Invocação e Evocação

 

Um dos aspectos mais confusos do ocultismo é a diferença básica entre invocação e evocação. Quando alguém "invoca", ele chama, ou intima, uma forma de energia universal para dentro de si mesmo ou para dentro do círculo dentro do qual ele está operando. Elas forma de energia universal pode ser um "Deus", um "Arcanjo" ou o poder bruto de uma das sephiroth cabalísticas. Quando alguém "evoca", chama algo a comparecer à sua frente, muitas vezes de forçadamente. Esta é a forma de magia tratada em livros famosos como as Clavicula Salamonis (A Clavícula de Salomão), o Black Pullet, o Grande Grimório e o Red Dragon.

Tanto a invocação quanto a evocação serão exploradas abaixo.

 

Em um dos mais antigos textos mágicos da Tradição de Mistérios Ocidental que nós podemos ler o que se tornou uma peça fundamental de sabedoria mágica, "O que está acima é como o que está abaixo e o que está abaixo é como o que está acima", frase que costuma ser encurtada "como acima, então abaixo". O que isto significa, simplesmente, é que o homem é um imagem de espelho menor do Universo como um todo. Cada força que existe no Universo existe também na alma do homem. Por exemplo, aquela força a qual os Cabalistas chamam de "Geburah" e os Astrólogos chamam de "Marte" também existe no homem, sob a forma da raiva, forma, poder, entusiasmo e muitas outras manifestações, todas elas sendo em essência a mesma força.

Quando nós entramos no nosso Círculo e nos preparamos para invocar, nós estamos realmente nos preparando para nos abrir para a força que queremos chamar, permitindo que o macrocosmo (Universal) inunda e preencha o microcosmo (nossa alma). Geralmente, nós chamamos estas forças macrocósmicas de "Deuses", uma vez que como seres humanos nós precisamos de uma imagem com a qual relacioná-las para lidar com elas mais facilmente. Por exemplo, se eu quero invocar a força da emoção - Amor, por exemplo - é muito mais fácil para um ser humano construir um ritual invocando Afrodite do que um invocando uma energia sem nome. Afrodite tem uma longa tradição de culto e a sua imagem tem sido construída por este culto há milênios, assim criando um conduíte poderoso para a força que ela representa. Tudo o que eu preciso para acessar esta força é utilizar o simbolismo e o ritual corretos. Uma rápida olha em um livro de mitologia irá revelar que Afrodite tem conexões com o oceano e os pombos; estes símbolos já me darão algo para começar o trabalho. Examinar um livro como o "777", de Crowley, irá me dar mais correspondências. Agora eu vejo que outros ítens se harmonizam com a natureza desta deusa do amor incluem rosas e esmeraldas. Então, ao construir um ritual para invocá-la, eu poderia decorar meu altar com rosas frescas e uma concha do mar, talvez. Sabendo da mesma forma que as cores de Netzach (a sephirah cabalista com a qual Afrodite está associada) são geralmente o verde esmeralda e o âmbar, eu posso usar velas nestas cores no meu altar. Eu também poderia queimar incenso de rosas. Se eu for um mago cerimonial, meu círculo irá cercar uma estrela de sete pontas, uma vez que Netzach é a sétima sephirah.

Agora, um dos grandes usos da invocação pela Magia Cerimonial é a de ser um auxílio para a evocação. Quando uma invocação foi feita com sucesso, a força representada pelo deus invocado corre pelo magista ou bruxo. Em alguns caminhos, como os Mistérios Ocidentais, isto toda a forma da compartilhamento do corpo com o Deus, dando ao Divino um conduíte para o mundo material e dando ao invocador uma parte da sua força para utilizar. Quando o mago cerimonial evoca um espírito, este estado de elevação do espírito produzido pela invocação é supremo para o seu sucesso. Outras culturas, notavelmente aquelas do Voudum Haitiano, o Candomblé e a Santeria da América do Sul permitem que ao Deus invocado uma possessão total do corpo físico, dando ao Loa (espírito) liberdade para experimentar os prazeres do mundo material. O Voudun chama a isso "cavalgar", esta referência sendo obviamente eqüestre. O autor (Amphion) uma vez invocou Afrodite no corpo de uma dama em seus dias de juventude e inexperiência e descobriu que ele a havia colocado em um estado aonde ela estava sendo cavalgada pela Deusa Grega ao invés de apenas dividir o seu corpo com ela. Uma vez que os efeitos desapareceram, ela não lembrava nada do tempo em que Afrodite a habitou, mas estava consciênte de que horam haviam se passado. Ela sentiu um grande prazer ao ouvir sobre as suas ações e façanhas como a deusa do amor.

Muitos métodos de invocação existem e todas as culturas possuem algumas formas desta Arte. Alguns temas incluem a indução de transe, cantos e oferendas. Um exemplo de invocação pode ser achado no esbá ritual das bruxas modernas.

O método cerimonial de invocação geralmente segue um padrão, uma fórmula trabalhável. Para nos mantermos ao básico, primeiramente os atributos do Deus a ser invocado são honrados, seus poderes nomeados e enaltecidos. A invocação é então repetida com uma grande força enquanto o magista visualiza a forma do Deus ao seu redor, identificando-se com ela e empenhando-se para sentir que ele é o Deus. Finalmente, a invocação é repetida uma terceira vez, esta vez reformulada como se o próprio Deus falasse as palavras, pois o magiste deve agora SER o Deus. Se ele for bem sucedido, ele irá saber isto; por algum tempo ele irá se mover e agir como aquele Deus. Aleister Crowley tem muito a dizer no que concerne a este método de evocação em seus escritos. Ao leitor curioso se indica "Magick in Theory and Practice" para maiores detalhes.

 

A evocação é realmente uma ciência-irmã da invocação, pois elas estão inextricavelmente ligadas em suas naturezas. Enquanto que a arte da invocação chama a força para dentro do magista ou bruxo, a arte da evocação chama a força à sua frente. Uma pessoa invoca um deus, ou um anjo, convidando-o e implorando que ele se manifeste, mas se evoca um espírito - nomeie-se ele de demônio, deva, shedu ou o que quer que seja - forçando-o a aparecer em frente ao magus no Triângulo da Arte. Enquanto que a invocação faz com que o microcosmo da alma humana seja inundada pelo macrocosmo do Divino, a evocação reverte isso. O microcosmo se torna um macrocoso e em troca cria temporariamente um microcosmo. Para o demônio evocado pelo magista, o magus é Deus.

A evocação é realmente uma manifestação potente da Arte Mágica na qual qualquer aspecto do inconsciente pode ser chamado à sua presença e a ele dar uma forma física visível por algum tempo. O que se quer dizer com isso é simples. Se eu escolher evocar ritualmente Asmodeus, o qual os grimórios nomeiam como um espírito da depravação e da luxúria, o que eu estou realmente fazendo é dar uma forma às qualidades sombrias, depravadas do meu próprio subconsciente para que eu possa reordená-las ou comandá-las. Todo o poder ocupado dentro da minha mente inconsciente para lidar de alguma forma com a luxúria e a depravação pode ser então dirigida para servir aos meus propósitos.

Os métodos dados pelos grimórios são freqüentemente rituais longos e tediosos, com instruções elaboradas governando um imenso número de instrumentos e ítens todos cruciais para o sucesso do ritual que devem ser feitos e consagrados. Os magistas cerimoniais modernos dizem que os ritual dos grimórios, tais como As Clavículas de Salomão e o Black Pullet, funcionam muito eficazmente até hoje, mas que a natureza destes ritual como recursos psicológicos são tais que eles precisam mesmo ser seguidos para prevenir o perigo de surgir e prejudicar o aspirante a magista. Também comum nos grimórios são os sigilos, ou selos dos espíritos. Estes selos são às vezes símbolos planos, lineares, criados através do método cabalista do Aiq Bakar, as Kameas Planetárias, ou o Lámen da Rosa Cruz da Ordem da Golden Dawn. Eles são construídos de maneira simples, uma vez que o método da sua construção é compreendido. Algumas vezes, entretanto, como no caso do Livro de Magia Cerimonial (antes entitulado "O Livro da Magia Negra e dos Pactos"), os símbolos são desenhos estranhos, mais próximos dos rabiscos de uma criança do que dos graciosos e artísticos sigilos da Cabala. Neste caso, os sigilos são freqüentemente "recebidos" em visões ou meditações, algumas vezes via jornadas astrais do magista. eles representam a idéia do espírito em um desejo estranho que pode não significar nada para a mente consciente, mas pode significar muito para o inconsciente.

Para que uma evocação seja bem sucedida, o magista passa por um período de purificação. Isto geralmente envolve uma dieta, a abstenção de relações sexuais, devoção religiosa e até mesmo isolamento social. Então, quando tudo está preparado, o magista começa as suas invocações. Sim, invocações, pois antes de um espírito ser evocado com sucesso, o mago deve estar imbuído do poder de um Deus. De outra forma, como um mero ser humano, como pode ele atuar com qualquer autoridade em relação àquilo que eles está chamando? A maior parte da magia cerimonial é baseada no sistema de crenças judaico-cristãs e, portanto, o deus invocado é naturalmente o YHVH da Bíblia. Entretanto, em muitos ramos da magia moderna, especialmente no sistema da Golden Dawn, um deus da mitologia mundial é escolhido. Por exemplo, vamos supor que eu desejo evocar, Kedemel, o espírito de Vênus, por um propósito mágico envolvendo o aspecto venusiano em minha vida. Eu iria então provavelmente escolher um deus associado com a sephira Netzach da Árvore da Vida, pois Netzach é a esfera de Vênus. Eu poderia talvez escolher Afrodite, ou Eros. Talvez mesmo o Vodoun loa Erzulia, ou a babilônica Ishtar.

Agora, se eu realmente desejo que o meu rito seja eficáz, eu preciso talmém seguir a corrente de comando correta, invocando não apenas o deus de Netzach, mas depois também o Arcanjo e o Anjo da mesma esfera. Seguindo o exemplo acima, eu iria suplicar à YHVH Tzabaoth (Deus dos Exércitos e nome divino de Netzach no trabalho cabalístico) para mandar o seu Arcanjo, o belo Haniel à mim. Eu iria então pedir humildemente que Haniel mandasse a legião angélica de Netzach, os Elohim, à mim, e então pediria a Haniel, o anjo de Vênus, que me mandasse Hagiel, a Inteligência (ou bom espírito) de Vênus. Eu iria então comandar Hagiel que me ajudasse a intimar Kedemel ante a minha presença. Esse tempo todo é muito longo, mas tem um propósito. Ele permite que uma força mágica e psicológica maior seja gerada e também assegura que a minha evocação não irá interferir na "balança" do universo, garantindo o meu próprio bem-estar psicológico.

Não há atalhos na evocação. Alguns dos rituais são muito perturbantes para a mente humana, envolvendo até mesmo o sacrifício de um animal. Deve ser lembrado, entretanto, que quando os ritos mágicos foram desenvolvidos, os sacrifícios de sangue eram parte da religião. O Antigo Testamento requer dos seguidores de Deus que eles expiem seus pecados, como mostrado no Pentateuco. Se você está planejando evocar uma força demoníaca, planeje encarar os demônios da sua própria humanidade, incluindo o fato desagradável de que a vida alimenta a morte e se você deseja vida, mesmo que temporária, a algum aspecto da sua mente dentro do Triângulo, ele deve ser alimentado. Certamente, o incenso pode ser usado, mas com um efeito mais pobre. Idealmente, o sangue do magista deve ser usado, pois este sacrifício é dado de livre e espontânea vontade e, portanto, gera muito poder.

Eu não vou detalhar mais o tópico da evocação aqui; muitos livros hoje descrevem os métodos e rituais desta prática. As pessoas interessadas podem consultar As Clavículas de Salomão, o Legemeton, o Livro da Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago e muitos outros.

 

 

lughwiccan@yahoo.com.br

 

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