|
matériapensante
|
O cérebro e o pensamento
tradução de Monah Winograd
Minha contribuição nesta celebração é bastante simples: eu desejo propor uma leitura nova de um texto de Georges Canguilhem intitulado “O cérebro e o pensamento”, me beneficiando assim do distanciamento de dez anos que decorreram depois. É uma das últimas conferências que ele deu por ocasião de uma reunião organizada pelo Movimento universal da Responsabilidade científica (MURS), em fevereiro de 1980, e esta matéria foi escolhida “pois parece bem que questão deixou manifestamente de ser puramente teórica”. Não nos surpreendemos que, de saída, o historiador das ciências apresente o contexto histórico através do qual a questão pode ser realmente formulada. Este contexto não é o dos ensaios de Descartes, como se tem o hábito de crer, mas o da teoria sobre a localização do cérebro formulada, no final do séc. XIX, graças particularmente ao trabalho de Gall (1810). É através desta corrente inaugurada por este tipo de ciência, em continuidade com a história das neurociências hoje, que toma corpo a noção chave que interessa Canguilhem. Esta idéia tende a reduzir o pensamento e o espírito a uma operação ou a um processo do cérebro. Como Canguilhem nos lembra neste projeto de introdução histórica, a psicologia tentou sistematicamente, na mesma época, se distanciar deste reducionismo se afirmando como disciplina autônoma, com seu objeto de estudo próprio; nós o vimos, por exemplo, através dos trabalhos de Bergson, de Janet e, bem entendido, de Freud. Eis o cenário que aparece a partir do séc. XIX e que ocupa ainda hoje um lugar central no seio do vazio existente entre a neurociência e a psicologia. São precisamente, esta dialética e esta tensão que interessam vivamente Canguilhem. Uma tensão que ele exprime assim: “Como um eu penso pode advir a um isto que indica e descreve, depois do frenologista, o fisiologista de hoje, a isto... um cérebro”. Assim formulada, a questão não surpreende: ela exprime uma problemática bem conhecida. O que é notável é a que ponto a análise de Canguilhem é lúcida. De fato, em meio aos principais pontos de sua análise, alguns ainda são válidos dez anos depois, ao menos aos olhos do pesquisador que sou. Mas, eu me apresso em sublinhar minha reserva, pois meu esforço aqui consiste precisamente em avaliar quais, em meio aos pontos discutidos por Canguilhem, podem ser dissolvidos pelo ácido das pesquisas feitas depois de dez anos, e quais eram e permanecem hoje matéria de reflexão. O que foi dissolvido? A segunda seção, uma das mais longas do artigo de Canguilhem, tem por objeto a exposição da forma mais comum adotada pela doutrina sobre a localização cerebral no final dos anos 60: o cérebro concebido como uma máquina Von Neuman[1] que trata da informação. As objeções que Canguilhem destaca contra esta idéia podem ser resumidas em três pontos: 1. Existe uma distância impossível de ultrapassar entre um tal ponto de vista sobre o tratamento da informação e o sentimento encarnado inseparável do vivo. Este último revela dimensões não abstratas tais como o contexto, a autonomia de ação e o senso comum. 2. A ausência notória de qualquer capacidade criativa de qualquer destas máquinas e a impossibilidade de explicar a origem do sentido para tais mecanismos, salvo por um cientista que lho daria. Inversamente, somos lembrados que : “inventar, é criar informação, perturbar os hábitos de pensar, o estado estacionário de um saber”. 3. Existe uma diferença enorme entre um mecanismo e sua capacidade de auto-reflexão. Segundo tal consideração, ele cita o biologista Francis Crick que “constata, lamentavelmente, que o fisiologista não chegou ainda a descrever a percepção consciente, de modo a esclarecer a experiência muito direta que nós temos dela. “Se suspeita fortemente ser este fenômeno o resultado de uma retroação das vias de cálculo sobre si mesmas, mas não se sabe exatamente como isto se produz”. Como se uma ação em revés pudesse ser tomada por transcendente relativamente a uma ação direta.”. Aí estão, seguramente, três objeções fundamentais, mas também três desafios que os dez últimos anos reformularam. Tenho particularmente na cabeça o desenvolvimento rápido da pesquisa sobre as propriedades cognitivas utilizando modelos que têm pouca relação com o ponto de vista tradicional do tratamento da informação, ponto de vista que foi dominante até os anos 70, mas que hoje em dia é cada vez menos. Este novos modelos trabalham a partir de um conjunto distribuído de agentes simples, cuja interação é capaz de produzir propriedades emergentes. Estas propriedades globais, emergentes, não são efêmeras; elas podem muito bem ser analisadas e mesmo formalizadas. A profunda novidade realiza-se aqui na descoberta de meios explícitos para fazer a cartografia da transição entre um nível (os componentes, os agentes simples, os membros de uma coletividade) e o nível mais elevado (as características globais, as propriedades de uma totalidade). A galáxia da pesquisa sobre o que se chama de os sistemas complexos, a auto-organização ou as redes de conexões operou verdadeiramente uma revolução com novas abordagens nas ciências concernidas pela cognição em sentido mais largo, aí compreendido o pensamento e as capacidades mentais do homem.[2] É surpreendente que, mesmo em 1980, quando estas idéias eram ainda marginais, Canguilhem teve a acuidade de evocar em seu artigo o trabalho pioneiro que Gray Walter fez sobre os robôs autônomos. Trabalhos mais recentes deram retrospectivamente crédito às reflexões frutuosas de Walter, assim como as de outros pesquisadores (tal como o proto-conexionista F. Rosenblat), a despeito da sua desaparição virtual da cena acadêmica durante três decênios, em proveito da visão cognitivista na qual a cognição era assimilada a um sistema centralizado de tratamento da informação semelhante a um computador. Nas novas abordagens da galáxia da auto-organização, a chave não é tanto a abstração dos operadores lógicos e de suas sintaxes, quanto o jogo encarnado das transformações estruturais e históricas. O contexto e a contingência da história ocupam um lugar central no desenvolvimento da criatividade. Como o diz Canguilhem, criticando a idéia do cérebro concebido como um computador: “A relação entre o cérebro, o pensamento e o mundo não poderia ser concebida como a reprodução mental (ou interior) dos efeitos físicos produzidos no cérebro pela introdução nele de uma onda (exterior) recebendo deste efeito a via dos canais sensoriais.”. Exposto de modo mais provocante: esta galáxia de modelos permite, pela primeira vez, estabelecer uma ligação científica explícita e uma transição entre dois níveis, permanecendo, como tal, uma solução possível para a dificuldade bem conhecida da relação entre as atividades cognitivas e seus processos subjacentes (que eles sejam materiais ou que eles constituam um sub-processo cognitivo de nível inferior). Eu considero isto como um salto para frente científico da mesma importância que o que conheceu a física no primeiro decênio deste século. Nesta etapa de nossa discussão, todo leitor munido de uma bagagem em psicologia ou filosofia se perguntará: de quê falamos? Nos referimos ao pensamento a propósito das capacidades mentais mais elevadas do homem, ou bem a propósito das soi-disant propriedades cognitivas dos animais inferiores e dos robôs? Não estou sugerindo, bem entendido, que se possa saltar de um ao outro sem justificativa. Mas, as tendências modernas nas ciências cognitivas nos sugerem, com certa evidência, que não é necessário estabelecer uma distinção nítida entre a base cognitiva simples, de um lado (a percepção, o movimento, a memória associativa, etc.), e o pensamento e o mental, de outro. O fundamento desta asserção reside precisamente no fato de que o pensamento e o mental podem ser considerados como propriedades emergentes de propriedades cognitivas mais simples, organizadas em agrupamentos interativos. O mais baixo e o mais alto estão ligados pelo processo mesmo de emergência. É aí que reside o poder desta forma de teorização. Pode-se estar seguro de que esta posição, ainda que esbarre em limites importantes, se desenvolve, dando mesmo um número impressionante de resultados. A ponte entre o pensamento e as propriedades cognitivas mais gerais não é quimérica, mas está na origem de um programa construtivo.[3] Em poucas palavras, o que se dissolve em minha leitura do artigo de Canguilhem são suas duas primeiras objeções (cf. Supra) contra a abordagem cognitivista computacional. Estas objeções eram justas na época de Canguilhem, mas parecem ter rapidamente se tornado caducas pelo fato da aparição de idéias novas mais adequadas. Estaria eu dizendo que toda a tensão dialética esboçada por Canguilhem está dissolvida e que nós estaríamos testemunhando o triunfo de algum neo-mecanismo recente com as propriedades emergentes como idéia central? Não é nada disso, pois há o que subsiste de suas críticas, não as que recaem sobre a questão da criatividade ou sobre o papel do contexto, mas sobre os problemas da reflexividade (cf. ponto 3) que nós devemos agora apreender. O que resta Como o próprio Canguilhem diz, o paradoxo da reflexividade (o cérebro pode escrever sua própria teoria?) não está resolvido de modo suficientemente satisfatório pelas referências às circularidades gödelianas, mesmo se tal literatura foi bastante popular[4]. O que se esconde atrás desta circularidade parece ser mais essencial; é a conclusão a qual chegam as ciências cognitivas: que o soi-disant “eu” (incluindo o “eu penso”) pode ser considerado, não como um centro unificado, mas como um agrupamento desunido. Isto representa, mesmo do ponto de vista de um cognitivista convencido, tal como Zénon Plyshyn, “uma descoberta empírica que não é de pequena importância”[5]. Observem como isto não é senão uma outra forma de se inscrever em nossa discussão sobre a relação entre o mental e as propriedades cognitivas inferiores. Com efeito, tais processos cognitivos de onde resultam a mais alta cognição são por definição não-reflexivos e o sujeito emergente jamais é separado dos acontecimento que sustentam sua constituição. Creio fortemente que, tanto os psicólogos, como os filósofos devem se servir já destes novos desenvolvimentos. Como Canguilhem faz observar para o fisiologista: “Descartes, sua biografia e sua filosofia, está num cérebro que é preciso dizer seu cérebro, o cérebro de Descartes, pois o cérebro contém a faculdade de perceber as ações que estão nele. Mas, enfim, qual ele? Ei-nos aqui no coração da ambigüidade... Ao longo de todo o séc. XIX, o eu penso foi, muitas vezes, recusado ou refutado em proveito de um pensamento sem sujeito pessoal responsável.” É esta circularidade mais profunda que deveria nos interpelar, pois ela nos remete diretamente a uma ambigüidade fundamental: a circulação entre um mecanismo (i.e., a emergência do pensamento a partir de agentes cognitivos mais simples) e a experiência do ponto de vista do próprio sujeito, um mundo vivido. Uma ambigüidade que está seguramente presente no centro do pensamento e da linguagem, mas também no coração de todas as outras atividades cognitivas que ocorrem a este “eu”. Um “eu” que não pode ser localizado senão como uma emergência, mas que age todavia como o centro de gravidade do próprio sujeito, de seu vivido[6]. A partir desta junção, não é surpreendente que Canguilhem nos reenvie a Merleau-Ponty que fez desta ambigüidade precisamente uma peça central de seu pensamento. O verdadeiro puzzle é a circularidade entre a exterioridade de um mecanismo e a interioridade da experiência vivida. É este puzzle, e não o clássico problema pensamento/cérebro, que permanece inexplorado e que continua a nos perseguir. Ele não foi dissolvido por todos os anos recentes de pesquisa, mas, de fato, se tornou ainda mais crucial. Na minha avaliação das ciências cognitivas, este problema vai se tornar o centro da mais importante das controvérsias no próximo decênio. Desenvolvi minha visão desta matéria noutro lugar[7]. Ultimi barbarorum Para resumir minha leitura do texto de Canguilhem, penso estar mais próximo de sua atitude fundamental que de suas críticas específicas. Esta atitude não é somente revelada em seu texto através da questão da reflexividade já evocada, mas, de fato, em outros momentos ao longo do artigo, nos quais ele sublinha a importância de não perder de vista este aspecto da experiência “que é a exterioridade revertida, mas não abolida”, e de nos por em guarda contra a tentação sempre presente do reducionismo mecanicista (“os fisicalistas fisicalisantes”) ou de reenviar estas questões a um nível de completa inacessibilidade (“os psicanalistas psicanalizantes”). Contudo, os filósofos prontos a iniciar um diálogo com as ciências, e os científicos sensíveis a esta circularidade inscrita no coração das ciências cognitivas, deveriam se unir numa frente comum contra o último barbarismo que quer nos empurrar para um ou outro destes dois extremos: reducionismo ou inefabilidade, impedindo assim a exploração de uma via mediana que é, sem dúvida, mais ambígua, mas também mais satisfatória.
[1] [Máquina Von Neuman ou princípio básico de operação de qualquer computador: [2] Para uma revisão destas transformações, ver F. Varela. Connaître: Lês sciences cognitives, éd. du Seuil, Paris, 1989, e as referências que estão incluídas aí. [3]
Para recentes e diferentes exemplos desta abordagem, ver M.
Mimsky, The Society of Mind, Simon et Schuster, N. Y.,
1987; G. Edelman, The Remembered Present, Basic Books, N.Y.,
1990 e M. Johnson: The
Mind in the Body, Chicago Univ. Press, 1987. [4] O exemplo mais claro é o de D. Hofstaedter, Gödel, Escher, Bach, Basic Books, 1990. [5]
Z.
Plyshyn. Computation
and Cognition. MIT Press, Cambridge, 1983 [6] Para o problema que cria esta situação nos cognitivistas científicos, ver por exemplo, R. Jackendorf, Consciousness and the Computational Mind, MIT Press, Cambridge, 1988. [7]
F.
Varela, E. Thompson e
E. Rosch. The
embodied mind: cognitive science and human experience. MIT Press,
1991
@copyrigth: Georges Canguilhem – Philosophe, historien des sciences. Paris: Albin
|
|
produção discente links
|