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Encontro velha amiga com os olhos fundos.
Passa pelo luto de uma perda amorosa.
Não há palavras que consolem.
Chego em casa, vou ao baú e por coincidência encontro
velho texto meu, colocado num caderno enviado há anos
por anônima leitora.
Ele diz:
A mulher que perdeu o seu amor é alguém
com óculos de ver eclipse na alma.
Fica com olhar de rinoceronte e olho de cambaxirra.
Estranho e doloroso esse ar sofrente de que ficam
tocadas todas mulheres que perderam o seu amor.
É marca que as acompanha como ruga
ou expressão, pelo resto da vida.
Marca irreversível, chaga, cicatriz, verruga espiritual.
Podem amar de novo, melhor até.
Mas jamais deixará de doer a recordação daquele
sentimento tornado impossível
e daquela esperança fermentada.
A mulher que perdeu o seu amor sofre mais do
que a que (ainda) não pode viver o seu amor.
Esta, vive a dor do que não tem.
Aquela, a dor de já não ter.
Quem não tem e quem ainda não tem sofrem
menos do que quem já não tem.
O terrível é que a perda do amor, embora
fermente, redunda em abertura de caminho
para a aventura do conhecer-se.
Embora morta-viva, a mulher que perdeu o seu
amor é alguém que vai melhorar depois.
Na dor, ela se descobre, abre a cabeça,
os músculos, a concepção de vida.
Começa a entender as contradições do sentimento,
a ficar mais livre, a punir-se menos, a saber que vale algo.
Passado o luto moral, a fase da fossa, a fossa da fase,
o fechado pra balanço, o balanço vem.
A ferro e fogo, a amargura e desvario, mas vem.
E traz uma visão melhor de si mesma e de tudo o que é e representa.
Instila-se um saudável egoísmo e
muito mais altruísmo, paradoxalmente.
A mulher que perdeu o seu amor é um
paralítico que sai para a luta e nela se cura.
Se o amor era a deliciosa cegueira,
a perda dele ensina a ver no escuro,
a ler nos solavancos do ônibus da vida,
a aprender a lição das greves interiores,
a entender que é preciso melhorar,
mesmo sabendo que nunca mais vai ser igual.
Mas nada disso
posso dizer à minha amiga.
Ela terá que aprender sozinha.
(Artur da Távola)
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