






As missas e os longos terços rezados eram num galpão quinchado de santa-fé. Depois ergueu-se um belo prédio. A comunidade católica se chama "Nossa Senhora de Fátima". Ali eu rezei, me preparei para a primeira comunhão, comi churrasco e doce de calda nas festas e casamentos.
Ao ir para a cidade de Piratini, a fim de prosseguir meus estudos, conheci os Adventistas do Sétimo Dia, quando me preparava para a crisma, e entre os dois caminhos religiosos que eu, então, conhecia escolhi o segundo por encontrar, naquela época, pessoas mais afáveis, mais tolerantes, mais serenas.
Ao ir para Pelotas, comecei a estudar o darwinismo e o marxismo e cheguei a concordar com Karl Marx sobre sua frase combatida: "a religião é o ópio do povo." Assim, com muita facilidade me tornei ateu convicto.
Porém, no quarto de nº 510, na Casa do Estudante da Universidade Federal de Pelotas, morando com Gilmar Dietrich (aluno de Educação Artística, de Cunã-Porã, Santa Catarina), Vítor Alves de Candia (aluno de Agronomia, de Canguçu), Vasco Veleda (poeta, aluno de Medicina Veterinária, de Bagé) e Antônio Bataióli (aluno de Filosofia, de Mato Grosso), presenciei fenômenos espirituais impressionantes ao ponto de tirarem o nosso sono e que só consegui explicação à luz da doutrina espírita.
Em 1.999, fui iniciado na maçonaria, e sou até hoje maçom ativo, pois encontrei nessa instituição mundial o respeito a todas as filosofias, religiões, ideologias, enfim, o sonho de um convívio fraterno na diversidade, um verdadeiro ecumenismo na prática e a utopia de uma sociedade libertária como sonharam Simón Bolívar, José Martí e outros tantos "irmãos" célebres que fizeram história em prol dos avanços sociais.
Portanto, voltei a acreditar em Deus, não como um velho senhor de barbas brancas, punitivo e distante, mas como uma inteligência superior e maravilhosa que a todo momento nos ensina infinitos milagres como, por exemplo: o nosso próprio corpo simétrico e belamente orquestrado, a certeza da próxima aurora e do próximo ocaso, a floração, a frutificação, o ciclo da vida natural.
EU VI DEUS NO MEU RANCHO
Eu montava meu sebruno,
Tropeando um sonho reiúno,
Desperdiçando horizontes.
Sedente, esbanjando fontes
Prateando pés de coxilha.
Eu não via a maçanilha
Bordando vida no campo,
Desprezava o pirilampo
Que punha luz na minha trilha.
Não fui Moisés, o profeta
Que viu Deus na sarça ardente.
Achei meu Deus no poente,
Nas tintas rubras da aurora.
Num reflexo de espora
Que o sol ergueu do nascente.
Seu nome já não silvava
Nos meus lábios de pagão.
E a milonga já faltava
Nas cordas do meu violão.
A poesia escasseava
No poço da inspiração.
Então, vi Deus no meu rancho,
Entrou sem pedir licença
Pois há tempo era presença
Constante onde eu morava.
Só eu que não enxergava
Por padecer da doença
Que nos rouba toda a crença
E que aos poucos me cegava.
Quem me abriu os olhos turvos
Pra lucidez da estrada
Foi tua luz, prenda amada,
A quem faço serenata.
Tua fragrância de mata,
Teu silêncio de oração,
Eu bebo no chimarrão,
Por tua bomba de prata.
Descobri Deus no meu ser
E em tudo o que me rodeia,
Na face da lua-cheia,
Na justa luta renhida,
Na mão que não vê medida
Pra sofrenar o sofrer,
Achei meu Deus no morrer
E em toda a forma de vida.
Eu vi Deus lá no meu rancho,
Ao voltar da marcação,
Desencilhar o alazão
E o libertar no piquete,
Arreio no cavalete
Ou estendendo o xergão.
Eu vi Deus lá no meu rancho
Quando peguei a cantar,
Vi meu canto se tornar
O mais sincero louvor.
Fechei o rancho pra dor
E abri o peito sem mal.
Era dia de Natal
Quando descobri o amor.









