O Paganismo

 

Sua origem remonta aos primórdios da humanidade, quando os seres humanos começaram a despertar sua percepção para os mistérios da vida e da natureza. Segundo estudiosos, a primeira demonstração da arte devocional foram as Madonas Negras, encontradas em cavernas do período neolítico. Portanto, as deusas da fertilidade foram os primeiros objetos de adoração dos povos primitivos. Eles acreditavam que o universo deveria ter sido criado por uma Grande Mãe. Entre os povos que dependiam da caça, surgiu o culto ao Deus dos Animais e da Fertilidade, também conhecido como Deus de Chifres ou Cornífero.

O Paganismo, ou Bruxaria, surgiu no período Neolítico, em várias regiões da Europa, onde hoje se localizam a Irlanda, Inglaterra, País de Gales, Escócia, indo até o Sudoeste da Itália e a região da Britânia na França. Quando os Celtas invadiram a Europa, quase mil anos antes de Cristo, trouxeram suas crenças que se misturaram às da população local. Embora a Wicca tenha se firmado entre os Celtas, é importante lembrar que a bruxaria é anterior a eles!

 A sociedade Celta era Matrifocal, isto é, o nome e os bens da família eram passados de mãe para filha. Homens e mulheres tenham os mesmo direitos, sendo a mulher respeitada como Sacerdotisa, mãe, esposa e guerreira. O culto da Grande Mãe e do Deus Cornífero predominaram nas regiões da Europa dominadas pelos Celtas, até a chegada dos romanos, que praticamente dizimaram as tribos Celtas, que nessa época já estavam sendo dominadas pelos Druidas, que representavam uma introdução ao patriarcalismo.

 Porém, em muitos lugares, a religião da Grande Mãe continuou a ser praticada, pois havia certa tolerância por parte dos romanos. Foi somente na Idade Média que a Bruxaria foi relegada às sombras com o domínio da Igreja Católica e a criação da Inquisição, cujo objetivo era eliminar de vez as antigas crenças, que eram uma ameaça a um clero muito mais preocupado em acumular bens e riquezas do que a propagar a verdadeira mensagem de Jesus. Foi a Igreja Católica que inverteu muitos dos valores pagãos. Os chifres, por exemplo, que representavam a fertilidade, coragem e todos os atributos positivos da energia masculina, foram usados para personificar a imagem do Diabo.

 Se fôssemos descrever essa época infame, em que milhões de pessoas, em sua maioria mulheres, foram perseguidas, torturadas e assassinadas pela Inquisição, com certeza,escreveríamos um livro com milhares de páginas. Muitas das vítimas da Inquisição não eram Bruxas, e sim, pessoas com problemas de saúde, doenças mentais, deficiências físicas ou somente o alvo da suspeita e inveja do povo. Também era comum acusar pessoas para tomar seus bens, pois esses eram divididos entre os inquisidores. Durante o tempo das fogueiras, muitos dos conhecimentos passaram a ser transmitidos oralmente, por medida de segurança, e, assim, muito se perdeu. Por isso, não é correto dizer que a Wicca de hoje é a mesma de séculos atrás. No presente, um grupo de pessoas abnegadas e corajosas está redescobrindo e recriando a Nova Bruxaria ou Neo Paganismo, como também é conhecido.

 

O Paganismo Greco-Romano : A Gênese de Uma Religião

 

O Paganismo greco-romano, que imperou soberanamente em todo o vasto Império Romano até a ascensão do cristianismo como religião universal do ocidente, é fruto de uma historicidade milenária, onde diversas tendências se mesclaram no decorrer do tempo para formar o riquíssimo patrimônio cultural da mitologia greco-romana que vigorava já nos tempos do nascimento de Jesus Cristo, fundador do cristianismo.

Parte dessa rede mitológica tem sua origem na Grécia, onde a religião foi resultado do encontro de duas civilizações diferentes: a mediterrânea oriental e a indo-européia. A primeira era dona de uma tradição agrícola e matriarcal enquanto que a segunda trazia em seu bojo uma tradição pastoril e patriarcal. O encontro dessas duas diferentes tradições em solo grego fez surgir a civilização grega, bem como sua característica religião, reunindo mitos das mais diversas origens, desde o Zeus patriarcal até a Deméter matriarcal e agrícola. A própria organização do Olimpo - morada das diversas divindades cultuadas - traduziu esse mundo concreto da Polis grega, legado cultural e histórico dos povos que, um dia, se encontraram na península grega.

Outra parte da complexa rede mitológica do paganismo greco-romano teve sua origem na Itália primitiva, entre os latinos, e consistia no culto doméstico prestado aos espíritos protetores familiares. Como todos os povos de origem indo-europeu, os romanos também cultuavam a um deus supremo, Júpiter, senhor do céu, ao lado das divindades menores que encarnavam as forças da natureza, tais como a chuva, a fertilidade, etc... Essas divindades eram espíritos - numina - sem representações físicas. O contato com as civilizações gregas e etruscas é que vai influenciar os romanos a criarem uma religião com inspirações nacionais. Essa religião oficial surgirá após um longo processo de incubação lá pelos idos do século III a.C. A introdução em solo romano dessas religiões "importadas" irá criar um campo vasto de possibilidades de mescla entre as divindades primitivas romanas - Jano, Vesta, Penates, Gênios e Lares - e as divindades estrangeiras - Zeus, Hera, Deméter, Ares, Atena, etc... - gerando assim personagens que tomarão nomes romanizados para o agrado da sociedade.

A religião primitiva dos romanos permitia o culto aos espíritos dos mortos - os Di Manes - durante as festividades das Lemurias, em maio. Esses cultos pretendiam aplacar os espíritos para evitar que eles atormentassem os vivos. Também durante as Parentalias, em fevereiro, os espíritos familiares eram cultuados com ofertas de alimentos ( leite, mel, azeite, etc...) em um banquete familiar onde os vivos se reuniam à memória dos mortos para festejarem juntos as dádivas familiares.

Com as conquistas militares de Roma e a expansão do Império a religião sofreu um crescimento pelo abarcamento de cultos provindos das mais diferentes regiões geográficas conquistadas, desde a Europa, até a Ásia e a África. As divindades primitivas se confundiram com os deuses gregos e os mitos se fundiram para criar o Panteão dos deuses do Capitólio romano. Com todo esse processo nasceu o paganismo greco-romano. Nessa religião oficial o culto ao Gênio do imperador tornou-se o culto à própria organização estatal romana, vasta e poderosa como um verdadeiro deus.

 

 

 

O Paganismo hoje

 

"Para aqueles que trilham os caminhos dos antepassados, abençoados pela Terra e o Céu, a Lua e o Sol".

 

O Paganismo é um dos movimentos espirituais que mais cresce no ocidente hoje em dia. Pagãos são aqueles que veneram os deuses pré-Cristãos de nossos ancestrais ou de nossa terra. Originalmente, a palavra "pagão" é aplicada àqueles que veneravam os deuses do "pagus", que em latim significa "localidade". Pagão também é utilizado de outra forma pelos Cristãos para significar "camponês", ou aqueles que vivem no campo. Outro termo de origem alemã utilizado no inglês, "heathen", também significa Pagão, ou aqueles que veneram os deuses do norte da Europa. "Heathen" significa aqueles que moram nas charnecas e que adoram os deuses da sua terra.

"Paganismo" não é uma palavra que nossos ancestrais utilizaram, mas muitas vezes é utilizado de forma pejorativa. Por outro lado, os Pagãos às vezes a rejeitam considerando-a como uma forma pejorativa de colonialismo ocidental as suas crenças tradicionais. Na África Ocidental, referem-se as suas crenças como Religião Tradicional Africana. No Ocidente, os termos Espiritualidade Nativa, Espiritualidade Celta, Religião Tradicional da Europa, Antiga Fé, ou Velha Religião também são utilizadas para denominar as religiões pagãs.

 

Os Pagãos Hoje

 

Venerar as antigas divindades pode parecer estranho nos dias de hoje. Por que os Pagãos veneram essas antigas e empoeiradas imagens? Nós veneramos nossos deuses porque eles não são artefatos arqueológicos, mas sim energias vivas de grande poder. Eles superam qualquer imagem externa de suas estátuas retiradas de templos antigos que agora estão em museus ao redor do mundo. O mais importante é que sobrevivem na memória humana, no inconsciente coletivo, onde armazenamos nosso conhecimento religioso e experiências.

 

As crenças pagãs são baseadas em ensinamentos, mitos e sagas que sobreviveram através de centenas de anos. O Paganismo nunca morreu. Apesar de nossas antigas crenças pagãs terem sido vistas apenas como mitos ou contos de fadas, as histórias que ouvíamos de nossos pais ou na escola, pareciam não ter importância. No entanto, o fato de considerarmos e repassarmos esses mitos, mostra que eles tinham importância sim! De geração em geração, esses mitos e lendas têm sido passados de boca em boca. Eles foram cantados pelos Gregos nas águas do Mar Egeu, pelos bardos Nórdicos, pelos bardos Irlandeses... tanto que eles podiam penetrar campos de batalha sem serem atingidos, pois eram imunes a qualquer violência ou impunidade.

Os mitos têm sobrevivido porque falam conosco na linguagem da noite, dos sonhos, através de simbolismos e alegorias. Eles incitam a mente consciente porque não os compreendemos totalmente; bem sabemos que através de seus simbolismos existem verdades imortais. São como grãos de areia dentro de uma concha de ostra. Nossas mentes sempre operam através deles, muito mais que nossa consciência possa imaginar. Eles persistem e retornam quando lembramos de histórias há muito esquecidas. Eles são relembrados em filmes de fantasia ou de ficção científica que vendem aos milhões ao redor do mundo. E, como o grão de areia em uma ostra, às vezes produzem pérolas de grande valor – a pérola do conhecimento.

Mitos são importantes porque neles está contida a sabedoria espiritual, não de um indivíduo, mas de muitas pessoas em um longo período do tempo. Eles não são as revelações religiosas de um determinado homem que os fez e refez até torná-los distantes de sua forma original perdendo toda sua verdadeira essência. Eles são os sonhos vívidos dos deuses que ainda respiram, enviados para mostrar nosso verdadeiro destino, o qual seria viver mais uma vez em unidade e harmonia com as forças divinas dos Céus e da Terra.

A religião pagã está a nossa volta – na paisagem moldada por gerações, nos montes sagrados ou círculos de pedras, lugares onde gerações e gerações vieram honrar e venerar os deuses de seu povo e de sua terra. É uma religião que se preserva através de suas músicas folclóricas, das suas danças em cada troca de estação. Nós fazemos nossas bonecas de palha de milho, brincamos com as maçãs no Halloween , nem sempre lembrando que estes são os remanescentes de nossos ancestrais Celtas, Germânicos e de outras tribos que delinearam as heranças do Ocidente.

Assim como entramos em um novo milênio, nós estamos presenciando um renascimento das antigas tradições espirituais. Os antigos Deuses e Deusas adormeceram por um período, mas agora estão despertando. O Paganismo é mais uma vez praticado em toda Europa, América, Austrália, Nova Zelândia... É a religião oficial da Islândia! Essas tradições não são unicamente praticadas na Europa. Pessoas no mundo inteiro estão rejeitando novas religiões e estão retornando ao conhecimento de nossos ancestrais.

Alguns Pagãos veneram os deuses de seus ancestrais, ou do lugar onde vivem. Também podemos estranhamente estar ligados à deidades que não fazem parte de nossa terra ou de nossa herança racial. Muitas pessoas no mundo veneram deidades egípcias, por exemplo. Muitos Pagãos veneram divindades de diversas religiões, de diferentes tradições. Eles podem adorar a Grande Mãe, observando as diferentes formas nas quais essa divindade é venerada em vários lugares do mundo. Outros podem venerar Odin ou Cernunnos.

Alguns adoradores dos deuses pagão definem-se simplesmente como Pagãos, ou adoradores da Deusa, ou membros da Velha Religião. Outros seguem tradições particulares dentro do próprio Paganismo. Um dos mais conhecidos é o Druidismo. Os Druidas eram os sacerdotes dos Celtas, também eram grandes poetas e curadores. Existem muitos grupos que estudam as habilidades do Druidismo e veneram seus deuses. Outros autodenominam-se Odinistas, seguidores de Odin, ou Asatru, seguidores dos grandes deuses do norte da Europa no qual sobressai-se Odin. Outros colocam-se como seguidores da Arte, ou Bruxaria (Witchcraft ou Wisecraft). Não a Bruxaria que, dizem, segue as forças negras ou de adoração ao Diabo, mas sim a verdadeira arte dos sábios daquele povo. Este é um caminho abençoado de cura que venera os deuses, que pratica magia, artes de cura, de autoconhecimento e de Visão – as habilidades psíquicas inerentes a todos nós tem sido suprimidas nesses últimos séculos.

Alguns denominam-se Wiccanianos, uma forma de Arte que venera a Grande Deusa e seu consorte, o Deus com Chifres. Mas também inspira-se nos mistérios da religião do antigo mundo que ensinou aos nossos ancestrais o caminho para o autoconhecimento e para a sabedoria dos deuses.

Alguns Pagãos praticam os mistérios dos antigos Gregos, ou Romanos. Na América do Norte muitos buscam inspiração na espiritualidade de ancestrais nativos, talvez simplesmente porque sintam necessidade de resgatar sua herança porque acreditam que a espiritualidade está enraizada na herança de sua terra, ou da terra para o qual imigraram.

Mesmo que a forma de veneração dos antigos deuses seja diversificada, isso é o suficiente para que sintam-se integrantes de um movimento espiritual que está em evolução, o Paganismo.

 

 

lughwiccan@yahoo.com.br

 

1