(...) Fazia três longos dias que não se viam, mas nesse instante lá finalmente estava o corpo todo e nu a esperar. De bruços na cama, parecia dormir. Segurando a taça de champanhe, Magda derrubou no seu interior uma dose de cocaína que, misturada à bebida, fez aumentar a efervescência. Depois de beber um trago, chegou-se até a borda da cama e ficou a observar: a luz caprichosa e pouca iluminando em vários tons de intensidade o corpo quase imóvel e acafetado. Marrom mais claro no traseiro arrebitado, preto intenso no meio das costas, café no braço sólido em cujo extremo dois dedos da mão direita brincavam de perninhas caminhantes pelo chão. "Devia estar jogando futebol." Sim, ele estava aguardando, inocente e provocador. Magda tirou a pouca roupa restante após os preâmbulos eróticos que a deixaram no limite exato da excitação e cuja secreção já umidificara até os lábios da vulva. Agora nua, subiu na cama. A partir dos pés dele, de joelhos abertos foi chegando até encaixar o traseiro entre suas pernas. Num forte aperto, sentiu o útero se expandir e, meneando os quadris, esfregou-se nele, criando ondas elétricas prontas a desabar em centelhas sobre ele. Suas longas unhas arranharam de leve a nuca, os ombros, desceram pelas costas, chegaram nas coxas, agarraram o traseiro. Adorava ver o contraste de sua pele branca com a dele. Na primeira relação que tiveram, enquanto o carnaval explodia nas ruas, voltara o orgasmo tão duradouro e elétrico, iguais aos experimentados na fazenda há muito tempo com um outro negro, Tonho; também obsequioso a princípio, o peão fizera com ela - a seu pedido -o que bem quisera. E sua inconveniente virgindade desaparecera finalmente. Recordou para sempre os desfrutes daquele verão. Na primeira vez, ele teria pouco mais de vinte anos quando lhe ordenara que a acompanhasse na cavalgada. Hora depois, chegaram num riacho; ofegantes da galopada, desceram da montaria. Num repente, ela arrancara as botas, a roupa, e nua, mergulhara na água. Ordenando para o espantado peão: "Vai, moleque, tira esses trapos e entra n'água também!" Tímido, mas obediente, tirara os trapos detrás dum arbusto e mergulhara imediatamente. Algum tempo depois de esfregas e lambidas, ele perdera toda a timidez cabocla e desatara o animal escondido dentro dele, deixando-a louca de desejo. Até lhe ordenar: "Vem cá, nego, me estupra! Aqui, nesta lama. Me chama de Vasmicê, Sinhá, igual teu pai, escravo da minha mãe! Me come, me morde, desgraçado!" Muitos domingos estariam esperando por cavalgadas assim. Mordia os lábios ocultando o riso quando lhe aconselhavam amenizar suas cavalgadas cotidianas, origem certa daquelas dores nas pernas e nas costas de que se queixara sem se dar conta. No fim das férias, teve de voltar a São Paulo. Naquela ocasião soube que o negro desaparecera da fazenda; com estúpida indiferença, seu pai nada fizera para reencontrá-lo. "Magda, minha filha, a abolição foi decretada em 88." Chorou e depois se masturbou até sangrar. A sensação do membro na boca, entre suas pernas e dentro dela, ficou por muito tempo. Na verdade, aquele formigamento permanecera toda sua vida, acompanhando a umidade da vagina e sua excitação quase permanente. Ao ver aquele negro no Clube do Guarujá, tão parecido com Tonho, as pernas tremeram como se tivessem vida, ou, melhor, memória própria, ameaçando deixá-la cair escada abaixo. O negro, a poucos metros de onde se encontrava, ajoelhado no gramado verde -jardineiro do clube? -, olhava embevecido os malabarismos espetaculares dos aviões que assombravam todo o mundo. Assombroso era ser parecido com o outro fujão, da fazenda e de suas pernas. Era o sorriso de deleite mostrando a fileira de dentes branquíssimos reluzindo ao sol como o metal dos aviões aloprados, que o fazia parecer uma criança divertindo-se no circo. Criança entraria no seu circo? Ela se levantara e ficara a fitá-lo fixamente. Leve tremor na mão segurando a taça de champanhe, mas nem por um segundo a luz da prudência acendeu-se. Afinal, bem perto, amigos do marido e até Santos Dumont, numa furtiva passagem pelo Brasil, compartilhavam a mesa. Onde também se encontrava seu amado sobrinho Fausto, de quem precisaria para concretizar a fantasia, esta sim, luz acesa brilhando na mente há tempos. Neste momento, desejo premente. Estão aqui as chaves daquele casebre, Tia Magda. Meu administrador nada perguntou quando as requisitei, mesmo sem entender. Nem eu. Seja o que for, divirta-se, bella. E se tornaria real a partir daquele dia no Guarujá, enquanto seu marido Ricardo Alvarenga, meio alucinado desde o crach da bolsa de Nova York no ano passado, estava em Santos negociando, jogando no mar ou incendiando mais algumas toneladas de café.(...) Enfim, mentir e omitir podia ser trabalhoso; se descoberta, iria provocar reações lamentáveis e enfadonhas... Mas quanto mais proibido e bizarro, mais excitante, n'est-ce pás? Naquele dia existia um deserto ao seu redor, onde se encontrava somente ela, aquele homem negro e os "gansos" de metal sobrevoando suas cabeças. Até ele perceber estar sendo observado e ficar sisudo de repente, o que só durou um segundo. Sentiu-se mais excitada ao vê-lo desviar o rosto, tentando esconder o sorriso - ela desejava ou adivinhava fosse - de malandro e safado. Nada de crianças no seu circo! A perturbadora sofreguidão entre as pernas amainou no instante em que teve a certeza. Seria desta vez, após várias aventuras tão fulminantes como chatas, e obedecendo às solicitações da tirana faminta que se albergava no "poema de entrepernas", montaria naquele ginete cujo nome podia ser "Tonho" ou "Jardineiro!" "Porte-bonheur"! Tanto faziam os nomes. Mas a chamasse "Sinhá" e "Vosmecê"! Deliciosamente infantil! (...) Depois, no silêncio da mansão vazia, foi o Carnaval mais ruidoso e pecaminoso já passado em toda sua vida. O Corso Paulista solto na rua; o seu titânico Momo, preso dentro dela. Ao fim da jornada, alquebrada a alegoria, Ovídio espreguiçou no recôncavo das entrepernas. "Exausta, mas não saciada, teve de parar, ainda ardendo de volúpia", antes de adormecer. (...) Derramou lentamente um pouco de bebida nas suas costas; isso o fez reagir arrepiado, virando-se e expondo o "picaçu" já ereto. Sua dureza ela constatou ao apertá-lo carinhosamente. Sorriram simultaneamente, cúmplices no mudo comentário sobre tamanho e solidez. Servindo-se da garrafa, encheu de novo o cálice ainda com resquícios de cocaína e, após beber um gole, deixou o resto para bochechar. Inclinou-se e borrifou em cima da ponta escura, antes de introduzi-la naturalmente na boca. O líquido borbulhante provocou nele mais arrepios. A língua acariciou a glande com rápidos movimentos, fazendo o frênulo tremer. Restos de bebida derramando da boca umedeciam e perfumavam ainda mais o fruto carnoso do seu "cabeça-de-negro". Sentiu os dedos procurando a vulva ardente e tão molhada como o que possuía na boca. Facilitou o encontro com movimento lânguido. (...) Conta que fazia questão de manter em dia, a fim de se martirizar impudicamente aguardando o próximo encontro naquele rancho escondido em algum subúrbio. Sustentava todos os seus gastos com a intenção de não vê-lo solto por aí. Queria tê-lo só para si, e o tinha! Escravo exclusivo. Necessitando-a, esperando por ela como ar, como refeição, como água, ou melhor ainda, cocaína e champanhe! Impregná-lo dela, mantendo-o dependente, fendedor acorrentado a seu corpo. Era sua vingança por estar sentindo o mesmo. Estaria amando o belo animal? Melhor seria tudo não passar da dolorosa, doce e perversa volúpia. Ou o nome que tivesse essa urgência quase constante de ser penetrada por ele, invadindo todas suas fendas, apaziguando o furor de seu útero, consumindo e sugando todas as faculdades mentais que os diferenciavam dos animais. (...) Mas fantasiar amar um negro ignorante que só sabia falar - se tanto - de sítios e terras das quais sonhava ser proprietário um dia? Um preto provavelmente fugitivo? Melhor era tirar essas idéias da cabeça e se deleitar com a outra cabeça dele, a que estava na sua garganta. O resto não importava, ele não precisava pensar. (...) A grossura de milho, saindo e entrando até a garganta; pouco depois passar a língua em toda a extensão; as mãos acariciando os testículos e sentindo a fragrância; a volúpia de proporcionar prazer similar não lhe permitia considerar a possibilidade de aquilo acabar. Talvez ele estivesse apaixonado por ela. "Fantasia divertida e diabólica, Magda." Por que não? Afinal, não existia chance nenhuma de ele encontrar mulher assim feito ela, branca, fogosa e gostosa, rica e... puta! "Se fugisse da mesma maneira que fez o outro negro safado?" Antes disso o mandaria matar, ou ela mesma o faria. (...) No momento em que, abocanhador, mergulhou entre suas pernas sem ela precisar largar o que possuía na boca, nem terremoto moralista quatrocentista conseguiria arrancá-la dali ou impedi-la de continuar. Logo mais, atingindo o limite do gozo, ele virou-se estabanado, arrancando o membro da boca dela. Nesse movimento inesperado os dentes rasgaram de leve a pele. Ele mordeu o lábio mais por surpresa e aflição e olhou o membro ferido: sangue se misturava à saliva e ao champanhe. Ela fez menção de levá-lo de novo à boca como a ampará-lo, mas ele deu-lhe um tabefe e empurrão, fazendo a garrafa de champanhe virar, derramar o resto sobre a cama e ela tombar de costas. Com o impacto as molas rangeram ruidosamente. Montou sobre ela agarrando com força a garganta até o limite do sufoco; apartando-lhe as pernas, furioso a penetrou. Rebolando o toco morno e sangrento, esfregava-o, entranhado na vagina em vaivém vigoroso, abocanhando lábios e garganta alternadamente. Acelerou os movimentos ao sentir os músculos da vagina fechando em torno dele, sugando-o. E então... então o orgasmo vindo a paralisá-la pouco a pouco, espasmo voluptuoso a eletrificá-la, vindo, bem-recebido, bem-pungente, vindo, "bem-vindo amor!" Nem sequer os anjos do céu (não estava no zênite?) nem capetas do inferno (não estava também nele?) teriam poder para deter o momento que ansiava eternizar. "Morrer assim", soluçou entre dentes. No frenesi à beira do desmaio, o último som ouvido foi o alarido do gozo dele, o esfrega-esfrega dos seios suados no seu torso e o compasso das molas da cama. Desfaleceu molhada de esperma, sangue, champanhe e lágrimas.

Fragmento do capítulo: "São Paulo, Capital do Café./Guarujá em Chamas./Tonho, Cor de Café./Abolição Decretada Em Oitenta e Oito./Mas Sinhá Liga?"



(...) rodeando a cama, foi até a cabeceira. Os braços abertos, um deles balançando na borda da cama, o corpo relaxado; as pernas abertas de Magda aguardavam. Impacientes. - Vai, mulher, que estás esperando? - obedecendo imediatamente, colocou as mãos sobre as costas da outra e lá as deixou, quietas, patetas. Sentindo. Pelas palmas abertas, por todos os dedos, o calor daquele corpo penetrou por eles formigando e subindo à face, lá se alojou anuviando seu olhar. Incômoda de pé, ajoelhou-se na borda da cama. Então, obedecendo o impulso, acariciou a pele branca, mas sem jeito, de maneira brusca. - Esse frasco rosa é creme - maquinal, pegou o frasco e o abriu, derramou abundantemente, sem conseguir evitar parte dele cair também no dorso de Magda. Esta se arrepiou ao sentir o líquido cremoso e frio sobre si, contraiu as nádegas em lenta fricção. - Gostoso. Trepa na cama, em cima de mim, avec plaisir - com dificuldade, ela obedeceu, mantendo as mãos afastadas e levantadas, semelhante a cirurgião preparado para operação. De joelhos, tinha entre as pernas o corpo de Magda se aquietando, aguardando. Jandira se inclinou e, com as mãos espalmadas nos ombros, apertou, massageou. (...) E o que estava sendo bom subitamente a assustou. Magda virou-se de repente, ficando cara a cara com ela. Jandira parou com as mãos levantadas e lambuzadas, sem saber o que fazer. Magda sabia. (...) A sensação dos dedos dela entrando pela sua calcinha foi um assombro grato que lhe acelerou a respiração, aumentou as batidas cardíacas e lhe fez morder o lábio. Aquela mulher sempre fora boa. Alguém colocara os dedos dentro dela desse jeito? Quem a acariciara desse modo? Alguém a puxara de leve pelos braços até chegar tão perto de seu rosto que a união de suas bocas foi inevitável? Quem mordiscara seus lábios molhados e pusera daquela maneira a língua dentro dela? Arrancara blusa, sutiã e sugara seus seios assim, sem machucar, como um bebê safado? Santo Deus, ninguém! Dona Magda era tão gostosa, tão perfumada, as mãos não paravam quietas, o corpo molhado apertava e esfregava com tanto ardor... macio. Macio como seus lábios grossos de língua rósea. Dona Magda!

Extraido do capítulo:Ricardo Alvarenga, Jantar Je ne sais quoi e Gorjeta Inesquecível Esperam Magda e Jandira se Conhecerem Melhor.

 


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