|
matériapensante |
PSICANÁLISE E NEUROCIÊNCIA: UMA
RELAÇÃO TÃO DELICADA
[1]
Flavia
Sollero-de-Campos [2] As relações entre a Neurociência e a Psicanálise são bastante complexas, demandando previamente um estudo detalhado que contemple aspectos metodológicos e epistemológicos das teorias que se pretende articular. Um encontro entre a Psicanálise e a Neurociência, em geral, pode apenas perpetuar os mal-entendidos numa relação já tão eivada de dificuldades. A autora apresenta as concepções de dois psicanalistas que articulam suas teorias às do neurocientista Gerald Edelman, que propõe uma complexa teoria da mente. O tema de
nosso encontro certamente é um dos mais polêmicos da atualidade.
Pretendo, portanto, apresentar algumas reflexões sobre a possibilidade da
Psicanálise não ficar à margem do debate contemporâneo que envolve as
atuais teorias em neurociência. Freud não se furtou e, mais do que isso,
sempre esteve a par do pensamento científico de sua época, deixando-se
influenciar por essas idéias. Enfim, historicamente podemos traçar a
fertilidade de tal procedimento. No entanto, atualmente observo em alguns
psicanalistas uma recusa a priori da produção contemporânea proveniente
das ciências naturais, como se essas traíssem o espírito da Psicanálise.
Em outros, trata-se mais de um desinteresse, baseado na certeza de que a
Neurociência nada tem a ver com a Psicanálise. Os efeitos dessas
posturas parecem-me danosos, na medida em que podem afastar a
possibilidade de um diálogo entre diferentes áreas de saber e colocar a
Psicanálise num incômodo lugar anacrônico. Por outro lado, a postura
que idealiza a Neurociência e a coloca como a possibilidade de salvação
da Psicanálise das críticas atuais oriundas das comunidades médicas e
científicas também não presta nenhum serviço relevante ao lugar dos
psicanalistas nos dias de hoje. Desde sua
constituição, a Psicanálise aborda alguns temas centrais que foram se
tornando gradativamente objeto de interesse e de pesquisa experimental em
algumas abordagens em Neurociência. É a Psicanálise a teoria que
assinala que o sujeito não é uno; é um sujeito dividido, e determinado
por forças que estão além, ou aquém, de sua consciência. O psiquismo,
ou a mente se quisermos, é regido por conflitos entre o domínio
consciente e o inconsciente; é, portanto, intrinsecamente inatingível um
funcionamento psíquico tão harmonioso a ponto de neutralizar a existência
do sofrimento no ser humano. O sujeito psicanalítico seria aquele cuja
capacidade para a reflexão sobre si e cujo acesso, até onde for possível,
de sua dimensão inconsciente lhe fornecem talvez a forma mais próxima de
uma relativa autonomia e liberdade. Sem dúvida, a concepção psicanalítica
de subjetividade mostra-se complexa e sofisticada. A Psicanálise
é, também, e disso devemos lembrar-nos insistentemente, parte integrante
das formas de subjetivação contemporânea. Ela é uma prática social
que participa da constituição e da regulação dos sujeitos, inclusive
das formas em que é concebida sua realidade interna. Em outras palavras,
a Psicanálise está inextricavelmente ligada às maneiras pelas quais se
compreende a subjetividade contemporânea. Desse ponto de vista, a clínica
constitui-se num dos discursos onde se aprende um instrumental, um aparato
conceitual para se pensar sobre si mesmo e suas relações interpessoais.
Além disso, a Psicanálise refere-se à Biologia em suas formulações,
tais como nos conceitos de instinto, pulsão, necessidade, e todo um
vocabulário ligado à teoria da evolução. Freud e os psicanalistas que
a ele se seguiram propunham interações, correlações, metáforas, não
somente com a Biologia, mas também com a Sociologia e Antropologia de sua
época. Ao falarem de geanalogias, correlações, interações, certamente
demonstram uma concepção dualista que caracteriza a Psicanálise. O
dualismo continua hegemônico na Psicanálise, pois se considera que
somente nessa perspectiva é possível preservar a singularidade dos
estados mentais, sua não-redutibilidade a estados fisiológicos
cerebrais, etc, e manter a separação entre as ciências naturais e as ciências
humanas. Penso que
esta concepção dualista mantém-se exatamente por não se problematizar
nem a concepção de ciência, nem a concepção de linguagem dominantes.
Além do mais, a tentativa de manter a integridade da Psicanálise, de se
manter a fidelidade imaginária à perspectiva freudiana pode tornarŒnos
cegos em relação a dois aspectos. Primeiro, às modificações e
apropriações teóricas que o próprio Freud fez, com grande independência,
no decorrer de sua obra. É, também, esquecer-se do legado lacaniano,
pois indubitavelmente Lacan transformou de maneira radical a Psicanálise
a partir da perspectiva estruturalista. Certamente existem várias
maneiras de se fazer a articulação neurociência - psicanálise.
Inicialmente, parece que a questão mais importante - ou pelo menos, a
mais visível - no campo dessa articulação centra-se na questão das
origens dos distúrbios mentais e à comparação da ação das várias
formas de psicoterapia, inclusive a psicanálise, com o uso de psicofármacos.
Esta discussão é problemática, e não é para ela que estão
direcionados os neurocientistas mais sofisticados. Por sua vez, boa parte
dos psis não leva em consideração em suas reflexões as atuais teorias
biológicas da mente, e suas contribuições para o debate. Dada a
espantosa complexidade do cérebro e de sua atividade, existem estudos que
pretendem desde incluir o sistema nervoso em sua integridade, até aqueles
que pesquisam um tipo específico de receptor de proteínas. Para Rose
(1999), por isso a neurociência representa a convergência de muitas
tecnologias (p. 5). Mas, ele logo assinala que não se trata bem de
convergência, pois os vários campos mantêm-se relativamente isolados. E
queixa-se de que existe uma imensa quantidade de dados e de teorias
limitadas em diferentes níveis, mas que ainda falta uma concepção
unificada do que significa ser um cérebro, e de como ele faz o que faz
(p. 5). Por um
lado, podemos divergir da utilização da palavra tecnologia, pois a
Neurociência é composta de várias disciplinas, que recorrem às
tecnologias disponíveis e adequadas ao desenvolvimento de suas pesquisas
Por outro lado, concordamos até certo ponto com Rose, quando este fala da
falta de uma teoria unificada da mente. Temos uma corte de teorias
pequenas e limitadas, que não nos permitem integrar os dados provenientes
das várias áreas de pesquisa envolvidas. Podemos dizer que existem dois
tipos fundamentais de abordagem fisicalista ao estudo da mente. O
materialismo eliminativista afirma que os fatos mentais são produto específico
da arquitetura neuronal: os estados mentais são estados físicos do cérebro,
e qualquer tipo de explicação que recorra a uma dimensão mentalista
para dar conta do comportamento humano é enganosa (Churchland, 1984, p.
43). Assim, essa abordagem busca eliminar todo vocabulário psicológico e
substituí-lo por um vocabulário fisiológico, que seria mais preciso e
rigoroso. Para isso, busca formular novas categorias explanatórias
recorrendo à biologia molecular e seus derivados, e construindo,
portanto, categorias de nível neuronal e sub-neuronal. Para o
materialismo reducionista também existiria uma correlação entre estados
físicos cerebrais e estados mentais. O mental estaria intrinsecamente
ligado às suas bases cerebrais. Porém, para explicá-lo, não seria
necessário afastar todo vocabulário mentalista; pelo contrário, para
que essa abordagem se apresente como relevante, considera-se fundamental
que ela incorpore conceitos e temas provenientes das áreas primeiras que
tinham o humano por objeto: psicologia, sociologia, psicanálise, etc., além
da folk psychology. Na busca de categorizações para o estudo do
funcionamento neuronal, se recorrerá a todo tipo de conceitos envolvidos
no estudo da subjetividade, visando compreender o sistema neuronal a
partir exatamente dessas categorias; por exemplo, racionalidade, consciência,
inconsciente, emoções, dor, ansiedade. Esta certamente é a abordagem à
mente mais pertinente a um estudo da subjetividade. Porém, faremos mais
uma diferenciação no grupo destas teorias. O grupo de teóricos
neurocientistas reducionistas considera que as noções de organismo e de
vida são imprescindíveis ao estudo e ao entendimento da mente - animal e
humana. Nenhum computador, por mais sofisticado, dará conta da
complexidade de um organismo vivo, e mais ainda, do ser humano, com sua
capacidade lingüística. Temos, aqui, as teorias de Crick e Koch (1994),
que propõem o nível neuronal de estudo, Penrose (1994), que propõe o nível
sub-neuronal - o quark – no entendimento da mente. Estes autores são
reducionistas, mas a nosso ver falta-lhes o aspecto essencial de interesse
para a área de ciências humanas e sociais. Portanto,
dentro da posição fisicalista, consideramos que a concepção
reducionista é a mais adequada para os interesses das ciências humanas e
sociais. Porém, Crick e Koch, e Penrose propõem teorias às quais falta
exatamente esse aspecto, na medida em que se mantêm nos níveis
sub-neuronal e neuronal, que pouco nos auxiliam no entendimento do humano.
Consideramos adequados para nossa área de interesse os autores que
estabelecem claras relações com o entendimento sócio-cultural da
subjetividade, através de conceitos originários da psicanálise, da
neurologia, da filosofia (pragmática e hermenêutica), da psicologia, da
psiquiatria, incluindo a linguagem latu sensu e seus usuários. Portanto,
os autores desta linha não eliminam os conceitos e categorias psicológicos,
psicanalíticos, psicopatológicos, sócio-culturais, mas sim tentam
estabelecer relações entre estes e o funcionamento do sistema neuronal.
Eles estão exatamente tentando entender o neuronal a partir de categorias
tais como racionalidade, consciência, inconsciente, emoções, valor, e
outros. Enfatizam a plasticidade neuronal que, frente às experiências
vividas pelo organismo (e não somente o humano), viabiliza a produção
de estruturas neuronais sempre individuais e singulares. Além disso,
assinalam que quanto mais complexa e diferenciada for a experiência de
vida, mais complexa e rica será a configuração cerebral do indivíduo,
e assim, mais resistente à deterioração. Dentre os
seres humanos, a existência da linguagem e a complexidade da experiência
social são causa e conseqüência da maior plasticidade cerebral,
provocando no sistema cerebral modificações em cascata (ver, por
exemplo, Edelman, Damasio, Schore, Rosenfield, Varela). Para estes teóricos,
o conceito que atravessa seu campo não é o do computador, e sim o de
informação (o computador é compartilhado enquanto ferramenta pelos dois
grupos - mas, no primeiro grupo, é também a metáfora básica). Consideramos,
assim, que uma teoria da mente que nos seja útil deverá ter como ponto
de partida o fato de que a mente existe em seres vivos que habitam um
mundo. Os aspectos biológicos não são, portanto, acessórios; eles são
fundamentais para se entender tais sistemas vivos. O conhecimento dos
detalhes anátomo-fisiológicos e do desenvolvimento do sistema nervoso é
fundamental, assim como a inclusão dos aspectos comumente definidos como
a vida mental e a vida social dos seres vivos: sensações, percepções,
sentimentos, impulsos, interação, e, nos seres humanos, a linguagem e a
consciência de si. Uma teoria da mente deve procurar dar conta dessas
características, incluindo-as no contexto mais amplo das complexas relações
dos seres vivos com o meio ambiente. Desenvolvendo
tal concepção, os autores citados acima afirmam que a experiência
social é indissociável da arquitetura cerebral existente nos humanos; os
seres humanos são humanos por que constituídos assim, seres de linguagem
e de cultura, no decorrer da deriva evolutiva da espécie. Toda essa
concepção é selecionista no sentido pós-darwinista. A concepção pós-darwinista
de evolução utiliza a metáfora da bricolagem (termo utilizado por Claude Lévi-Strauss
(1968) para referir-se ao processo pelo qual indivíduos e culturas
utilizam os objetos ao seu redor para criar, desenvolver e apreender idéias
(ver
Jacob, 1970/1983)) Assim, a seleção descarta a posteriori aquilo que não
tem valor para a reprodução e a sobrevivência. Não existe um guia rígido
para o processo de seleção das espécies: os organismos e a população
oferecem variedade; a seleção natural garante somente que aquilo que
permaneça satisfaça os dois constrangimentos básicos da sobrevivência
e da reprodução (p. 195), e para isso, iso que não é proibido é
permitido (idem). Neste
sentido, o processo evolutivo, ainda nas palavras de Varela, muda da seleção
ótima para a viabilidade (p.196). Sobreviver é manter-se viável. As
teorias da mente que consideramos pertinentes para nossa área de
interesse, e relevantes para o entendimento da subjetividade, são,
portanto, as poucas que 1) consideram a mente como algo mais do que a
consciência; 2) consideram a mente como parte integrante da biologia,
isto é, do organismo; 3) consideram a mente como resultante do processo
evolutivo da espécie humana. E 4) consideram que não se deve cair num
reducionismo tolo (Edelman,1992), que afirma ser possível conhecer uma
pessoa, ou explicá-la, apenas em termos moleculares, ou fisiológicos, ou
quânticos, sem incluir os seus aspectos sociais e interacionais. Tendo em
vista toda essa rica teorização, não é possível a psicanálise
manter-se isolada. Podemos dizer de uma revolução na forma de ver o cérebro,
que aparece tanto na literatura científica como na mídia escrita e
televisionada. E muitas questões apresentadas pela neurociência têm
afinidades com a psicanálise: por exemplo, conceitos como cisão (complexificada
como sub-sistemas em interação), consciência, self, identidade,
identidades múltiplas, memória. Assim, se
por um lado algumas correntes da psicanálise se excluem do encontro com a
neurociência, terminam por participar desse encontro. Inúmeros
neurocientistas referem-se de maneira mais ou menos explícita a conceitos
originados da psicanálise, dada a relevância desses para o entendimento
da problemática das subjetividades socialmente instituídas. E se
considerarmos a ciência como uma forma de cultura produzida dentro de uma
forma de vida, torna-se crucial localizar as relações entre a psicanálise,
que se propõe a estudar o ser humano em sua especificidade e
singularidade, e as outras ciências, ditas naturais, que atualmente também
se propõem a isto. A teoria
psicanalítica contemporânea parece carecer de categorias conceituais básicas
que participem da redefinição de algumas teorizações propostas por
Freud. E as repetidas afirmações de um esgotamento da teoria e da clínica
psicanalítica, consideradas desatualizadas e cientificamente erradas são
outra fonte de pressão sobre a psicanálise. Consideramos, portanto, que
não basta falar das neurociências e da psicanálise. Precisamos definir,
e escolher usando critérios epistemológicos consistentes, as teorias em
neurociência que melhor nos servem, as mais adequadas a nossos propósitos.
Nesta escolha, é crucial o critério da preocupação com os aspectos sócio-culturais
da subjetividade. Assim como temos várias teorias em psicanálise, o
mesmo se dá na neurociência. Do ponto de
vista da neurociência, atendendo aos critérios propostos acima, as
teorias que atualmente demonstram maior relevância para nós, das ciências
humanas, são as teorias de Gerald Edelman, Antonio Damásio, Francisco
Varela e Michael Gazzaniga. Certamente essas teorias apresentam inúmeras
diferenças entre si. Mas propõem-se a ser teorias abrangentes da mente,
e não teorias limitadas em diferentes níveis (Rose, op.
cit.). No campo da neurologia clínica, já são
bastante conhecidos os escritos de Oliver Sacks (1995; 1997; 1998), onde
ele enfatiza a importância de várias teorias da neurociência atual, e
mais especificamente a teoria de Gerald Edelman (1989, 1992, 2000). Tais
teorias são fundamentais para Sacks explicar seus casos clínicos, do
ponto de vista de reorganizações fisiológicas e anatômicas na
microestrutura do cérebro. As reorganizações realizadas por animais e
humanos nas suas inumeráveis capacidades de adaptação individual frente
a situações totalmente novas - muitas vezes causadas por adoecimentos -
geram novas percepções, novas categorizações e organizações, novos
modos de relacionar-se com o mundo. A doença tem o papel paradoxal de
revelar tais capacidades latentes. Também são
interessantes os trabalhos de Israel Rosenfield (1992, 1994), onde ele
propõe uma teoria da memória (a memória não é uma entidade precisa;
as lembranças não estão estocadas numa espécie de almoxarifado
cerebral) e da consciência, incluindo a tentativa de explicação de
alguns distúrbios de identidade e de consciência. Rosenfield considera
que a neurofisiologia contemporânea possibilita formas de entendimento da
subjetividade a partir de mecanismos neurológicos específicos que tinham
sido negligenciados até então, e afirma que a memória, o reconhecimento
e a consciência são parte integrante de um mesmo processo. Elogia a
teoria freudiana da memória pois esta edifica uma problemática mais
profunda e mais interessante (p. 46) não somente do que aquela das concepções
dos neurologistas contemporâneos de Freud, como ainda se mantém
vigorosamente atual. Em
artigo dedicado à questão do descentramento do sujeito realizado pelo
conceito de inconsciente, Bezerra (1994) observa que o fato de se utilizar
os mesmos termos - inconsciente, pulsão, sujeito, desejo, interpretação,
transferência - não significa que não existam divergências profundas
entre os psicanalistas quanto ao entendimento e à utilização desses
conceitos. As diferentes elaborações em torno da teoria freudiana
redefinem continuamente o campo psicanalítico, e podem ser o motivo mais
importante nas disputas que ocorrem em seu interior. Além disso, dessas
diversas interpretações podem ser elaboradas descrições diferentes
tanto da experiência clínica quanto do lugar a ser ocupado pela psicanálise
no interior da cultura (Bezerra, p. 120). A primeira onda de interesse
entre os psicanalistas desejosos de incluir a psicanálise no campo científico
objetivista deu-se entre as décadas de 50 e 70, nos anglo-saxônicos;
propunham-se a redefinir conceitos a partir da teoria da informação, a
teoria de sistemas, e da biologia que já começava a interagir com estes
dois referenciais. Para ser aceita, a psicanálise deveria reconstruir sua
teoria de maneira a viabilizar a verificação experimental. A
cientificidade da psicanálise seria conquistada pela adoção da
filosofia neopositivista e do fisicalismo das ciências da natureza; aliás,
nos Estados Unidos, a psicanálise expandiu-se ao ser aceita pela
psicologia e pela psiquiatria, e incorporada a elas. Assim, os primeiros
psicanalistas dedicados a estabelecer bases consideradas científicas para
a teoria psicanalítica buscaram tais bases na neuropsicologia e na teoria
da informação: temos dois pequenos exemplos das obras de Peterfreund (1971) e
Rosenblatt e Thickstun (1977). É no contexto da heterogeneidade
reinante no campo da Psicanálise, e do sucesso da neurociência e áreas
afins que alguns psicanalistas, principalmente de língua inglesa, e após
um intervalo de aproximadamente 20 anos, têm-se preocupado em estabelecer
conexões entre a perspectiva psicanalítica e algumas dessas ciências
contemporâneas, visando explicar como e porquê a psicanálise (e a
psicoterapia psicanalítica) funciona, como se dá - ou não - a mudança
psíquica. Tais conexões estabelecem-se a partir de diferentes campos,
tais como a neurobiologia, a observação de bebês, a etologia e outros
aspectos da teoria do desenvolvimento contemporânea, pesquisas em
psicoterapia, psicologia cognitiva, psicofarmacologia, redes neurais e
estudos de imagens do cérebro. A preocupação maior desses psicanalistas
parece consistir em confirmar suas teorias nos achados da ciência
contemporânea, procurando afirmar o lugar da psicanálise na
contemporaneidade científica. Assim, por
exemplo, estabelecem conexões entre a psicanálise e estudos sobre
aprendizagem e memória; ou explicam em termos neuronais parte do que
acontece numa sessão psicanalítica. Por outro lado, defendem também a
posição pró-psicanálise, na medida em que utilizam estes mesmos
argumentos para provar que a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica
podem ser consideradas meios eficazes de se alterar as representações de
relacionamentos que compõem o psiquismo, propiciando, portanto, mudança
psíquica. Porém, como não definem exatamente o que lhes interessa, e os
temas relevantes para seu esforço de atualização da Psicanálise,
acabam por recorrer a um amálgama de teorias, onde se misturam abordagens
eliminativistas com outras, dos variados matizes reducionistas. Ficamos,
então, com uma colcha de retalhos, onde os vários tipos de pesquisas em
neurociência não passam por um crivo epistemológico mais rigoroso. Por
outro lado, temos também vários indicadores da crescente preocupação
de alguns psicanalistas da atualidade em relacionar de maneira consistente
teórica e epistemologicamente a psicanálise com a neurociência; no
caso, a teoria biológica da mente mais utilizada tem sido a proposta por
Gerald Edelman. Arnold
Modell (1993, 1996) propõe-se a estudar o funcionamento interno do
tratamento psicanalítico: como o setting psicanalítico pode funcionar
como um ambiente facilitador da experiência transferencial. Em que
consiste exatamente a transferência: é uma repetição do passado, ou
uma nova criação? Para Modell, nem uma nem outra: a transferência só
pode ser entendida como um paradoxo, tempo cíclico e não linear, onde
existem relações extremamente complexas entre memórias e fantasias. As
memórias são reconstruídas pela experiência, e ao mesmo tempo, o
sujeito pode utilizar a fantasia para preencher os buracos nos seus
registros. Modell afirma, então, que a transferência apresenta múltiplos
níveis de realidade, que lhe dão sua qualidade fugidia e a dificuldade
de se dizer qual é a relação irreal ‚do analisando com o analista.
Porém, o mais interessante para nós é que Modell, como Rosenfield,
encontra na teoria da seleção de grupos neuronais de Edelman uma
confirmação inesperada das concepções freudianas de memória. Para
Edelman, memória é recategorização da experiência; assim, Modell
arrisca-se a explicar de uma maneira nova a função biológica da repetição
e, especificamente, o Nachtraglichkeit (a posteriori). Além disso, Modell
estuda o conceito de self (1993) numa perspectiva interdisciplinar que
envolve a teoria das relações de objeto, psicologia do self, e neurociência
(novamente, a proposta de Edelman). Nesse segundo livro, Modell afirma a
existência de uma crise conceitual na psicanálise, causada por dois
grandes problemas: primeiro, a teoria das pulsões estaria incompatível
com a biologia contemporânea. Ao tentarem solucionar essa questão,
alguns afirmam ser a pulsão um conceito psicanalítico, e não biológico.
Mas assim discordam da própria definição freudiana, que coloca a pulsão
como conceito limítrofe entre o biológico e o psíquico. Em segundo
lugar, a teoria do self apresenta conceituações totalmente diferentes da
teoria das pulsões; então, como conciliá-las? Modell utiliza o conceito
edelmaniano de valor evolucionário para substituir o conceito de pulsão
Esta substituição permitiria abranger tanto os sistemas homeostáticos
do organismo como seu sistema de sentidos e preferências pessoais - e,
portanto, englobaria a psicologia do self. Cabe observar que as propostas
de Modell não são isentas de crítica; a primeira seria
que o autor busca substituir conceitos da psicanálise
por conceitos da teoria de Edelman, e não estabelecer uma relação entre
as teorias. Além de
Modell, existem inúmeros autores psicanalistas que se propõem a
estabelecer uma aproximação entre os dois campos, quase sempre se
referindo ao exemplo de Freud e seu Projeto para uma Psicologia Científica
(1895) como uma proposta seminal refletindo esse tipo de preocupação. A
revista Neuropsychoanalysis, fundada em 1999, tem trazido grandes
contribuições ao debate, buscando novas formas de aproximações entre
os dois campos de saber. Outro psicanalista interessado no tema, e de
outra tradição em Psicanálise, é André Green que, desde 1995,
demonstra interesse pela mesma teoria de Gerald Edelman. Em 1995, Green
afirma que os neurobiólogos se interessam pelas relações entre o cérebro
e a consciência não se interessam de modo algum pelo inconsciente. Quer
dizer, existe de fato uma recusa do conceito de Ics tal como nós,
psicanalistas, o concebemos (p. 16). Fala da interação dos sistemas
imunológico, neuronal e hormonal, heterogêneos com o aparelho psíquico
de Freud. Diz que as teorias que mais o interessam são a de Jean-Didier
Vincent, que enfatiza a importância do sistema hormonal na regulação psíquica,
e a de Edelman. Como Modell, Green advoga o uso do conceito de categorização,
ou de ‚categorias-valor para dar conta do funcionamento do inconsciente.
Propõe a relação entre conceito de investimento/catexia e a determinação
de que algo tenha valor para um dado indivíduo. No seu segundo exemplo,
propõe que, no sistema freudiano, a angústia de castração poderia ser
uma ‚categoria-valor. Critica o desejo de se chegar a um procedimento
objetivo, que se manifesta principalmente pela tentativa de dessubjetivação,
o que leva os cientistas a recorrerem a categorias que funcionam segundo
um modelo puramente fisiológico, e que não faz sentido para os
psicanalistas. Esta ponderação confirma nossas observações quanto à
escolha das teorias em neurociência. No segundo
artigo, de 1999, após discorrer sobre fatos clínicos e a diferenciação
iniciada em Freud entre afeto e representação no inconsciente, Green
fala sobre algumas formas de transferência onde prevalece o irrepresentável,
formulando algumas hipóteses para tais situações clínicas. Aqui, ele
reafirma a segunda teoria das pulsões e, ao fazer ‚especulações
utiliza o conceito edelmaniano de reentrada. Green duvida que as
abordagens ditas observacionais científicas possam dar conta da
complexidade da situação analítica. Simultaneamente, para ele, a teoria
de Edelman mostra que, no estudo da consciência e a fortiori do
inconsciente, o melhor referente são outros seres humanos, pois seus
sentimentos formam a base indispensável sobre a qual podemos
correlacionar todas as suas experiências. E afirma que esta teoria seria
a única que não reduz a atividade psíquica à atividade neuronal. CONCLUSÃO Nosso
interesse em apresentar mais detalhadamente as idéias de dois
psicanalistas decorre do fato de ambos referirem-se de maneira consistente
a um neurocientista que propõe uma teoria da mente, e sua busca de integrá-lo
às suas propostas teóricas e técnicas. Consideramos que a viabilização
do tipo de discussão proposto neste encontro demandaria, primeiramente,
uma redefinição metodológica e epistemológica de ambos os campos.
Nesse contexto, são grandes as dificuldades encontradas pelos autores
psicanalistas que tentam articular contribuições da neurociência com
problemáticas propriamente psicanalíticas. Em conseqüência, são
feitas justaposições até superficiais de aspectos teóricos, os quais
remetem não apenas aos diferentes pressupostos, do tipo i. fisicalismo VS.
dualismo, como também aos diferentes propósitos das respectivas teorias. Num segundo
momento, caberia realizarmos uma discussão das principais contribuições
da neurociência que seriam relevantes para a psicanálise. Por exemplo, a
questão da cisão e da fragmentação do sujeito, definidas como múltiplos
sub-sistemas que se interrelacionam através de inúmeras vias e formas de
conexão, sendo este processo praticamente inconsciente; a questão da
percepção e da memória consideradas como contínuos processos de
construção e reconstrução envolvendo os sub-sistemas acima citados; a
questão da dimensão valorativa inerente a todo esse funcionamento, em
seus vários níveis de complexidade, sendo que tais valores refletem não
apenas a programação genética e as predisposições, mas também toda a
trajetória idiossincrática de vida do indivíduo.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS CHURCHLAND, P.M. (1984). Matter and consciousness: A contemporary introduction
to the philosophy of mind. Cambridge, MA, The MIT Press CHURCHLAND, P.S. e SEJNOWSKI, T.J. (1992). The computational brain.
Cambridge, MA, The MIT Press. COUTINHO, A.M. (1994). Repensando a
questão da subjetividade em uma perspectiva pragmática, in COSTA J. F. (org.)
Redescrições da Psicanálise, Ensaios Pragmáticos, Rio, Relume-Dumará. CRICK, F. (1994). The astonishing hypothesis: The scientific search for
the soul. New York:: Simon & Schuster. DAMASIO, A (1994). O erro de
Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Lisboa, Ed. Europa-América. ________. (1999). The feeling of what happens, New York, Harcourt Brace. EDELMAN, G.M. (1992). Bright air, brilliant fire: on the matter of the
mind. New York, Basic Books. _______________ e TONONI, G.,(2000). A universe of consciousness: how matter becomes
imagination. New York, Basic Books. GAZZANIGA, M. S. (1992). Nature’s mind, New York, Basic Books. _________________. (1998). The mind’s past, Berkeley, University of
California Press. GEDO, J. (1999). The evolution of psychoanalysis: contemporary theory and
practice, Nova Iorque, Other Press. GREEN, A. (1995). Neurobiologia e
Psicanálise, in Corpomente, uma fronteira móvel, Junqueira Filho, L.C. (org.),
São Paulo, Casa do Psicólogo. ___________. (1999). On discriminating and not discriminating between
affect and representation, in International Journal of Psychoanalysis, http://www.ijpa.org/ JACOB, F. (1970). La logiqque du vivant, Paris, Gallimard. MODELL, A H. (1990). Other Times, other realities: Toward a theory of
psychoanalytic treatment. Cambridge, MA, Harvard University Press _____________. (1993). The private self. Cambridge, MA, Harvard
University Press. PANKSEPP, J. (1999). Emotions as viewed by psychoanalysis and
neuroscience: anexercise in consilience, Neuro-Psychoanalysis, 1: 15-38. PETERFREUND, E. (1971). Information Systems and Psychoanalysis. New York:
International Univ. press. PENROSE, R. (1994). Shadows of the mind: A search for the missing science
of consciousness. Oxford: Oxford University Press ROSENBLATT, A. e THICKSTUN,J. (1977), Modern psychoanalytic concepts in
ageneral psychology, Psychoanalytic Issues, Monograph.42/43. Nova Iorque,
International Universities Press. ROSENFIELD, I. (1992). The strange, the familiar and the forgotten. New
York, Random. _____________(1994, orig.1988). A
invenção da memória. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. SACKS, O (1995). Um Antropólogo em
Marte: Sete histórias paradoxais. São Paulo, Cia das Letras. ________. (1997, orig. 1985). O homem
que confundiu sua mulher com um chapéu. São Paulo, Cia das Letras. SCHORE, A. N.,(1997) A century after Freud’s Project: is a
rapprochement between psychoanalysis and neurobiology at hand?, in Journal
of the American Psychoanalytic Association, 45/3, 807-840. VARELA, F., THOMPSON, E. e ROSCH, E. (1991). The embodied mind: cognitive
science and human experience. Cambridge, MA: The MIT Press
[1]
Agradeço à
Profª Anamaria Ribeiro Coutinho pelos preciosos comentários e sugestões
ao presente artigo. [2] Professora assistente do Departamento de Psicologia da PUC-RJ
|
|
produção discente links
|