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matériapensante |
um diálogo possível?
Elie Cheniaux Jr. (1) eLuís
Alfredo Vidal de Carvalho(2)
RESUMO Embora
Freud tenha iniciado sua carreira como neuroanatomista e neurologista,
psicanálise e neurociência sempre estiveram muito distantes uma da
outra. Uma aproximação entre essas disciplinas poderia proporcionar à
psicanálise uma validação objetiva, científica, de suas teorias. Por
outro lado, tal aproximação também seria importante para a neurociência,
que se beneficiaria da larga experiência da psicanálise nos campos da
afetividade e da subjetividade. Neste artigo, algumas teorias psicanalíticas
– sobre os sonhos, a repressão, as relações objetais precoces, o
ego, a ansiedade e o inconsciente – são discutidas à luz das
recentes descobertas neurocientíficas. Conclui-se que uma integração
entre as perspectivas subjetiva e objetiva da psicanálise e da neurociência,
respectivamente, poderia levar a uma compreensão mais ampla e profunda
da mente. INTRODUÇÃO
Embora
o estudo dos fenômenos mentais seja algo compartilhado pela psicanálise
e pela neurociência, a idéia de uma aproximação entre essas
disciplinas é repudiada pela maior parte tanto dos psicanalistas como
dos neurocientistas.(3,61) De fato, as relações entre elas
têm sido marcadas por uma reciprocidade de descrédito, desvalorização,
desprezo e evitação. Durante a segunda metade do século XX, psicanálise
e neurociência colocaram-se praticamente em lados opostos, como se
fossem adversárias.(54,67) De
um lado, muitos psicanalistas – especialmente os que vêem a psicanálise
como uma disciplina hermenêutica – levaram a psicanálise a uma situação
de isolamento frente às diversas outras disciplinas que se ocupam da
mente humana.(13,31,54) De acordo com essa visão, a psicanálise
deveria se interessar unicamente pelos conteúdos mentais e pelo que
acontece no setting analítico.(41)
Além disso, a psicanálise não deveria ter qualquer compromisso com as
ciências naturais: um ancoramento na biologia e o emprego do método
experimental seriam totalmente inadequados para a psicanálise.(2,13,26,31,67)
Em contrapartida, para os neurocientistas em geral, a psicanálise é
algo inteiramente não-científico e irrelevante.(67) Todavia,
psicanálise e neurociência já estiveram muito próximas. Sigmund
Freud, o pai da psicanálise,
iniciou sua carreira como neuroanatomista e neurologista e, até o final
de sua vida, jamais abandonou a idéia de que os fenômenos mentais
possuem um substrato biológico.(26,53,58) Em um dos seus últimos
trabalhos – Esboço de Psicanálise(23)
– ele ainda afirmava que a psicanálise deveria “ocupar seu lugar
como uma ciência natural como qualquer outra”. Freud
trabalhou nos laboratórios do fisiologista Ernst Brücke e do
neuroanatomista e psiquiatra Theodor Meynert, e atuou com neurologista
no hospital geral de Viena. Antes de criar a psicanálise, escreveu
monografias sobre a paralisia cerebral infantil e sobre a afasia.(25,53) Em
1895, Freud escreveu o Projeto
para uma psicologia científica(16) -, só publicado após
a sua morte - que ambicionava tornar a psicologia um ciência natural.(25)
Trata-se de uma teoria geral do psiquismo humano --- normal e patológico
--- , escrita em uma linguagem neurológica. O projeto
baseia-se em modelos da Termodinâmica(34) e Mecânica dos
Fluidos em sistemas conservativos (sistemas onde a energia sempre se
conserva) e nos ainda muito rudimentares conhecimentos neurocientíficos
da época. O neurônio já tinha sido descrito anatomicamente, por Cajal
e Waldeyer, poucos anos antes,(60) mas, em 1895, essa
descoberta ainda era cercada de muita controvérsia.(51)
Freud construiu uma neuropsicologia extremamente especulativa(38)
– e talvez pela falta de uma sólida base empírica tenha decidido
pela não-publicação da obra. Todavia, algumas dessas especulações são
hoje em dia consideradas antevisões espantosas. Por exemplo, Freud
imaginou a existência de “barreiras de contato” entre os
neurônios, o que corresponde diretamente ao que Sherrington iria
descrever e chamar de “sinapse” em 1897, portanto dois anos depois
do projeto; e ainda descreveu
mecanismos de “facilitação” da transmissão da energia nervosa na
formação das memórias.(53,54,63) Além disso, muitos
autores encontram no projeto
diversos conceitos e modelos que agora são adotados pela psicologia
cognitiva e pela neurociência computacional.(32,52,63) Ao
mesmo tempo em que o projeto
tem despertado o interesse dos neurocientistas de hoje, ele também é
considerado um precursor da metapsicologia freudiana. Nele já se
encontram vários dos principais conceitos psicanalíticos, como
“energia psíquica” [“energia nervosa”], “processo primário”
e “processo secundário”, “ego” e “regressão”. Observa-se
uma clara correlação entre o modelo proposto no projeto
e a teoria do aparelho psíquico contida no capítulo VII da Interpretação
dos Sonhos.(39,51,54,63) Grande parte da teoria psicanalítica
já estava lá, de modo que só foi possível compreender razoavelmente
os artigos metapsicológicos após a publicação do projeto.(2) EM
QUE A NEUROCIÊNCIA PODE AJUDAR A PSICANÁLISE?
Não
se pode afirmar que a psicanálise represente um corpo teórico homogêneo
e coerente. Na verdade existem várias psicanálises. Há evidentes
divergências entre as numerosas escolas psicanalíticas, mesmo quanto a
conceitos considerados fundamentais.(15) Entre algumas das
mais importantes formulações teóricas encontram-se profundas contradições
e incompatibilidades.(26,29) No percurso da psicanálise, as
inovações teóricas via de regra não substituíram as concepções
anteriores, mas se sobrepuseram a estas.(15,29) A
fragmentação da psicanálise e a excessiva proliferação de teorias
parecem se dever a uma opção pela pesquisa clínica, restrita ao setting
analítico, em detrimento da utilização do método experimental. Para
Kandel,(31) o método psicanalítico mostrou-se muito fértil
na produção de hipóteses científicas, mas, ao mesmo tempo, pouco
eficaz em testá-las. Ainda segundo ele, a escuta de pacientes
individuais, depois de mais de cem anos, parece ter chegado ao seu
limite como fonte de novas idéias. Além disso, a situação analítica
não parece adequada para a validação científica da teoria, em função
da multiplicidade de elementos não controlados, que são basicamente
subjetivos,(26,31) sendo bastante questionável a
imparcialidade e objetividade do analista na observação do que se
passa no setting. Por
exemplo, se um analista é adepto de determinada teoria, esta fatalmente
irá influenciar a interpretação que ele faz do material clínico das
sessões analíticas, mesmo que ele não tenha consciência disso.(10)
Assim, de forma tautológica, o discurso do analisando via de regra
parecerá confirmar a teoria. Por outro lado, mesmo quando terapeuta e
paciente concordam quanto à adequação de determinada interpretação,
isto não significa que esta esteja correta.(26) Uma
outra importante dificuldade quanto à validação da teoria psicanalítica,
particularmente a metapsicologia freudiana, é que esta é constituída
basicamente por metáforas. Mecanismos de defesa como a “repressão”,
ou conceitos como o “inconsciente”, por exemplo, segundo Freud, não
existiriam concretamente, não teriam uma localização cerebral. Metáforas,
como tais, não são testáveis.(26) Na
ausência de confirmação objetiva, a adoção de uma determinada
teoria psicanalítica torna-se na prática uma questão de crença.
Apela-se para a força da autoridade dos principais teóricos da psicanálise:
“se Freud - ou M. Klein, Lacan, Kohut, Winnicott, ou outro – disse,
então é verdade”.(15) O
que a neurociência pode proporcionar à psicanálise é a validação
objetiva das teorias desta, por meio do emprego do método experimental
de investigação, que se caracteriza por um maior rigor científico.(49,54,67)
Deve-se buscar uma comparação entre as hipóteses formuladas pela
psicanálise e os achados da neurobiologia. Naquilo em que esses achados
contradisserem a teoria psicanalítica, esta precisará ser reformulada.(2,10,41)
Além disso, as descobertas neurocientíficas permitirão uma opção
melhor argumentada entre teorias psicológicas rivais.(1) Dentro
da própria psicanálise, a investigação fora do setting
analítico já trouxe alguns frutos. A observação direta de bebês
ocasionou modificações na técnica analítica e fez com que se desse
uma maior atenção às questões pré-edípicas.(2,10) EM
QUE A PSICANÁLISE PODE AJUDAR A NEUROCIÊNCIA? Os
neurocientistas, tradicionalmente mais voltados para o estudo das funções
cognitivas, apenas nos últimos anos começaram a se interessar pelas
emoções.(54,67) Graças à sua larga experiência nessa área,
a psicanálise foi capaz de formular interessantes questões, as quais
podem agora servir de guia para as investigações neurobiológicas
sobre a afetividade.(10,31,41,49) Talvez
a maior contribuição que os psicanalistas possam dar aos
neurocientistas seja na campo da subjetividade.(31) Embora
tenham feito grandes descobertas sobre o funcionamento cerebral, os
neurocientistas pouco disseram a respeito das vivências internas dos
indivíduos, sua experiências subjetivas. Estas, no entanto, há mais
de um século vêm sendo levadas espontaneamente pelos pacientes aos
consultórios psicanalíticos.(8,49,57) AS
TEORIAS PSICANALÍTICAS À LUZ DAS DESCOBERTAS NEUROCIENTÍFICAS Os
sonhos A
Interpretação dos Sonhos,(17)
de 1900, é considerada a primeira obra propriamente psicanalítica de
Freud. Nesse trabalho, particularmente no capítulo VII, já se encontra
uma teoria geral do aparelho psíquico, formulada a partir dos estudos
de Freud sobre os sonhos, que seriam, segundo ele, a “via régia de
acesso ao conhecimento do inconsciente na vida mental”. Segundo
Freud, o sonho é “o guardião do sono”, e constitui “uma realização
(disfarçada) de um desejo (reprimido)”. O sonho possui um
conteúdo manifesto, que é a experiência consciente (predominantemente
visual) durante o sono, e ainda um conteúdo latente, considerado
inconsciente, que é composto por 3 elementos: as impressões sensoriais
noturnas, os restos diurnos e as pulsões do id. Os
elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar.
Durante o sono, talvez em função da completa cessação da atividade
motora voluntária, a repressão está enfraquecida, o que aumenta a
possibilidade de as pulsões terem acesso à consciência. Em função
de uma solução de compromisso entre o id e o ego – que é a instância
que exerce a repressão -, é permitida uma gratificação parcial das
pulsões através de uma fantasia visual, diminuindo a força dessas
pulsões e, conseqüentemente, possibilitando que o indivíduo continue
a dormir. O
conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque
consiste numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção
se dá, em primeiro lugar, porque no sono há uma profunda regressão do
funcionamento do ego, que faz com que haja um enfraquecimento da
capacidade de distinção entre o real e o imaginário (prova de
realidade), e com que o processo primário do pensamento passe a ser o
predominante. Assim, o conteúdo latente do sonho tem que ser traduzido
para uma linguagem do processo primário, caracterizada pelo predomínio
das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal), e pelos
mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e
de deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além
disso, entre o inconsciente e o consciente existiria uma instância
censora, que deliberadamente disfarçaria o conteúdo do sonho, para que
o sonhador não reconheça sua origem pulsional, proibida. A
teoria de ativação-síntese,
de Hobson(28) e McCarley,(37) é apresentada como
uma contestação à teoria psicanalítica sobre os sonhos. De acordo
com esses neurocientistas, a consciência da vigília seria mediada pela
noradrenalina e pela serotonina, e a consciência do sonho – durante o
sono REM -, pela acetilcolina. No
eletroencefalograma do sono REM são detectadas ondas pontiagudas,
chamadas ondas PGO, que se originam na ponte. Essas ondas PGO, que são
periódicas e aleatórias, constituem os estímulos básicos dos sonhos.
Cabe a níveis cerebrais superiores a síntese das imagens aleatórias
produzidas pelas ondas PGO, construindo assim uma narrativa seqüencial.
Portanto os sonhos nasceriam, ao nível do tronco cerebral, sem qualquer
significado, não relacionados a desejos proibidos, ao contrário do que
diz a psicanálise. A
bizarrice e incoerência dos sonhos seriam explicadas pela natureza caótica
das ondas PGO, pela ausência de monitoramento do córtex frontal –
inativado durante o sono REM - e pelo déficit de memória. Assim, o que
torna os sonhos bizarros não seria a atuação de uma instância
censora. Os sonhos na verdade não estariam disfarçando nada: pelo
contrário, refletiriam de forma transparente a atividade cerebral. Todavia
algumas contestações têm sido feitas à teoria
de ativação-síntese. Acredita-se
que outras estruturas, fora do tronco cerebral, como a amígdala, o
hipotálamo posterior ou o núcleo talâmico, também possam estar
envolvidas na produção do sono REM.(35) Solms,(56)
estudando 332 pacientes com lesões cerebrais fez as seguintes observações:
a) sonhos podem ocorrer mesmo se a ponte é afetada; b) a capacidade
para sonhar é comprometida se as lesões atingem o lobos parietais
inferiores; c) a capacidade para sonhar é afetada se as lesões atingem
o lobo frontal, na região mediobasal; d) se a área têmporo-ocipital
é afetada, os sonhos não se expressam mais através de imagens
visuais; e) se estruturas límbicas anteriores estão lesadas, o indivíduo
perde a capacidade de distinguir entre sonho e realidade; f) pacientes
que apresentavam focos epilépticos em estruturas têmporo-límbicas
apresentavam pesadelos estereotipados recorrentes; g) lesões na região
frontal dorsolateral em nada alteram o sonhar. A partir dessas observações
Solms elaborou uma hipótese, que, segundo ele, seria inteiramente
compatível com a teoria freudiana sobre os sonhos. Para ele, o sono
REM, embora esteja muito freqüentemente associado a sonhos, não seria
a causa destes. O sonho poderia ser provocado por qualquer atividade
cerebral que perturbe o sono, até mesmo focos epilépticos. A região
frontal mediobasal - que está relacionada à regulação dos afetos e
controle dos impulsos - e as estruturas límbicas anteriores –
essenciais para o teste de
realidade – atuariam como um censor. Elas, através de uma
atividade inibitória e regulatória sobre os impulsos neuronais,
impediriam que eles chegassem à região frontal dorsolateral -
relacionada à atividade motora –, e os desviariam para a região
parietal – relacionada à capacidade de simbolização e ao pensamento
espacial concreto – e para a região ocipital – relacionada à
percepção visual. Outras
teorias sobre os sonhos têm sido elaboradas. Acredita-se que a ativação
de sistema colinérgico que ocorre durante o sono REM seja de grande
importância para a consolidação da aprendizagem e da memória.(28,62,65)
Para alguns autores, a finalidade principal do sonho seria a integração
das experiências recentes com os registros permanentes de memória.
Quando despertamos um indivíduo durante o sono REM no início da noite,
ele nos relata sonhos que são a reprodução mais ou menos fiel de
eventos recentes, o que corresponde ao que Freud chamou de “restos
diurnos”. No entanto, o indivíduo que é acordado mais tardiamente
relata sonhos que se caracterizam por imagens que misturam eventos
recentes com eventos bem remotos, muitas vezes da infância, os quais
podem se referir a desejos reprimidos.(27) Na visão de
Palombo,(48) as impressões recentes são comparadas e
superpostas aos registros permanentes de memória, particularmente às
recordações que possuam algum grau de similaridade com essas impressões
recentes, o que contribuiria para a consolidação da memória. Esse
autor vê esse mecanismo como análogo ao que Freud conceituou como
“condensação”. A
repressão (ou recalque) Em
Estudos sobre a histeria,(7)
Breuer e Freud afirmavam que “os histéricos sofrem principalmente de
reminiscências”. Já nessa época pré-psicanalítica, anterior à
conceituação de “repressão”, eles acreditavam que memórias de
eventos traumáticos poderiam se afastar da consciência e se tornar
patogênicas. De
acordo com a psicanálise, a repressão consiste num mecanismo de defesa
que atua excluindo da consciência representações - pensamentos,
recordações - ligados a uma pulsão do id. O
ego retira da idéia a catéxia verbal - a ligação a uma representação
de palavra -, restando apenas a catéxia de pulsão. O que é reprimido
deixa de fazer parte do ego, e fica restrito ao id.(18) O
fato de não conseguirmos nos lembrar de quase nada dos primeiros anos
de nossas vidas seria o resultado da repressão em relação à
sexualidade infantil.(6) Todavia, as memórias da infância
seriam recuperáveis no tratamento analítico.(33) Nas
últimas décadas, houve um grande progresso no conhecimento da
neurobiologia da memória. As memórias podem ser divididas em explícitas
(ou declarativas) e implícitas (ou não-declarativas). As memórias
explícitas representam informações sobre o
que é o mundo, informações essas que são acessíveis à consciência,
podem ser evocadas voluntariamente e expressas em palavras. Elas são
processadas basicamente no hemisfério cerebral esquerdo, e estão
relacionadas ao hipocampo e demais estruturas do complexo hipocampal, e
ainda ao diencéfalo, ao giro do cíngulo, e às regiões ventromediais
e dorsolaterais do córtex pré-frontal. Já a memória implícita
refere-se ao aprendizado de como
fazer as coisas. Expressa-se numa melhora de desempenho em uma
determinada atividade, que se dá em função de experiências prévias.
É um tipo de memória automática e reflexa, que não pode ser expressa
em palavras, e que independe da recuperação consciente das experiências
que produziram o aprendizado. Há vários tipos de memória implícita:
memória de procedimento, condicionamento clássico, condicionamento
operante, aprendizagem não-associativa, pré-ativação e memória
emocional. Esta última está relacionada à amígdala - que ativa o
sistema nervoso autônomo, armazena rotinas básicas do comportamento
instintivo, além de realizar a memorização indelével de eventos
traumáticos e de exposição a perigos – sendo processada
principalmente no hemisfério direito.(43) Somente
as memórias explícitas seriam passíveis de repressão; as memórias
implícitas já são por natureza inconscientes.(5,9) De
acordo com alguns neurocientistas, os mecanismos neurobiológicos
subjacentes à repressão estariam relacionados a uma desconexão entre
os dois hemisférios. Assim, recordações afetivas dolorosas ou
desagradáveis não teriam acesso ao hemisfério esquerdo e, com isso, não
poderiam ser verbalizadas, não podendo se tornar conscientes.
Possivelmente a região orbitofrontal direita, através de uma ação
inibitória, teria alguma participação nesse mecanismo.(14,43,46) O
transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) consiste em um transtorno
de ansiedade que se sucede a um evento psicológico extremamente traumático,
o qual ultrapassa a experiência humana usual. Caracteriza-se, entre
outras alterações, por uma hipermnésia em relação ao trauma, ou então
uma amnésia em relação ao mesmo. Em situações de estresse, a amígdala,
através do núcleo pontino locus
coeruleus, medeia a liberação de adrenalina, noradrenalina e
cortisol. A adrenalina e a noradrenalina, quando liberadas em níveis médios,
são neurotróficas, melhorando a memória explícita, o que poderia
explicar o porquê de, em alguns casos, ser excepcionalmente nítida a
rememoração de um evento traumático. Por outro lado, quando liberadas
excessivamente, passam a ser neurotóxicas, impedindo a formação de
novas sinapses. Daí, em muitos casos de TEPT, não há lembrança explícita
do evento traumático. Seria isto uma defesa cerebral contra o trauma.
Além disto, o cortisol aumenta a atividade da amígdala, mas diminui a
do hipocampo. Presume-se que, no TEPT, níveis muito altos de cortisol
levariam a uma destruição de células hipocampais e a uma diminuição
do volume do hipocampo. Com isso, é possível que a memória explícita
do evento traumático seja perdida, ao mesmo tempo em que a sua memória
emocional persistiria por toda a vida.(31,33,41,43,45,71) Atualmente,
acredita-se que não temos memórias explícitas dos primeiros anos de
nossas vidas porque o hipocampo não se torna plenamente funcional até
a idade de 3 ou 4 anos. As
lembranças mais precoces do ser humano são principalmente emocionais e
visuais. Diferentemente do hipocampo, ao nascimento, a amígdala já se
encontrada bem desenvolvida. Essas primeiras lembranças são
armazenadas no hemisfério direito, não podendo ser recuperadas
verbalmente mais tarde na vida adulta.(5,9,31,33,41,43,71) Parece
que a amnésia infantil seria também, em parte, o resultado do extenso
e contínuo remodelamento das conexões sinápticas que ocorre nos
primeiros anos de vida. Nesse período, a plasticidade neuronal – com
a formação de novas sinapses e a eliminação de outras – atinge seu
auge, o que poderia acarretar o apagamento de muitos engramas referentes
às experiências precoces da criança.(33,65) As
relações objetais precoces, a transferência e o tratamento analítico
Psicanalistas
como M. Klein, Bion, Winnicott, Kohut, Spitz e Mahler, entre outros,
ressaltaram a enorme importância das primeiras relações objetais,
especialmente com a mãe, para o desenvolvimento psicológico da criança.
Ter tido uma boa “maternagem” na infância, ou uma “mãe
suficientemente boa” – na conceituação de Winnicott -, seria
fundamental para se alcançar na vida adulta um funcionamento mental
adequado.(13,31) O
psicanalista britânico John Bowlby(4) desenvolveu a
“teoria do apego”. De acordo com ela, o bebê humano teria uma
propensão natural a estabelecer laços sentimentais profundos com a mãe
(ou seu substituto). O apego caracteriza-se por um comportamento do bebê
de constante procura por proximidade em relação à mãe, estresse na
separação e conforto na reunião. O comportamento de apego já pode
ser observado no primeiro mês após o nascimento, e parece perdurar por
toda a vida (relacionado a outras pessoas, como o cônjuge). Não só
nos seres humanos observa-se o comportamento de apego, mas também nos
outros primatas e mamíferos. Experiências
com animais indicam que o comportamento de apego possui um substrato
biológico. Observou-se que substâncias endógenas, como a oxitocina e
a vasopressina, induzem o comportamento de apego. A infusão de
agonistas benzodiazepínicos diretamente na amígdala diminui o estresse
de filhotes na separação, enquanto que a de antagonistas benzodiazepínicos
aumenta a ansiedade, mesmo sem ter havido separação. Já a infusão de
naltrexona - uma antagonista opióide - aumenta o comportamento de reunião
tanto nos filhotes como nas mães, enquanto que a morfina tem efeito
contrário.(45) Os
estudos neurocientíficos têm demonstrado que a formação das conexões
sinápticas não depende unicamente do código genético. O ambiente,
isto é, as experiências dos primeiros anos de vida, especialmente as
experiências afetivas, têm um papel fundamental na construção das
redes neuronais. Na infância, a plasticidade neuronal é muito intensa.
Mais do que em qualquer outra época, há uma grande proliferação de
novas sinapses, principalmente no córtex orbitofrontal. Aquelas que
receberem estímulos ambientais mais freqüentes serão fortalecidas e
se tornarão duradouras, mas aquelas pouco estimuladas serão eliminadas
- é a lei do “use-o ou perca-o”.(12,44,66) Dessa forma,
as primeiras relações objetais estarão inscritas na arquitetura
neuronal e determinarão para cada indivíduo um padrão habitual de
relacionamento, que será reproduzido no convívio com as mais diversas
pessoas do decorrer de sua vida.(24) Para os cientistas
cognitivistas, esse padrão, que é repetido de forma automática e sem
elaboração consciente – e está relacionado ao que Freud chamou de
“compulsão à repetição”(20) -, seria codificado como
uma memória implícita (memória emocional).(9) Todavia,
os estudos de Kandel(31) com o molusco Aplysia demonstraram
que nos processos de aprendizagem, de formação de novas memórias de
longo prazo, podem ser formadas novas sinapses. A estimulação
ambiental repetitiva tem influência sobre a expressão genética: novas
proteínas podem ser sintetizadas e, conseqüentemente, novas conexões
neuronais podem ser criadas. Vários
pesquisadores(31,50,54,66,68) acreditam que a psicoterapia,
especialmente o tratamento analítico, constituiria uma forma de
aprendizagem, de aquisição de novas memórias implícitas. Se o
tratamento é bem sucedido é porque houve alterações estruturais no cérebro:
modificações duradouras nas conexões neuronais. No relacionamento com
o analista, em função da “compulsão à repetição”, o paciente
automaticamente repete a sua forma habitual de relacionar-se. Isto é a
“transferência”, considerada por Freud essencial para o tratamento.
O paciente não se recorda, apenas repete. Repetir automaticamente, sem
recordação consciente, é uma das características da memória implícita.(5,33)
O tratamento analítico atuaria reestruturando a memória emocional do
paciente.(24,68) Através das interpretações do analista, o
paciente pode se dar conta de seu padrão de comportamento mal
adaptativo, optar conscientemente por um outro padrão - mais adequado e
saudável - e, com a repetição deste dia após dia, torná-lo automático,
ou seja torná-lo memória implícita. Também o próprio relacionamento
com o analista, a “experiência emocional corretiva” – conceituação
do psicanalista Franz Alexander -, poderá proporcionar diretamente uma
modificação na memória implícita (emocional) do paciente.(9)
E, como em qualquer processo de aprendizagem, no tratamento analítico
se faz necessária a repetição dos estímulos. Daí se justifica a
necessidade de o tratamento ser tão longo e com sessões tão freqüentes.(41,68) O
ego Várias
das funções atribuídas por Freud ao “ego” – como controle sobre
os impulsos e as emoções, pensamento racional (“processo secundário”),
julgamento moral e atenção(21) – têm sido relacionadas a
uma mesma região cerebral: o córtex pré-frontal.(31,59) A
ansiedade Freud
distinguiu dois tipos de ansiedade: a ansiedade traumática e a
ansiedade-sinal. Quando o indivíduo é submetido a um grande afluxo de
excitações, de origem externa ou interna, que ele não pode
descarregar ou dominar – “situação traumática” -, ele reage
automaticamente com uma ansiedade intensa. O protótipo da situação
traumática seria a experiência do nascimento. Um exemplo freqüente de
situação traumática se refere aos estímulos relacionados a pulsões
do id que são indesejáveis ou não podem ser satisfeitas. A
ansiedade traumática é característica da infância, quando o ego
ainda é bastante imaturo, só reaparecendo na vida adulta nos casos de
neurose de ansiedade (que corresponderia atualmente ao transtorno de pânico).
Interessante recordar que o hipocampo, sede da memória explícita,
ainda não está desenvolvido até os 4 anos de idade, enquanto a amígdala,
sede dos instintos e mecanismos de conservação da vida, está
plenamente ativa. Com o desenvolvimento do ego, e do hipocampo,
adquire-se a capacidade de identificar previamente situações de
perigo, isto é, de antever a iminência de uma situação traumática
baseando-se em engramas das experiências prévias armazenados no
hipocampo. O ego, então, diante de uma situação de perigo, reage
produzindo uma forma atenuada de ansiedade - bem menos intensa que a
ansiedade automática - denominada ansiedade de alarme ou
ansiedade-sinal. Esta propicia a mobilização de forças - entre as
quais os mecanismos de defesa - para enfrentar ou evitar a situação
traumática.(22) Por
alguma falha não conhecida no uso do ferramental adulto das experiências
prévias registradas no hipocampo, ou devido a um excesso de ativação
das reminescências infantis registradas na amígdala, surgem reações
intensas e instintivas, típicas da infância, caracterizando no adulto
sintomas semelhantes ao que hoje chamamos de ataque do pânico. Kandel
percebeu uma relação entre a ansiedade-sinal, de Freud, e o
condicionamento aversivo clássico, de Pavlov.(30,31,70)
Neste último, há o pareamento de dois estímulos: um neutro e outro
nocivo. Repetidas vezes o estímulo neutro é apresentado ao animal
imediatamente antes do nocivo. Depois de um certo tempo, mesmo na ausência
do estímulo nocivo, o estímulo neutro será capaz de produzir uma reação
de fuga no animal. Tanto o condicionamento clássico como a
ansiedade-sinal possuem um alto valor do ponto de vista adaptativo:
permitem ao indivíduo (ou animal) fazer previsões sobre eventos no seu
ambiente e reagir defensivamente antes que o perigo iminente se torne
uma realidade. Ainda segundo Kandel, como o condicionamento aversivo clássico
está relacionado a um processo de memória implícita mediado pela amígdala
e, ao nível neuronal, a uma facilitação pré-sináptica, é possível
que, subjacentes à ansiedade, haja mecanismos semelhantes. O
inconsciente Segundo
Freud, a atividade mental seria em si mesma inconsciente.(57)
Apenas em condições especiais uma idéia poderia se tornar consciente:
ela teria que se ligar a uma representação de palavra - a uma imagem
verbal –, a qual guarda características sensoriais e, além disso,
teria que se ligar a uma catéxia de atenção, uma energia psíquica móvel
que o ego tem à sua disposição.(19) Freud descrevia a
consciência como um órgão sensorial voltado para o mundo interno, uma
espécie de monitor das outras funções mentais.(11,47) Diferentemente
da época de Freud, hoje em dia a existência de processos psíquicos
inconscientes não é mais polêmica. A dificuldade agora está em se
explicar os mecanismos que geram a consciência. A neurociência, por
enquanto, não trouxe uma resposta satisfatória para essa questão.(42,57) Estudos
experimentais com humanos evidenciam atividades mentais que ocorrem fora
do alcance da consciência. Por exemplo, num indivíduo que resolve
realizar um movimento muscular, como pegar um objeto, detectam-se, no
eletroencefalograma, potenciais elétricos nas áreas frontais pré-motoras
cerca de meio segundo antes de ele tomar conhecimento de sua decisão.
Isto significa que só depois que a decisão é tomada é que esta chega
à consciência.(5,32) Descobriu-se
ainda que estímulos externos subliminares são percebidos de forma não-consciente:
na memória de longo prazo podem ser armazenadas informações que
jamais chegaram à consciência. A conscientização da percepção está
relacionada ao hemisfério cerebral esquerdo: estímulos visuais de
objetos projetados na metade esquerda do campo visual vão chegar
inicialmente ao hemisfério direito, mas só vão se tornar conscientes
quando a informação chegar ao hemisfério esquerdo. Isso é
demonstrado em estudos com pacientes que sofreram secção do corpo
caloso, comissura que conecta os dois hemisférios.(44) CONCLUSÃO
A
necessidade de integração entre a psicanálise e as neurociências se
apoia, antes de tudo, em razões filosóficas. Atualmente a grande
maioria dos filósofos – sem falar nos neurocientistas – rejeita a
visão dualista da questão mente-corpo. Não parece haver sentido em se
imaginar estados mentais imateriais, não relacionados aos fenômenos físicos.
De acordo com a visão monista – ou materialista –, predominante
durante quase todo o século XX, a mente é um atributo do cérebro;
embora haja divergências quanto a se os estados mentais são
estados cerebrais, se eles são
redutíveis a estados mentais ou se eles emergem
de estados cerebrais.(1,32,47,64) Uma
aproximação entre a neurociência e a psicanálise não implicará em
uma substituição desta por aquela. As perspectivas objetiva da neurociência
e subjetiva da psicanálise não são mutuamente redutíveis, na
verdade, são complementares.(3,13,31,42) Uma disciplina que
unificasse a neurociência e a psicanálise, a neuropsicanálise, aliada
a outras disciplinas afins, como a psicologia cognitiva, poderia levar a
uma compreensão da mente mais ampla e mais profunda.(31,36,55,69)
E isso não implicaria no desaparecimento das disciplinas fundamentais:
vide o exemplo da criação da genética molecular, que não extinguiu
ou descaracterizou a genética clássica nem a biologia molecular.(31,57) Não
se pode negar que se trata de uma tarefa muito árdua promover uma
aproximação entre a neurociência e a psicanálise, disciplinas que se
utilizam de linguagens e métodos de investigação muito diferentes
entre si. Todavia, isso parece ser menos difícil agora do que há mais
de 100 anos, na época do projeto
de Freud, em função dos grandes avanços das neurociências. Alguns
psicanalistas e neurocientistas, uma minoria, recentemente têm se
interessado em estabelecer uma ponte
entre as suas respectivas áreas de conhecimento. Em 1999, começou a
circular a revista Neuro-psychoanalysis,
criada com o objetivo de favorecer o diálogo e a integração entre a
psicanálise e as neurociências.(40) Fazem parte do corpo
editorial dessa revista importantes neurocientistas - como Eric Kandel
[prêmio Nobel de fisiologia e medicina em 2000], António Damásio,
Oliver Sacks, entre outros – e psicanalistas – como Charles Brenner,
André Green, Otto Kernberg, Daniel Widlöcher.
Em julho de 2000, em Londres, foi realizada a 1a
Conferência Internacional de Neuro-psicanálise – com a participação
de cerca de 300 psicanalistas e neurocientistas -, tendo sido fundada na
ocasião a Sociedade Internacional de Neuropsicanálise. E, em 2001,
realizou-se em Nova York o 1º Congresso Internacional de
Neuropsicanálise. Também é digno de nota que no congresso da Associação
Psiquiátrica Americana de 2001, que teve como tema geral mind
meets brain: integrating psychiatry, psychoanalysis and neuroscience,
houve dois painéis de discussão intitulados psychoanalysts
and neuroscientists converse.
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(1)Doutor
em psiquiatria / IPUB-UFRJ, com pós-doutorado
/ COPPE-UFRJ Professor-adjunto
/ FCM-UERJ Membro-associado da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro
(2)Professor-titular
/ COPPE-UFRJ Pesquisador do CNPq
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