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A INTERPRETAÇÃO PSICOBIOLÓGICA DA CLÍNICA PSICOLÓGICA: Por que a psicoterapia funciona? Por
que psicoterapeutas devem ter o direito de prescrever drogas psicotrópicas?[i]
J.
Landeira-Fernandez e A. Pedro M. Cruz In:
CADERNOS DE PSICOLOGIA Universidade
Estadual do Rio de Janeiro 1998,
número 1 “Temos
que ser pacientes e aguardar novos métodos e oportunidades de pesquisa.
Devemos também estar prontos para abandonar um caminho que estivemos
seguindo por certo tempo, se nos parece que ele não leva a um bom fim.
Somente os crentes, que exigem que a ciência seja um substituto para o
catecismo que o abandonaram, culparão um pesquisador por desenvolver ou
mesmo modificar seus pontos de vista.” Sigmund
Freud (1920, pag 85)
RESUMO Este artigo teve como objetivo analisar os efeitos das psicoterapias em termos de eventuais modificações ou restruturações na comunicação sináptica entre neurônios. Discutiu-se também a idéia de que os mecanismos envolvidos na alteração do tecido neural produzidos pela psicoterapia são semelhantes aos observados em manipulações biológicas diretas, como por exemplo, nas terapias psicofarmacológicas. Argumentos que ilustram o fato de que psicoterapias e drogas psicotrópicas produzem seus efeitos na atividade mental humana a partir de mecanismos semelhantes são apresentados. Questões neuroanatômicas e neurofisiológicas decorrentes de uma interação bidirecional entre cérebro e comportamento foram analisadas de acordo com uma abordagem interdisciplinar oferecida pela psicobiologia. O presente artigo discutiu também a importância do psicólogo ter uma boa formação a respeito do desenvolvimento organização e funcionamento do sistema nervoso, visto que nele reside não somente a origem da atividade mental, mas também o objeto da sua prática. Mostrou-se que a aquisição de conhecimento neurobiológico é fundamental para que o psicólogo possa realmente compreender como ocorre essa interação entre cérebro e meio ambiente. Finalmente, defendeu-se a idéia de que o psicólogo clínico deve ter o direito para empregrar na sua prática clínica esse conhecimento de ordem biológica desde de que ele seja devidamente preparado nessa área.
INTRODUÇÃO
Não há dúvida que grande parte daqueles que buscam uma formação
profissional na área da psicologia, apresenta interesse diretamente
voltado para uma atuação clínica, cujas teorias e técnicas, por via de
regra, dispensam conhecimentos detalhados da neurobiologia. Isso parece
justificar parte do desinteresse dos alunos e dos profissionais da
psicologia pelas disciplinas
de cunho biológico. O objetivo deste trabalho é o de mostrar ao psicólogo
clínico a importância do conhecimento neurobiológico para a compreensão
dos efeitos produzidos na prática clínica e da necessidade do
fortalecimento do ensino dessas disciplinas durante o curso de psicologia.
Um
dos principais motivos que justifica o ensino de disciplinas biológicas
ao estudante de psicologia é o de que a prática clínica psicológica
leva a uma melhora de uma disfunção mental que perturba um determinado
indivíduo graças ao poder que a psicoterapia tem em produzir restruturações
sinápticas previamente estabelecidas. Embora alguns possam ficar
surpresos, iremos, ao longo deste texto, mostrar ao leitor que toda
atividade mental humana tem um substrato material, posição essa
denominada de materialismo emergente (Bunge, 1980: Kovács,1997; Searle,
1987) e que toda forma de psicoterapia, por mais imaterial ou espiritual
que possa parecer, age em tecido nervoso, alterando o padrão da comunicação
neural da mesma forma que drogas psicotrópicas são capazes de alterar a
atividade mental de um indivíduo. Essa idéia não é nova (ver, por
exemplo, Brandão, 1995: Biondi, 1995; Eisenberg, 1995; Gabbard, 1992;
Lewis, 1994; Tresan, 1996) e tem sido colocada pelo neurobiólogo Eric
Kandel (1979) da seguinte forma: “eu gostaria de levantar uma idéia
simplista, mas talvez relevante, segundo
a qual o nível final de resolução para a compreensão de como a
intervenção psicoterapêutica funciona é idêntica ao nível com que nós
estamos atualmente buscando entender como intervenções psicofarmacológicas
funcionam- ao nível individual de células nervosas e suas conexões” (pag
1028). Mas antes de entrarmos nas questões centrais deste trabalho,
gostaríamos de definir o que entendemos por atividade mental e qual a função
da psicoterapia na vida psicológica do sujeito.
A
noção de mente é figura central tanto na ciência como na prática
psicológica. Dada a
dificuldade em se encontrar consenso em torno de uma única definição da
mente humana, pode-se buscar algumas características que a compõem,
formulando-se assim uma espécie de definição operacional. Estudos
antropológicos mostram que certas características mentais, tais como
crenças, mitos, desejos, fantasias, vontades, emoções, pensamento,
consciência e a utilização de uma linguagem simbólica, vêm sendo
compartilhadas por todos os indivíduos da espécie humana desde sua
origem e de forma
independente da cultura em que estiveram inseridos (Chomsky, 1968;
Eibl-Eibesfeld, 1972; Ekman, Sorenso & Friensen, 1969; DaMatta, 1981;
Lévi-Strauss, 1970). Esses dados parecem indicar que a mente humana é
composta por certas estruturas comuns a todos os seres humanos e sempre
presentes nas mais variadas culturas. Variações específicas dessas
estruturas, ou características universais que formam a mente humana,
definem a atividade psicológica do indivíduo e é exatamente isso que dá
forma a sua personalidade e individualidade.
Calcado
nesta definição, a psicologia, tal como ciência, deve buscar
compreender o desenvolvimento, a organização e o funcionamento dessas
estruturas ou características que compõem a mente humana para que técnicas
ou procedimentos terapêuticos possam ser desenvolvidos e incorporados à
sua prática clínica. No entanto, esse caminho tem sido o inverso.
Tipicamente, técnicas surgem primeiro, graças a genialidade ou a intuição
do terapeuta e a partir daí surge a necessidade do desenvolvimento de um
corpo teórico capaz de acomodar essa prática psicoterápica. Este
problema não é exclusivo da psicologia. Por exemplo, o homem já
praticava a engenharia antes do surgimento da física. Praticava também a
medicina antes da origem da biologia. Da mesma forma, a odontologia,
veterinária, agronomia, farmacologia e tantas outras práticas surgem
muito antes da origem das ciências que determinaram os seus respectivos
avanços. A regra é a de que a prática de uma dada atividade humana
precede a origem da sua ciência. Assim, a prática psicológica precede a
origem da psicologia como ciência.
Em
pouco menos de um século de psicologia, os modestos avanços teóricos na
área não foram suficientes para explicar a natureza multifatorial da
atividade mental humana e suas desordens. O que sustenta então a prática
clínica? Independente das causas responsáveis pela origem da disfunção
mental (endógena ou exógena), não há quem possa duvidar que a
psicoterapia consiste numa prática cujo propósito é o de aliviar o
sofrimento psicológico do seu semelhante. Embora ampla, esta definição
parece ser compartilhada por vários profissionais da área. Por exemplo.
o psicanalista Sérvulo Augusto Figueira (1976) define psicoterapia como
“todos os recursos que uma sociedade põe à disposição de sujeitos
que estão doentes ou que, por diversos motivos, atravessam períodos críticos
de vida.... A categoria é ampla, subsumindo práticas como medicina,
psicanálise, umbanda, etc....” (pag 39). Assim, é bem provável que as
raízes da psicologia clínica tenham surgido com a própria origem da
humanidade. Sociedades pré-históricas já apresentavam a figura de um
curandeiro ou xamã que através de suas práticas buscavam restaurar o
equilíbrio psicológico de um determinado indivíduo. Dentre essas práticas
constavam cerimônias elaboradas, danças, cantos, batidas de tambores,
gritos, uso de sinais mágicos, encantos, magias e feitiços. O objetivo
desses rituais era livrar o paciente de espíritos demoníacos que teriam
possuído sua alma. O modelo explicativo que justificava essas práticas
baseava-se no pensamento mágico e religioso, onde a disfunção mental
seria resultado de forças sobrenaturais, como por exemplo a presença de
espíritos ou deuses aborrecidos pela quebra de um tabu. Interessante
notar que essas práticas primitivas pareciam eficazes em atingir seus
objetivos (Laplantine, 1991; Lévis-Strauss, 1970). Por exemplo, em certas
culturas africanas o curandeiro tratava as doenças mentais com certo
sucesso através de um complexo cerimonial em que o paciente era submetido
a padrões repetidos de dança marcados pela batida rápida de tambores
que eventualmente produziam um estado de transe, caracterizado por
movimentos automáticos e convulsões histéricas, seguidos por um estado
de calma e relaxamento.
Embora
a utilização dessas técnicas tenha sido gradativamente abandonada ao
longo do tempo, pode-se, ainda hoje, encontrar alguns de seus resquícios
com a mesma função terapêutica. A psicóloga social Monique Augras
(1995), em seus estudos sobre religiões afro-brasileiras, vem destacando
a importância do pai de santo na regulação da vida psicológica
daqueles que participam dessas religiões. O próprio antropólogo francês,
Claude Lévi-Strauss (1970), em seus ensaios sobre a importância dos
ritos nas várias sociedades humanas, classificou a prática psicanalítica
como “forma moderna de xamanismo”.
Além
da função terapêutica encontrada nas religiões afro-brasileira, e que
sem dúvida podem ser estendidas a outras formas de religiões (Quintana,
1994), estão as psicoterapias alternativas. Essas práticas têm se
tornado tão populares que o Conselho Federal de Psicologia, através da
resolução publicada no Diário Oficial de 30 de Janeiro de 1996,
proibiu, sob pena do psicólogo ter seu registro cassado, a prática de
dezenas dessas terapias. Independente da sua eficácia (que obviamente
deve deve ter alguma, caso contrário não seriam tão populares), isso
revela ainda hoje, a existência de uma grande tendência em se acreditar
que a prática psicológica esteja calcada em algo incorpóreo ou
imaterial. Assim, nada mais natural do que teorias psicológicas
postulando uma atividade mental como algo que independe de qualquer
mecanismo biológico. Esta posição teórica, por sua vez, reforça a idéia
de que se a atividade mental independe de uma atividade física, então
somente intervenções de natureza imaterial têm o poder de alterá-la.
Em contraste com essa posição está a da psiquiatria que, embora
compartilhe com a psicologia clínica a mesma origem, desenvolveu-se de
forma diferente junto com a prática médica. Como a medicina está ligada
a uma prática que privilegia intervenções físicas no corpo de um indivíduo,
a psiquiatria, adotando essa mesma postura, desenvolveu procedimentos físicos
capazes de alterar ou reparar o funcionamento da atividade mental. Assim,
teorias psiquiátricas de cunho biológico postulam que a atividade mental
depende exclusivamente de uma atividade física ou orgânica do indivíduo.
Por conseguinte, se a atividade mental é produto de uma atividade física,
somente intervenções físicas têm o poder de alterar o seu
funcionamento.
A
própria demanda atual do mercado parece se comportar segundo esses princípios.
Pacientes com disfunções na atividade mental, onde aparentemente nada de
orgânico pode ser localizado, procuram ou são encaminhados para psicólogos.
Pacientes com disfunções na atividade mental, onde uma causa orgânica
pode ser apontada, procuram ou são encaminhados para psiquiatras. A divisão
chega a tal ponto que não seria exagero dividir a atuação do psicólogo,
como já mencionado acima, numa área da atividade mental mais mística, mágica
ou misteriosa, enquanto a atuação do psiquiatra numa área da atividade
mental mais concreta ou objetiva. O presente trabalho pretende chamar atenção para essa falsa dicotomia. A atividade mental não é algo metafísico. A posição dualista, vem se tornando cada vez mais difícil de ser sustentada dado ao acúmulo de conhecimento sobre o desenvolvimento, a organização e o funcionamento do sistema nervoso. Existe hoje um verdadeiro exército de pesquisadores que vem promovendo avanços nunca vistos em torno desse campo de estudo. São esses avanços que levam a crer que toda e qualquer atividade mental humana tem um substrato neural e que essa atividade neural é produto da sua relação com o seu meio ambiente. Dessa forma, a posição cartesiana que um dia serviu como ponto de partida para impulsionar o desenvolvimento da psicologia como um todo, vem hoje contra a posição da psicobiologia, sobretudo em sua ramificação na assim chamada neurociência e comportamento, que busca compreender como se dá a relação cérebro-comportamento-atividade mental. POR
QUE A PSICOTERAPIA FUNCIONA ?
A psicobiologia consiste numa intercessão entre várias
disciplinas, todas com o mesmo objetivo de compreender o
desenvolvimento, a organização e o funcionamento do sistema nervoso e
sua relação com a atividade mental. O grande propósito deste campo de
pesquisa é integrar conhecimentos, muitas vezes produzidos de forma
independente, da biologia, com os seus desdobramentos na neuroanatomia,
neurofisiologia e neurofarmacologia, com os da psicologia e seus
desdobramentos na psicologia experimental, psicofisiologia,
psicofarmacologia e psicologia cognitiva. Esta convergência de
conhecimento, que vai desde a neurobiologia molecular até a psicologia
cognitiva, vem proporcionando a utilização sistemática do método
científico para a compreensão da atividade mental humana. Mais
importante é o grande interesse e a motivação frente a possibilidade
do descobrimento dos mistérios da última fronteira do conhecimento
humano. É a mente descobrindo os mistérios da própria mente.
Se, por um lado, esse campo vem gerando uma grande produção
científica por parte de pesquisadores de diferentes áreas, por outro
lado a aplicação dos seus princípios e conhecimentos à prática
psicológica ainda é lenta e cuidadosa. Isto talvez se deva à antiga
crença de que a psicoterapia tem o poder de promover alterações na
atividade mental através de forças imateriais, enquanto que o sistema
nervoso, formado por matéria, é rígido, inato e determinado
biologicamente. No entanto, essa crença parece ser infundada. O sistema
nervoso é extremamente plástico e seu desenvolvimento depende
amplamente do seu relacionamento social. Assim, o psicólogo clínico
deve ter consciência que a psicoterapia tem um efeito na atividade
mental do paciente graças a sua capacidade de promover uma transformação
no funcionamento da atividade neural do sujeito. Em outras palavras, a
psicoterapia funciona porque altera o funcionamento de áreas específicas
do cérebro através da modificação de padrões de comunicação
neural. Dada a importância dessa afirmação, vale a pena analisarmos
algumas qualidades do nosso cérebro para que, em seguida, algumas evidências
que sustentam essa posição sejam apresentadas.
O cérebro, assim como qualquer outro órgão, é formado por células.
Dentre essas células estão os neurônios responsáveis por todo
sistema de transmissão de informações. Estima-se que o sistema nevoso
humano contenha algo em torno de 50,000,000,000 (cinquenta bilhões) a
100,000,000,000 (cem bilhões) de neurônios (Hubel, 1979; Lent, 1982)4.
Embora exista uma grande variação na forma, tamanho e tipo de célula
nervosa, todas elas apresentam um corpo celular, vários dendritos, um
único axônio e vários terminais neurais. O corpo celular contém o núcleo
do neurônio, toda a aparelhagem necessária para a síntese de enzimas
e outras moléculas essenciais para a vida do neurônio. Do corpo
neuronal surgem os dendritos, que são delicadas projeções que se
espalham nas mais diversas direções
formando uma espécie de arborização em torno do corpo celular.
Uma dessas projeções mais fina e mais longa constitui o axônio, cuja
função é totalmente diferente dos dendritos e do próprio corpo
neuronal. Finalmente, os terminais neurais são ramificações finais do
axônio.
Uma das propriedades mais fantásticas do neurônio é sua
capacidade de usar sinais elétricos para se comunicar. Esta habilidade
deriva da sua membrana ser diferentemente permeável a certos tipos de
íons carregados eletricamente com carga positiva (cátions) ou
negativa (ânions). Como a membrana é seletiva à entrada desses íons,
ocorre uma distribuição desigual de cargas elétricas entre o exterior
e o interior do neurônio, criando-se, assim, um potencial elétrico ao
longo da membrana. Dessa forma, um neurônio, quando em repouso, está
constantemente polarizado (algo em torno de -60 a -90 milivolts). Dois
tipos de canais para esses íons estão localizados na membrana do neurônio:
um tipo de canal, geralmente encontrado ao longo do axônio e dos
terminais neurais, é ativado eletricamente, sendo sensível à variação
da voltagem. O outro tipo de canal, geralmente encontrado no corpo
celular e nos dendritos, é ativado quimicamente, sendo sensível a moléculas
químicas dos neurotransmissores. Os canais sensíveis aos mensageiros
químicos são importantes para iniciar o sinal elétrico através dos
potenciais pós-sinápticos, enquanto os canais sensíveis à voltagem são
importantes para a transmissão do sinal elétrico através do potencial
de ação. Por esse mecanismo, a comunicação elétrica que ocorre ao
longo do neurônio pode ser dividida em duas formas funcionalmente
diferentes: uma do tipo somatório que ocorre nos dendritos e no corpo
celular, e a outra do tipo tudo-ou-nada, encontrada ao longo do axônio
e dos terminais neurais. Nos dendritos e corpo celular ocorre uma
integração neural, onde os potenciais pós-sinápticos excitatórios
(despolarização do potencial de repouso) e os potenciais pós-sinápticos
inibitórios (hiperpolarização do potencial de repouso) são somados
até convergirem a uma área de junção entre o axônio e o corpo
celular. Nessa área, denominada de zona de disparo, potenciais de ação
têm origem desde que um certo limiar elétrico seja alcançado. A
propagação do potencial de ação ao longo do axônio é do tipo
tudo-ou-nada. Uma vez disparado, nada mais tem a capacidade de alterá-lo.
Graças a essa propriedade do potencial de ação, o sinal é
transmitido de forma rápida e fidedigna, evitando qualquer perda ou
interferência nesse sinal ao longo do axônio. Por exemplo, alguns neurônios
podem transmitir um potencial de ação numa velocidade de 120 metros
por segundo[i],
fato esse extremamente importante uma vez que existem neurônios cujo axônio
pode alcançar 1 metro de comprimento.
A comunicação entre dois ou mais neurônios se dá através da
sinapse. Embora existam sinapses elétricas, a forma mais comum de
comunicação entre dois neurônios é química. Basicamente, o
potencial de ação, ao chegar no terminal neural, causa a liberação
de um ou vários neurotransmissores na fenda sináptica que se junta a
receptores específicos situados tanto no neurônio pré-sináptico como
no neurônio pós-sináptico (para uma revisão sobre os processos
envolvidos na liberação do neurotransmissor pelo neurônio pré-sináptico,
ver Bartfai, Iverfeldt, Fisone & Serfozo, 1988; Matthews, 1996). A
combinação do neurotransmissor com os receptores pós-sinápticos
ativa canais iônicos e modifica a polaridade elétrica da membrana.
Neurotransmissores excitatórios despolarizam a membrana através da
formação de um potencial pós-sináptico excitatório ao passo que
neurotransmissores inibitórios hiperpolarizam a membrana através da
formação de um potencial pós-sináptico inibitório. A combinação
do neurotransmissor com os receptores pré-sinápticos, também chamados
de autoreceptores, não ativa qualquer canal iônico, não produzindo
assim qualquer variação no potencial elétrico da membrana. Os
autoreceptores parecem estar envolvidos na regulação do processo da
neurotransmissão sináptica através de alterações na velocidade de síntese
e da liberação do mensageiro químico. Finalmente, mecanismos de
recaptação do neurotransmissor pelo neurônio pré-sináptico ou de
destruição do neurotransmissor através de enzimas encontradas na
fenda sináptica, terminam o processo da neurotransmissão química
entre neurônios.
Além da excitação ou inibição do neurônio pós-sináptico,
podemos encontrar mecanismos de modulação sináptica que não envolvem
qualquer tipo de despolarização ou hiperpolarização. Neste caso,
observa-se um tipo de sinapse onde ambos os neurônios pré e pós-sinápticos
são formados por terminais neurais ou por axônios bem próximos ao
terminal neural. Neste tipo de sinapse não ocorre qualquer tipo de
integração neural, uma vez que potenciais pós-sinápticos não são
originados. O que ocorre é uma modulação do neurônio pré-sináptico
sobre a liberação de neurotransmissor pelo neurônio pós-sináptico.
Se no neurônio pós-sináptico houver uma redução na liberação do
neurotransmissor trata-se de uma inibição pré-sináptica. Se houver
um aumento de liberação do neurotransmissor trata-se de uma facilitação
pré-sináptica.
Outra forma de modulação envolvida na transmissão sináptica
é a liberação de neuromoduladores pelo neurônio pré-sináptico,
cujas características são completamente diferentes daquelas dos
neurotransmissores tradicionais. Por exemplo, muitos desses
neuromoduladores agem em neurônios pós-sinápticos situados longe do
local de onde foram liberados e por um longo período de tempo que pode
chegar até algumas horas. Mais ainda, o efeito desses neuromoduladores
no neurônio pós-sináptico pode ser totalmente diferente da excitação
ou inibição produzida por neurotransmissores tradicionais. Por
exemplo, neuromoduladores podem produzir uma elevação do limiar para a
produção do potencial de ação ou alterar a resposta natural de um
neurotransmissor, sem, contudo, causar efeito no potencial de repouso do
neurônio pós-sináptico (Shepherd, 1988).
Uma terceira forma de modulação apontada recentemente é a participação dos gases óxido nítrico e do monóxido
de carbono na comunicação sináptica (Snyder & Dawson, 1995; Varma,
Hirsch, Glatt, Ronnett & Snyder, 1993; Zhang & Snyder, 1995).
Estes gases solúveis parecem ter um mecanismo próprio de ação no que
se refere tanto a sua liberação quanto a produção do seu efeito. O
óxido nítrico e o monóxido de carbono não são armazenados em vesículas
sinápticas e são sintetizados à medida que são utilizados. Mais
interessante, esses gases não produzem seus efeitos através da ligação
com um determinado receptor. Eles simplesmente penetram nos neurônios
vizinhos por difusão e ai então produzem seus efeitos. Esta forma um
tanto surpreendente de modulação pode alterar radicalmente a forma de
compreensão da comunicação sináptica.
Essa riqueza encontrada na comunicação sináptica deve-se ao
fato de um único neurônio pós-sináptico receber informação de vários
neurônios pré-sinápticos. Visto que o neurônio pré-sináptico é
formado por vários terminais neurais e o neurônio pós-sináptico por
vários dendritos, podem existir milhares de sinapses. Por exemplo, um
neurônio pós-sináptico recebe algo em torno de 1.000 (mil) a 10.000
(dez mil) sinapses de mais ou menos 1.000 (mil) neurônios pré-sinápticos
(Stevens, 1979). Dessa forma, em apenas 1 mm3 de tecido
neural, onde existem em torno de 100,000 (cem mil) neurônios, haveriam
aproximadamente 1,000,000,000 (um bilhão) de sinapses funcionando ao
mesmo tempo (Braitenberg & Schutz, 1991). Para que toda essas
informações não sejam confundidas, vários mensageiros químicos
podem ser utilizados ao mesmo tempo, e uma vez liberados, eles irão
agir somente no local onde houver receptores específicos. As exceções,
são os casos do óxido nítrico e do monóxido de carbono, uma vez que
não existem receptores específicos para esta nova classe de “neurotrasmissores”.
Como já mencionado anteriormente, estes gases produzem seus efeitos de
forma indiscriminada em todos os neurônios próximos ao local onde eles
foram liberados.
Uma das principais conseqüências de toda essa confluência química
envolvida na comunicação neural é a possibilidade de alteração do
sinal elétrico que está sendo transmitido através da fenda sináptica.
É justamente esta alteração do sinal elétrico que dá origem à
nossa vida psicológica. Como já definido, as características ou
estruturas da mente humana são comuns à nossa espécie. Isto porque,
dado o nosso material genético, todos nós produzimos o mesmo sistema
nervoso. No entanto, variações específicas na transmissão do impulso
nervoso, através da atividade sináptica, definem a atividade psicológica
do indivíduo, e é exatamente isso que dá forma a sua personalidade e
individualidade (vide definição de atividade psicológica apresentada
na introdução). Como antecipou o psicólogo experimental americano,
Donald Hebb (1949), é justamente na transmissão sináptica que ocorrem
processos plásticos produzidos pela interação do sujeito com seu
meio, no sentido de que sinapses podem ser alteradas, tornando-se mais
fortes ou mais fracas.
Um desses processos capazes de alterar o funcionamento sináptico
é o fenômeno da potenciação de longo prazo. Este fenômeno refere-se
a um aumento da atividade sináptica por um longo período de tempo
produzido através de uma descarga neuronal intensa. Essa forte estimulação
pode ser reproduzida no ambiente através da apresentação de um estímulo
com alto valor biológico, como por exemplo, a apresentação de um
choque elétrico (Landeira-Fernandez, Fanselow, DeCola & Kim, 1995).
Tem sido demonstrado que a formação da memória de longo prazo (Davis,
Butcher & Morris, 1992; Kim, DeCola, Landeira-Fernandez &
Fanselow, 1991; Miserandino, Sananes & Davis, 1990; Phillips &
LeDoux, 1992), mas não a de curto prazo (Kim, Fanselow, DeCola, &
Landeira-Fernandez, 1992), é mediada através de um mecanismo de
potenciação de longo prazo. Assim, é possível que a formação dessa
variável psicológica, importante em qualquer forma de psicoterapia,
possa estar relacionada a um processo de fortalecimento sináptico.
No entanto, psicoterapia envolve muito mais do que memória. Na
verdade, grande parte das técnicas psicoterápicas baseia-se no diálogo.
Dessa forma é importante determinar como o sistema nervoso percebe,
sente e responde à linguagem. A palavra falada é um som que é
decodificado em impulso elétrico através de receptores específicos
situados no interior do ouvido, mais especificamente na cóclea[ii].
Através do nervo coclear, esses impulsos entram no sistema nervoso
central e fazem sua primeira sinapse no núcleo coclear. A partir daí,
surge um novo sistema de fibras com projeções para várias estruturas
localizadas no tronco encefálico, cerebelo e diencéfalo. Dentre essas
estruturas para a qual o núcleo coclear se projeta está o corpo
geniculado medial, que através de projeções para o córtex auditivo
primário completa o trajeto da via sensorial auditiva (Carpenter e
Sutin, 1983; Machado, 1993). É aí que o sujeito toma consciência da
presença de um som, embora sua compreensão como algo que carrega um
significado específico somente ocorra quando o impulso neural é
transmitido do córtex auditivo primário para a área de Wernicke,
localizada no hemisfério cerebral esquerdo.
Curiosamente essa mesma área cortical no hemisfério direito
fornece o caráter emocional da musicalidade da palavra (Borod, Andelman,
Obler, Tweedy & Welkowitz, 1992; VanStrien & Morpurgo, 1992).
Projeções dessas áreas com outras áreas corticais adjacentes
produzem percepções associadas a memórias com essa palavra.
A relação entre o funcionamento dessas estruturas corticais com
a atividade mental produzida pela linguagem pode ser observada através
de sofisticadas técnicas de neuroimagens. A partir dessas técnicas, vários
neuropsicólogos têm verificado a existência de uma especialização
cortical envolvida com o reconhecimento de palavras, compreensão do seu
sentido semântico e a habilidade de converter pensamentos em palavras (Damasio
& Geschwind, 1984; Frith, Friston, Liddle & Frackowiak, 1991;
Geschwind, 1979; Kosslyn, Alpert, Thompson, Malijkovic, Weise, Chambris,
Hamilton, Raush & Buonanna, 1993; Petersen, Fox, Posner &
Raichle, 1988). No entanto, não se sabe ao certo como essas áreas
corticais alteram o funcionamento de outras estruturas neurais
relacionadas com a percepção, a emoção, a memória ou a cognição.
Sabe-se, porém, através de observações com essas técnicas de
neuroimagens, realizadas pelo psiquiatra Lewis Baxter e associados (Baxter,
Schwartz, Bergman, Szuba, Guze, Mazziotta, Alazraki, Selin, Ferng,
Munford & Phelps, 1992; Schwartz, Stoessel, Baxter, Martin &
Phelps 1996), que terapias exclusivamente psicológicas em pacientes
obsessivos-compulsivos produzem alterações cerebrais semelhantes a
terapias biológicas calcadas na prescrição de drogas psicotrópicas.
Em um desses estudos (Baxter, Schwartz, Bergman, Szuba, Guze, Mazziotta,
Alazraki, Selin, Ferng, Munford & Phelps, 1992) um grupo de
pacientes foi tratado exclusivamente com fluoxetina (Prozac, inibidor da
recaptação da serotonina) na dose de 20 mg diária aumentando-se
gradativamente, conforme o caso específico, para uma dose máxima de 80
mg por dia. Outro grupo de pacientes foi exclusivamente tratado com
terapia cognito-comportamental com sessões de 1 hora de duração 1 ou
2 vezes por semana. Técnicas de prevenção de resposta juntamente com
várias técnicas cognitivas foram utilizadas. Pacientes do grupo
controle não foram submentidos a qualquer forma de terapia. Após um
período em torno de 10 semanas observou-se, através de tomografias por
emissão de pósitrons, uma redução específica na atividade no núcleo
caudado do hemisfério direito em relação à atividade desse núcleo
antes do início do tratamento psicológico ou farmacológico. Essa redução
da atividade do núcleo caudado do hemisfério direito observada tanto
nos pacietes submetidos ao tratamento com farmacológico bem como o
psicológico foi maior em relação a pacientes controles que não foram
submetidos a qualquer forma de terapia. Assim, tanto a psicoterapia
quanto a psicofarmacoterapia produziram exatamente as mesmas alterações
neuronais sugerindo que ambas funcionaram através de mecanismos
semelhantes. Neste caso específico, manipulações químicas ou
comportamentais parecem alterar o funcionamento de certos sistemas
serotonérgicos.
Resultados provenientes da utilização de modelos animais
apontam para a mesma direção. Como animais não são capazes de
utilizar linguagem, sons são utilizados com o intuito de estudar o
sistema auditivo. Tem sido observado, através de registros eletrofisiológicos
em um único neurônio em gatos conscientes, que neurônios localizados
no núcleo coclear dorsal apresentam alterações de forma específica a
um som que sinaliza a apresentação de um estímulo aversivo (Landeira-Fernandez,
Woody, Wang, Chizhevsky & Gruen, 1991; Woody, Wang, Gruen &
Landeira-Fernandez, 1992). Estes resultados, somados a outros tantos que
relacionam a influência das relações sociais ao desenvolvimento,
organização e desenvolvimento de circuitos neuronais envolvidos nas
mais diversas atividades mentais (Andrew & Brennan, 1983; Arnold,
Botjer, Nordeen, Nordeen & Sengelaub, 1987; Denenberg, 1981; Elbert,
Pantev, Wienbruch, Rockstroh & Taub, 1995; Harlow, Dodsworth &
Harlow, 1965; McCabe & Horn, 1988; Purves & LaMantia, 1990;
Jenkins, Merzenich, Ochs, Allard & Guic-Robles, 1990; Kandel &
Hawkins, 1992; Volkmar & Greenought, 1972; Ward, 1972; Wiesel &
Hubel, 1963), têm mostrado que essa influência ocorre desde o
nascimento do sujeito e que existem períodos críticos, durante a infância,
onde o impacto da experiência social no tecido neural é extremamente
mais forte em relação a idades mais avançadas.
Assim, várias formas de relacionamento social, bem como a
psicoterapia, alteram o funcionamento mental de um indivíduo através
do seu impacto no tecido neural. É importante frisar que esta posição
não descarta outras interpretações que relacionam aspectos sociais
com a atividade mental. Ela apenas interpreta fenômenos psicológicos
sob a ótica biológica. No entanto, deve-se reconhecer que aspectos
sociais atuam na atividade mental graças a capacidade dessas relações
em modificar o padrão de funcionamento neural. O neuroetólogo Russel
Fernald, da Universidade de Oregon, mostra como pode ocorrer essa interação
cérebro-comportamento-ambiente, utilizando uma espécie de peixe ciclídeo
africano (Fernald, 1988). O sistema social nessa espécie baseia-se na
dominância de territórios. Os machos dominantes correspondem a mais ou
menos 10% da população, controlando praticamente todos os recursos,
especialmente alimentos. Tais machos são de coloração viva, e pouco
tempo depois da dominação do território seus testículos crescem.
Subseqüentemente, regiões próximas à áreas análogas do hipotálamo
humano desenvolvem-se mais. Esse núcleo passa a ser maior nos animais
bem sucedidos socialmente, de forma que o cérebro pode, por assim
dizer, espelhar seu sucesso social. Mais surpreendente ainda é o fato
de que se, por algum motivo, esse macho perde sua dominância
territorial, o núcleo correspondente muitas vezes também regride de
tamanho. Dessa forma, não existe nada de estranho no fato de que relações sociais tem o poder de alterar o funcionamento neural. Resta saber, agora, que relações sociais presentes na psicoterapia tem essa função. Nesse sentido, é interessante observar que a presença de variáveis de grande significado biológico para o paciente durante uma sessão psicoterapeutica é um ponto comum entre as mais variadas formas de psicoterapia. Conforme discutido anteriormente, estímulos ambientais ou sociais com alto valor biológico podem fortalecer transmissões sinápticas (para uma discussão sobre alguns paradigmas experimentais mediados pelo mecanismo de potenciação de longo prazo ver Landeira-Fernandez, 1996; Martinez & Derrick, 1996). Assim, não é difícil entender porque toda uma grande variedade de práticas psicoterapêuticas seja capaz de oferecer algum resultado, a despeito dos seus mais variados modelos explicativos. Quanto mais forte for o significado biológico da prática psicológica, maior será a possibilidade dessa psicoterapia em atingir seus objetivos através do seu impacto no tecido neural, alterando, assim, padrões de comunicações sinápticas.
POR QUE PSICOTERAPEUTAS DEVEM TER O DIREITO DE PRESCREVER DROGAS PSICOTRÓPICAS ?
Dada a importância do sistema nervoso na atividade mental, é
necessário que se dê mais ênfase a essa forma de conhecimento durante
a formação do psicólogo
clínico. Mas o simples interesse teórico não justifica essa decisão.
O saber por saber não oferece muita vantagem ao psicólogo clínico,
cujo maior interesse está ligado à prática. Assim, não é
surpreendente observar uma grande falta de motivação de alunos e
profissionais da área da psicologia pelo estudo de variáveis biológicas
relacionadas com a atividade psicológica humana.
A fim de suprir essa carência motivacional, é também nosso
objetivo chamar a atenção do psicólogo clínico para o fato de que
sua prática pode e deve ser enriquecida através da aquisição de
conhecimento e treinamento necessário para o emprego de drogas psicotrópicas.
Entre as várias razões que justificam esse direito está o grande avanço
que a psicofarmacologia vem conquistando graças à pesquisa básica,
que conta, inclusive, com grande participação de pesquisadores com
formação em psicologia. Outra razão importante é que drogas psicotrópicas,
bem como as psicoterapias, parecem atuar de forma semelhante no sistema
nervoso central. Tanto a psicoterapia como as drogas psicotrópicas,
como veremos em seguida, alteram o funcionamento da atividade mental
devido a capacidade que ambas têm de alterar o curso da comunicação
neural. Finalmente, tem sido amplamente demonstrado que o efeito de uma
droga psicotrópica é determinado não somente pelo seu composto ativo
como também pelo contexto social em que essa droga é administrada. Mas
antes de entrarmos nos aspectos de interação entre drogas e relação
social, vejamos como drogas psicotrópicas agem no sistema nervoso.
Ao longo da história da humanidade, o homem descobriu que podia
utilizar substâncias químicas encontradas em plantas e animais para obter efeitos, supostamente divinos, capazes de
modificar seu estado de espírito. Mais recentemente, o homem conseguiu
produzir essas substâncias químicas de maneira artificial, com potência
e eficácia muito mais elevadas. A utilização clínica de muitas
dessas drogas promoveu avanços significativos no tratamento farmacológico
de uma série de disturbios mentais, incluindo as psicoses e formas
patológicas de depressão e ansiedade. Embora a descoberta e utilização
dessas drogas psicotrópicas na clínica tenham se dado muitas vezes de
forma casual ou empírica, recentemente começamos a entender como
realmente essas drogas funcionam através de pesquisa experimental com
modelos animais (Cruz, Frei & Graeff, 1994; Cruz, Zangrossi, &
Graeff, 1995; Graeff, 1989).
Drogas psicotrópicas alteram a transmissão sináptica, podendo
ser classificadas em duas grandes categorias: drogas que inibem ou
bloqueiam o efeito de neurotransmissores, denominadas de antagonistas, e
drogas que facilitam ou mimetizam o efeito de neurotransmissores,
denominadas de agonistas. Como já visto na seção anterior, um neurônio
integra todos os potenciais pós-sinápticos que chegam aos seus
dendritos e corpo celular para em seguida disparar um potencial de ação.
Esse potencial de ação é transmitido ao longo do axônio e,
ao chegar nos terminais neurais, produz a liberação de
neurotransmissor. Esse neurotransmissor, que é sintetizado pelo próprio
neurônio através da combinação do seu precursor com certas enzimas,
é armazenado nas vesículas sinápticas. Após a sua liberação pelo
neurônio pre-sináptico, o neurotransmissor liga-se aos receptores
localizados no neurônio pós-sináptico, produzindo o potencial pós-sináptico
e, nos autoreceptores localizados no neurônio pré-sináptico,
modulando a liberação do neurotransmissor. A ação desse
neurotransmissor termina com a sua recaptação pelo neurônio pré-sináptico
ou através da sua destruição por enzimas localizadas na fenda sináptica.
Vários momentos distintos estão envolvidos no processo de atuação
do neurotransmissor na transmissão sináptica: inicialmente temos a
produção do neurotransmissor, a partir do seu precursor e de enzimas
presentes no corpo celular, seguido pelo seu armazenamento nas vesículas
sinápticas e sua liberação com a chegada do potencial de ação. Em
seguida, ocorre a atuação
do neurotransmissor nos receptores localizados nos neurônios pré e pós
sinápticos, seguidos pelo processo de recaptação ou destruição. A ação
de drogas agonistas ou antagonistas pode ocorrer em qualquer um desses
momentos. Drogas antagonistas podem bloquear a atividade enzimática que
sintetiza o neurotransmissor, destruir as vesículas que os armazenam,
bloquear sua liberação, bloquear seu efeito nos receptores pós-sinápticos
ou estimular os autoreceptores responsáveis pela modulação da sua
liberação. Por outro lado, drogas agonistas podem servir como
precursoras do neurotransmissor, estimular sua liberação, estimular os
receptores localizados no neurônio pós-sináptico ou bloquear o
processo de recaptação ou destruição do neurotransmissor.
Dessa forma, o efeito das drogas psicotrópicas está ligado ao
processo da transmissão sináptica. É interessante notar que se o
efeito da droga psicotrópica requer a existência desse processo sináptico
então pode-se imaginar, pelo menos a princípio, que o próprio sistema
nervoso é capaz de produzir esse mesmo efeito (Barbaccia, Costa &
Guidotti, 1988). O exemplo clássico para ilustrar esse raciocínio é o
mecanismo de ação do ópio no sistema nervoso central. O ópio deriva
de uma da planta cujo composto ativo é a morfina[i].
O seu mecanismo era, até há alguns anos, desconhecido, e despertou
muita curiosidade quando descobriu-se no cérebro receptores específicos
para a morfina (Pert & Snyder, 1973). Esse fato foi extremamente
importante, uma vez que se existem receptores sensíveis a essa droga de
origem vegetal então o próprio sistema nervoso deveria produzir, substâncias
que pudessem mimetizar o efeito da morfina, pois não haveria sentido o
sistema nervoso ter receptores capazes de reconhecer de modo específico
moléculas exógenas de origem vegetal. Realmente, o neurofarmacologista
Jonh Hughes e associados (Hughes, Smith, Kosterlitz, Fothergill, Morgan
& Morris, 1975) identificaram substâncias de tipo opióide no
tecido neural. Essas substâncias são pequenas cadeias de aminoácidos
(peptídeos) e receberam o nome de encefalinas. Mais tarde, outros peptídeos
maiores, que mimetizavam o efeito da morfina, foram descobertos. Essas
substâncias receberam a nome de endorfinas (Li & Chung, 1976). Hoje
sabe-se que essas substâncias são liberadas em situações de
estresse, tendo a função de reduzir a sensibilidade dolorosa (Fanselow,
Kim, Young, Calcagnetti, DeCola, Helmstetter, & Landeira-Fernandez,
1991; Helmstetter & Landeira-Fernandez,1990; Landeira-Fernandez,
Fanselow, DeCola & Kim, 1993; Madden, Akil, Patrick & Barchas,
1977; Siegfried, Netto & Izquierdo, 1987).
Além dessas morfinas endógenas, tem sido observado a existência
de uma série de outros compostos endógenos que através de receptores
específicos são capazes de produzir efeitos de drogas que são
comercializadas na nossa sociedade. Dentre elas destacam-se os
benzodiazepínicos (Braestrup, Schmiechen, Neef, Nielsen & Petersen,
1982) e o tetrahidrocanabinol (THC, composto ativo da maconha). Tais
resultados sugerem que se uma certa droga é capaz de alterar a
atividade mental de um indivíduo, então o próprio indivíduo está
preparado para produzir esses mesmos efeitos, seja através do aumento
(ação agonista) ou da redução (ação antagonista) da sua própria
atividade sináptica.
Essa idéia deriva não só dos casos concretos da morfina, dos
benzodiazepínicos e do THC como também do próprio mecanismo de ação
das drogas psicotrópicas. É necessário que exista um processo de
transmissão sináptica para que a droga psicotrópica, através de uma
interação nesse processo sináptico,
possa produzir seu efeito. Nesse sentido, vale a pena lembrar que
relações sociais - e
psicoterapia é uma forma de interação social - também têm a
capacidade de alterar ou interagir com o processo da transmissão sináptica.
Dessa forma, tanto drogas psicotrópicas como psicoterapias parecem
produzir seus efeitos através de mecanismo semelhantes: alterando o
processo da comunicação sináptica e assim promovendo alterações na
atividade mental. Daí evidências, como as já apresentadas
anteriormente, indicando que tanto a psicoterapia como a
psicofarmacoterapia podem produzir alterações semelhantes no cérebro
de pacientes obsessivos-compulsivos. Mais interessante é o fato
demonstrado pelos psicólogos clínicos Seymour Fischer e Roger
Greenberg (1989) de que placebos podem produzir efeitos tão fortes e da
mesma natureza que as próprias drogas psicotrópicas. Como apresentado
no artigo escrito por estes psicólogos clínicos e publicado neste
volume (Fischer & Greenberg, 1997), placebos criam dependência,
produzem efeitos tóxicos e levam a um efeito curativo na faixa de 40% a
50%. Obviamente esse efeito placebo não é mágico. Assim como drogas
psicotrópicas, placebos, através de induções sociais, alteram o padrão
da comunicação neural. O que é interessante, e não se sabe
exatamente quais são os mecanismos, é que a indução social através
do placebo parece interagir com os mesmos sistemas sinápticos que são
alvos das drogas psicotrópicas. Dessa forma, quando se administra uma
droga psicotrópica, o que realmente está acontecendo é uma interação
entre as alterações sinápticas produzidas pela relação social entre
terapeuta-paciente e aquelas produzidas pela própria droga. Nesse
sentido, não é surpreendente observar casos, como relatados por
Fischer e Greenberg (1997), onde os efeitos de drogas antipsicóticas são
mais eficazes se o paciente gosta, mais do que desgosta, do médico que
as administra.
Nessa mesma linha de pensamento, estudos desenvolvidos pelo
neurocientista Sheapard Siegel e associados (Hinson & Siegel, 1983;
Siegel, 1979; Siegel, Hinson, Krank & McCully, 1982) vêm mostrando
que a tolerância e a “overdose” a certas drogas são determinadas
em grande parte por fatores sociais. Por exemplo, uma certa dose de heroína
quando injetada periodicamente em um determinado contexto social causa
apenas um pequeno efeito. Quando essa mesma droga, no entanto, é
injetada em um contexto totalmente
novo, pode levar à morte. Isto se deve ao fato de que o contexto social
onde o indivíduo costuma receber a droga serve de sinal indicando que a
droga será injetada. Como o efeito da droga é extremamente forte, o
sistema nervoso começa a desenvolver alterações sinápticas em
resposta a esses estímulos ambientais com objetivo de compensar os
efeitos da droga. Obviamente, a natureza dessas respostas compensatórias
são exatamente opostas às respostas produzidas pela droga. Conforme a
pessoa vai consumindo a droga sempre no mesmo contexto social, essas
respostas compensatórias endógenas vão crescendo de tal forma que
eventualmente anulam completamente o efeito natural produzido pela própria
droga. Nesse momento observa-se o fenômeno da tolerância. Em
contrapartida, o sujeito, a fim de superar a tolerância produzida pelos
estímulos contextuais, começa a aumentar a dose. Tudo vai bem até que
o sujeito decide injetar a droga, na dose que está acostumado a usar,
em um contexto totalmente novo. Como nesse novo contexto as respostas
endógenas que o protegem dos efeitos da droga não estão presentes, a
droga expressa todo seu efeito, levando a uma “overdose”. Essa
interação droga-contexto explica também a origem da síndrome de
abstinência. As reações observadas durante a síndrome de abstinência
são sempre opostas em relação ao efeito natural da droga. Isto porque
os estímulos ambientais que sinalizam a apresentação da droga são
capazes de ativar essas respostas compensatorias mas a droga em si não
é apresentada.
Nesse sentido não há motivo para se falar em um tipo de dependência
física e um outro tipo de dependência psicológica. Existem graus
diferentes de dependências que são determinados pela potência da
droga e sua interação com a potência da relação social (O´Brien,
Ehrman & Ternes, 1986). Por exemplo, soldados americanos altamente
dependentes de heroína durante a guerra do Vietnã deixaram de
apresentar dependência, ou tiveram uma pequena taxa de reincidência,
quando retornaram a suas residências ao final da guerra (Robins, Davis
& Goodwin, 1974). Seria essa uma forma de dependência física ou
psicológica?
Esses resultados sugerem que relações sociais podem alterar o
funcionamento psicológico da mesma forma que drogas psicotrópicas
produzem seus efeitos. Naturalmente, isso não indica que todo paciente
que busca auxílio psicológico deva ser submetido à
psicofarmacoterapia, ou que pacientes apresentando sérias disfunções
mentais devam ser submetidos imediatamente à psicoterapia. Por exemplo,
dentre outras alterações cerebrais, como alargamento dos ventrículos
cerebrais, pacientes esquizofrênicos apresentam ainda uma
hiperatividade dopaminérgica (sugerindo uma maior quantidade de
dopamina e/ou de receptores pós-sinápticos) e uma hipofrontalidade
caracterizada pela diminuição de fluxo sangüíneo na região frontal
do cérebro. Essa última constatação pode explicar o certo insucesso
das psicoterapias convencionais no tratamento da esquizofrenia (Goldberg
& Gold, 1995; Gur, 1995), pois é exatamente no lobo pré-frontal
que se dá a completa compreensão cognitiva do significado da palavra-
nossos planos e organizações para o futuro. Assim, é possível que a
psicoterapia não funcione no tratamento da esquizofrenia porque o
paciente não tem total compreensão da palavra. Dada essa situação, não
resta dúvida que drogas psicotrópicas devem ser utilizadas quando
necessárias. No entanto, isto não significa que drogas psicotrópicas
sejam técnicas mais eficazes na prática psicológica. Muito pelo contrário.
Embora o efeito das drogas psicotrópicas seja muito mais rápido em
relação ao das psicoterapias, esse efeito, por si só, não é
duradouro. Drogas psicotrópicas alteram a transmissão sináptica desde
que estejam presentes no sistema nervoso. Por outro lado, a psicoterapia
promove alterações sinápticas de forma fisiológica levando em
consideração os próprios recursos do sistema nervoso.
Como esta reeducação sináptica leva tempo, é importante que
em algumas situações certos sintomas sejam controlados por meios de
drogas. Por outro lado, é possível que um psicólogo clínico acredite
que o uso de certos psicotrópicos esteja prejudicando o desenvolvimento
da psicoterapia. Neste caso, o direito e o reconhecimento que o psicólogo
teria para prescrevê-las também lhe confereria autoridade de não
prescrevê-las quando julgasse necessário. O direito que um
profissional tem de prescrever drogas psicotrópicas confere-lhe também
o direito de não prescrevê-las. Finalmente, é plenamente possível
que um paciente, sem grave distúrbio mental, procure um psicólogo
simplesmente para a obtenção de alguns conselhos de ordem pessoal. A
partir da relação terapeuta paciente, é possível que esse paciente
comece a apresentar mudanças na sua atividade cognitiva e emocional.
Embora o psicólogo não tenha manipulado deliberadamente qualquer variável
biológica, ele sem dúvida promoveu, através da psicoterapia, alterações
no funcionamento neural do paciente. Dessa forma, o principio de ação
da psicoterapia é semelhante ao das drogas psicotrópicas: ambas têm a
capacidade de alterar o funcionamento neural.
É importante esclarecer que tudo o que foi apresentado acima
poderia ser descartado com um simples argumento: se o psicólogo clínico
deseja ter o direito de prescrever drogas psicotrópicas então ele deve
entrar em um curso de medicina e especializar-se em psiquiatria, uma vez
que o psiquiatra tem o direito de prescrevê-las. Este argumento, que
faz lembrar a exclusividade que os médicos possuíam para se tornarem
psicanalistas, possui duas falácias. A primeira, de ordem teórica,
aceita e perpetua a posição dualista onde mente e corpo são vistos
como entidades separadas. Assim, o médico, junto com a psiquiatria,
atuaria no corpo através da prescrição, enquanto o psicólogo, através
de psicoterapia de natureza espiritual, atuaria na mente. A
segunda falácia é de ordem prática e diz respeito à motivação
do estudante. Todos nós sabemos que os interesses ou as aspirações do
estudante de medicina são complemente diferentes dos interesses ou
aspirações do estudante de psicologia. Embora ambos tenham motivações
profissionais de auxiliar o seu semelhante, o médico tem uma preocupação
com a integridade física do paciente, enquanto o psicólogo tem uma
preocupação com a integridade da sua vida mental. Seria inviável forçar
o estudante de psicologia passar todo um curso de medicina estudando, de
forma minuciosa, nomenclaturas de ossos e músculos, ou técnicas
relacionadas a intervenções cirúrgicas. Da mesma forma, seria inviável
forçar o médico, cujo objetivo é se tornar um psiquiatra, a passar
todo um curso de psicologia estudando matérias relacionadas com saúde
mental e às diferentes posições históricas e filosóficas, escolas
psicológicas, técnicas e testes relacionados com a atividade psicológica
do sujeito.
Outro possível argumento médico que pode pesar contra o direito
do psicólogo clínico de prescrever drogas psicotrópicas é que estas,
além de produzirem seus efeitos no sistema nervoso, também causam
efeitos, de forma direta ou indireta, em vários sistemas corporais,
tais como o digestivo, o respiratório, o cardiovascular e o endócrino.
Nesse sentido, deve-se destacar que o psicólogo não está preocupado
somente como a atividade mental do sujeito interage com a origem de um
determinado comportamento (atividade somática), mas também como essa
atividade afeta o funcionamento do seu meio interno (atividade
visceral). O exemplo mais concreto para ilustrar essa posição é o da
psicossomática, cujo objetivo é o de estudar como a atividade mental,
mais especificamente o sistema nervoso central, interage com o
funcionamento de outros sistemas corporais (Mello-Filho, 1995; Shorter,
1992; Wartel, 1990). Novamente é importante destacar que o interesse
psicológico por esses sistemas corporais é completamente diferente do
interesse médico. O psicólogo está interessado na relação do
sistema nervoso com esses sistemas corporais, enquanto o interesse médico
é mais específico e diz respeito à atuação de forma direta e
exclusiva sobre esses sistemas. É justamente essa posição médica que
certas vezes parece prejudicar a própria formação do psiquiatra. Por
exemplo, os psiquiatras Jeffrey Lieberman e John Rush (1996) defendem a
idéia da alteração do treinamento do psiquiatra ao longo do curso de
medicina. Segundo os autores, o corpo de conhecimento relevante para a
formação do psiquiatra não está completamente de acordo com a formação
médica. Os autores escrevem: “Todos os campos da medicina são
definidos pelos seus campos de conhecimentos básicos e clínicos. Por
exemplo, gastroenterologia é defina pela sua disfunção, seus
procedimentos de diagnóstico (p.ex. endoscopia), procedimentos de
tratamento (p.ex. polipectomia) e o seu corpo de conhecimento (p.ex.
etiologia, fisiologia, anatomia e patofisiosologia da função e disfunção
gastrointestinal). A psiquiatria, em certo sentido, tem sido uma excessão
a esse princípio. Isto se deve, em parte, a origem recente das bases
patofisiológicas empiricamente documentadas dos transtornos psiquiátricos
e a transição teórica de modelos patológicos psicodinâmicos para
modelos bio-psico-sociais e neurobiológicos. É importante notar que a
despeito do corpo substancial de conhecimeto da patofisiologia de muitos
transtornos psiquiátricos, tais como a mania ou a esquizofrenia, não há
menção a transtornos psiquiátricos nos livros textos de patologia médica.
As patologias médicas funcionais de várias síndromes médicas (p.ex.
arritimias cardíacas) são apresentadas mas as patologias funcionais
dos transtornos mentais não são.”. Assim, é interessante que tanto
o psiquiatra melhore sua formação nas áreas relacionadas com os
aspectos socias (as vezes tratadas com descaso) como o psicólogo inclua
na sua formação acadêmica disciplinas da área da neurobiologia.
Assumindo essa perspectiva, não resta dúvida que uma maior ênfase deve ser dada às disciplinas biológicas já presentes no curriculum da psicologia e, contrariamente a posição que alguns insistem em adotar, enriquecê-lo na medida do possível. O direito de utilizar esse conhecimento é conseqüência da seriedade com que esse conhecimento é transmitido ao aluno, bem como da consciência da nossa classe frente a importância de variáveis biológicas na atividade mental humana. Uma vez esses dois fatores combinados de forma harmônica, não poderão existir outras razões que continuem justificando a inobservância do direito do psicólogo clínico em prescrever drogas psicotrópicas.
CONCLUSÃO
A posição apresentada aqui é que o biológico e o psicológico
fazem parte do mesmo processo. Não existe atividade psicológica
independente de uma atividade biológica e por conseguinte toda prática
psicológica é, na verdade, uma prática biológica. Esta posição não
implica em uma mudança na prática psicoterápica, conforme vem sendo
tradicionalmente utilizada. O que muda é a forma de encarar o problema,
levando-se em conta fatores biológicos como variáveis importantes na
atividade mental. Esta posição também não reduz a atividade psicológica
a mecanismos puramente biológicos. A própria natureza da área de
estudo da psicologia impede tal reducionismo. Tal posição, portanto,
não está em desacordo com teorias que sustentam que a
personalidade humana seja fruto das suas relações sociais. Isto, na
verdade, é a própria essência da psicologia. O erro, no entanto, está
em ignorar o fato de que relações sociais direcionam a formação da
personalidade graças ao
seu impacto no desenvolvimento, organização e funcionamento neural do
indivíduo. Esta posição dá vida nova ao profissional da área da saúde
mental e ajusta a sua prática às descobertas e tendências atuais de
se encarar a atividade mental humana, ampliando seus horizontes, já
saturados, com posições filosóficas que conferem características
metafísicas à mente humana e que atualmente resultam numa limitação
da prática e atuação do psicólogo clínico.
A classe dos psicólogos como um todo, e a dos clínicos em
especial, simplesmente não pode ignorar todo o avanço que a neurociência
vem promovendo nesse final de século. O cérebro começa hoje a ser
descoberto e entendido de forma mais sistemática graças aos avanços técnicos
e à natureza interdisciplinar da neurociência. Dentre estas
descobertas está a enorme importância do meio ambiente e das relações
sociais no desenvolvimento, organização e funcionamento do sistema
nervoso. A prática psicológica, ou qualquer outra relação social que
tenha um impacto na atividade mental do sujeito, tem a capacidade de
promover alterações na atividade neural desse indivíduo. Essas alterações
estão associadas a mudanças na comunicação neural, promovendo uma
espécie de reeducação sináptica.
Calcado nessa interpretação, é importante que o psicólogo
tenha uma boa formação biológica, principalmente em relação ao
sistema nervoso, visto que nele reside não somente a origem da
atividade mental, mas também o objeto da sua prática. O fato do psicólogo
clínico de hoje não ter sido preparado adequadamente para lidar com
questões relacionadas com a atividade neural não pode servir como
justificativa (consciente ou inconsciente) de que uma preparação mais
arrojada nessa área não seja importante para sua formação
profissional. O psicólogo deve despertar para a necessidade de
incorporar à sua área de ensino o conhecimento que vem sendo
desenvolvido pela neurociência, e em especial, pela psicofarmacologia.
É óbvio que tanto melhor será sua preparação acadêmica quanto
maior for sua possibilidade de aplicação esse conhecimento. Dessa
forma, é necessário que o psicólogo clínico, além de melhorar sua
formação acadêmica dentro do campo biológico, tenha também o
direito de empregar de forma adequada esse conhecimento, podendo ter,
inclusive, o direito de prescrever drogas psicotrópicas. Mas antes da
conquista desse direito, a nossa classe deve se convencer da importância
de variáveis biológicas na determinação da atividade mental do
sujeito. Hoje não existe essa possibilidade graças ao curriculum que
enfatiza o treinamento acadêmico para à pesquisa (que nem sempre é
devidamente aproveitado) e um treinamento, talvez um pouco exagerado, na
área da filosofia. Interessante é que o treino na própria clínica,
durante o curso de psicologia é restrito. Isto, na verdade, nos faz
levar a uma outra discussão que transcende o objetivo deste trabalho: a
psicologia é uma ciência básica, tal como a física, química ou
biologia, ou uma ciência aplicada tal como a veterinária, medicina
engenharia ou odontologia? Se realmente a psicologia pretende ser uma ciência
aplicada, deverá, sem dúvida, ajustar seu curriculum à essa
necessidade. Nesse sentido, já existe hoje movimentos demonstrando o
desejo de alterar o curriculum para que o psicólogo clínico seja
devidamente preparado para prescrever drogas psicotrópicas (Barclay,
1989;. Broskowski, 1995; DeLeon, 1993; 1995; DeLeon, Fox & Graham,
1991; DeLeon, & Wiggins, 1996; Fox, 1994; Fox, Schwelitz &
Barclay, 1992; Klein, 1996; Pachman, 1996; Sammons, Sexton &
Meridith, 1996; Smyer, Balter, Egli, Johnson, Kilbey, Leith & Puente,
1993). Por exemplo, em agosto de 1995 a associação americana de
psicologia (APA) decidiu dar continuidade ao desenvolvimento de modelos
curriculares e legislativos capazes de justificar a obtenção do
direito de prescrever drogas psicotrópicas (Martin, 1995). Lembre-se, àqueles que são contra essa idéia, que o direito de prescrever drogas psicotrópicas é também o direito de não prescrevê-las. Dessa forma, não é nosso objetivo fazer uma apologia sobre o uso ou não de drogas psicotrópicas no tratamento de disfunções mentais ou que o psicólogo clínico deva se transformar numa espécie de psiquiatra que conseguiu escapar da faculdade de medicina. Pretende-se, na verdade, mostrar ao psicólogo clínico que sua prática, por mais imaterial que possa parecer, produz efeitos físicos através da alteração do funcionamento do tecido neural. A aquisição de conhecimento neurobiológico é fundamental para que o psicólogo possa realmente compreender como ocorre essa interação entre cérebro e meio ambiente e a partir dai, novas técnicas psicoterapeuticas possam ser desenvolvidas. O direito de utilizar diretamente esse conhecimento relacionado com o desenvolvimento, organização e funcionamento do sistema nervoso, através da prescrição de drogas psicotrópicas, será apenas conseqüência do fortalecimento da sua preparação acadêmica ao longo do curso de psicologia.
É bem verdade que existem sistemas que determinam uma formação
mais aprofundada do psicólogo clínico. Por exemplo, o sistema
americano, diferentemente do brasileiro, somente habilita o psicólogo
clínico exercer suas funções após o término do doutorado, quando
ele é submetido a uma série
de exames impostos pela sociedade psicológica regional, afim de
verificar sua competência para exercer a função clínica.
Dessa forma, o sistema americano, ao nosso ver, permite uma melhor
preparação e seleção do profissional, o que, por consequência,
permite ampliar o seu curriculum acadêmico. O objetivo deste artigo não
foi o de tentar responder se esse sistema deveria ou não ser adotado no
Brasil. Nosso objetivo foi o de mostrar ao psicólogo clínico que sua
prática tem consequência direta em tecido neural possivelmente através
dos mesmos mecanismos que drogas psicotrópicas atuam na atividade
psicológica. Assim, deve ser objetivo de um curso de psicologia
oferecer uma boa formação em disciplinas relacionadas com a
neurobiologia.
É óbvio que a decisão de enriquecer o curriculum do psicologia
com disciplinas de cunho biológico, que habilite o jovem estudante de
psicologia a pensar de forma mais séria e responsável, seguindo padrões
científicos, é uma decisão extremamente complexa e envolve outros
interesses que não os puramente profissionais. No entanto, não será a
primeira vez que a psicologia irá lutar por direitos que justifiquem a
sua existência como ciência independente. Somente aqueles com consciência
e dedicação profissional, cujo objetivo está voltado não para os
seus interesses e crenças pessoais, mas sim para o progresso e
desenvolvimento da sua classe, é que saberão, hoje, tomar decisões
equilibradas a fim de que os horizontes do pensamento e da prática
psicológica possam ser ampliados em um futuro próximo. REFERÊNCIAS Andrew,
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