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Sigmund Freud: A Outra Estrada
Tradução: Ana Carolina P. Dantas de Mattos e Monah Winograd
Revisão: Flávia Sollero Estão sendo feitas demandas severas à unidade de minha personalidade para que eu tente e consiga me identificar com o autor do artigo sobre o gânglio espinhal do petromyzon. Contudo, eu devo ser ele e penso estar feliz com esta descoberta mais do que com outras feitas desde então. Sigmund
Freud para Karl Abraham 21 de setembro de 1924 Todos conhecem Freud como o pai da psicanálise, mas a maioria sabe pouco sobre os vinte anos (1876-1896) durante os quais ele foi primordialmente um neurologista e anatomista. O próprio Freud raramente se referiu a eles mais tarde. Porém, a sua “outra” vida — a neurológica — foi a precursora da sua vida psicanalítica e, talvez, uma chave essencial para ela. Uma antiga e duradoura paixão por Darwin, nos conta Freud no seu estudo autobiográfico (junto com o ensaio de Goethe ‘Sobre a Natureza’), o fizeram decidir tornar-se um estudante de medicina. Já no seu primeiro ano na universidade, freqüentou avidamente cursos sobre “Biologia e Darwinismo”, bem como palestras e aulas dadas pelo fisiologista Ernst Wilhelm von Brücke. Dois anos depois, ansioso por fazer algo concreto, uma pesquisa do tipo “mãos-a-obra”, Freud perguntou a Brücke se poderia trabalhar em seu laboratório. Embora, como Freud escreveria mais tarde, ele já tivesse sentido que o cérebro e a mente humanos poderiam ser os assuntos mais importantes de suas explorações, ele estava intensamente curioso, depois de ter lido Darwin, sobre as primeiras formas e origens dos sistemas nervosos, e desejava primeiramente ter uma noção de suas lentas evoluções. Brücke sugeriu que Freud observasse o sistema nervoso de um peixe muito primitivo, o Petromyzon, a lampreia — em particular as curiosas células “Reissner”, agrupadas próximas à medula espinhal. Essas células vinham atraindo a atenção desde que Brücke era estudante, quarenta anos antes, mas sua natureza e função nunca tinham sido compreendidas. Freud foi capaz de detectar as precursoras destas células na forma larval singular da lampreia e de demonstrar que elas eram homólogas às células ganglionares da espinha posterior de um peixe superior — uma descoberta significativa. (Esta assim-chamada larva Ammocoetes do Petromyzon é tão diferente da forma madura que foi, por muito tempo, considerada como sendo de um gênero separado, o Ammocoetes.) Depois, {a} Freud foi observar um sistema nervoso invertebrado, o do camarão de água-doce. Nesse momento, acreditava-se que os elementos nervosos do sistema nervoso dos invertebrados eram radicalmente diferentes dos vertebrados. Freud foi capaz de mostrar que eles eram, de fato, morfologicamente idênticos — e também que não eram os elementos celulares que eram diferentes em animais mais avançados, mas sim sua organização. Desta maneira, emergiu ali, já nas primeiras pesquisas de Freud, uma percepção darwiniana da evolução segundo a qual, usando os métodos mais conservadores (os mesmos elementos celulares anatômicos básicos), mais e mais sistemas nervosos complexos puderam ser construídos.[1]
Era natural que, no início da década
de 1880 — ele agora já tinha sua graduação médica — Freud se
voltasse para o campo da neurologia clínica. Mas, era igualmente crucial
para ele continuar também seu trabalho anatômico, olhando agora para os
sistemas nervosos humanos, o que ele fez no laboratório do
neuroanatomista e psiquiatra Theodor Meynert.[2]
Para Meynert (assim como para Flechsig e outros neuroanatomistas da época),
tal conjunção não parecia ser de todo estranha. Era entendida como uma
relação simples, quase mecânica, entre mente e cérebro na saúde e na
doença — da qual o opus magnum de Meynert de 1885, intitulado Psiquiatria,
pegou emprestado o subtítulo Um tratado clínico das doenças da parte
anterior do cérebro. Apesar da frenologia em si ter caído em descrédito, o impulso localizacionista ganhou nova vida em 1861, quando o neurologista Broca foi capaz de demonstrar que a perda altamente especializada da função da linguagem expressiva — a assim chamada afasia expressiva — se seguia a danos numa parte específica do cérebro (a terceira circunvolução frontal) no lado esquerdo. Outras correlações surgiriam rapidamente e, na metade dos anos de 1880, algo do sonho da frenologia parecia estar prestes a se realizar com a descrição de “centros” de linguagem expressiva, linguagem receptiva, percepção de cor, escrita, e muitas outras capacidades específicas. Meynert deleitou-se nesta atmosfera localizacionista— na verdade, ele próprio, depois de mostrar que os nervos auditivos se projetam para uma área específica do córtex cerebral (o Klangfeld, ou campo de som), postulou que avarias nesta área estavam presentes em todos os casos de afasia sensória. Freud, evidentemente, ficou inquieto com esta teoria da localização e, num nível mais íntimo, profundamente insatisfeito também, pois começava a sentir que todo o localizacionismo tinha uma qualidade mecânica, tratando o cérebro, o sistema nervoso, como um tipo de máquina engenhosa porém idiota, com uma combinatória de tipo ponto-a-ponto entre seus componentes elementares e suas funções, negando sua organização — e sua evolução e história. Durante este período (1882-1885), ele passou algum tempo nas alas do Hospital Geral de Viena e foi aqui que ele afiou suas habilidades como observador clínico e neurologista. Sua habilidade e potência para a narrativa, seu senso da importância de um caso histórico detalhado, são evidentes nos papéis clinicopatológicos que ele escreveu na época — um menino que morreu de hemorragia cerebral associada com escorbuto, um aprendiz de padeiro de dezoito anos com neurite múltipla aguda e uma mulher de trinta e seis anos com uma rara condição espinhal, siringomielia[3], que perdeu a sensação de dor e de temperatura, mas não a sensação de toque (uma dissociação causada por uma lesão circunscrita dentro da medula espinhal). Em 1886, após ter passado quatro meses com o grande neurologista Charcot em Paris, Freud retornou a Viena para estabelecer sua própria clínica neurológica. Não é inteiramente fácil reconstruir — a partir das cartas de Freud ou do vasto número de estudos e biografias sobre ele — exatamente em quê consistia para ele a sua “vida neurológica”. Ele via pacientes em seu consultório na Bergasse 19. Presumivelmente, uma mistura de pacientes que procuravam qualquer neurologista na época ou agora. Alguns com distúrbios, ou transtornos neurológicos cotidianos — ataques, tremores, neuropatias, AVCs, enxaquecas — outros com doenças funcionais — histerias, traços obssessivos-compulsivos e neuroses de vários tipos. Ele também trabalhou no Instituto de Doenças Infantis, onde dirigia uma clínica neurológica várias vezes na semana. (A experiência clínica que obteve lá o guiou para os livros pelos quais ele se tornou mais conhecido para seus contemporâneos, suas três monografias sobre paralisias cerebrais infantis de crianças. Elas foram muito respeitadas entre os neurologistas daquela época e ainda são, ocasionalmente, referidas até hoje). Como ele continuava com sua prática neurológica, a curiosidade de Freud, sua imaginação, seus poderes teorizadores, estavam na superfície, demandando tarefas intelectuais mais complexas e desafios. Suas primeiras investigações neurológicas, durante seus anos no Hospital Geral, foram muito bem feitas, porém eram convencionais. Agora, ponderando a questão mais complexa das afasias, ele se convencia de que era preciso uma visão diferente do cérebro. Uma visão mais dinâmica do cérebro estava tomando conta dele. Seria de grande interesse saber exatamente como e quando Freud descobriu o trabalho do neurologista inglês Hughlings Jackson, que, silenciosamente, obstinadamente, persistentemente, estava desenvolvendo uma visão evolucionista do sistema nervoso, imobilizado pela exaltação localizacionista em torno dele. Jackson, vinte anos mais velho do que Freud, mudou para uma visão evolucionista da natureza a partir da publicação de A origem das espécies de Darwin e da filosofia evolucionista de Herbert Spencer e, no início da década de 1860, propôs uma visão hierárquica do sistema nervoso, imaginando como ele devia ter evoluído dos níveis de reflexos mais primitivos, via séries de níveis cada vez mais elevados, para aqueles conscientes e de ação voluntária. Na doença, imaginava Jackson, sua seqüência era revertida, de modo que ocorresse uma involução ou dissolução ou ainda regressão e, com isso uma “liberação” das funções primitivas normalmente sob o controle de outras superiores. Enquanto as concepções de Jackson surgiram primeiramente em referência a certos ataques epiléticos (nós ainda nos referimos a estes ataques como “jacksonianos”), elas depois foram aplicadas a uma variedade de doenças neurológicas, inclusive na tentativa de entender sonhos, delírios, e insanidades. Em 1879, Jackson as aplicou ao problema da afasia, o que fascinou por muito tempo os neurologistas interessados na função cognitiva superior. Em sua monografia de 1891, Contribuição à concepção da afasia, doze anos depois, Freud repetidamente reconhece sua dívida com Jackson. Ele considera com riqueza de detalhes muitos dos fenômenos especiais que podem ser vistos nas afasias — a perda de novas línguas enquanto a língua materna é preservada; a preservação das palavras mais comumente usadas e das associações mais comumente praticadas; a preservação de séries de palavras (dias da semana etc.) mais do que de palavras sozinhas; as substituições verbais ou parafasias que podem ocorrer; e sobretudo as frases estereotipadas, aparentemente sem sentido, que por algumas vezes são o único resíduo de discurso os quais, talvez, como Jackson observou, fossem os últimos pronunciamentos do paciente antes de ele ter o ataque. Para Freud, assim como para Jackson, isto representava a “fixação” traumática (e daí em diante a repetição impotente) de uma proposição ou idéia — noção que assumiu importância crucial na sua teoria das neuroses. Além disso, Freud observou que muitos sintomas da afasia pareciam compartilhar associações de tipo psicológico mais do que de tipo fisiológico. Assim, erros verbais nas afasias, as parafasias, surgiriam das associações de palavras — palavras de sons ou significados semelhantes tendem a substituir a palavra correta. Algumas vezes, a substituição é de natureza mais complexa, não sendo compreensível como uma homônima ou homófona, mas surgindo de alguma associação particular que foi esquecida no passado individual. (Aqui existe uma premonição das concepções freudianas das parafasias e parapraxias como interpretáveis, como tendo sentido histórico e pessoal). Assim, como ele enfatiza aqui, se quisermos entender as parafasias, nós devemos olhar, não tanto para a anatomia ou fisiologia do cérebro, mas para a natureza das palavras e suas associações (formais e pessoais), para os universos da linguagem e da psicologia, o universo do sentido.
Seu estudo sobre a afasia
convenceu Freud de que as manifestações complexas da afasia eram
incompatíveis com qualquer noção simplista de imagens de palavras
hospedadas nas células de um “centro”: “... sob a influência
dos ensinamentos de Meynert, foi
desenvolvida a teoria de que o aparato de linguagem consiste em centros
corticais distintos. Supõem-se que suas células contenham imagens de
palavras (conceitos de palavras ou impressões de palavras). Diz-se que
estes centros estão separados por territórios corticais sem função e
conectados entre si por extensões associativas. Pode-se primeiramente
levantar a pergunta se tal pressuposição é realmente correta e mesmo
permissível. Eu não acredito que possa ser”. Ao contrário de centros — depósitos estáticos de imagens — Freud escreve que deve-se pensar em termos de “campos corticais”, extensas áreas do córtex dotadas de uma variedade de funções, algumas facilitando uma à outra, outras inibindo. Não se pode entender os fenômenos das afasias — continua Freud — a não ser que se pense neles a partir de uma dinâmica em termos jacksonianos. Além do mais, tais sistemas não estão todos no mesmo “nível”. Existe — ele propõe — uma estrutura vertical para o discurso, com representações repetidas ou expressões de uma função em vários níveis hierárquicos — daí as “regressões” características da afasia, a (por vezes explosiva) emergência do discurso primitivo e emocional quando o discurso proposicional de nível superior se tornou impossível. Freud foi o primeiro a trazer essa noção jacksoniana de regressão para a neurologia e o primeiro a importá-la para a psiquiatria. De fato, pode-se sentir que o uso freudiano do conceito de regressão no Afasias preparou o caminho para o seu uso mais extenso e poderoso na psiquiatria. (Imagina-se o que Hughlings Jackson poderia ter pensado da vasta e surpreendente expansão desta idéia mas, como ele viveu em 1911, nós não sabemos se ele ouviu falar de Freud alguma vez).[4] De fato, Freud vai além Jackson quando dá a entender que no cérebro não existem centros ou funções autônomos ou isolados mas, ao contrário, sistemas de realização de metas cognitivas — sistemas com muitos componentes e que podem ser criados ou grandemente modificados pelas experiências do indivíduo. Assim, dado que a capacidade de ler e escrever não é inata, não seria útil pensar num “centro” para a escrita (como seu amigo e colega formal Exner postulou). Mais exatamente, deve-se pensar num sistema ou em sistemas sendo construídos no cérebro enquanto a pessoa aprende (esta foi uma admirável antecipação da noção de “sistemas funcionais” desenvolvida por A. R. Luria, o fundador da neuropsicologia, cinqüenta anos depois).
Em acréscimo a estas considerações
empíricas e evolucionárias, Freud pôs muita ênfase nas considerações
epistemológicas — a confusão entre categorias, ou como ele entende, a
promíscua mistura entre o físico e o mental: “Verossimilmente, a
cadeia de processos fisiológicos no sistema nervoso não está em relação
de causalidade com os processos psíquicos. Os processos fisiológicos não
cessam mal se iniciam os psíquicos, pelo contrário..., a cada seu
elemento (ou a cada um dos elementos isoladamente) corresponde um fenômeno
psíquico. O psíquico é assim um processo paralelo ao fisiológico (uma
“concomitância dependente”).[5] Aqui Freud apóia e elabora
a visão de Jackson: “Eu não me preocupo com o modo de conexão
entre a mente e a matéria”, Jackson escreveu. “Basta assumir um
paralelismo”. Processos psicológicos têm suas próprias leis, princípios, autonomias, coerências; e tudo isso deve ser examinado independentemente, sem relação com quaisquer processos fisiológicos que possam estar ocorrendo em paralelo. Desta forma, a epistemologia de Jackson sobre o paralelismo ou a concomitância deu uma liberdade enorme para Freud prestar atenção ao fenômeno com detalhes sem precedentes, para teorizar, para procurar um entendimento psicológico puro sem qualquer necessidade prematura de correlacioná-los com processos fisiológicos (apesar dele nunca ter duvidado de que tais processos concomitantes devessem existir). Como as opiniões de Freud relativamente à afasia evoluíram, passando do modo de pensar em termos de “lesão” ou “centro” para uma visão dinâmica do cérebro, houve um movimento paralelo nas suas visões sobre a histeria. Charcot estava convencido (e primeiro convenceu Freud) de que, mesmo que lesões anatômicas não pudessem ser demonstradas em pacientes com paralisias histéricas, deveria haver, todavia, uma “lesão psicológica” (um état dynamique) localizada na mesma parte do cérebro onde, numa paralisia neurológica estabelecida, uma lesão anatômica (um état statique) seria encontrada. Desta maneira, como Charcot concebeu, paralisias histéricas eram idênticas fisiologicamente aos sintomas orgânicos — e a histeria deveria ser vista essencialmente como um problema neurológico, uma reatividade peculiar especial de certos indivíduos patologicamente sensíveis ou “neuropatas”. Para Freud, ainda encharcado por um pensamento anatômico e neurológico e muito sob o encantamento de Charcot, isto pareceu inteiramente aceitável. Era extremamente difícil para ele ‘des-neurologizar’ seu pensamento mesmo neste novo domínio ainda cheio de mistérios. Mas, em um ano, ele ficou menos certo. Toda a classe de neurologistas estava em conflito sobre a questão da hipnose ser física ou mental. Em 1889, Freud fez uma visita ao contemporâneo de Charcot, Bernheim, em Nancy — Bernheim tinha proposto uma origem psicológica para a hipnose e acreditava que seus resultados poderiam ser explicados em termos de idéias ou somente de sugestão — e isto parece ter influenciado Freud profundamente. Ele começou a se distanciar da noção de Charcot de uma lesão circunscrita (se fisiológica) em paralisias histéricas para um mais vago, porém mais complexo, senso de mudanças fisiológicas distribuídas entre inúmeras partes diferentes do sistema nervoso, uma visão que pareava as idéias (insights) emergentes do Afasia. Charcot sugeriu a Freud que tentasse esclarecer a controvérsia fazendo um exame comparativo entre paralisias orgânicas e histéricas.[6] Freud estava bem equipado para fazê-lo, pois quando retornou a Viena e iniciou sua clínica particular, ele começou a receber vários pacientes com paralisias histéricas e, é claro, muitos pacientes com paralisias orgânicas também e começou a empenhar-se em elucidar seus mecanismos para si próprio. Em 1893, ele rompeu completamente com todas as explicações orgânicas da histeria. A lesão nas paralisias histéricas tinha que ser completamente independente do sistema nervoso pois, nestas paralisias e em outras manifestações, a histeria comporta-se como se anatomia não existisse ou como se não soubesse nada a respeito. Então, este foi o momento da travessia, do trânsito, quando (de certo modo) Freud desistiu da neurologia e das noções de bases neurológicas ou fisiológicas para estados psiquiátricos e passou a olhar para isso exclusivamente em seus próprios termos. Ele estava prestes a fazer uma tentativa final altamente teórica de delinear as bases neurais dos estados mentais — em seu Projeto para uma psicologia científica — e nunca desistiu da noção de que deveria haver, em última instância, um “rochedo” biológico para todas as condições e teorias psicológicas. Porém, para propósitos práticos, ele sentiu que poderia, e deveria, deixar esta noção de lado por algum tempo. Apesar de Freud ter se voltado cada vez mais para seu trabalho psiquiátrico no final da década de 1880 e durante os anos 1890, ele continuou a escrever pequenos textos ocasionais sobre seu trabalho neurológico. Em 1888, publicou a primeira descrição de hemianopsia[7] em crianças; em 1895, um artigo sobre uma neuropatia compressora fora do comum (meralgia parestesica[8]), uma condição da qual ele próprio sofreu e que observou em muitos pacientes sob seus cuidados. Freud também sofreu de enxaqueca clássica e viu muitos pacientes com isto em sua prática neurológica. Em certo momento, aparentemente considerou escrever um pequeno livro sobre esse assunto também mas, na ocasião, não fez mais do que um sumário de dez “Tópicos Estabelecidos”, os quais ele mandou para seu amigo Wilhelm Fliess em abril de 1895. Há um forte tom psicológico e quantitativo neste sumário, “uma economia de forças nervosas” que insinuava uma explosão extraordinária de pensamento e de escrita que estava para ocorrer mais tarde naquele ano.
É curioso e intrigante que, até
com personagens como Freud, que publicou tanto, a idéia mais sugestiva e
previsível só pôde aparecer no decurso
de suas cartas privadas e diários. Nenhum período na vida de Freud foi
mais produtivo de tais idéias como os anos “secretos”, em meados de
1890, quando os pensamentos que ele estava incubando nele mesmo eram
compartilhados somente com Fliess e com mais ninguém. No final de 1895,
Freud lançou-se numa ambiciosa tentativa de reunir todas as suas observações
psicológicas e seus ‘insights’, estabelecendo-os numa fisiologia
plausível e, neste ponto, suas cartas para Fliess são exuberantes, quase
extasiantes: “Numa noite laboriosa da semana passada,... as barreiras
ergueram-se subitamente, os véus caíram e tudo se tornou transparente
— desde os detalhes da neurose até os determinantes da consciência.
Tudo pareceu encaixar-se, as engrenagens se entrosaram e tive a impressão
de que a coisa passara realmente a ser uma máquina que logo funcionaria
sozinha... Naturalmente, mal consigo conter minha alegria. Porém, esta visão na qual tudo parecia se conectar, esta visão de um modelo completo do cérebro e da mente que se apresentou a Freud com uma lucidez quase reveladora não é nem um pouco fácil de compreender agora (e na verdade o próprio Freud escreveu, apenas alguns meses depois, “Não entendo mais o estado mental em que maquinei a psicologia;...”.[9] Houve uma discussão intensa sobre este Projeto para uma psicologia científica, como era chamado agora (o título do trabalho de Freud era “Uma psicologia para neurologistas”). O Projeto é de difícil leitura, parte por conta da dificuldade intrínseca e originalidade de muitos de seus conceitos, parte porque Freud usa termos obsoletos e às vezes idiossincráticos, os quais temos que traduzir em termos mais familiares, parte porque foi escrito numa velocidade furiosa num tipo de taquigrafia e parte porque não foi destinado aos olhos de ninguém mais além dos seus. Além disso, o Projeto ainda reúne, ou tenta reunir, os domínios da memória, da atenção, da consciência, da percepção, dos desejos, dos sonhos, da sexualidade, da defesa, da repressão e dos processos de pensamentos primários e secundários (como ele iria chamá-los) num quadro coerente singular da mente para fundar todos eles numa estrutura fisiológica básica, constituída de diferentes sistemas de neurônios com interações e “barreiras de contato” modificáveis e estados de excitação neural livres e saltitantes. Embora a linguagem do Projeto seja inevitavelmente aquela da época de 1890, várias de suas noções mantiveram (ou assumiram) relevância admirável para muitas idéias correntes em neurociência — o que causou seu reexame por Karl Pribram e Merton Gill, entre outros. Pribram e Gill, na verdade, chamam o Projeto de “pedra Rosetta” para aqueles que desejam fazer conexões entre a neurologia e a psicologia, muitas de suas idéias podendo agora ser examinadas experimentalmente de uma maneira impossível na época em que foi formulado. A natureza da memória ocupou Freud do início ao fim — a afasia era vista como um tipo de esquecimento (em suas anotações ele observou que um sintoma precoce em enxaquecas era freqüentemente o esquecimento de nomes próprios). Ele viu uma patologia da memória como central na histeria (“A histérica sofre principalmente de reminiscências”) e, no Projeto, tentou explicar as bases fisiológicas da memória em vários níveis. Um pré-requisito fisiológico para memória, como Freud postulou, era um sistema de “barreiras de contato” entre certos neurônios — também chamado de sistema psi (isso foi uma década antes de Sherrington ter dado às sinapses o seu nome). As barreiras-de-contato de Freud eram capazes de facilitação ou inibição seletivas, permitindo assim mudanças neuronais permanentes as quais corresponderiam à aquisição de novas informações e novas memórias — uma teoria da aprendizagem basicamente similar àquela que Donald Hebb proporá na década de 1940 e que é hoje sustentada por descobertas experimentais.
Num nível superior, Freud
considerava memória e motivação como sendo inseparáveis. Recordações
não poderiam ter força, nem significado, a não ser que estivessem
aliadas a alguma motivação — as duas deveriam sempre formar um par. No
Projeto, como Pribram e Gill enfatizaram, “Tanto a memória
como a motivação são processos psi baseados em facilitações
seletivas.. as. memórias [são] um aspecto retroativo dessas facilitações”.[10] Assim, para Freud, embora requeresse tais traços neuronais locais (do tipo que nós agora chamamos de potencialização de longo prazo), lembrar ia muito além deles e era algo essencialmente dinâmico, transformador, reorganizador durante todo o curso da vida. Nada era mais central para a formação da identidade do que a força da memória; nada mais garantia a continuidade de alguém como indivíduo. Mas, a memória se modifica e ninguém foi mais sensível do que Freud para o potencial reconstrutivo da memória, o fato de que as memórias são continuamente trabalhadas e que sua essência, na verdade, é de recategorização. Arnold Modell dedicou-se a este ponto com a atenção voltada para o potencial terapêutico da psicanálise e, mais genericamente, para a formação de um self privado. Ele citou uma carta que Freud escreveu para Fliess em dezembro de 1896, na qual ele usa o termo Nachträglichkeit, um termo normalmente mal traduzido que Modell sente ser mais precisamente decodificado como “retranscrição”.
“Como você sabe [Freud
escreveu], estou trabalhando na hipótese de que nosso mecanismo psíquico
tenha-se formado por um processo de estratificação: o material presente
sob a forma de traços mnêmicos fica sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo
de acordo com novas circunstâncias — a uma retranscrição. Assim...
a memória não se faz presente de uma só vez, e sim ao longo de diversas
vezes, [e] que é registrada em vários tipos de indicações... Os
registros sucessivos representam conquistas psíquicas de fases sucessivas
da vida... Explico as peculiaridades das psiconeuroses através da suposição
de que essa tradução não se tenha dado no tocante a uma parte do
material,...” O potencial para terapia, para mudança, portanto, encontra-se na capacidade de exumar tal material “fixo” no presente de modo que possa ser submetido ao processo criativo de retranscrição e, dessa forma, permitir que o indivíduo estagnado cresça novamente e se modifique. Tais remodelações são não somente cruciais, como Modell acredita, no processo terapêutico, como são parte constante da vida humana não somente para a “atualização” diária (uma atualização que aqueles com amnésia não podem fazer) mas para as principais (e às vezes cataclísmicas) transformações, as reavaliações de todos os valores (como Nietzsche diria) as quais são necessárias para a evolução de um self particular único.
Que a memória construa e
reconstrua eternamente, foi uma conclusão central dos estudos
experimentais executados por Frederic Bartlett em 1930. Barlett mostra, em
tese, muito claramente (e às vezes muito divertidamente) como cada nova
contação — quer para outros, ou para si mesmo — de uma estória, a
memória de uma estória, ou de uma figura, é continuamente modificada. Não
há nunca, como Barlett intui, uma reprodução mecânica simples da memória
mas, sempre, uma reconstrução individual e imaginativa. Desta forma, ele
escreve: “Lembrar não é a re-excitação de inumeráveis traços
fixos, mortos e fragmentários. É uma reconstrução ou construção
imaginativa, edificada a partir da relação de nossa atitude para com
toda uma massa ativa de reações ou experiências organizadas do passado
e para com um pequeno detalhe relevante o qual comumente aparece na forma
de imagem ou linguagem. Assim, lembrar quase nunca é realmente exato, até
nos casos mais rudimentares de recapitulações de hábitos, e não é tão
importante que não o seja”. Nos últimos trinta anos do século vinte, todo o tom da neurologia e da neurociência se voltou para tal visão construtivista e dinâmica do cérebro, uma percepção que mesmo nos níveis mais elementares — como por exemplo no “preenchimento” de um ponto cego ou escotoma, ou a visão de uma ilusão visual, assim como Richard Gregory e V. S. Ramachandran demonstraram — o cérebro constrói uma hipótese ou amostra ou cena plausíveis. Gerald Edelman sobretudo — operando com os dados da neuroanatomia e da neurofisiologia correntes, da embriologia e da biologia evolucionista, do trabalho clínico e experimental e da modelagem sintética neural — criou um modelo neurobiológico mais detalhado da mente. Nele, a função central do cérebro é precisamente a de construir categorias — primeiro perceptual, depois conceitual — e a de um processo ascendente, uma “escalada” onde, através de recategorizações repetidas em níveis cada vez mais elevados, a consciência é finalmente alcançada. Assim, cada percepção é uma criação para Edelman, e cada memória, todo o lembrar é re-categorização, recriação.[11] Tais categorias, segundo Edelman, dependem dos “valores” do organismo, aqueles vieses ou disposições (parcialmente inatos, parcialmente aprendidos) que, para Freud, foram caracterizados como “impulsos”, “instintos” e “afetos”. Assim, a “retranscrição” se torna o modelo para a atividade mais fundamental da mente-cérebro. Aqui, afinação entre as concepções de Freud e Edelman é impressionante – e aqui, pelo menos, tem-se a impressão de que psicanálise e neurobiologia podem se sentir totalmente em casa uma com a outra, apoiando-se congruente e mutuamente. E pode ser que nesta equação entre “Natchträglichkeit” e “recategorização” vejamos um sinal de como dois universos aparentemente disparatados — os universos da significação humana e da ciência natural — podem se aproximar. Ernest Jones falou de Freud como “o Darwin da mente” e Edelman, em seu último livro sobre darwinismo neural, dedica-o a memória de Darwin e de Freud. E não é “somente” ao Freud da psicanálise, mas ao Freud que passou os primeiros vinte anos de sua vida adulta como neuroanatomista, neurologista clínico, e neuro-teórico — e colocou as fundações sobre as quais a psicanálise pode ser erigida.
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to the localizacionist tradition’, International Journal of
Psycho-Analysis, 67, 397-415
[1] Nesta época, era geral a percepção de que o sistema nervoso era um synctium, uma massa contínua de tecido nervoso. E foi só no final das décadas de 1880 e 1890, através dos esforços de Cajal e Waldeyer, que a existência de células nervosas discretas — os neurônios — foi evidenciada. Contudo, Freud chegou bem perto de descobrir isso nos seus primeiros estudos. Que ele não tenha expressado seus pensamentos de modo completamente explícito na época, não tendo ganho nem um pouco da fama que foi para Waldeyer e Cajal, foi depois fonte de mortificação para ele. [2] Freud publicou vários estudos neuroanatômicos enquanto esteve no laboratório de Meynert, focando especialmente nas regiões e nas conexões do tronco cerebral. Freqüentemente, chamou esses estudos anatômicos de seu trabalho científico “real” e, subseqüentemente, considerou escrever um texto genérico sobre anatomia cerebral — mas, o livro nunca foi finalizado e somente uma versão muito condensada dele foi publicada no Handbuch de Villaret. [3] [N.T.: Doença nervosa causada por cavidades na medula espinhal e que se caracteriza por distúrbios da sensibilidade ao calor e à dor e atrofias musculares.] [4] Se um estranho silêncio ou uma cegueira acompanharam o trabalho de Hughlings Jackson (seus Selected Writings foram publicados em forma de livro somente em 1931-32), uma negligência similar acompanhou o livro de Freud sobre a afasia. Mais ou menos ignorado na publicação, A interpretação das afasias permaneceu virtualmente desconhecido e indisponível por muitos anos — mesmo a maior monografia de Head sobre a afasia, publicada em 1926, não faz qualquer referência a ele — e foi traduzido em inglês somente em 1953. O próprio Freud falou do Afasia como “um respeitável fracasso”, contrastando-o com a recepçâo de seu livro mais convencional sobre as paralisias cerebrais infantis: “Há algo cômico sobre a incongruência entre a estimativa de si mesmo e a de outras pessoas sobre seu trabalho. Olhe para meu livro sobre diplegias que eu reuni quase casualmente, com o mínimo de interesse e empenho. Foi um grande sucesso... Mas, para as coisas realmente boas, como ‘Afasia’, ‘Idéias obsessivas’, que aparentemente virão a publico em breve, e a etiologia e teoria das neuroses a caminho, eu não posso esperar mais do que um respeitável fracasso”. [5] [N.T.: Freud, S. (1891) A interpretação das afasias. Lisboa: Edições 70, 1977, pág. 56] [6] O mesmo problema foi sugerido por Babinski, outro jovem neurologista freqüentador da clínica de Charcot (e que mais tarde se tornou um dos mais famosos neurologistas da França). Embora Babinski concordasse com Freud quanto à distinção entre paralisias orgânicas e histéricas, depois ele veio a considerar, ao examinar soldados feridos na Primeira Guerra Mundial, que havia “um terceiro domínio”: paralisias, anestesias, e outros problemas neurológicos baseados, não em lesões anatomicamente localizadas, nem em “idéias”, mas em amplos “campos” de inibição sináptica na medula espinhal e noutros lugares. Babinski falava aqui de uma “síndrome fisiopática”. Tais síndromes — que podiam suceder forte trauma físico ou procedimentos cirúrgicos — confundiam os neurologistas desde que Weir Mitchell as descreveu pela primeira vez na Guerra Civil, pois podiam incapacitar áreas difusas do corpo que não têm nem inervações específicas, nem significação afetiva. [7] [N.T.: Perda de uma metade do campo visual de um olho ou dos dois; hemiopia.] [8] [N.T.: Dores nas coxas relativas ao disturbio nervoso caracterizado por sensações anormais e alucinações sensoriais.] [9] Freud nunca recuperou o manuscrito das mãos de Fliess. O texto foi dado como perdido até 1950, quando finalmente foi encontrado e publicado — embora o que tenha sido encontrado fosse somente um fragmento dos muitos rascunhos que Freud escreveu em 1895. [10] Freud sublinhou que a inseparabilidade entre memória e motivação abria a possibilidade de entendimento de certas ilusões de memória baseadas na intencionalidade: a ilusão de ter escrito para alguém, por exemplo, quando isto não aconteceu, embora se tenha tido a intenção de; ou de ter tomado banho quando simplesmente só se teve a intenção de fazê-lo. Nós nunca temos tais ilusões a não ser que tenham sido precedidas de intenção. [11] Existem, claro, inúmeras áreas na neurociência e na neurobiologia além daquela da memória, onde a influência de Freud, direta ou indireta, foi profunda. São marcadas as analogias entre psicanálise e neuropsicologia, como foi discutido por Solms e Saling. O próprio A. R. Luria era fascinado pelo trabalho do jovem Freud, e escreveu para ele em 1922 a respeito da nova Sociedade Psicanalítica que ele fundou em Kazan. Luria estava ansioso, como ele escreveu em sua autobiografia, The Making of Mind, para receber uma resposta cortês do grande homem, tendo endereçado sua carta para o “Sr. Presidente”, e pedindo a ele permissão para traduzir alguns de seus trabalhos para o russo. |
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