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A questão “Que é a psicologia?” parece mais perturbadora para o psicólogo do que é, para o filósofo, a questão “Que é a filosofia?”. Porque, para a filosofia, a questão de seu sentido e de sua essência a constitui, bem mais do que define uma resposta a esta questão. O fato de que a questão renasça incessantemente, na falta de uma resposta satisfatória, é, para quem gostaria de poder se chamar filósofo, uma razão de humildade e não uma causa de humilhação.
Mas, para a psicologia, a questão de
sua essência, ou mais modestamente de seu conceito, coloca em questão
também a própria existência do psicólogo, na medida em que, por não poder
responder exatamente sobre o que é, tornou-se bastante difícil para ele
responder sobre o que faz. Ele não pode, então, procurar, senão numa
eficácia sempre discutível, a justificação de sua importância de
especialista, importância que não desagradaria absolutamente a alguns que
ela originasse no filósofo um complexo de inferioridade. Ao dizer da
eficácia do psicólogo que ela é discutível, não se quer dizer que ela é
ilusória; quer-se simplesmente observar que esta eficácia está sem dúvida
mal fundada, enquanto não se fizer prova de que ela é devida à aplicação
de uma ciência, isto é, enquanto o estatuto da psicologia não estiver
fixado de tal maneira que se deva considerá-la como mais e melhor do que
um empirismo[1]
composto, literariamente codificado para fins de ensinamento. De fato, de
muitos trabalhos de psicologia, se tem a impressão de que misturam a uma
filosofia sem rigor uma ética sem exigência e uma medicina sem controle.
Filosofia sem rigor, porque eclética sob pretexto de objetividade; ética
sem exigência, porque associando experiências etológicas[2]
elas próprias sem crítica, a do confessor, do educador, do chefe, do juiz,
etc.; medicina sem controle, visto que, das três espécies de doenças, as
mais ininteligíveis e as menos curáveis, doenças da pele, doença dos
nervos e doenças mentais, o estudo e o tratamento das duas últimas
forneceram sempre à psicologia observações e
hipóteses. Portanto,
pode parecer que, perguntando “Que é a psicologia?”, se coloca uma
pergunta que não é nem impertinente nem
fútil. Procurou-se,
durante muito tempo, a unidade característica do conceito de uma ciência
na direção de seu objeto. O objeto ditaria o método utilizado para o
estudo de suas propriedades. Mas era, no fundo, limitar a ciência à
investigação de um dado, à exploração de um domínio. Quando se tornou
claro que toda ciência se dá mais ou menos seu dado e se apropria, assim,
daquilo que se chama seu domínio, o conceito de uma ciência
progressivamente fez valer mais seu método do que seu objeto. Ou, mais
exatamente, a expressão “objeto da ciência” recebeu um sentido novo. O
objeto da ciência não é mais somente o domínio específico dos problemas,
dos obstáculos a resolver, é também a intenção e o alvo do sujeito da
ciência; é o projeto específico que constitui como tal uma consciência
teórica. À questão
“Que é a psicologia?” pode-se responder fazendo aparecer a unidade de seu
domínio, apesar da multiplicidade dos projetos metodológicos. É a este
tipo que pertence a resposta brilhantemente dada pelo Professor Daniel
Lagache, em 1947, a uma questão colocada, em 1936, por Edouard Claparède[3].
A unidade da psicologia é aqui procurada na sua definição possível como
teoria geral da conduta, síntese da psicologia experimental, da psicologia
clínica, da psicanálise, da psicologia social e da
etnologia. Observando
bem, no entanto, se diz que talvez esta unidade se parece mais com um
pacto de coexistência pacífica concluído entre profissionais do que com
uma essência lógica, obtida pela revelação de uma constância numa
variedade de casos. Das duas tendências entre as quais o Professor Lagache
procura um acordo sólido, a naturalista (psicologia experimental) e a
humanista (psicologia clínica), tem-se a impressão que a segunda lhe
parece pesar mais. É o que explica, sem dúvida, a ausência da psicologia
animal nesta revisão das partes em litígio. Certamente, vê-se bem que ela
é compreendida na psicologia experimental — que é em grande parte uma
psicologia dos animais — mas ela é aí enfeixada como material ao qual
aplicar o método. E, na verdade, uma psicologia não pode ser chamada
experimental senão em razão de seu método e não em razão de seu objeto.
Enquanto
que, apesar das aparências, é pelo objeto mais do que pelo método que uma
psicologia é chamada clínica, psicanalítica, social, etnológica. Todos
estes adjetivos são indicativos de um só e mesmo objeto de estudo: o
homem, ser loquaz ou taciturno, ser sociável ou insociável. A partir
disso, pode-se rigorosamente falar de uma teoria geral da conduta,
enquanto não se tiver resolvido a questão de saber se há continuidade ou
ruptura entre linguagem humana e linguagem animal, sociedade humana e
sociedade animal? É possível que, neste ponto, caiba, não à filosofia,
decidir, mas à ciência, de fato a várias ciências, inclusive à psicologia.
Mas, então, a psicologia não pode, para se definir, prejulgar aquilo a que
ela é chamada a julgar. Sem o que é inevitável que, se propondo ela
própria como teoria geral da conduta, a psicologia faça sua alguma idéia
do homem. É preciso, então, permitir à filosofia perguntar à psicologia de
onde ela tira esta idéia e se não seria, no fundo, de alguma
filosofia. Nós
gostaríamos de tentar, porque não somos um psicólogo, abordar a questão
fundamental colocada por um caminho oposto, isto é, pesquisar se é ou não
a unidade de um projeto que poderia conferir sua unidade eventual às
diferentes espécies de disciplinas ditas psicológicas. Mas, nosso processo
de investigação exige um recuo. Pesquisar em que os domínios se recobrem,
pode-se fazer pela sua exploração separada e sua comparação na atualidade
(uma dezena de anos no caso do Professor Lagache). Pesquisar se os
projetos se encontram, pede que se destaque o sentido de cada um deles,
não quando ele se perdeu no automatismo da execução, mas quando ele surge
da situação que o suscita. Procurar uma resposta para a questão “Que é a
psicologia?” se torna para nós a obrigação de esboçar uma história da
psicologia, mas, bem entendido, considerada somente nas suas orientações,
em relação com a história da filosofia e das ciências, uma história
necessariamente teleológica[4],
visto que destinada a veicular, até a questão colocada, o sentido
originário suposto das diversas disciplinas, métodos ou empreendimentos,
cujo disparate atual legitima esta questão.
I - A psicologia como ciência natural
Uma vez que
a psicologia significa etimologicamente ciência da alma, é notável que uma
psicologia independente esteja ausente, em idéia e de fato, dos sistemas
filosóficos da antigüidade, onde, no entanto, a psiquê, a alma, é tida
como um ser natural. Os estudos relativos à alma se encontram divididos
entre a metafísica[5],
a lógica e a física. O tratado aristotélico Da alma é na realidade um tratado
de biologia geral, um dos escritos consagrados à física. Segundo
Aristóteles (384-322 A. C.)[6],
os Cursos de filosofia do começo no século XVII tratam .ainda da alma num
capítulo da Física[7].
O objeto da física é o corpo natural e organizado, tendo a vida em
potência, portanto, a física trata da alma como forma do corpo vivo, e não
como uma substância separada da matéria. Deste ponto de vista, um estudo
dos órgãos do conhecimento, isto é, dos sentidos exteriores (os cinco
sentidos usuais) e dos sentidos interiores (senso comum, fantasia,
memória), não difere em nada do estudo dos órgãos da respiração ou da
digestão. A alma é um objeto natural de estudo, uma forma da hierarquia
das formas, mesmo se sua função essencial é o conhecimento das formas. A
ciência da alma é uma província da filosofia, no seu sentido originário e
universal de teoria da natureza. É a esta
concepção antiga que remonta, sem ruptura, um aspecto da psicologia
moderna: a psicofisiologia[8]
— considerada durante muito tempo como psiconeurologia exclusivamente
(mas, atualmente, além disso, como psico-endocrinologia) — e a
psicopatologia[9]
como uma disciplina médica. Sob esta relação, não parece supérfluo lembrar
que, antes das duas revoluções que permitiram o avanço da fisiologia
moderna, a de Harvey e a de Lavoisier (1743-1794)[10],
uma revolução de não menos importância que a teoria da circulação ou da
respiração é devida a Galeno de Pérgamo[11],
quando ele estabeleceu que é o cérebro, e não o coração, que é o órgão da
sensação e do movimento, e a sede da alma. Galeno funda verdadeiramente
uma filiação ininterrupta de pesquisas, pneumatologia[12]
empírica durando séculos, cuja peça fundamental é a teoria dos espíritos
animais[13],
desprestigiada e substituída no fim do século XVIII pela
eletro-neurologia. Ainda que
decididamente pluralista na sua concepção das relações entre funções
psíquicas e órgãos encefálicos, Gall (1758-1828)[14]
procede diretamente de Galeno e domina, apesar de suas extravagâncias,
todas as pesquisas sobre as localizações cerebrais, durante os sessenta
primeiros anos do século XIX, até Broca (1824-1880)[15],
inclusive. Em suma, como psicofisiologia e psicopatologia, a psicologia
remonta ainda atualmente ao século II.
II - A
psicologia como ciência da subjetividade
O declínio
da física aristotélica, no século XVII, marca o fim da psicologia como
para-física, como ciência de um objeto natural, e correlativamente, o
nascimento da psicologia como ciência da subjetividade. Mas, esta
responsabilidade é, aos olhos do físico, uma culpabilidade. A psicologia
se constitui, pois, como um empreendimento de desculpa do espírito. Seu
projeto é o de uma ciência que, face à física, explica porque o espírito
é, por natureza, obrigado a enganar inicialmente a razão relativamente à
realidade. A psicologia se faz física do sentido externo, para dar conta
dos contra-sentidos de que a física mecanicista acusa o exercício dos
sentidos na função de
conhecimento.
a) A física do sentido externo A
psicologia, ciência da subjetividade, começa, pois, como psicofísica[18]
por dois motivos. Primeiramente, porque ela não pode ser menos que uma
física para ser levada a sério pelos físicos. Em segundo lugar, porque ela
deve procurar numa natureza, isto é, na estrutura do corpo humano, a razão
de existência dos resíduos irreais da experiência humana.
b) A ciência do sentido interno Mas a
ciência da subjetividade não se reduz à elaboração de uma física do
sentido externo, ela se propõe e se apresenta como a ciência da
consciência de si ou a ciência do sentido interno. É do século XVIII que
data o termo Psicologia, tendo o sentido de ciência do eu. Toda a história
desta psicologia pode se escrever como a dos contra-sentidos dos quais as
Meditações foram a ocasião, sem
ter sua responsabilidade.
Quando
Descartes, no início da Meditação
III, considera seu “interior” para tentar se tornar mais conhecido e
mais familiar a si mesmo, esta consideração visa ao Pensamento. O interior
cartesiano, consciência do Ego
cogito, é o conhecimento direto que a alma tem dela mesma, enquanto
entendimento puro. As Meditações são chamadas por
Descartes metafísicas porque
elas pretendem atingir diretamente a natureza e a essência do Eu penso, na apreensão imediata de
sua existência. A meditação cartesiana não é uma confidência pessoal. A
reflexão que dá ao conhecimento do Eu o rigor e a impessoalidade das
matemáticas não é esta observação de si que os espiritualistas, no começo
do século XIX, não temerão fazer patrocinar por Sócrates (470-399 A.C.)[25],
a fim de que M. Pierre-Paul Royer-Collard (1763-1845)[26]
possa dar a Napoleão I a certeza de que o Conheça-te, o Cogito e a Introspecção fornecem ao trono e
ao altar seu fundamento inexpugnável.
O interior
cartesiano não tem nada de comum com o sentido interno dos aristotélicos
“que concebe seus objetos interiormente e dentro da cabeça”[27]
e do qual se viu que Descartes o considera como um aspecto do corpo (Regra
XIII). Eis porque Descartes diz que a alma se conhece diretamente e mais
facilmente que o corpo. Eis aí uma afirmação da qual se ignora
freqüentemente a intenção polêmica explícita, porque segundo os
aristotélicos a alma não se conhece
diretamente. O conhecimento da alma não é direto, mas somente por
reflexão. Porque a alma é semelhante ao olho que vê tudo e não pode se ver
senão pela reflexão, como num espelho... e a alma, de maneira semelhante,
não se vê e não se conhece senão pela reflexão e por reconhecimento de
seus efeitos.[28]
Ora, esta réplica não liquida este argumento escolástico[30]. Maine de Biran (1766-1824)[31] o volta uma vez mais contra Descartes no seu Memória sobre a decomposição do pensamento. A Comte (1798-1857)[32] o invoca contra a possibilidade de introspecção, isto é, contra este método de conhecimento de si que faz da psicologia a propedêutica[33] científica da metafísica, justificando pela via experimental as teses tradicionais do substancialismo espiritualista[34].
É que se
desconheceu o ensinamento de Descartes, ao mesmo tempo constituindo,
contra ele, uma psicologia empírica como história natural do eu — de
Locke[35]
a Ribot (1839-1916)[36],
através de Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780)[37]
— e constituindo, segundo ele, acreditava-se, uma psicologia racional
fundada na intuição de um Eu substancial.
Kant guarda ainda hoje a glória de ter estabelecido que, se Wolff (1679-1754)[38] pôde batizar estes recém-nascidos pós-cartesianos (Psychologia empirica, 1732; Psychologia rationalis, 1734), ele nem por isso conseguiu fundar suas pretensões à legitimidade. Kant mostra que, de um lado, o sentido interno fenomenal não é senão uma forma da intuição empírica, que ele tende a se confundir com o tempo, que, por outro lado, o eu sujeito de todo julgamento de apercepção, é uma função de organização da experiência, mas do qual não poderia haver ciência uma vez que ele é a condição transcendental de toda ciência. Os Primeiros princípios metafísicos da Ciência da Natureza (1786) contestam à psicologia o alcance de uma ciência, seja à imagem das matemáticas, seja à imagem da física. Não há psicologia matemática possível, no sentido em que existe uma física matemática.
Mesmo se se
aplicasse às modificações do sentido interno, em virtude da antecipação da
percepção relativa às grandezas intensivas, as matemáticas do contínuo,
não se obteria nada de mais importante do que seria uma geometria limitada
ao estudo das propriedades da linha reta. Também não há psicologia
experimental no sentido em que a química se constitui pelo uso da análise
e da síntese. Nós não podemos nem sobre nós mesmos, nem sobre o outro,
fazer experiências. E a observação interna altera seu objeto. Querer se
surpreender a si mesmo na observação de si conduziria à alienação. A
psicologia não pode pois ser senão descritiva. Seu lugar verdadeiro é numa
Antropologia, como propedêutica de uma teoria da habilidade e da
prudência, coroada por uma teoria da
sabedoria.
c) A ciência do sentido íntimo
Se chama psicologia clássica àquela que se pretende refutar, é preciso dizer que em psicologia há sempre clássicos para alguém. Os Ideológos[39], herdeiros dos sensualistas[40], podiam ter como clássica a psicologia escocesa que não propugnava, como eles, um método indutivo senão para melhor afirmar, contra eles, a substancialidade do espírito. Mas a psicologia atomística e analítica dos sensualistas e dos Ideólogos, antes de ser rejeitada como psicologia clássica pelos teóricos da Gestalt, era já tida como tal por um psicólogo romântico como Maine de Biran. Para ele, a psicologia se torna a técnica do Diário íntimo e a ciência do sentido íntimo. A solidão de Descartes era a ascese de um matemático. A solidão de Maine de Biran a ociosidade de um subprefeito.
O Eu penso cartesiano funda o
pensamento em si. O Eu quero
biraniano funda a consciência para si, contra a exterioridade. No seu
escritório calafetado, Maine de Biran descobre que a análise psicológica
não consiste em simplificar, mas em complicar, que o fato psíquico
primitivo não é um elemento, mas já uma relação, que esta relação é vivida
no esforço. Ele chega a duas conclusões, inesperadas para um homem cujas
funções são as de autoridade, isto é, comando: a consciência requer o
conflito de um poder e de uma resistência; o homem não é, como pensou de
Bonald (1754-1840), uma inteligência servida por órgãos, mas uma
organização viva servida por uma inteligência. É necessário à alma ser
encarnada e, portanto, não há psicologia sem biologia. A observação de si
não dispensa o recurso à fisiologia do movimento voluntário, nem à
patologia da afetividade. A situação de Maine de Biran é única, entre os
dois Royer-Collard. Ele dialogou com o doutrinário e foi julgado pelo
psiquiatra. Nós temos de Maine de Biran um Passeio com M. Royer-Collard nos
jardins do Luxemburgo e nós temos de Antoine-Athanase Royer-Collard,
irmão do precedente, um Exame da
Doutrina de Maine de Biran[41].
Se Maine de Biran não tivesse lido e discutido Cabanis (1757-1808)[42] (Relações do físico e do moral do
homem, 1798), se ele não tivesse lido e discutido Bichat (1771-1802)[43]
(Pesquisas sobre a vida e a
morte, 1800), a história da psicologia patológica o ignoraria, o que
ela não pode. O segundo Royer-Collard é, depois de Pinel (1745-1826)[44]
e com Esquirol (1772-1840)[45],
um dos fundadores da Escola francesa de
psiquiatria.
Pinel se
bateu pela idéia de que os alienados são ao mesmo tempo doentes como os
outros, nem possessos, nem criminosos, e diferentes dos outros, portanto
devendo ser cuidados separadamente dos outros e separadamente, segundo os
casos, em serviços hospitalares especializados. Pinel fundou a medicina
mental como disciplina independente, a partir do isolamento terapêutico
dos alienados em Bicêtre e na Salpêtrière. Royer-Collard imita Pinel na
Maison Nationale de Charenton, da qual ele se tornou o médico-chefe em
1805, o mesmo ano em que Esquirol sustentou a tese de medicina sobre as Paixões consideradas como causas,
sintomas e meios curativos da alienação mental. Em 1816, Royer-Collard
se tornou professor de medicina legal na Faculdade de Medicina de Paris, e
depois em 1821, primeiro titular da cátedra de medicina mental.
Royer-Collard e Esquirol tiveram como aluno Calmeil que estudou a
paralisia nos alienados, Bayle que reconheceu e isolou a paralisia geral,
Félix Voisin que criou o estudo do retardamento mental nas crianças. E foi
na Salpêtrière que, depois de Pinel, Esquirol, Lelut, Baillarger e Falret,
entre outros, Charcot se tornou, em 1862, chefe de um serviço cujos
trabalhos serão seguidos por Théodule Ribot, Pierre Janet, o Cardeal
Mercier e Sigmund Freud.
Nós vimos a
psicopatologia começar positivamente com Galeno, nós a vimos chegar a
Freud, criador, em 1896, do termo psicanálise. A psicopatologia não
se desenvolveu sem relação com as outras disciplinas psicológicas. A
partir das pesquisas de Biran, ela obriga a filosofia a se perguntar,
depois de mais de um século, a qual dos Royer-Collard ela deve tomar
emprestada a idéia que é preciso ter da psicologia. Assim a psicopatologia
é, ao mesmo tempo, juiz e parte no debate ininterrupto do qual a
metafísica legou a direção à psicologia, sem no entanto renunciar a dizer
sua palavra, sobre as relações do físico e do psíquico. Esta relação foi,
durante muito tempo, formulada como somato-psíquica antes de se tornar
psicossomática. Esta inversão é a mesma, aliás, que aquela que se operou
na significação dada ao inconsciente. Se se identifica psiquismo e
consciência - autorizando-se com Descartes, certo ou errado - o
inconsciente é de ordem física.
Se se pensa
que algo do psíquico pode ser inconsciente, a psicologia não se reduz à
ciência da consciência. O psíquico não é mais somente o que está
escondido, mas o que se esconde, aquilo que se esconde, ele não é mais
somente o íntimo, mas também — segundo um termo retomado por Bossuet
(1627-1704)[46]
aos místicos — o abissal. A psicologia não é mais somente a ciência da
intimidade, mas a ciência das profundezas da
alma.
III - A psicologia como ciência das reações e do comportamento
Propondo
definir o homem como organização viva servida por uma inteligência, Maine
de Biran marcava de saída — melhor, parece, do que Gall, para quem,
segundo Lelut (1804-1877)[47],
“o homem não é mais uma inteligência, mas uma vontade servida por
órgãos”[48]
— o terreno sobre o qual iria se constituir no século XIX uma nova
psicologia. Mas, ao mesmo tempo, ele designava seus limites, uma vez que,
no seu Antropologia, ele situava a vida humana entre a vida animal e a
vida espiritual.
O século
XIX vê se constituir, ao lado da psicologia como patologia nervosa e
mental, como física do sentido externo, como ciência do sentido interno e
do sentido íntimo, uma biologia do comportamento humano. As razões deste
advento nos parecem ser as seguintes. Inicialmente razões científicas,
saber a constituição de uma Biologia como teoria geral das relações entre
os organismos e os meios, e que marca o fim da crença na existência de um
reino humano separado; em seguida, razões técnicas e econômicas, saber o
desenvolvimento de um regime industrial orientando a atenção para o
caráter industrioso da espécie humana, e que marca o fim da crença na
dignidade do pensamento especulativo; finalmente, razões políticas que se
resumem no fim da crença nos valores do privilégio social e na difusão do
igualitarismo — a constrição e a instrução pública tornando-se negócio de
estado, a reivindicação de igualdade diante dos cargos militares e funções
civis (a cada um segundo o seu trabalho, ou suas obras, ou seus méritos)
são os fundamentos reais, embora freqüentemente despercebidos, de um
fenômeno próprio das sociedades modernas: a prática generalizada,
especialidade, no sentido amplo, como determinação da competência e
despistamento da simulação.
Ora, o que caracteriza, segundo nós, esta psicologia dos comportamentos, em relação aos outros tipos de estudos psicológicos, é sua incapacidade constitucional de apreender e exibir, na claridade, seu projeto instaurador. Se, entre os projetos instauradores de certos tipos anteriores de psicologia, alguns podem passar por contra-sensos filosóficos, aqui, ao contrário, toda relação com uma teoria filosófica sendo recusada, se coloca a questão de saber de onde uma tal pesquisa psicológica pode tirar seu sentido.
Aceitando
se tornar, no padrão da biologia, uma ciência objetiva das atitudes, das
reações e do comportamento, esta psicologia e estes psicólogos esquecem
totalmente de situar seu comportamento específico em relação às
circunstâncias históricas e aos meios sociais nos quais eles são levados a
propor seus métodos ou técnicas e fazer aceitar seus serviços. Nietzsche
(1844-1900) , esboçando a psicologia do psicólogo no século XIX escreve:
“Nós,
psicólogos do futuro..., consideramos quase como um sinal de
degenerescência o instrumento que quer se conhecer a si mesmo, nós somos
os instrumentos do conhecimento e gostaríamos de ter toda a ingenuidade e
a precisão de um instrumento, portanto nós não devemos nos analisar a nós
mesmos, nos conhecer”[49].
Surpreendente
mal-entendido e tão revelador. O psicólogo não quer ser senão um
instrumento, sem procurar saber de quem ou de que ele é instrumento.
Nietzsche pareceu mais inspirado quando, no início da Genealogia da Moral, ele se
debruçou sobre o enigma que representam os psicólogos ingleses, isto é, os
utilitaristas[50],
preocupados com a gênese dos sentimentos morais. Ele se perguntava então o
que havia conduzido os psicólogos na direção do cinismo, na explicação das
condutas humanas pelo interesse, a utilidade, e pelo esquecimento destas
motivações fundamentais. E eis que diante da conduta dos psicólogos do
século XIX, Nietzsche renuncia a todo cinismo por provisão, isto é, a toda
lucidez.
A idéia de utilidade, como princípio de uma psicologia, dizia respeito à tomada de consciência filosófica da natureza humana como poder de artifício (...), mais prosaicamente, a definição do homem como fabricante de ferramentas (...). Mas, o princípio da psicologia biológica do comportamento não parece ter-se destacado, da mesma forma, de uma tomada de consciência filosófica explícita, sem dúvida porque ele não pode ser operado senão com a condição de permanecer não-formulado. Este princípio é a definição do próprio homem como ferramenta. Ao utilitarismo, que implica a idéia da utilidade para o homem, a idéia do homem juiz da utilidade, sucedeu o instrumentalismo, implicando a idéia de utilidade do homem, a idéia do homem como meio de utilidade. A inteligência não é o que faz os órgãos e se serve deles, mas o que serve aos órgãos. E não é impunemente que as origens históricas da psicologia da reação devem ser procuradas nos trabalhos suscitados pela descoberta da equação pessoal própria aos astrônomos que utilizam o telescópio (Maskelyne, 1796). O homem foi estudado de início como instrumento do instrumento científico antes de ser como instrumento de todo instrumento.
As
pesquisas sobre as leis da adaptação e da aprendizagem, sobre a relação da
aprendizagem e das atitudes, sobre a detecção e a medida das aptidões,
sobre as condições do rendimento e da produtividade (quer se trate de
indivíduos ou de grupos) — pesquisas inseparáveis de suas aplicações na
seleção e na orientação - admitem todas um postulado implícito comum: a
natureza do homem é de ser ferramenta, sua vocação é ser colocado no seu
lugar, na sua tarefa.
Evidentemente,
Nietzsche tem razão ao dizer que os psicólogos querem ser os “instrumentos
ingênuos e precisos” deste estudo do homem. Eles se esforçaram por chegar
a um conhecimento objetivo, embora o determinismo que eles procuram nos
comportamentos não seja mais, atualmente, o determinismo de tipo
newtoniano[51],
familiar aos primeiros físicos do século XIX, mas antes um determinismo
estatístico, progressivamente baseado nos resultados da biometria. Mas
finalmente qual é o sentido deste instrumentalismo à segunda potência? O
que é que empurra ou inclina os psicólogos a se fazerem, entre os homens,
os instrumentos de uma ambição de tratar o homem como um
instrumento?
Nos outros
tipos de psicologia, a alma ou o sujeito, forma natural ou consciência de
interioridade, é o princípio que se dá para justificar em valor uma certa
idéia do homem em relação com a verdade da coisas. Mas para uma psicologia
onde a palavra alma faz fugir e a palavra consciência, rir, a verdade do
homem é dada no fato de que não há mais idéias do homem, enquanto valor
diferente do de ferramenta. Ora, é preciso reconhecer que para que se
possa tratar de uma idéia de ferramenta, é preciso que toda idéia não seja
colocada no nível da ferramenta, e que para poder atribuir a uma
ferramenta algum valor, é necessário, precisamente, que todo valor não
seja o de uma ferramenta, cujo valor subordinado consiste em proporcionar
algum outro. Se, pois, o psicólogo não toma seu projeto de psicologia numa
idéia do homem, acredita ele poder legitimá-lo pelo seu comportamento de
utilização do homem? Nós dizemos bem: pelo seu comportamento de
utilização, apesar de duas objeções possíveis. Pode-se observar
evidentemente que este tipo de psicologia não ignora a distinção entre a
teoria e a aplicação, de outro lado, que a utilização não é parte do
psicólogo, mas daquele ou daqueles que lhe pedem relatórios ou
diagnósticos. Nós responderemos que, a menos que se confundam o teórico da
psicologia e o professor de psicologia, deve-se reconhecer que o psicólogo
contemporâneo é, na maioria das vezes, um prático profissional cuja
“ciência” é totalmente inspirada na pesquisa das “leis” da adaptação a um
meio sócio-técnico — e não a um meio natural — o que confere sempre a
estas operações de “medida” uma significação de apreciação e um alcance de
perícia. De sorte que o comportamento do psicólogo do comportamento humano
enfeixa quase obrigatoriamente uma convicção de superioridade, uma boa
consciência dirigista, uma mentalidade de empresário das relações do homem
com o homem. E eis porque é preciso voltar à questão cínica: quem designa
os psicólogos como instrumentos do instrumentalismo? Como se reconhece
aqueles entre os homens que são dignos de designar ao homem-instrumento
seu papel e sua função? Quem orienta os
orientadores?
Nós não nos colocamos, isto é claro, no terreno das capacidades e da técnica. Que haja bons e maus psicólogos, isto é, técnicos hábeis depois da aprendizagem ou malfazejos por tolice não sancionada pela lei, não é a questão. A questão é que uma ciência, ou uma técnica científica não contêm por elas mesmas nenhuma idéia que lhes confira seu sentido. Na sua Introduction à la Psychologie, Paul Guillaume fez a psicologia do homem submetido a um teste. O testado se defende de uma investigação, ele teme que se exerça sobre ele uma ação. Guillaume vê neste estado de espírito um reconhecimento implícito da eficácia do teste. Mas se poderia ver nisso também um embrião de psicologia do testador. A defesa do testado é a repugnância de se ver tratado como um inseto, por um homem no qual ele não reconhece nenhuma autoridade para lhe dizer o que ele é e o que ele deve fazer. “Tratar como um inseto”, a palavra é de Stendhal (1783-1842)[52] que a toma de Cuvier (1769-1832)[53] [54]. E se nós tratássemos o psicólogo como inseto; se nós aplicássemos, por exemplo, ao morno e insípido Kinsey a recomendação de Stendhal?
Em outras palavras, a psicologia de reação e de comportamento, nos séculos XIX e XX, acreditou se tornar independente, separando-se de toda filosofia, isto é, da especulação que procura uma idéia do homem olhando além dos dados biológicos e sociológicos. Mas esta psicologia não pode evitar a recorrência de seus resultados sobre o comportamento daqueles que os obtêm. E a questão “Que é a psicologia?”, na medida em que se impede a filosofia de procurar sua resposta, se torna “Onde querem chegar os psicólogos fazendo o que eles fazem?” Quando Gedeão recruta o comando israelita à frente do qual ele reconduz os medianitas para além do Jordão (A Bíblia: Juizes, Livro VII), ele utiliza um teste de dois graus que lhe permite ficar com dez mil homens em trinta e dois mil, e depois trezentos em dez mil. Mas, este teste deve ao Eterno o fim de sua utilização e o processo de seleção utilizado. Para selecionar um selecionador, é preciso normalmente transcender o plano dos procedimentos técnicos de seleção.
Na imanência da psicologia científica, a questão permanece: quem tem, não a competência, mas a missão de ser psicólogo? A psicologia repousa bem sobre um desdobramento, mas não é mais o da consciência, segundo os fatos e as normas que comportam a idéia do homem, é o de uma massa de “sujeitos” e de uma elite corporativa de especialistas investindo-se eles próprios de sua própria missão.
Em Kant e
em Maine de Biran, a psicologia se situa numa Antropologia, isto é, apesar
da ambigüidade, atualmente muito na moda, deste termo, numa filosofia. Em
Kant, a teoria geral da habilidade humana permanece em relação com uma
teoria da sabedoria. A psicologia instrumentalista se apresenta como uma
teoria geral da habilidade, fora de toda referência à sabedoria. Se nós
não podemos definir esta psicologia por uma idéia do homem, isto é, situar
a psicologia na filosofia, nós não temos o poder, evidentemente, de
impedir a quem quer que seja de se chamar psicólogo e chamar psicologia o
que ele faz. Mas ninguém pode também impedir à filosofia de continuar a se
perguntar sobre o estatuto mal definido da psicologia, mal definido do
lado das ciências como do lado das técnicas. A filosofia se conduz, assim,
com a sua ingenuidade constitutiva, tão pouco semelhante à tolice que ela
não exclui um cinismo provisório, e que a leva a se voltar, uma vez mais
para o lado popular, isto é, para o lado nativo dos não
especialistas.
É, pois, muito vulgarmente que a filosofia coloca para a psicologia a questão: dizei-me em que direção tendes, para que eu saiba o que sois? Mas o filósofo pode também se dirigir ao psicólogo sob a forma — uma vez que não é costume — de um conselho de orientação, e dizer: quando se sai da Sorbonne pela rue Saint-Jacques, pode-se subir ou descer; se se sobe, aproxima-se do Pantheon, que é o Conservatório de alguns grandes homens, mas se se desce dirige-se certamente para a Chefatura de Polícia.
notas críticas [entre colchetes] por Monah Winograd
[1] [Empirismo: concepção segundo a qual o conhecimento está fundado sobre a experiência sensível externa (as sensações) e interna (nossos sentimentos tais quais são vividos). John Locke (1632-1704) é o autor do texto “canônico” do empirismo. A alma, ele escreve, é uma tábula rasa, uma página em branco, vazia de caractéres. “Como ela vem a receber as idéias (...)? De onde ela extrai os materiais que são como o fundo de todos os seus raciocínios e de todos os seus conhecimentos? A isto, eu respondo com uma palavra, da experiência” (Ensaios filosóficos concernindo o entendimento humano, I, 2). O empirismo clássico afirma que o conhecimento tem uma base sensível (as idéias são as cópias das impressões sensíveis); ele descreve a produção dos conceitos e das idéias gerais, a partir das sensações primitivas, por meio dos signos da linguagem (uma idéia abstrata e geral não é senão uma palavra que serve para representar idéias particulares e concretas, elas mesmas derivadas das sensações); enfim, ele tende a excluir toda especulação para além dos dados da experiência, quer dizer, a recusar a metafísica. O empirismo de Locke sustentava a existência objetiva dos objetos exteriores dos quais temos a sensação. Mas, a partir de George Berkeley (1685-1753) e de David Hume (1711-1776), o empirismo moderno recusa este postulado e se quer fenomenalista (fenômeno, do grego phainomenon, ser visível, brilhar. O fenômeno é aquilo que aparece para a consciência, seja diretamente, como os fenômenos afetivos e psicológicos, seja por intermédio dos sentidos, como os fenômenos sensíveis): os dados primeiros da consciência são as impressões sensíveis. Não é possível inferir com certeza, a partir destas percepções, a existência dos objetos que elas representam. A partir do século XIX, com Ernst Mach (1838-1916) e Ludwig Wittgenstein (1889-1951), entre outros, o empirismo conhece uma renovação. Estes filósofos afirmam que as únicas verdades a priori são as puramente formais, da lógica. Abandonando o problema da origem dos conhecimentos, eles querem sobretudo mostrar que somente a experiência pode verificá-los. Enfim, abordando o conhecimento a partir da análise lógica da linguagem, o empirismo moderno não formula o problema da “idéia” em sua relação com a “sensação”, mas da proposição em relação a um fato observável (não se trata de saber, por exemplo, se a idéia de vermelho remete à sensação “vermelho”, mas se o enunciado “esta maçã é vermelha” exprime um fato ao qual se pode confrontá-lo). Cf. verbete Empirismo in CLÉMENT, Élisabeth et alii. (1994) Pratique de la Philosophie de A à Z. Paris: Hatier.] [2] [Etologia: tratado dos costumes,
usos e caracteres humanos; estudo dos hábitos dos animais e da sua
acomodação às condições do ambiente.] [3] L'Unité
de la Psychologie, PUF, Paris, 1949. [4] [Teleologia: do grego télos, “fim” e logos, “discurso”, “ciência”.
Discurso sobre a finalidade das coisas e dos
seres.] [5] [Metafísica: do grego méta, “além” ou “depois”, et phusikê, “física”,
“natureza”.] [6] [Aristóteles distingue,
em toda coisa, dois aspectos: uma forma, que faz com que a coisa seja o
que ela é, e uma matéria, que é o suporte da forma. Por exemplo, a matéria
de uma estátua de Zeus é o bloco de mármore no qual ela foi esculpida, sua
forma, o conjunto das determinações que lhe permitem representar o deus
grego. A matéria é, portanto, essencialmente indeterminação, um bloco de
mármore pode se tornar estátua ou outra coisa. A matéria é, portanto,
potência, virtualidade. “Existir em potência” se opõe a “existir em ato”,
ou seja, segundo uma forma realizada. O bloco de mármore é a estátua de
Zeus em potência, mas a obra terminada é a estátua de Zeus em ato.
Cf.
CLÉMENT, Élisabeth et alii. (1994)
Pratique de la Philosophie de A à
Z. Paris: Hatier] [7] cf.
Scipion Du Pleix, Corps de Philosophie contenant la Logique, la Physique,
la Métaphysique et l'Ethique. Genebra, 1986 (1ª ed., Paris,
1607). [8]
[Psicofisiologia: ciência que
tem por objeto o estudo das bases fisiológicas do psiquismo. Como estas
bases estão largamente sob a dependência do sistema nervoso e o psiquismo
é compreendido como o conjunto dos mecanismos que sustentam o
comportamento, a psicofisiologia estuda principalmente as bases nervosas
do comportamento. Ela se subdivide em duas grandes correntes, uma voltada
às bases nervosas (neurobiologia e neurofisiologia), outra voltada para o
comportamento (psicologia e etologia). Cf.
Encyclopédie Philosophique
Universelle, Paris: PUF, 1990.] [9] [Psicopatologia: saber sobre as
afecções patológicas da psiquê.] [10] [Antoine Laurent de
Lavoisier (1743-1794) revolucionou a química. Mas, não exatamente pelo uso
da balança , nem pela célebre fórmula “nada se cria, nada se perde, tudo
se transforma”. A balança já existia nos laboratórios de química, mas é
por volta de 1770, quando se começa
a estudar o gás, que ela se torna instrumento essencial, em associação com
a ‘caixa pneumática” (um aparelho fechado que serve para concentrar o
gás), e o gasômetro, que permite medir seu volume. A balança de Lavoisier
traz um ganho de precisão nas medidas experimentais, transformando o
método experimental em prática contábil. A cada etapa, Lavoisier faz o
balanço das reações efetuadas: ele pesa antes e depois da experiência, o
todo e cada elemento do sistema. Mas, o princípio da conservação não foi
inventado por Lavoisier. Já se o encontra , em termos vizinhos, em
Lucrécio: “Nada nasce de nada; nada retorna ao nada”. A revolução de
Lavoisier acontece noutro lugar, na combustão. Para Lavoisier, a combustão
é uma combinação com o ar: a fonte de calor não está no combustível, como
se acreditava, mas no ar. Daí seus desdobramentos numa teoria da
respiração. Cf. SERRES, Michel (org.) Éléments d’Histoires des Sciences,
Paris: Bordas, 1989.] [11] [Galeno de Pérgamo foi o responsável por uma transformação
na imagem de corpo na medicina da antigüidade. Ele será redescoberto no
Renascimento. A partir do século XIV, um professor da universidade de
Bolonha, Mondino di Luzzi, autor do primeiro tratado de anatomia, executa
dissecações de cadáveres com a única intenção de confirmar as lições de
Galeno, apoiando-se na observação. Os ensinamentos de Galeno eram
conhecidos e seguidos porque haviam sido transmitidos e conservados, não
sem grandes dificuldades, pelos árabes, como Avicena. Em 1531, traduzidos
em latim por Guenther, é publicado o De anatomicis administrationibus.
A obra médica de Galeno oferecia aos estudantes um extraordinário conjunto
de dados: uma teoria fisiológica coerente — em relação a uma descrição
anatômica do esqueleto e das vísceras (fruto de numerosas dissecações de
animais, e talvez de cadáveres) —, uma farmacopéia, um método diagnóstico,
e uma teoria filosófica sobre a vida. Misturando pensamento científico,
racionalidade metafísica e restos de crenças mágicas, Galeno nos dá uma
imagem do corpo que constitui o resultado destes três fatores. O corpo é
dominado pela razão, mas está em contato imediato com as forças da
natureza, que não pode deixar de imitar. Buscando em Aristóteles a
doutrina dos quatro elementos aos quais correspondem, no corpo humano, as
combinações das quatro qualidades — quente, frio, seco, úmido —, ele acaba
por aceitar na farmacopéia alguns conceitos mágicos refutados pela sua
anatomia. Em nome do princípio de que o semelhante atrai o semelhante e
afasta o dissemelhante, afirma que o caranguejo, por ser aquático, é
eficaz contra a hidrofobia — e os caranguejos de água doce o são ainda
mais, pois absorvem a umidade pelo sal que contém. Assim, pretendendo
fundar uma anatomia científica — lançando impropérios contra a feitiçaria,
que acredita que sangue de crocodilo melhora a vista —, ainda admite
crenças derivadas da mesma forma de pensar mágico-religiosa. Cf.
GIL, José. ‘Corpo’ in
Enciclopédia Einaudi, vol. 32.] [12] [Pneumatologia: tratado dos
espíritos, dos seres intermediários que formam a ligação entre Deus e o
homem.] [13]
[Espíritos animais: apesar do
nome, os espíritos animais são elementos inteiramente físicos. Na
fisiologia cartesiana, desempenham o papel hoje atribuído aos impulsos
neuro-elétricos: são veículos de transmissão de informação no sistema
nervoso. Cf.
Cottingham, John. Dicionário
Descartes, Rio de Janeiro:
Zahar, 1993.] [14] [Franz-Joseph Gall,
médico, preocupou-se com o conhecimento das funções das diferentes partes
do cérebro e suas relações com as tendências do homem. Assim, consagrou-se
ao estudo da anatomia cerebral e, em 1796, começou a difundir as teorias
cranioscópicas que o tornariam célebre. Partindo da idéia de que a medula
espinhal é o elemento primitivo do sistema nervoso, e de que a compreensão
da organização do cérebro supõe uma dissecção ascendente, dilacerando
progressivamente os feixes nervosos, para chegar até o manto cortical dos
hemisférios cerebrais, que ele estudava por desdobramento das
circunvoluções, Gall chamou a atenção para o córtex, então negligenciado,
e mostrou a sua unidade e a sua continuidade, enfatizando a sua
importância maior nas espécies animais mais evoluídas. A partir disso,
elaborou-se uma teoria psicofisiológica, segundo a qual o cérebro, órgão
de todas as inclinações, de todos os sentimentos e de todas as faculdades,
é composto de tantos órgãos particulares quantos são as inclinações,
sentimentos e faculdades, enquanto a forma do crânio, estreitamente
moldada sobre a forma do seu conteúdo, permite detectar essas funções pela
palpação e pela mensuração. Gall reuniu muitas observações de homens de
gênio e de imbecis, de alienados e de criminosos, visitando escolas,
asilos e prisões, museus e gabinetes de anatomia, medindo tanto bustos de
personagens ilustres quanto cabeças de supliciados, encontrando na teoria,
então, argumentos de peso para defender a hipótese da autonomia funcional
dos territórios cerebrais. Passando, enfim, de uma teoria das localizações
para um procedimento semiológico, estabeleceu um mapa das 27 faculdades
fundamentais que acreditou discernir, e criou uma “ciência” nova, a
cranioscopia, que permitia ‘ler o caráter do indivíduo” através das
saliências e depressões da sua abóbada craniana. O ponto forte de sua
doutrina é, assim, a exclusividade dada ao encéfalo, e particularmente aos
hemisférios cerebrais, como a “sede” de todas as faculdades intelectuais e
morais. O cérebro, entendido como um “sistema dos sistemas”, é apresentado
como o único suporte físico das faculdades. A frenologia de Gall é uma
cranioscopia fundada sobre a correspondência entre o conteúdo e o
continente, entre a configuração dos hemisférios e a forma do crânio.
Contra o sensualismo, contra o idéia de aquisição da experiência sob a
pressão do meio, Gall e seus discípulos sustentavam o inatismo das
qualidades morais e dos poderes intelectuais. Cf.
MOREL, Pierre. Dicionário
Biográfico Psi, Rio de Janeiro:
Zahar, 1997] [15] [Paul Broca, seguindo
Gall, foi um dos grandes mestres da craniometria. Sua crença mais preciosa
era a de que o tamanho do cérebro revelava o grau de inteligência. Mas,
outras crenças inundavam suas idéias e conclusões “científicas”: “O rosto
prognático (projetado para frente), a cor de pele mais ou menos negra, o
cabelo crespo e a inferioridade intelectual e social estão freqüentemente
associados, enquanto a pele mais ou menos branca, o cabelo liso e o rosto
ortognático (reto) constituem os atributos normais dos grupos mais
elevados na escala humana”. Para determinar o que chamava de “capacidade
craniana”, Broca desenvolveu um método objetivo, mas ajustado a uma
fórmula definida: as raças humanas podiam ser hierarquizadas numa escala
linear de valor intelectual. Cf.
JAY-GOULD, Stephen. A
Falsa Medida do Homem. São Paulo: Martins
Fontes, 1991.] [16] [Mecanicismo: do grego mechane, “máquina”. Em sentido
estrito, designa a teoria que se desenvolveu ao longo de século XVII,
segundo a qual deve-se considerar os seres vivos como máquinas, para
explicá-los cientificamente. Em sentido lato, refere-se à explicação do
vivo por sua redução às propriedades físico-químicas da
matéria.] [17] cf. Aron
Gurwitsch, Developpement historique
de la Gestalt-Psychologie, in Thales, Ano 2, 1935, págs.
167-175. [18] [Psicofísica: estudo das relações
funcionais entre a mente e os fenômenos
físicos.] [19] [Descartes pretendia
unificar os conhecimentos segundo o princípio de uma ordem matemática
universal. Esta unidade do saber se funda, não sobre a unidade da
natureza, mas sobre a unidade do espírito que se aplica do mesmo modo à
diversidade de seus objetos. Para Descartes, o importante é,
primeiramente, o método que permita submeter o conjunto dos conhecimentos
a uma ordem única da razão. No Discurso do Método, o filósofo
enuncia as quatro regras ou preceitos do método. A evidência é o princípio
deste método; ela consiste em só admitir como verdade aquilo que se
imponha a um espírito atento de tal modo que seja impossível duvidar. As
outras três regras concernem à aplicação do método: 1. a análise permite
dividir as dificuldades em parcelas, para melhor resolvê-las; 2. a síntese
consiste em progredir do simples, do mais facilmente conhecido, ao
complexo ou mais composto e; 3. a recapitulação, pela qual deve-se
percorrer toda a cadeia de razões para permitir ao espírito representá-la
de um só lance. A evidência permanece o modelo de toda verdade: ou bem ela
é evidente, podendo ser apreendida por intuição, ou bem ela é deduzida a
partir das evidências, conforme à terceira regra do método. O melhor modo de por o indubitável em
evidência é submeter as pretensas verdade a uma dúvida sistemática,
recusando toda herança, toda verdade preestabelecida, a fim de assegurar
definitivamente, sobre bases inabaláveis, toda ciência futura. A primeira
certeza que a dúvida vai revelar é o pensamento: cogito, “eu penso”.
Inicialmente, a dúvida não pode abalar a certeza de que ‘eu existo, eu
sou’, pois ela a supõe – se duvido é porque existo. Depois, sendo a dúvida
uma modalidade de pensamento, só posso estar certo de minha existência por
que penso: “penso, logo sou. E, finalmente, concluo que sou uma alma,
definida, não como um obscuro princípio de vida, mas como uma coisa ou
“substância” pensante, a res cogitans. A presença imediata a si do sujeito
pensante, ou seja, a consciência, torna-se o fundamento de toda verdade
possível. Cf.
CLÉMENT, Élisabeth et alii. (1994) Pratique de la Philosophie de A à Z.
Paris: Hatier.]
[20] [Para Malebranche, a
verdadeira filosofia é a religião, pois a verdade é Deus. A razão –
universal e infinita – é a marca de Deus no homem. A afirmação do caráter
divino da razão não é nova, mas com Malebranche ela se torna o ponto de
partida de uma doutrina de um conhecimento , racional e sensível, em Deus.
Deus tem em si as idéias, os arquétipos, de todas as coisas criadas. É em
Deus que nós conhecemos e sentimos. As sensações são o resultado ou o
efeito das idéias que Deus imprime em nossa alma. Em conseqüência, a
origem de nossas idéias é inteira e imediatamente divina. Daí resulta que
a existência do mundo material não afeta em nada nosso conhecimento,
sendo, a rigor, indemonstrável. Pois a percepção que temos da matéria e
dos corpos, começando pelo nosso, é o resultado da ação de Deus em nós,
que imprime diretamente sobre nossa alma as sensações ligadas ao corpo,
segundo a lei geral da união entre
alma e corpo. Cf.
CLÉMENT, Élisabeth et alii. (1994) Pratique de la Philosophie de A à Z.
Paris: Hatier.]
[21] [O projeto da filosofia kantiana |