BRUXARIA SEM PRECONCEITOS

 

Hoje em dia tem se notado um crescente interesse na bruxaria, principalmente entre os jovens, e isso tem gerado uma série de fenômenos interessantes, que merecem ser avaliados. Um deles é a causa, o porquê do atrativo que a bruxaria exerce entre adolescentes e o outro, talvez mais preocupante, é uma série de preconceitos gerados nesses mesmos jovens, quando resolvem aprofundar-se no tema.

As causas, pelo que tenho tido oportunidade de observar, são principalmente duas: a insatisfação com as formas religiosas estabelecidas e os atrativos que um suposto "poder" oferece, junto com a possibilidade de destacar-se dos demais. Embora seja comum considerar-se a primeira causa como válida e a segunda como nociva, eu vejo uma origem comum para as duas, e em ambas reconheço perigos.

O jovem que busca a Deusa, por estar cansado da pretensa tirania do Deus, e o jovem que busca o poder, por estar socialmente desajustado, estão, ambos, sofrendo as consequências do próprio desajuste da sociedade onde foram criados. A sociedade que aceitou e moldou as grandes religiões estabelecidas, empurrando para fora delas o sentimento inato de religiosidade e adotando a distância entre o Homem e seus deuses como forma de acomodar o pragmatismo, é a mesma que, pelo mesmo pragmatismo, cria jovens inseguros ante os padrões que ela estabelece.

Não vou me deter, agora, no jovem que busca apenas aquilo que é superficial na bruxaria, como um suposto remédio para os males que o afligem. Esses não buscam uma forma de expansão de sua religiosidade natural, mas sim feitiços, poções, e outros componentes que supostamente os livrariam de problemas que eles mesmos poderiam resolver, sem que fosse necessário utilizar esse recurso. Esses se frustam e acabam se afastando, pois apenas tocam a superfície e não mergulham na magia. Pois magia é uma forma de vida, não um acessório, e apenas funciona se traz consigo a filosofia que a valida.

Vamos falar, portanto, no jovem que busca a bruxaria como uma forma de religião, por estar insatisfeito com o que as religiões estabelecidas lhe oferecem. Esse corre o perigo do preconceito.

Todas as religiões do mundo têm uma origem comum, todas tem um cerne, um núcleo, que fundamenta qualquer crença. Esse núcleo, essa base sobre a qual as religiões se desenvolveram, é o que eu costumo chamar de Religiosidade Primitiva. Essa religiosidade primitiva é uma necessidade básica do Homem, e é tão natural como arquétipo quanto a figura materna. É ela que nos faz intuir a existência da divindade mesmo antes de qualquer instrução à respeito.

Buscar a bruxaria é, necessariamente, beber na fonte dessa religiosidade primitiva. Vejam que aqui não me refiro a tradições ou caminhos específicos, mas no caminho mágico em geral, e apenas uso a palavra bruxaria por falta de outra melhor.

Portanto, criar o preconceito, opôr o caminho mágico à religião anterior (normalmente cristã), colocá-los como antagônicos, é negar em certa parte o mergulho profundo no próprio caminho mágico. É substituir dogmas antigos por novos dogmas.

Toda e qualquer religião busca a mesma coisa, e em sua mensagem primordial deixa claro o que propõe: a religação entre o Homem e a Divindade. Cada uma procura essa religação por intermédio de símbolos e ritos próprios, que foram moldados através de anos e anos de História, de acordo com as singularidades próprias à cada caso. Nenhuma religião é certa e nenhuma é errada, nem os atos dos seus seguidores podem ser julgados fora de um contexto histórico e social.

Assim, quando vejo jovens que desejam se aprofundar no caminho mágico desprezando ou atacando as demais opções religiosas, adotando pentagramas e desprezando cruzes, reverenciando divindades que mal tiveram contato e que não fazem parte de sua cultura e desprezando as que os acompanharam até ali, vejo nisso uma profunda confusão. Não se constrói o próprio caminho com iconoclastia, mas com a aceitação e compreensão dos símbolos que nos falam mais alto ao sentimento.

Eis a questão: símbolos. Pois tudo são símbolos... Athames, incensários, pentáculos, cruzes, sinos, quadros, Morrigan, Jesus, Buda... símbolos, apenas. Cada um usará o que lhe for mais conveniente, mas a verdadeira religiosidade pagã, a que nos une aos nossos antepassados e ao mundo que vivemos e construímos, somente pode ser buscada no nosso interior, onde todos os símbolos se confundem.

Ao jovem que descobriu a Arte, e fascinou-se com aquilo que ela traz de profundo, e compreendeu que ser bruxo é integrar-se à Natureza e à Vida, e não decorar rituais e encantamentos, cumpre alertar: ser bruxo é igualmente compreender os símbolos alheios e determinar aqueles que lhes falam ao coração. É não agir como opositor, mas como entendedor das mais diversas crenças, dentro da máxima que diz que todas as Deusas são uma só Deusa e todos os Deuses são um só Deus.

Ser bruxo é não ter preconceitos.

 

 

lughwiccan@yahoo.com.br

 

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