O objetivo desta minha apresentação é
mostrar que não existe atividade psicológica independente de uma atividade
neural. Conseqüentemente, toda prática psicológica é, na verdade, uma
prática que altera o funcionamento dessa atividade neural. Esta posição
não implica em uma mudança na prática psicoterápica, conforme vem sendo
tradicionalmente utilizada. O que muda é a forma de encarar o problema,
levando-se em conta fatores biológicos como variáveis importantes na
atividade mental. Esta posição também não reduz a atividade psicológica a
mecanismos puramente biológicos. A própria natureza da área de estudo da
psicologia impede tal reducionismo. Tal posição, portanto, não está em
desacordo com teorias que sustentam que a personalidade humana seja fruto
das suas relações sociais. Isto, na verdade, é a própria essência da
psicologia. O erro, no entanto, está em ignorar o fato de que relações
sociais direcionam a formação da personalidade graças ao seu impacto no
desenvolvimento, organização e funcionamento neural do indivíduo. Esta
posição dá vida nova ao profissional da área da saúde mental e ajusta a
sua prática às descobertas e tendências atuais de se encarar a atividade
mental humana, ampliando seus horizontes, já saturados, com posições
filosóficas que conferem características à mente humana e que atualmente
resultam numa limitação da prática e atuação do psicólogo clínico.
O cérebro começa hoje a ser descoberto e
entendido de forma mais sistemática graças aos avanços técnicos e à
natureza interdisciplinar da neurociência. Dentre estas descobertas está a
enorme importância do meio ambiente e das relações sociais no
desenvolvimento, organização e funcionamento do sistema nervoso. A prática
psicológica, ou qualquer outra relação social que tenha um impacto na
atividade mental do sujeito, tem a capacidade de promover alterações na
atividade neural desse indivíduo. Essas alterações estão associadas a
mudanças na comunicação neural, promovendo uma espécie de reeducação
sináptica. Desta forma, a classe dos psicólogos como um todo, e a dos
clínicos em especial, deveria levar conta todo esse avanço que a
neurociência vem promovendo neste final de século.
Calcado nessa interpretação, é importante
que o psicólogo tenha também uma boa formação na área biológica,
principalmente em relação ao sistema nervoso, visto que nele reside não
somente a origem da atividade mental, mas também o objeto da sua prática.
O fato do psicólogo clínico de hoje não ter sido preparado adequadamente
para lidar com questões relacionadas com a atividade neural não pode
servir com justificativa (consciente ou inconsciente) de que uma
preparação mais arrojada nessa área não seja importante para sua formação
profissional. O psicólogo deve despertar para a necessidade de incorporar
à sua área de ensino o conhecimento que vem sendo desenvolvido pela
neurociência e em especial, pela psicofarmacologia. É óbvio que tanto
melhor será sua preparação acadêmica quanto maior for sua possibilidade de
aplicação esse conhecimento. Dessa forma, é necessário que o psicólogo
clinico, além de melhorar sua formação acadêmica dentro do campo
biológico, tenha também o direito de empregar de forma adequada desse
conhecimento, podendo Ter, inclusive, o direito de prescrever drogas
psicotrópicas. Mas antes da conquista desse direito, a nossa classe deve
se convencer da importância das variáveis biológicas na determinação da
atividade mental do sujeito. Hoje não existe essa possibilidade graças ao
curriculum que enfatiza o treinamento acadêmico para a pesquisa
(que nem sempre é devidamente aproveitado) e um treinamento, talvez um
pouco exagerado, na área da filosofia. Interessante é que o treino na
própria clinica durante o curso de psicologia é restrito. Isto, na
verdade, nos faz levar a uma outra discussão que transcende o objetivo
desta minha apresentação: a psicologia é uma ciência básica, tal como a
física, química ou biologia, ou uma ciência aplicada tal como a
veterinária, medicina engenharia ou odontologia? Se realmente a psicologia
pretende ser uma ciência aplicada, deverá, sem dúvida, ajustar seu
curriculum a essa necessidade. Nesse sentido, já existem hoje
movimento nos Estados Unidos demonstrando o desejo de muitos psicólogos de
alterar o curriculum de psicologia, incorporando disciplina que
dêem a este profissional a formação necessária para prescrever drogas
psicotrópicas. Por exemplo, a Associação Americana de Psicologia vem
decidindo paulatinamente dar continuidade ao desenvolvimento de modelos
curriculares e legislativos capazes de justificar a obtenção do direito do
psicólogo prescrever drogas psicotrópicas.
Lembrem-se, aqueles que são contra essa
idéia, que o direito de prescrever drogas psicotrópicas é também o direito
de não prescrevê-las. Dessa forma, não é meu objetivo fazer uma apologia
sobre o uso ou não de drogas psicotrópicas no tratamento de disfunções
mentais ou que o psicólogo clinico deva se transformar numa espécie de
psiquiatra que conseguiu "escapar" da faculdade de medicina. Pretende-se,
na verdade, mostrar ao psicólogo que sua prática, por mais imaterial que
possa parecer, produz efeitos físicos através da alteração do
funcionamento do tecido neural. A aquisição de conhecimento neurobiológico
é fundamental para que o psicólogo possa realmente compreender como ocorre
essa interação entre cérebro e meio ambiente, possibilitando o
desenvolvimento de novas técnicas psicoterapeuticas. O direito de utilizar
diretamente esse conhecimento com o desenvolvimento relacionado com o
desenvolvimento, organização e funcionamento do sistema nervoso, através
da prescrição de drogas psicotrópicas, será apenas conseqüência do
fortalecimento da sua preparação acadêmica ao longo do curso de
psicologia.
É bem verdade que existem sistemas que
determinam uma formação mais aprofundada do psicólogo clinico. Por
exemplo, o sistema americano, diferentemente do brasileiro, somente
habilita o psicólogo clinico exercer suas funções após o término do
doutorado, quando ele é submetido a uma série de exames impostos pela
sociedade psicológica regional a fim de verificar sua competência para
exercer a função clinica. Dessa forma, o sistema americano permite uma
melhor preparação e seleção do profissional, o que, por conseqüência,
permite ampliar o seu curriculum acadêmico. O objetivo desta
apresentação não é de tentar responder se esse sistema deveria ou não ser
adotado no Brasil. Meu objetivo é o de mostrar ao psicólogo clínico que
sua prática tem conseqüência direta no tecido neural possivelmente através
dos mesmos mecanismos que drogas psicotrópicas atuam na atividade
psicológica. Assim, deve ser objetivo de um curso de psicologia oferecer
uma boa formação em disciplinas relacionadas com a neurobiologia.
É óbvia que a decisão de enriquecer o
curriculum de psicologia com disciplinas de cunho biológico é uma decisão
extremamente complexa e envolve outros interesses que não os puramente
profissionais. No entanto, não será a primeira vez que a psicologia irá
lutar por direitos que justifiquem a sua existência como ciência
independente. Somente aqueles com consciência e dedicação profissional,
cujo objetivo está voltado não para os seus interesses e crenças pessoais,
mas sim para o progresso e desenvolvimento da sua classe, é que saberão,
hoje, tomar decisões equilibradas a fim de que os horizontes do pensamento
e da prática psicológica possam ser ampliados em um futuro próximo.