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Um pequeno mapa das desleituras: psicanálise e neurociência[1]

 

Flavia Sollero de Campos [2]

 

 

Ao preparar o que iria falar, uma dúvida me tomou: qual o caminho mais adequado para apresentar tema tão polêmico e, ao mesmo tempo, com inúmeros desdobramentos alcançados recentemente?  Esta combinação costuma ser explosiva, pois ao debate e à polêmica somam-se os meios conhecimentos. Existem questões filosóficas e epistemológicas cruciais, que seriam certamente introdutórias ao tema; por exemplo, concepção dualista ou materialista das relações mente-cérebro, tipos de reducionismo utilizados, concepção de linguagem concepção de ciência... Além disso, ou melhor, toda essa questão desenvolve-se num quadro contemporâneo onde o debate sobre a questão da cientificidade tem-se apresentado em termos de uma "guerra das ciências", no contexto da assim chamada "2'ªa revolução tecnológica industrial". Os termos do debate são por esta definidos, e são também cada vez mais fisicalistas.

Tal tendência não pode ser ignorada: a preocupação atual com a materialidade e os constrangimentos ( no nosso caso, biológicos) é cada vez mais  insistente.  Dentro desse campo, um foco persistente de mal-estar na psicanálise tem sido a entrada e o crescente prestígio da neurociência na atualidade. Em geral, como tem aparecido no Brasil, o debate quanto à validade e à possibilidade de articulação entre psicanálise e neurociência acaba por restringir-se à questão mais visível da origem dos distúrbios mentais e à comparação da ação das várias formas de psicoterapia, e da psicanálise, com o uso de psicofármacos. 

 Ora, dadas as consideráveis mudanças na forma como se entende o sistema nervoso e o cérebro em particular,  principalmente nos últimos vinte anos, alguns neurocientistas têm se dedicado a propostas teóricas extremamente abrangentes e ousadas, envolvendo o funcionamento cerebral como um todo, que possam costurar um sentido às observações e às informações trazidas pelas várias áreas de pesquisa envolvidas. Tais propostas vão muito além da questão da utilização - ou não - de psicofármacos.  

Voltando à psicanálise, existem discussões acaloradas sobre fidelidade a conceitos psicanalíticos a partir, principalmente, mas não exclusivamente, das instáveis relações entre a psicanálise e várias áreas de conhecimento: linguística, etologia, antropologia, sociologia, psicologia, biologia.  E, se olharmos as publicações referidas à psicanálise nos últimos trinta anos, nos deparamos com autores tão diversos como Jacques Lacan, Donald Winnicott, Heinz Kohut, Françoise Dolto, André Green, Wilfred Bion, Pierre Marty, Piera Aulagnier, Otto Kernberg, e outros. Como avaliar as obras desses autores como pertencentes a um único referencial teórico, a psicanálise? Quais delas seriam a  psicanálise, quais seriam consideradas contrafações, equívocos, erros? E quem as classificaria?

Daí o título da minha fala.

Esse título é uma paráfrase da expressão criada pelo crítico literário Harold Bloom, título também de um de seus livros: "Um mapa da desleitura". Para Bloom, o leitor ou aprendiz de poeta que se apaixona pela obra de um poeta anterior considerado maior, e portanto, precursor, somente pode se tornar um poeta 'forte'  - "grandes figuras com persistência para combater seus precursores até à morte"-  através da "desleitura", isto é, através da leitura que desapropria, transforma e se apodera da poesia do precursor e que, ao fazê-lo, também a mata. 

Bloom fala também da "angústia da influência" ,  no sentido de que um poeta procede sempre por uma desleitura do poeta anterior,  "um ato de correção criativa que é, na verdade, e necessariamente, uma interpretação distorcida. A história das influências poéticas produtivas...é uma história da angústia...da distorção, do revisionismo voluntarioso e perverso (...) (p. 62).  

Bloom afirma que "o mais valioso instrumento de sobrevivência poética é o desvirtuamento do passado"; e que o  peso da anterioridade, como é ameaça de mera repetição, é o maior impedimento à formação do poeta. E por que falar de Bloom aqui? Por algumas razões. A obra de Bloom é marcada por uma leitura vigorosa e inesperada de Freud.  E Bloom afirma que, considerando-se  Freud enquanto precursor,  Lacan fez dele uma desleitura 'forte'.

O leitor 'forte' proposto por Bloom seria aquele cujo desejo de apropriação do saber do outro é forte o suficiente não somente para desalojar o outro, mas para transformá-lo em seu próprio benefício. Isto é, o leitor forte apropria-se do texto do precursor de tal maneira que o modifica inexoravelmente, e o transforma em lugar também desejado. Pensando em Lacan e Freud, podemos imaginar que Lacan supera a "angústia da influência", cria uma nova versão do texto freudiano, e nessa ousada recriação, também se torna um objeto do desejo dos outros. E precisa de certa forma negar sua ousadia, reafirmando estar fazendo um 'retorno a Freud'.  Assim como Freud é um leitor 'forte' de Nietszche e de Schopenhauer, negando com maior ou menor vigor seu débito em relação a eles.

E o leitor 'fraco'? Segundo Bloom, seria aquele que acaba sempre por repetir o outro, nada acrescentando; aliás, sua suposta fidelidade ao que o autor "quis dizer" não o leva a nenhum rompimento, nenhuma subversão do autor; e não instiga o desejo de outros leitores. Portanto, é improdutiva.

Nessas breves reflexões que versam sobre influência e fidelidade, leitura criativa e repetição improdutiva, talvez eu pudesse acrescentar ousadamente  Melanie Klein e Wilfred Bion como dois teóricos que, juntamente com Lacan, também fazem uma desleitura 'forte' de Freud.  E talvez uma maneira interessante de pensar as articulações entre psicanálise e neurociência consista em partir dessa idéia bloomiana. Os dados que emergem da neurociência podem ser usados para diferentes propósitos e servir de base para várias teorias psicanalíticas; mas, sempre haverá um 'salto metafórico' de um quadro de referências a outro.

Frente ao espectro de temas apresentados pela neurociência, os psicanalistas são forçados a se posicionar. E o fazem localizando-se nesse espectro,   desde aqueles autores que excluem o biológico e o social e privilegiam o intrapsíquico, àqueles que fazem o contrário, isto é, privilegiam o biológico e o social,  praticamente não deixando lugar para o intrapsíquico, e o inconsciente.

Certamente existem várias maneiras de se fazer a articulação neurociência - psicanálise. Como já assinalei,  parece que a questão mais importante - ou pelo menos, a mais visível - no domínio dessa articulação acaba por restringir-se à origem dos distúrbios mentais e à  utilização de psicofármacos.  Não é para ela que estão direcionados os neurocientistas mais sofisticados. Por outro lado, nem os psiquiatras, nem os psicólogos e psicanalistas estão levando em consideração em suas reflexões as atuais teorias biológicas da mente, em suas contribuições para o debate que se inicia. Estou ciente de que existem inúmeras interpretações do funcionamento subjetivo do ser humano,  incluindo-se aí as interpretações que buscam integrar modelos computacionais e neurobiológicos, e os modelos propriamente neurobiológicos, como os que mencionarei a seguir. Também existe um forte debate contemporâneo, iniciado por filósofos da mente como Searle (1992),  Dreyfus e Dreyfus (1988 ), quanto à irredutibilidade da mente - especificamente, a consciência  -  a concepções computacionais ou neurobiológicas. Estas questões são de inestimável importância para a complexificação das discussões em torno dos temas mencionados, inclusive das relações entre psicoterapias e medicação  na clínica contemporânea. Porém, fogem ao escopo do tema proposto.

Os psicanalistas que estão atualmente publicando artigos e livros sobre o tema são, em geral, professores universitários que trabalham em departamentos de psiquiatria, psicologia, neurologia ou pediatria; alguns em hospitais universitários nessas especialidades. Portanto, são profissionais que, pelo convívio com outros profissionais no âmbito acadêmico, talvez se vejam na urgência de explicar e justificar a psicanálise frente a outras áreas de conhecimento. Parece que a sua preocupação maior consiste em respaldar a psicanálise nos achados da ciência biológica, procurando afirmar o lugar do seu pensamento   na contemporaneidade. Assim, procuram explicar como e porque a psicanálise funciona , como se dá  - ou não - a mudança psíquica envolvida nos processos psicoterápicos e  psicanalíticos.

Alguns psicanalistas estão, inclusive, procurando estabelecer limites às possibilidades de articulação entre estes dois campos.  Também, algumas listas de discussão de temas psicanalíticos que venho acompanhando há  mais de um ano pela Internet[3] demonstram um grande vigor nos debates e questionamentos, tanto no interior da psicanálise quanto na avaliação  da possibilidade da neurociência  acrescentar algum aspecto relevante  às conceituações e práticas da psicanálise.

Por outro lado, as teorias neurocientíficas atualmente estão tão sofisticadas, que algumas controvérsias dentro da psicanálise das décadas de 50, 60 e 70 quanto à possibilidade de revisão de alguns conceitos psicanalíticos à luz da teoria de sistemas e/ou da teoria da informação estão praticamente datadas. Propostas feitas por psicanalistas como David Rapaport, Merton Gill, Edward Peterfreund, dentre outros, estão sendo repensadas por alguns psicanalistas, a partir de teorias contemporâneas. Pois não adiantará utilizar a discussão baseada nas controvérsias daquela época, por que estão superadas. Poderia  dizer que a discussão já é outra.

Se usarmos a concepção metafórica do cérebro como um 'depósito' que 'contém' um 'conteúdo' que é examinado para ser estocado ou descartado, ou como um 'agente' que 'controla' a visão, a linguagem etc., tenderemos a pensar o funcionamento cerebral de maneira estática.  Mas, se usarmos a concepção do cérebro como um sistema biológico plástico e ativo, seremos então levados a considerar um conjunto bastante diferente de hipóteses; por exemplo, que o cérebro muda com a experiência. Aliás, mais do que isso: que o cérebro se constrói  com  a experiência.

 Uma característica comum a algumas teorias - refiro-me especificamente a Gerald  Edelman (1989, 1992), Francisco Varela (1991) e Antonio Damasio (1994, 1999) - é a ênfase na plasticidade do aparato neuronal que, confrontado com a experiência, produz estruturas singulares. Estas teorias propõem basicamente que, sendo a parte neuronal plástica, é a experiência social que levará às diferentes estruturações; isto é, cada indivíduo tem a sua estrutura neuronal singular. Assim,  quanto mais complexa e diversificada a experiência social, mais sub-sistemas neuronais o indivíduo terá; mais complexa e rica será sua configuração cerebral, e mais resistente à deterioração. Neste quadro, a experiência social e a linguagem  intensificam a plasticidade do aparato cerebral, gerando neste múltiplas modificações cada vez mais complexas.

O cérebro e o aparato neuronal em geral devem ser entendidos nesta formulação em termos de múltiplos sub-sistemas em sua maioria inconscientes e descentrados, que interagem ou se acoplam de diferentes maneiras, não obedecendo a hierarquias rígidas. Desta nova formulação, mesmo que indiretamente e talvez a contragosto,  a psicanálise participa.  Neurocientistas como Varela, Damasio, Edelman e Kandel (1999)  referem-se de maneira mais ou menos  detalhada a conceitos originários da psicanálise; Edelman e Varela referem-se explicitamente à psicanálise por sua concepção de subjetividade complexa e sofisticada. Kandel afirma que a biologia não pode dispensar a psicanálise, pois esta  "ainda representa a concepção de mente mais satisfatória e intelectualmente coerente"(p. 505). Muitas questões apresentadas  pela neurociência têm afinidades com a psicanálise; conceitos como consciência, inconsciente, memória, afetos, eu, cisão/ fragmentação ( vista como sub-sistemas em interação) .

Por outro lado, a partir da concepção básica da plasticidade neuronal e da auto-organização no decorrer de uma trajetória de vida, delineiam-se outras questões que tocam diretamente na teoria psicanalítica, e criam nela grandes controvérsias.

Assim, os pressupostos analíticos de que as experiências precoces moldam o funcionamento psíquico são, por um lado, confirmados pela neurociência, que assinala o grau notável em que o desenvolvimento cerebral depende da experiência. São as interações com o meio ambiente que estimulam  a seleção dos repertórios de circuitos  dentro do cérebro.  E também, o cérebro está continuamente reformulando suas conexões neuronais.

Mas a neurociência problematiza os pressupostos analíticos, posto que modifica alguns deles. Um ponto interessante para a avaliação das posições no campo psicanalítico em torno de algumas controvérsias particularmente ilustrativas reside nas atuais teorias do desenvolvimento.

A partir dos estudos dos aspectos neuroquímicos e neuropsicológicos do funcionamento cerebral, as concepções de filogênese e de ontogênese têm sido profundamente repensadas. A noção biológica anterior de neotenia afirmava que no bebê humano predominavam a dependência total, o desamparo originário, a impotência motora que explicariam a importância do visual, a onipotência do pensamento mágico, o lugar do objeto, a natureza fundamentalmente conflitual do psiquismo. A idéia primeira do que se poderia chamar de "bebê psicanalítico" está ancorada nessa concepção.  Segundo ela, o bebê viveria no estádio primordial do princípio do prazer;    seria basicamente passivo, reagindo às situações e vivências maternas, e teria continuamente vivências de fusão e de clivagem.

Ora, existem duas teorias psicanalíticas do desenvolvimento que apresentam outras versões do bebê, apoiadas na etologia, na teoria de sistemas e na neurociência. São as propostas de John Bowlby ( 1973 ), com a teoria do apego - attachment - como laço social primário biologicamente determinado, e a concepção de Daniel Stern (1992) do  mundo interpessoal do bebê.

Stern afirma que o bebê é um testador da realidade em contínua  busca de afinação com o adulto ( interação esta que cria o sentido de compartilhar uma experiência afetiva);  de sensos do eu pré-verbais e muito anteriores à autoconsciência e à linguagem. Para Stern,  as interações entre adultos e bebês configuram-se como aprendizagem mútua, e não 'algo' a ser passado pelos pais; portanto,  tais interações não produzem um 'ser humano em geral', e sim uma criança pertencente a determinada cultura, por exemplo. Os processos de afinação são basicamente inconscientes e seletivos; por isso, os aspectos culturais ou familiares transmitidos às crianças não precisam esperar pela linguagem para serem transmitidos, e compõem uma 'identidade' do sujeito que na maior parte das vezes nem ele mesmo detecta.

Bowlby propõe que a formação e a manutenção do apego baseiam-se num conjunto de comportamentos existente no repertório de comportamentos de várias espécies de primatas, visando garantir a proteção aos membros menores e/ou mais fracos do grupo. Em estudos posteriores, Bowlby e Ainsworth começaram a afirmar que o desenvolvimento da personalidade ancora-se na interação da criança com o cuidador desde a primeira infância. Propõem uma tipologia das características dos bebês: seguros, inseguros-ansiosos, inseguros-evitativos, e os desorganizados-desorientados.

Pesquisas atuais em neurociência que se utilizam das propostas de Bowlby e de Stern  afirmam também a natureza social do desenvolvimento neuronal. Aqui, temos uma  outra controvérsia.  No modelo kleiniano,  a imaginação é uma resposta à privação : se o bebê não tem o seio, então ele imagina um seio. Bowlby e Stern vão afirmar que se trata exatamente do contrário: o bebê com um apego razoavelmente seguro é internamente livre e confiante para brincar; o bebê inseguro se agarra ao cuidador, e o desorganizado-desorientado  evita  brincar para poder sobreviver. No modelo de Stern, a capacidade de imaginar  é o resultado da satisfação, da adaptação, da segurança básica.

 Levando adiante este tema,  à medida que a criança cresce, as repetidas experiências com os cuidadores começariam a construir os modelos de apego no seu cérebro, como parte do papel desempenhado pelo córtex orbitofrontal (Schore, 1993) nas comparações e generalizações entre as experiências e entre as modalidades sensoriais, gerando  mapas ou modelos mentais cada vez mais complexos  dos relacionamentos humanos, e estabelecendo intrincadas relações entre tipos de apego, estruturas psíquicas e formas de narratividade ( Turner, 1997; Siegel, 1997). 

Alguns autores psicanalistas contemporâneos, além de Stern e seu grupo, também afirmam a existência de marcações biológicas estruturantes, juntamente com a variabilidade de caminhos e paradas alternativos e singulares na vida dos sujeitos; como cada indivíduo é único, configuram-se mapas idiossincráticos. Como os analisandos trazem consigo uma história de conflitos não resolvidos, para esses autores a teoria do desenvolvimento (no sentido do estudo dos possíveis caminhos tomados pelo indivíduo) poderia ser útil no entendimento dos padrões recorrentes de interação, dos conflitos inconscientes, dos padrões que se apresentam na transferência. A situação analítica poderia, desse ponto de vista, ser pensada como possibilidade de experimentar outras formas de se viver e de se entender. 

E aqui apresenta-se outra imensa controvérsia: a teoria das pulsões.

Primeiramente, começa a ser revista a definição de  instinto, pois a    plasticidade neuronal e a auto-organização na construção do sistema nervoso manifestam-se nas diferenças estabelecidas  nas valorações dadas a todas as manifestações dos organismos em geral, e do ser humano, em especial.  Faveret (1996) , num artigo exatamente sobre este tema, mostra como a visão do mundo animal, instintivo ( no paradigma evolucionista) como pré-determinado,  "pré-organizado, um mundo de fixidez e repetição quase imutáveis, do qual estariam ausentes a novidade, o imprevisto, a articulação inusitada, a criação de sentido "(p. 69) , é um mundo incompatível com a definição de instinto a partir da biologia contemporânea.  Estamos acostumados a pensar que o mundo humano se diferencia do mundo animal por sua radical indeterminação, expressa exatamente pelos adjetivos a que me referi: imprevisto, novidade, criação de sentido. Porém, esta indeterminação atualmente também é característica do mundo animal. Nas palavras de Faveret, "o mundo vivo também é um mundo totalmente marcado pela indeterminação, em que os 'possíveis', as 'contingências' e as 'circunstâncias' são os únicos eixos a orientar a atividade vital"(p. 69); a única determinação do ser vivo é a busca incessante de se manter viável.  Assim, a partir dessa transformação, os argumentos que abordam a distinção instinto/pulsão tornam-se muito mais complexos.

Além desse ponto mais geral, que envolve a  diferenciação psicanalítica entre instinto e pulsão, desdobra-se outro, que já tinha sido proposto na década de 60: o abandono da teoria das pulsões.  Vários autores, desde Bowlby e Kohut, por exemplo, até outros mais recentes, como   Arnold Modell ( 1993), Paolo Migone  e Giovanni Liotti (1998), afirmam que o conceito de pulsão está  ultrapassado pelas contribuições da neurociência, da etologia, das pesquisas com bebês e crianças, e da psicologia cognitiva  que  propõem a concepção de que os seres humanos buscam não somente reduzir pulsões sexuais e agressivas, mas também,  buscam objetos, atribuem sentido, testam crenças e assimilam novos esquemas mentais Propõem uma nova teoria,  utilizando diferentes forças motivacionais tais como: busca de objetos, apego, contato e conforto, exploração, curiosidade, competência, etc. Assim, a criança aqui seria  regulada por muitos sistemas motivacionais paralelos, ligados às relações interpessoais.

 A partir destas formulações,  Modell (1993) afirma a existência de uma crise conceitual na psicanálise, segundo ele,  causada por dois grandes problemas, dos quais o primeiro seria exatamente a teoria  das pulsões, considerada incompatível com a biologia contemporânea.  Tentando lidar com esse problema, alguns psicanalistas, segundo Modell,  afirmam que pulsão é um conceito psicanalítico, e não biológico. Mas assim desmentem a própria definição freudiana, que coloca a pulsão  como “conceito limítrofe entre o biológico e o psíquico”. Em segundo lugar, a teoria do self   e a teoria das relações de objeto trazem  conceituações totalmente diferentes da teoria das pulsões; então, como conciliá-las? Modell utiliza o conceito edelmaniano de “valor” evolucionário para substituir o conceito de pulsão.  Segundo Modell, esta extrapolação permite abranger tanto os sistemas homeostáticos do organismo como seu sistema de sentidos e preferências pessoais -  permitindo, portanto, abranger a psicologia do self. 

             Modell  também utiliza a teoria de Edelman para tentar responder à seguinte questão: em que consiste exatamente a transferência: é uma repetição do passado, ou uma nova criação? Para  ele, nem uma coisa, nem outra: a transferência só pode ser entendida como um paradoxo, tempo cíclico e não linear, onde existem relações extremamente complexas entre memórias e fantasias. As memórias são reconstruídas pela experiência e, ao mesmo tempo, o sujeito pode utilizar a fantasia para preencher as lacunas nos seus 'registros'.  Modell afirma, então, que a transferência apresenta múltiplos níveis de realidade, que lhe dão sua qualidade fugidia e a dificuldade de se dizer qual é a relação “real ‘do analisando com o analista.  Porém, o mais interessante para mim é que Modell  diz encontrar na teoria da seleção neuronal de Edelman uma confirmação inesperada das concepções freudianas de memória. Para  Edelman, memória é recategorização da experiência; assim, Modell arrisca-se  a explicar de uma maneira nova a função biológica da repetição e, especificamente,  o Nachtraglichkeit  ( a posteriori).  Além disso, Modell estuda o conceito de self ( 1993) numa perspectiva interdisciplinar que envolve a teoria das relações de objeto, psicologia do self, e neurociência ( novamente, a proposta de Edelman).

Cabe observar que as propostas de Modell  não são isentas de críticas;  uma delas seria que o autor busca substituir  conceitos da psicanálise por conceitos da teoria de Edelman, e não estabelecer uma relação entre as teorias.

Outro tema de interesse para o estudo de pontos   de articulação ou de controvérsia nas relações  da psicanálise com a neurociência, e que está em continuidade com o tema anterior é a concepção  de "eus sem eu" ( "selfless selves"), proposta por   Varela, e também por Edelman.  Para esses autores, a mente é fundamentalmente múltipla - não cindida, e certamente mais do que 'um estranho que habita em mim" , como expressão da  presença  do inconsciente. Para   estes autores, a mente é construída como o que  eles  chamam  de uma  "sociedade da mente" (expressão cunhada por Minsky, 1986),  composta por múltiplos agentes que emergem de acordo com as características e o contexto. Assim, a questão das múltiplas formas de cisão/fragmentação do sujeito - do ponto de vista da psicanálise -  seria entendida por Edelman, Damasio, Varela, Rosenfield (1992) como correspondendo a múltiplos sub-sistemas que se relacionam através de inúmeras vias e formas de conexão neuronal que estariam articuladas a um funcionamento denominado não-consciente  (até para distingui-lo do conceito psicanalítico de inconsciente).

 Varela associa explicitamente esta idéia às concepções da teoria das relações de objeto;  como sabemos, esta teoria afirma que o desenvolvimento psíquico se dá através da internalização de uma multiplicidade de aspectos das pessoas que são de alguma maneira importantes para o sujeito. Para essa teoria,  a experiência de si é sempre fluida, aberta, mutável, não existindo exatamente um eu unitário da experiência.

 Esta abordagem abre espaço para pensarmos o que pode ser considerado, usando a concepção psicanalítica, como inconsciente, diferenciando-o  -  ou não  - do  não-consciente: poderiam se superpor, ou seriam duas conceituações completamente diferentes? Nesse caso, qual seria o limite entre os dois sistemas? Intimamente relacionada a este aspecto é a redefinição da memória enquanto processo contínuo de reconstrução. A memória não subsiste intacta, esperando para ser trazida à consciência. Ao contrário, ela é reconstruída num processo contínuo. A concepção de múltiplos  sistemas de memória , inclusive a memória corporal, pode ser útil no entendimento dos transtornos de ansiedade: existiriam memórias conscientes e inconscientes, alojadas em sistemas que funcionam em paralelo, fornecendo tipos diferentes de informações relevantes para a experiência vivenciada por um sujeito. Como os sistemas funcionam em paralelo, tem-se uma situação bastante rica em desdobramentos na constituição da subjetividade.

 Pretendi apresentar para vocês alguns aspectos de como a pesquisa em torno das possibilidades de articulação e de controvérsia entre psicanálise e neurociência é alvo de muito interesse e polêmica. No quadro atual de reflexões, e circunscrevendo a problemática psicanalítica, parece que estas áreas de interesse estão organizadas em torno daquilo que, na neurociência,  1) corrobora ou não alguns conceitos psicanalíticos como as noções de pulsão, inconsciente, afeto, compulsão de repetição, transferência; e 2) o que complexifica estes conceitos, por exemplo, a questão da fragmentação do sujeito contemporâneo.

O debate interno à psicanálise - deve manter-se afastada da biologia? As explicações biológicas de Freud seriam 'fantasias'? e as dos psicanalistas contemporâneos? Corre-se o risco de reduzir a psicanálise à neurociência?  - permanece em aberto.

Por um lado, a neurociência tem  importância estratégica, por que é parte da agenda contemporânea, e reabre questões que pareciam encerradas.  Não se trata, entretanto, de substituições, mas sim, de os psis entrarem com firmeza nos debates atuais, repensando suas concepções.  Alguns conceitos estabelecidos por Freud, e desenvolvidos por seus seguidores, certamente devem ser reexaminados e articulados às perspectivas contemporâneas de conhecimento, sem medo de "desvirtuá-los". Além disso, não  é proveitoso recorrer-se a uma retórica de busca de legitimação do domínio 'psi'   afirmando-o contra  a neurociência.

Por outro lado, não proponho que a neurociência, e outras ciências  a ela ligadas, esteja mais próxima de um ideal objetivista de verdade.  Proponho, sim, que se reinterpretem as teorias mencionadas - inclusive a psicanálise -  a partir da complexa trama de agenciamentos que constituem a ciência como prática social.

Talvez estejamos precisando de  "desleitores fortes "de Freud, para podermos ir  adiante, sem medo de desvirtuar o passado,  para, como eu disse no início,   podermos superar nossa angústia da influência e ousarmos transformar  o saber precursor  de maneira criativa.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

 

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[1] Agradeço à prof'. Anamaria Ribeiro Coutinho, pelas sugestões fornecidas e pela crítica de parte desse texto.

[2] Doutoranda em Psicologia na PUC-Rio; professora auxiliar do Depto. de Psicologia da PUC-Rio; psicoterapeuta de orientação psicanalítica.

[3] Trata-se de listas de discussão em torno de artigos escolhidos, patrocinadas pelo International Journal of Psychoanalysis e pelo Journal of the American Psychoanalytic Association  Nestas discussões, nas quais qualquer pessoa interessada pode participar,  pode-se perceber as filiações e os tipos de argumentação dos psicanalistas de várias partes do mundo.

 

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