expressão, que a
afirmação deles se revelaria logo preconceituosa, e não achando
estranho o fato de se falar em microfones e escutar por fones de ouvido a
voz de um outro, que não o falante
que, (vocês reconhecerão) não se
impõe como uma maneira natural de se comunicar.
“Ele
não tem cultura”, eles afirmavam, nunca tendo lido uma linha de um poema em
Esperanto, não sabendo nada sobre o desenvolvimento do teatro em Esperanto,
ou literatura, nunca tendo ouvido uma palestra nesta língua.
“O Esperanto é rígido e pobre
de expressão”, eles repetiam, nunca tendo o submetido a uma análise lingüistica,
o que os obrigaria a concluir que ele é mais flexível e rico em expressões,
graças a plena liberdade de combinar elementos do que muitas línguas de prestígio.
“Ele
não é uma língua viva”, eles argumentavam não sabendo nada sobre a
comunidade que diariamente o usa, e
nunca se perguntando, quais são os
critérios de vida lingüística, e se o Esperanto responde a eles ou não.
“Seria
lamentável se os povos tivessem que abrir mão de suas próprias línguas para
apropriar um novo como este” eles diziam, não se interessando pelo fato que o
Esperanto nunca teve como objetivo substituir as outras línguas, mas era
simplesmente um recurso prático de
superar a barreira lingüistica, assim como o latim na Europa da Idade Média, e
ignorando as informações sobre mortes de línguas (morria uma língua a cada
semana nos anos 2000) causadas pela destruição eficiente de algumas assim
chamadas “grandes” línguas, principalmente a língua inglesa, a qual muitos
socio-lingüistas chamavam de “língua assassina”.
Não haveria sentido insistir sobre
estes preconceitos. Vocês sabem o quanto eles valem. 25 anos depois que os
cidadãos se rebelaram e a revolução
lingüistica ocorreu, vocês estão vendo quanto o mundo evoluiu para uma melhor
condição de vida. Vocês agora podem viajar pelo mundo sem se deparar com o
problema de comunicação. As organizações internacionais não devem mais
enfrentar os custos astronômicos de seus serviços lingüisticos, de maneira
que gigantescos recursos financeiros ficaram disponíveis para projetos sérios
e substanciais. Jovens de todos os lugares do mundo, depois do exame do curso básico
de Esperanto estudam outras línguas
escolhidas pelos seus próprios gostos ou interesses, o que acelera a
diversidade de pensamento de toda nossa sociedade (fator de fecundação de idéias),
ao mesmo tempo favorecendo uma compreensão autêntica e recíproca.
Os muitos efeitos negativos do
monopólio do idioma inglês sobre a vida cultural de muitos povos ( na maioria
das escolas do mundo era praticamente impossível estudar outras línguas
estrangeiras) cada vez mais desaparecem. Refugiados e trabalhadores estrangeiros
agora são entendidos, para onde quer que eles vão. Especialistas participantes
de discussões internacionais são escolhidos por suas competências, e não
mais pelas suas capacidades de usarem o inglês, que excluía muitos, porque
como vocês sabem, muitas pessoas talentosas em matemática e tecnologia, só
com muito esforço conseguem aprender outras línguas.
Na Inglaterra, EUA, e outros países
de língua inglesa, estudantes descobrem culturas estrangeiras sob um novo ponto
de vista, e o dever de aprender um novo idioma rigoroso, mas fácil e
psicologicamente mais aceitável, tem um efeito positivo para uma abertura para
o mundo e para seus desenvolvimentos culturais e intelectuais. Na Índia, o
conflito entre as partes, de um lado os favoráveis ao inglês e de outro lado
do hindi parou de existir, e mesma sorte tiveram os conflitos lingüisticos na Bélgica,
República dos Camarões, Nigéria e muitos outros países.
Na verdade, a humanidade deve muitíssimo
àqueles que fizeram pressão aos países, para que estes organizassem cursos de
Esperanto pelo mundo todo. Mas devemos um agradecimento especial aos secretários
de governo que insistentemente se esforçaram
para que vigorasse a primeira Declaração, que oficialmente restabeleceu
a verdade sobre o Esperanto. Por causa dela,
nossa língua internacional, pela primeira vez foi vista segundo uma
perspectiva justa. Quando o público tomou conhecimento que durante décadas
foi enganado, a língua começou a fazer sucesso, por isto ela
rapidamente foi divulgada até mesmo antes que seu ensino geral fosse
organizado.
Se achei útil citar algumas
enormes vantagens, que agora todos nós gozamos pela mudança de atitude em relação
ao Esperanto, meu objetivo é acentuar a responsabilidade dos acusados pelo fato
que esta mudança ocorreu tão tarde. Já em 1920 a Liga das Nações realizou
uma pesquisa objetiva sobre o tema e recomendou aos Estados-membros em todo o
mundo organizarem o ensino do Esperanto, para que ele se tornasse a Segunda língua
de todos. A Liga percebeu isto como a melhor maneira para que se tivesse
efetivado uma comunicação igualitária e
internacional, que garantisse ao mesmo tempo a sobrevivência e
prosperidade de todas as línguas e culturas. Mas eles ignoraram a recomendação
da Liga. As boas qualidades do Esperanto sempre foram visíveis a qualquer um
que fosse intelectualmente honesto e de interesse claro.
Já nos anos 1930, a literatura em
Esperanto e o uso da língua em encontros internacionais estava tão
desenvolvido, que negar seu valor cultural e humano era possível apenas
se resignasse a própria honestidade ou o dever de ser objetivo. Então,
durante décadas, a “elite” se absteve. Quando alguém fazia uma proposta
com o objetivo de acelerar o uso do Esperanto, os membros desta assim chamada
elite reagia de maneira totalmente contrária e sem basear suas respostas em
considerações objetivas. Nunca eles tinham a idéia que eles deveriam provar
suas afirmações. Que o Esperanto valia nada, isto eles consideravam evidente.
Eis porque eles são dignos de serem condenados. Este processo deve ser útil
como exemplo para mostrar ao povo do mundo, que a falta de um sistema democrático,
a eliminação da objetividade, a recusa de controlar os fatos, a decisão de
rejeitar uma proposta antes de estudá-la, a indiferença
diante do sofrimento e a negligência com referência às prioridades
baseadas em considerações éticas não podem ficar na impunidade.
A sociedade tem direitos. O direito
à comunicação é um direito que a gente deve respeitar seriamente, assim como
o direito à um tratamento igualitário. Quando os acusados dominavam a vida
social, eles manipularam a opinião pública de uma maneira sutil, impondo nas
mentes das pessoas uma série de equívocos, que em grande parte contribuíram
para que a língua internacional neutra Esperanto tenha sido introduzida na
sociedade de uma maneira tardia.
À todos vocês atualmente, é evidente que pessoas colocadas em situação de inferioridade, porque elas não podiam se exprimir numa língua estrangeira, eram vítimas de um sistema de comunicação mundial. Mas a assim chamada elite obrigava a olhar estas pessoas como culpadas. Culpadas pela tendência de não estudarem, por preguiça ou inferioridade cerebral. “ Se eles não são capazes de se comunicarem, os culpados são eles mesmos: era obrigação deles estudarem línguas”, eles insinuavam, nunca perguntando a si próprios se dominar uma outra língua nacional é possível para todos, e se não existe uma alternativa mais propícia para a ordem lingüística mundial, ou melhor dizendo: desordem.
Senhores, nada poderá inocentar os
acusados.
Eles vivem num século no qual
na justiça, assim como na ciência, nenhuma conclusão é tirada antes
que os fatos sejam analisados. À despeito deste princípio, eles nunca se
integraram sobre os fatos relativos ao Esperanto em seus raciocínios, e eles
repetidamente concluíam que não havia sentido buscar uma sistema melhor de
comunicação entre os povos do que o caótico e desigual sistema que reinava em
todo lugar.
Eles vivem num século no qual
quando muitas possibilidades se apresentam, devem-se compará-las para se poder
escolher as propostas que apresentam as melhores vantagens e as que têm menos
desvantagens. Vocês viram estas pessoas. Perguntados quando eles compararam na
prática segundo uma série de critérios pré definidos
os diversos sistemas de comunicação internacional, inclusive o
Esperanto, eles vergonhosamente olhavam para o chão. “Sobre isto a gente
nunca pensou”, murmurou um.. Mas eles confessaram que em outros campos, quando
eles tiveram que usar o dinheiro dos que pagavam impostos ou dos acionistas,
eles lançavam editais para ofertas ou propostas, ou de outra maneira,
consideravam uma série de possibilidades para compará-las e escolher a melhor.
Eles vivem em um século em que a
discriminação é ilegal. Mas suas atitudes em relação às pessoas que
tentavam torná-los conscientes sobre
as potencialidades do Esperanto, e sobre sua realidade, freqüentemente eram
discriminatórias; eles logo despachavam estas pessoas sem as escutá-las, sem
ler ou considerar de uma maneira adequada seus documentos. Assim aconteceu de
uma maneira notável como vocês descobriram ouvindo as testemunhas, junto à
União Européia, mas muitos outros exemplos poderíamos apresentar à vocês.
Nenhum fato que os possa absolvê-los existem em favor deles.
Até agora há uma dúvida se eles têm consciência sobre a amplitude de
frustrações, dos sofrimentos, dos inúteis desperdícios de tempo e energia,
das perdas, do desperdício não aceitável e dos sofrimentos que foram causados
por causa da ignorância sobre as realidades lingüísticas deles. Todos os
aspectos negativos da desorganização lingüistica, os quais evitar seria tão
fácil, como prova nossa atual maneira de viver, eles olhavam como inevitável,
assim como a escravidão, durante séculos era vista como algo normal, de um tal
modo, que até mesmo os escravos, viam como um aspecto inevitável da vida.
Durante muitas décadas, as inúmeras vítimas da desordem lingüistica mundial
eram mentalmente manipuladas para que elas acreditassem que para tal situação
não havia alternativa. Isto é
imperdoável, haja visto o nível intelectual dos responsáveis, assim como se
levarmos em consideração seus
treinamentos, científico e político, que necessariamente lhes educaram
sobre a necessidade de serem objetivos e controlarem os fatos.
Senhores
jurados , vocês devem para a justiça e também paras as gerações futuras uma
declaração clara e contundente que aquelas pessoas foram culpadas. O
presidente do tribunal agora os orientará sobre como...
(aqui
o texto se interrompe abruptamente)