Essênios- A doutrina do deserto
Eles respeitavam a vida acima de tudo, escreveram os mais antigos textos bíblicos e influenciaram o cristianismo. Com vocês, os essênios
Por Rafael Kenski e Duda Teixeira
Ilustrações Renato Alarcão
Um pouco antes de uma ataque romano destruir o monastério deQumran, os essênios esconderam seus manuscritos em potes de cerâmica e os enterraram em cavernas |
Em 1923, o húngaro Edmond Szekely obteve permissão para pesquisar os arquivos secretos do Vaticano. Estava à procura de livros que teriam influenciado São Francisco de Assis. Curioso e encantado, vagou pelos mais de 40 quilômetros de estantes com pergaminhos e papiros milenares. Viu evangelhos nunca publicados e manuscritos originais de muitos santos e apóstolos, condenados a permanecer escondidos para sempre. De todas essas raridades, uma obra em especial lhe chamou a atenção. Era o Evangelho Essênio da Paz. O livro teria sido escrito pelo apóstolo João e narrava passagens desconhecidas da vida de Jesus Cristo, apresentado ali como o principal líder de uma seita judaica até então pouco comentada - os essênios. Szekely não perdeu tempo. Traduziu o texto e o publicou em quatro volumes. Sentindo-se traída pelo pesquisador, a Igreja o excomungou.
Não foi uma punição tão grave. Considere o que aconteceu com o reverendo inglês Gideon Ouseley. Em 1880, ele achou um manuscrito chamado O Evangelho dos Doze Santos em um monastério budista na Índia. O texto em aramaico - a língua que Jesus falava - teria sido levado para o Oriente por essênios refugiados. Ouseley ficou eufórico e saiu espalhando que tinha descoberto o verdadeiro Novo Testamento. Afirmava que a Bíblia estava incorreta, pois Cristo era um essênio que defendia a reencarnação e o vegetarianismo. Se hoje essa tese soa estranha, dizer isso na Inglaterra vitoriana do século XIX era blasfêmia da pior espécie. Resultado: os conservadores atearam fogo na casa de Ouseley e o original foi destruído.
O mistério que envolve esses dois textos e o tom místico que os descobridores deram aos seus achados acabaram manchando seu crédito diante dos historiadores. Além do mais, teorias exóticas sobre Jesus é o que não falta. Em 1970, o pesquisador inglês John Allegro, que já havia estudado os essênios, tentou provar que Jesus nunca havia existido e que teria sido uma alucinação coletiva causada pela ingestão de cogumelos. Por motivos óbvios, essa teoria não foi muito bem aceita pelos seus colegas cientistas. Segundo eles, Allegro entendia mais de cogumelos do que de Cristo.
Para os historiadores, os essênios seriam até hoje uma nota de rodapé na História se, em 1947, dois pastores beduínos não tivessem por acidente levado a uma das maiores descobertas arqueológicas do século. Escondidos em cavernas próximas ao Mar Morto, em Israel, 813 manuscritos redigidos pelos essênios entre 225 a.C. e o ano 68 da nossa era guardavam as mais antigas cópias do Antigo Testamento, calendários e textos da Bíblia. Perto das cavernas, em Qumran, estavam as ruínas de um monastério essênio e um cemitério com cerca de 1.200 esqueletos, quase todos masculinos.
O achado deu início a um longo e árduo esforço de tradução dos manuscritos por teólogos e cientistas de várias universidades no mundo. Milhares deles estavam em pedaços minúsculos, menores do que uma unha. "Hoje, 90% dos textos já foram transcritos", diz o teólogo Geza Vermes, da Universidade de Oxford, que pesquisa os manuscritos. O que já é suficiente para moldar uma imagem mais precisa da história, da doutrina, da crença e dos hábitos essênios, que ficaram séculos a fio esquecidos nas ruínas daquele monastério.
O surgimento da doutrina essênia aconteceu em tempos conturbados. Os judeus viveram sob dominação de diversos povos estrangeiros desde 587 a.C., quando Jerusalém foi devastada pelos babilônios, habitantes da atual região do Iraque. Por volta do século II a.C., o domínio era exercido pelos selêucidas, um povo grego que habitava a Síria. A cultura helenista proliferava e a tradição hebraica sofria fortes ameaças. Para recuperar o judaísmo, os israelitas acreditavam na vinda do Messias que chegaria ao final dos tempos para exterminar os infiéis e salvar os seguidores da Bíblia. A chegada do Salvador poderia se dar a qualquer instante.
Os mais ortodoxos seguiam tão à risca os preceitos religiosos e buscavam a ascese e a pureza com tal fervor que ficavam chocados com os hábitos mundanos dos gregos e a presença de leprosos, cegos, surdos e cachorros passeando pela cidade e pelos templos. Entre eles estavam os essênios. Um dia boa parte deles, liderados por um sacerdote, partiu para o Deserto da Judéia (atual Israel) para orar, meditar e estudar as leis sagradas. Longe, bem longe, de tudo o que eles consideravam impuro. Surgia assim o monastério de Qumran, uma das primeiras comunidades monásticas do Ocidente.
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| Refúgio de eremitas 1)Banhos: Apesar da falta dágua no deserto, os essenios se banhavam duas vezes ao dia, sempre antes das refeições. Assim acreditavam que o purificavam o corpo e a alma 2)Cisternas: A água da chuva era cuidadosamente armazenada nas cisternas 3)Escritórios: Aqui foram redigidos centenas de manuscritos |
A região escolhida para a construção do monastério é a de menor altitude no planeta - 400 metros abaixo do nível do mar. As chuvas são raras e o mar é tão salgado que é impossível mergulhar nele, pois a enorme densidade da água mantém o banhista na superfície. Para prosperar, os bens individuais e as tarefas foram divididos entre toda a comunidade e regras de disciplina e de hierarquia foram instituídas. A presença de mulheres em Qumran, por exemplo, era proibida. Transgressões eram duramente punidas. A interpretação das leis e profecias cabia ao mestre da justiça, o mesmo sacerdote que teria guiado os essênios até Qumran. Ele era respeitado e cultuado por todos e logo virou uma entidade mítica. O guardião, por sua vez, presidia as refeições e decidia as questões a respeito da doutrina, justiça e pureza. Essa figura inspirou a formação da palavra grega "epis copus" (aquele que olha de cima), que foi a origem de "bispo".
É possível conhecer o dia-a-dia dos essênios a partir do legado do historiador judeu Flávio Josefo (37-100). Aos 16 anos, Josefo recebeu lições de um mestre essênio, com quem viveu durante três anos. Os membros da seita acordavam antes do nascer do Sol. Permaneciam em silêncio e faziam suas preces até o momento em que um mestre dividia as tarefas entre eles de acordo com a aptidão de cada um. Trabalhavam durante 5 horas em atividades como o cultivo de vegetais ou o estudo das Escrituras. Terminadas as tarefas, banhavam-se em água fria e vestiam túnicas brancas. Comiam uma refeição em absoluto silêncio, só quebrado pelas orações recitadas pelo sacerdote no início e no fim. Retiravam então a túnica branca, considerada sagrada, e retornavam ao trabalho até o pôr-do-sol. Tomavam outro banho e jantavam com a mesma cerimônia.
Os essênios tinham com o solo uma relação de devoção. Josefo conta que um dos rituais comuns deles consistia em cavar um buraco de cerca de 30 centímetros de profundidade em um lugar isolado dentro do qual se enterravam para relaxar e meditar.
Diferentemente dos demais judeus, a comunidade usava um calendário solar de 364 dias, inspirado no egípcio. O primeiro dia do ano e de cada mês caía sempre em uma quarta-feira, porque, de acordo com o Gênesis, o Sol e a Lua foram criados no quarto dia. O calendário diferente trouxe vários problemas para os essênios. Outros judeus poderiam atacar o monastério no shabbath - o dia sagrado reservado ao descanso, no qual era proibido qualquer esforço, inclusive o de se defender.
A correta observação das regras garantiria a salvação dos essênios quando chegasse o apocalipse, que seria a vitória dos puros "filhos da luz" contra os "filhos das trevas". No mundo essênio, aliás, tudo era dividido segundo uma visão maniqueísta que tornava possível até mesmo determinar quantas porções de luz e de escuridão cada um possuía. Um sectário de dedos rechonchudos, coxas grossas e cheias de pêlos teria oito porções na casa das trevas para uma de claridade. No mesmo manuscrito, um outro membro obteve um placar mais favorável. Por ter olhos negros e brilhantes, voz suave, dentes alinhados, dedos longos e canelas lisas seu espírito foi condecorado com oito partes de luz para uma de trevas. Para os essênios, a beleza do corpo também era sinal de pureza espiritual.
Graças a essa organização toda, Qumran produzia tudo de que precisava. A dieta era vegetariana. Os essênios tinham um enorme respeito pela natureza. Nenhum homem poderia sujar-se comendo qualquer criatura viva. A regra permitia uma única exceção. Eles podiam comer peixe, desde que fosse aberto vivo e tivesse seu sangue retirado. As refeições eram frugais, com legumes, azeitonas, figos, tâmaras e, principalmente, um tipo muito rústico de pão, que quase não levava fermento. Eles possuíam pomares e hortos irrigados pela água da chuva, que era recolhida em enormes cisternas e servia como bebida. Além dela, as bebidas essênias se resumiam ao suco de frutas e "vinho novo", um extrato de uva levemente fermentado. No shabbath, os sectários deveriam passar o dia inteiro em jejum. Os hábitos alimentares frugais e a vida metódica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Josefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avançada.
A água também era canalizada para os banhos rituais, que eles tomavam duas vezes ao dia para se redimir dos pecados e das impurezas do corpo. O ritual consistia em relatar todas as faltas e então submergir. "Essa prática influenciou o batismo e a confissão dos católicos", diz a historiadora Ruth Lespel, da Universidade de São Paulo. Outro ponto em comum entre os essênios e o catolicismo seria a figura de São João Batista, o profeta que batizou Jesus Cristo. O santo promovia batismos no Rio Jordão numa região próxima a Qumran. Sua postura messiânica era muito próxima à dos essênios. Há quem acredite que, quando foi batizado, Jesus teria visitado o monastério e sido influenciado por sua doutrina.
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| Bons
modos a mesa 1)Gestos: Gesticular com a mão esquerda dava dez dias de exclusão 2)Risos: rir tolamente, isso durante uma reunião, pegava 30 dias 3)Transparência: ao esconder parte de suas posses, o infrator ficava excluído da "pureza" por um ano e tinha sua cota de alimentos reduzida em um quarto |
Há outras relações entre essênios e cristãos. "Existem passagens dos Manuscritos do Mar Morto, aqueles encontrados em 1947 nas cavernas de Qumran, que soam como as do evangelho cristão", afirma James Vanderkam, da Universidade de Notre Dame, Estados Unidos. Traços da doutrina dos primeiros seguidores de Jesus - como o elogio de uma vida humilde, a proibição do divórcio e a invocação a Deus como um pai - têm ressonância na fé de Qumran. "É possível que essênios e cristãos tenham entrado em contato", diz o cônego Celso Pedro da Silva, do Mosteiro da Luz, em São Paulo.
Quanto a Jesus Cristo, apesar das descobertas e polêmicas levantadas por Ouseley e Szekely, não há nos manuscritos encontrados nas cavernas do Mar Morto uma única menção a ele. É por isso que a maioria dos pesquisadores duvida da teoria de que Jesus tenha se aproximado dos essênios. "Não existe nenhuma evidência concreta disso", diz o historiador Nachman Falbel, da USP. Para o exegeta Valmor da Silva, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Jesus pode ter recebido influência das mais diversas correntes do judaísmo, inclusive deles. "Mas não dá para garantir que ele tenha freqüentado uma de suas comunidades."
Afirmar que Jesus se alimentava apenas de vegetais é ainda mais complicado. "Eu duvido muito que Cristo tenha sido vegetariano, pois ele celebrou a páscoa judaica, que envolve alimentos como ovo, patas de cordeiro e frango", diz Vanderkam. Fernando Travi, líder da pequena igreja essênia do Brasil, tem um ponto de vista oposto ao de Vanderkam. "Cristo pregava o amor a todos os seres vivos e não matava animais para aliviar a sua fome", afirma. Assim como ele, os seguidores de Szekely e Ouseley duvidam da veracidade das passagens do Novo Testamento em que Jesus se alimenta de carne. Eles acreditam que essas histórias não passam de invenções criadas pelo apóstolo Paulo, já na segunda metade do século I. A doutrina do vegetarianismo não seria bem recebida pelos judeus, acostumados a fazer sacrifícios e a comer carne, e Paulo teria modificado os evangelhos para tornar o cristianismo mais popular. Um exemplo dessas alterações estaria na passagem do Novo Testamento em que Jesus multiplica pães e peixes para alimentar uma multidão. O Evangelho dos Doze Santos, encontrado por Ouseley traz uma outra versão desse milagre, na qual os peixes são substituídos por uvas.
No ano 68 o monastério de Qumran foi aniquilado numa devastadora investida do exército romano que arrasou a Judéia e destruiu Jerusalém. O ataque era dirigido principalmente aos judeus zelotes, que se insurgiram contra o domínio romano. Qumran, que não era nenhuma fortaleza, foi presa fácil para as legiões do César. Mas nem todos os essênios morreram aí.
Alguns fugiram para Massada onde, aí sim, no ano 73, descobriram o que é um final trágico. O esconderijo, uma fortaleza zelote ao sul de Qumran, localizada no alto de uma colina, parecia impenetrável. Mas 15.000 romanos fizeram um cerco que durou dois anos e metodicamente construíram uma rampa de terra e areia para alcançar o topo da fortaleza. Quando os soldados finalmente invadiram Massada tiveram uma surpresa: todos os 1.000 rebeldes estavam mortos. Em um sorteio, os zelotes haviam escolhido um grupo de soldados para assassinar todos os habitantes da fortaleza e, em seguida, cometer suicídio. Eles preferiram morrer entre os judeus a se tornar escravos dos romanos. Sobraram para contar a história apenas duas mulheres e cinco crianças, que haviam se escondido nos reservatórios de água. O episódio foi relatado por Josefo e provou ser verdadeiro em 1965, quando arqueólogos pesquisaram a região. Eles acharam as marcas dos oito acampamentos romanos e pedaços de cerâmica com inscrições dos nomes dos zelotes, utilizados no dramático sorteio.
Segundo Josefo, os essênios existiam em grande número em diversas cidades da Judéia. Mas algumas variações da seita podem ter ocupado regiões ainda mais distantes. Uma comunidade egípcia do século I, os terapeutas, possuía um modo de vida semelhante ao da seita de Qumran e a mesma divisão entre luz e trevas. Também é possível que ebionitas e nazarenos, duas das primeiras seitas cristãs, sejam descendentes dos essênios. Há quem acredite que os nazarenos formaram uma grande comunidade em Monte Carmel, no norte da Israel atual, que seguia os ensinamentos de Qumran, mas com algumas diferenças. As regras seriam muito próximas daquelas encontradas nos escritos de Szekely e Ouseley. Ao contrário de Qumram, eles não praticavam o celibato e até mesmo formavam famílias. Fanáticos pelo princípio de amar todos os seres vivos, eram muito mais rigorosos em relação ao vegetarianismo: não comiam peixes nem matavam os vegetais para comer (comiam folhas de alface, por exemplo, sem arrancar o pé!).
"Eles viviam em tendas, que mudavam de lugar freqüentemente, pois construções permanentes matariam a relva", afirma Fernando Travi. Ele acredita que Jesus, apesar de ter passado por Qumran, viveu muito mais tempo em Monte Carmel. A região em que teria existido essa comunidade está próxima ao local em que Jesus nasceu e realizou muitos de seus milagres. Afirma também que Cristo não era conhecido como "Jesus de Nazaré", mas sim como "Jesus, o Nazareno".
Algumas dessas comunidades essênias existem, de certa forma, até hoje. Na região sul do Iraque e do Irã, cerca de 38.000 pessoas, os mandeans, mantêm uma tradição muito semelhante à doutrina essênia. Eles afirmam ser seguidores de João Batista e praticam o batismo. Sua origem, no entanto, ainda não é de todo compreendida.
No Ocidente, o essenismo surgiu com a divulgação dos escritos de Szekely e Ouseley. Na sua época, Szekely quase abandonou seus planos de difundir a doutrina quando a tradução rigorosa e detalhada que fez do segundo volume do Evangelho Essênio da Paz não contou com a aprovação de um amigo seu, o escritor Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo. "Isto está muito, muito ruim", disse-lhe Huxley, "é até pior do que o mais chato dos tratados enfadonhos dos escolásticos, que ninguém lê hoje em dia." Szekely ficou sem fala. Huxley continuou: "Faça-a literária, legível e atraente para os leitores do século XX. Tenho certeza de que os essênios não falavam uns com os outros em notas de pé de página". A crítica abalou Szekely e ele pôs de lado o trabalho durante muito tempo. Mas, anos mais tarde, seguiu o conselho do amigo e reescreveu o manuscrito inteiro em linguagem contemporânea, mais coloquial. Foi um sucesso. O livro, publicado em 1928, já foi traduzido para dezenas de línguas e vendeu milhões de exemplares em todo o mundo. Com o respaldo editorial, Szekely construiu em 1940 um spa no México onde praticava tratamentos com base nas práticas essênias. Cerca de 350.000 pessoas já se hospedaram no chamado Rancho La Puerta nos seus sessenta anos de existência. Até hoje, muitas pessoas vão ao lugar em busca de um estilo de vida baseado nos ensinamentos de Szekely, que inclui exercícios, meditação e, principalmente, dieta vegetariana.
A alimentação possui um papel central na doutrina encontrada nos evangelhos de Szekely e Ouseley. Ao afirmarem que Jesus era frugívero, ou seja, que ingeria apenas alimentos que não significavam a morte de nenhum ser vivo, como folhas e frutos, eles pregam que as refeições devem ser um momento de compaixão e comunhão com Deus. O contato com a natureza é essencial. Tanto que os novos essênios possuem uma planta em todos os cômodos de sua casa.
Os essênios permanecem como um assunto vivo. Os pergaminhos e evangelhos que eles deixaram são exaustivamente estudados por cientistas e religiosos do mundo inteiro. Seus ensinamentos recrutam milhares de fiéis e, qualquer que seja a relação que mantiveram com Cristo, deixaram, sem dúvida, sua influência impressa no coração e na mente do cristianismo.
A filosofia essênia |
| Szekely pesquisou o pensamento
dos essênios durante toda a vida. Uma de suas principais
obras é a tradução de um manuscrito encontrado em 1785
pelo historiador francês Constantine Volney em viagens
pelo Egito e pela Síria. É um diálogo entre Josefo e o
mestre essênio Banus a respeito das leis da natureza.
Eis alguns trechos: Bem - Tudo aquilo que preserva ou produz coisas para o mundo, como "o cultivo dos campos, a fecundidade de uma mulher e a sabedoria de um professor". Mal - O que causa a morte, como a matança de animais. Por esse motivo, o sacrifício de bichos, mesmo que para a alimentação, é condenável. Justiça - O homem deve ser justo porque na lei da natureza as penalidades são proporcionais às infrações. Deve ser pacífico, tolerante e caridoso com todos, "para ensinar aos homens como se tornarem melhores e mais felizes". Temperança - Sobriedade e moderação das paixões são virtudes pois os vícios trazem muitos prejuízos à saúde. Coragem - Ela é essencial para "rejeitar a opressão, defender a vida e a liberdade". Higiene - Uma outra virtude essencial dos essênios é a limpeza, "para renovar o ar, refrescar o sangue e abrir a mente à alegria". Perdão - No caso de as leis não serem cumpridas, a penitência é simples. Banus afirma que, para se obter perdão, deve-se "fazer um bem proporcional ao mal causado". |
| Entrevista com VALMOR DA SILVA, teólogo e traduto do livro Textos de Qumran*, uma das principais compilações dos Manuscritos do Mar Morto. |
| É possível saber quem foi
o Mestre da Justiça? Históricamente é difícil identificar o Mestre da Justiça. Nos manuscritos de Qumran esta figura foi sobre-exaltada e em tempos recentes tem sido até comparada a Jesus de Nazaré. Trata-se sem dúvida de uma personalidade marcante, carismática, forte líder espiritual, com fino tato político, judeu de convicções radicais, inimigo declarado da ingerência estrangeira em Israel, contestador do sacerdócio de Jerusalem e de seu conluio com o imperialismo externo. O Mestre da Justiça foi, provavelmente um sacerdote. Arriscando um pouco, pode-se dizer que foi sumo-sacerdote em Jerusalém, deposto por algum complô religioso-político. Foi perseguido pelo Sacerdote ímpio, talvez seu rival e substituto no poder. Tudo isso poderia ser situado, historicamente, por volta de 150 a.C. Ao longo da história da comunidade de Qumran, outros líderes podem ter assumido as funções e características do Mestre de Justiça. O personagem tornou-se, desta forma, uma espécie de personalidade corporativa, ideal, à qual foram atribuídas qualidades de diversas pessoas históricas. Jesus
tinha alguma relação com os essênios? A seita teve
alguma influência sobre os seus ensinamentos? No ensino e na prática de Jesus são identificáveis muitos elementos em comum com os essênios. Mas os textos de Qumran nunca fazem menção explícita a Jesus de Nazaré. É impossível afirmar com segurança que Jesus tenha freqüentado uma escola essênia. Mas também não há dados suficientes para afirmar que não tenha estado com essênios. Pode-se concluir que o movimento de Jesus e o movimento essênio são duas correntes paralelas, dentro do rico e variado quadro do judaísmo no início da era cristã. Nas atitudes e nas palavras de Jesus há vários exemplos de semelhanças com o ideal essênio: A proposta de viver sem dinheiro e sem propriedades; as curas e exorcismos com imposição de mãos; a proibição do divórcio; a maneira de celebrar a ceia pascal judaica; a invocação a Deus como Pai; o uso de expressões como "filho de Deus", "filho do homem", "Senhor", "servo". Há trechos nos Evangelhos que possuem paralelos literários em Qumran. Por exemplo: uma lista de bem-aventuranças semelhante à de Mt 5,1-12 recorrem num texto da Gruta 4 (4Q 525); uma norma sobre a correção fraterna como a de Mt 18,15-17 possui seu similar em uma halaká qumrânica (4QMMT); a opção fundamental de Jesus em Lc 4,18-19 tem ecos literários num apocalipse messiânico do Mar Morto (4Q521). João
Batista era um essênio? O Batista vive no deserto e lá faz sua pregação; os evangelhos o apresentam como "a voz de alguém que clama no deserto" (Is 40,3), mesma citação usada pelos essênios para justificar sua presença neste cenário. João pregava e batizava às margens do rio Jordão, certamente muito próximo às comunidades essênias. O batismo de João se assemelha em certa medida aos ritos de purificação essênios, e tanto um como outros relacionam batismo com purificação dos pecados. Por outro lado os escritos essênios não mencionam João Batista. Este não se veste como os essênios, e não é tão sectário como aqueles. Isto significa que se João foi essênio, em algum momento de sua vida rompeu sua convivência com o grupo e criou algum outro movimento semelhante. Que
tipo de práticas justificavam o nome de "terapeutas",
dado por Philo aos essênios? O fato de Philo chamar os essênios de terapeutas se deve à tradição segundo a qual eles mexiam com curas, e seriam mesmo curandeiros. Há inclusive uma idéia de que a palavra essênio signifique terapeuta ou curandeiro. O historiador Josefo Flávio também confirma que os essênios trabalhavam com remédios caseiros, como raízes e chás. Qual
a razão de se adotar uma disciplina tão rígida? Antes de mais nada eles se constituem um movimento reacionário, isto é, reagem às corrupções e aos jogos políticos aos quais a religião estava se entregando. Ao longo de toda a história são comuns estes movimentos chamados de "reformas" religiosas. O movimento reformista passa a considerar-se o único verdadeiro, legítimo, fiel. Em conseqüência deve argumentar sempre contra a outra facção. Para provar sua legitimidade passa então a viver um radicalismo exacerbado. O ideal de perfeição é levado às suas últimas conseqüências e pode criar fanatismos incontroláveis. No caso dos essênios, há um outro elemento que justifica a rigidez disciplinar. É a apocalíptica, ou seja, a idéia de que o fim do mundo estava para chegar. Com isso viria um messias libertador, juiz de todos, para condenar os opressores e salvar os justos. Dessa forma a comunidade dos filhos da luz, como eles mesmos se chamavam, assistiria à derrota dos demais, os filhos das trevas. Quer dizer, a explicação da rigidez da disciplina essênia é a mesma que justifica os exageros do monarquismo medieval ou de muitos movimentos religiosos modernos. * Textos de Qumran, de Florentino Garcia Martínez, Editora Vozes. |
| Entrevista com o Fernando Travi, psicólogo e líder da Igreja- Essênia de Cristo no Brasil. |
Como
você entrou em contato com a Igreja Essênia de Cristo? Quantos
novos essênios existem no mundo? Como
foi o contato de Abba Nazariah com Jesus Cristo? Como
é o treinamento dos essênios? Você
já viu Jesus? |
Para saber mais |
| Na livraria: Os Manuscritos do Mar Morto, de Geza Vermes, Editora Mercuryo, São Paulo, 1997. Os Homens de Qumran, de Florentino Garcia Martínez e Julio Trebolle Barrera, Editora Vozes, Petrópolis, 1996. O Evangelho Essênio da Paz, de Edmond Szekely, Editora Pensamento, São Paulo, 1997. Na Internet: www.essene.org |