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PSICANÁLISE E NEUROCIÊNCIA: 

UMA RELAÇÃO TÃO DELICADA [1]

 

Flavia Sollero-de-Campos [2]

 

As relações entre a Neurociência e a Psicanálise são bastante complexas, demandando previamente um estudo detalhado que contemple aspectos metodológicos e epistemológicos das teorias que se pretende articular. Um encontro entre a Psicanálise e a Neurociência, em geral, pode apenas perpetuar os mal-entendidos numa relação já tão eivada de dificuldades. A autora apresenta as concepções de dois psicanalistas que articulam suas teorias às do neurocientista Gerald Edelman, que propõe uma complexa teoria da mente.

O tema de nosso encontro certamente é um dos mais polêmicos da atualidade. Pretendo, portanto, apresentar algumas reflexões sobre a possibilidade da Psicanálise não ficar à margem do debate contemporâneo que envolve as atuais teorias em neurociência. Freud não se furtou e, mais do que isso, sempre esteve a par do pensamento científico de sua época, deixando-se influenciar por essas idéias. Enfim, historicamente podemos traçar a fertilidade de tal procedimento. No entanto, atualmente observo em alguns psicanalistas uma recusa a priori da produção contemporânea proveniente das ciências naturais, como se essas traíssem o espírito da Psicanálise. Em outros, trata-se mais de um desinteresse, baseado na certeza de que a Neurociência nada tem a ver com a Psicanálise. Os efeitos dessas posturas parecem-me danosos, na medida em que podem afastar a possibilidade de um diálogo entre diferentes áreas de saber e colocar a Psicanálise num incômodo lugar anacrônico. Por outro lado, a postura que idealiza a Neurociência e a coloca como a possibilidade de salvação da Psicanálise das críticas atuais oriundas das comunidades médicas e científicas também não presta nenhum serviço relevante ao lugar dos psicanalistas nos dias de hoje.

Desde sua constituição, a Psicanálise aborda alguns temas centrais que foram se tornando gradativamente objeto de interesse e de pesquisa experimental em algumas abordagens em Neurociência. É a Psicanálise a teoria que assinala que o sujeito não é uno; é um sujeito dividido, e determinado por forças que estão além, ou aquém, de sua consciência. O psiquismo, ou a mente se quisermos, é regido por conflitos entre o domínio consciente e o inconsciente; é, portanto, intrinsecamente inatingível um funcionamento psíquico tão harmonioso a ponto de neutralizar a existência do sofrimento no ser humano. O sujeito psicanalítico seria aquele cuja capacidade para a reflexão sobre si e cujo acesso, até onde for possível, de sua dimensão inconsciente lhe fornecem talvez a forma mais próxima de uma relativa autonomia e liberdade. Sem dúvida, a concepção psicanalítica de subjetividade mostra-se complexa e sofisticada.

A Psicanálise é, também, e disso devemos lembrar-nos insistentemente, parte integrante das formas de subjetivação contemporânea. Ela é uma prática social que participa da constituição e da regulação dos sujeitos, inclusive das formas em que é concebida sua realidade interna. Em outras palavras, a Psicanálise está inextricavelmente ligada às maneiras pelas quais se compreende a subjetividade contemporânea. Desse ponto de vista, a clínica constitui-se num dos discursos onde se aprende um instrumental, um aparato conceitual para se pensar sobre si mesmo e suas relações interpessoais. Além disso, a Psicanálise refere-se à Biologia em suas formulações, tais como nos conceitos de instinto, pulsão, necessidade, e todo um vocabulário ligado à teoria da evolução. Freud e os psicanalistas que a ele se seguiram propunham interações, correlações, metáforas, não somente com a Biologia, mas também com a Sociologia e Antropologia de sua época. Ao falarem de geanalogias, correlações, interações, certamente demonstram uma concepção dualista que caracteriza a Psicanálise. O dualismo continua hegemônico na Psicanálise, pois se considera que somente nessa perspectiva é possível preservar a singularidade dos estados mentais, sua não-redutibilidade a estados fisiológicos cerebrais, etc, e manter a separação entre as ciências naturais e as ciências humanas.

Penso que esta concepção dualista mantém-se exatamente por não se problematizar nem a concepção de ciência, nem a concepção de linguagem dominantes. Além do mais, a tentativa de manter a integridade da Psicanálise, de se manter a fidelidade imaginária à perspectiva freudiana pode tornarŒnos cegos em relação a dois aspectos. Primeiro, às modificações e apropriações teóricas que o próprio Freud fez, com grande independência, no decorrer de sua obra. É, também, esquecer-se do legado lacaniano, pois indubitavelmente Lacan transformou de maneira radical a Psicanálise a partir da perspectiva estruturalista. Certamente existem várias maneiras de se fazer a articulação neurociência - psicanálise. Inicialmente, parece que a questão mais importante - ou pelo menos, a mais visível - no campo dessa articulação centra-se na questão das origens dos distúrbios mentais e à comparação da ação das várias formas de psicoterapia, inclusive a psicanálise, com o uso de psicofármacos. Esta discussão é problemática, e não é para ela que estão direcionados os neurocientistas mais sofisticados. Por sua vez, boa parte dos psis não leva em consideração em suas reflexões as atuais teorias biológicas da mente, e suas contribuições para o debate.

Dada a espantosa complexidade do cérebro e de sua atividade, existem estudos que pretendem desde incluir o sistema nervoso em sua integridade, até aqueles que pesquisam um tipo específico de receptor de proteínas. Para Rose (1999), por isso a neurociência representa a convergência de muitas tecnologias (p. 5). Mas, ele logo assinala que não se trata bem de convergência, pois os vários campos mantêm-se relativamente isolados. E queixa-se de que existe uma imensa quantidade de dados e de teorias limitadas em diferentes níveis, mas que ainda falta uma concepção unificada do que significa ser um cérebro, e de como ele faz o que faz (p. 5).

Por um lado, podemos divergir da utilização da palavra tecnologia, pois a Neurociência é composta de várias disciplinas, que recorrem às tecnologias disponíveis e adequadas ao desenvolvimento de suas pesquisas Por outro lado, concordamos até certo ponto com Rose, quando este fala da falta de uma teoria unificada da mente. Temos uma corte de teorias pequenas e limitadas, que não nos permitem integrar os dados provenientes das várias áreas de pesquisa envolvidas. Podemos dizer que existem dois tipos fundamentais de abordagem fisicalista ao estudo da mente. O materialismo eliminativista afirma que os fatos mentais são produto específico da arquitetura neuronal: os estados mentais são estados físicos do cérebro, e qualquer tipo de explicação que recorra a uma dimensão mentalista para dar conta do comportamento humano é enganosa (Churchland, 1984, p. 43). Assim, essa abordagem busca eliminar todo vocabulário psicológico e substituí-lo por um vocabulário fisiológico, que seria mais preciso e rigoroso. Para isso, busca formular novas categorias explanatórias recorrendo à biologia molecular e seus derivados, e construindo, portanto, categorias de nível neuronal e sub-neuronal.

Para o materialismo reducionista também existiria uma correlação entre estados físicos cerebrais e estados mentais. O mental estaria intrinsecamente ligado às suas bases cerebrais. Porém, para explicá-lo, não seria necessário afastar todo vocabulário mentalista; pelo contrário, para que essa abordagem se apresente como relevante, considera-se fundamental que ela incorpore conceitos e temas provenientes das áreas primeiras que tinham o humano por objeto: psicologia, sociologia, psicanálise, etc., além da folk psychology. Na busca de categorizações para o estudo do funcionamento neuronal, se recorrerá a todo tipo de conceitos envolvidos no estudo da subjetividade, visando compreender o sistema neuronal a partir exatamente dessas categorias; por exemplo, racionalidade, consciência, inconsciente, emoções, dor, ansiedade. Esta certamente é a abordagem à mente mais pertinente a um estudo da subjetividade. Porém, faremos mais uma diferenciação no grupo destas teorias. O grupo de teóricos neurocientistas reducionistas considera que as noções de organismo e de vida são imprescindíveis ao estudo e ao entendimento da mente - animal e humana. Nenhum computador, por mais sofisticado, dará conta da complexidade de um organismo vivo, e mais ainda, do ser humano, com sua capacidade lingüística. Temos, aqui, as teorias de Crick e Koch (1994), que propõem o nível neuronal de estudo, Penrose (1994), que propõe o nível sub-neuronal - o quark – no entendimento da mente. Estes autores são reducionistas, mas a nosso ver falta-lhes o aspecto essencial de interesse para a área de ciências humanas e sociais.

Portanto, dentro da posição fisicalista, consideramos que a concepção reducionista é a mais adequada para os interesses das ciências humanas e sociais. Porém, Crick e Koch, e Penrose propõem teorias às quais falta exatamente esse aspecto, na medida em que se mantêm nos níveis sub-neuronal e neuronal, que pouco nos auxiliam no entendimento do humano. Consideramos adequados para nossa área de interesse os autores que estabelecem claras relações com o entendimento sócio-cultural da subjetividade, através de conceitos originários da psicanálise, da neurologia, da filosofia (pragmática e hermenêutica), da psicologia, da psiquiatria, incluindo a linguagem latu sensu e seus usuários. Portanto, os autores desta linha não eliminam os conceitos e categorias psicológicos, psicanalíticos, psicopatológicos, sócio-culturais, mas sim tentam estabelecer relações entre estes e o funcionamento do sistema neuronal. Eles estão exatamente tentando entender o neuronal a partir de categorias tais como racionalidade, consciência, inconsciente, emoções, valor, e outros. Enfatizam a plasticidade neuronal que, frente às experiências vividas pelo organismo (e não somente o humano), viabiliza a produção de estruturas neuronais sempre individuais e singulares. Além disso, assinalam que quanto mais complexa e diferenciada for a experiência de vida, mais complexa e rica será a configuração cerebral do indivíduo, e assim, mais resistente à deterioração.

Dentre os seres humanos, a existência da linguagem e a complexidade da experiência social são causa e conseqüência da maior plasticidade cerebral, provocando no sistema cerebral modificações em cascata (ver, por exemplo, Edelman, Damasio, Schore, Rosenfield, Varela). Para estes teóricos, o conceito que atravessa seu campo não é o do computador, e sim o de informação (o computador é compartilhado enquanto ferramenta pelos dois grupos - mas, no primeiro grupo, é também a metáfora básica).

Consideramos, assim, que uma teoria da mente que nos seja útil deverá ter como ponto de partida o fato de que a mente existe em seres vivos que habitam um mundo. Os aspectos biológicos não são, portanto, acessórios; eles são fundamentais para se entender tais sistemas vivos. O conhecimento dos detalhes anátomo-fisiológicos e do desenvolvimento do sistema nervoso é fundamental, assim como a inclusão dos aspectos comumente definidos como a vida mental e a vida social dos seres vivos: sensações, percepções, sentimentos, impulsos, interação, e, nos seres humanos, a linguagem e a consciência de si. Uma teoria da mente deve procurar dar conta dessas características, incluindo-as no contexto mais amplo das complexas relações dos seres vivos com o meio ambiente.

Desenvolvendo tal concepção, os autores citados acima afirmam que a experiência social é indissociável da arquitetura cerebral existente nos humanos; os seres humanos são humanos por que constituídos assim, seres de linguagem e de cultura, no decorrer da deriva evolutiva da espécie. Toda essa concepção é selecionista no sentido pós-darwinista. A concepção pós-darwinista de evolução utiliza a metáfora da bricolagem (termo utilizado por Claude Lévi-Strauss (1968) para referir-se ao processo pelo qual indivíduos e culturas utilizam os objetos ao seu redor para criar, desenvolver e apreender idéias (ver Jacob, 1970/1983)) Assim, a seleção descarta a posteriori aquilo que não tem valor para a reprodução e a sobrevivência. Não existe um guia rígido para o processo de seleção das espécies: os organismos e a população oferecem variedade; a seleção natural garante somente que aquilo que permaneça satisfaça os dois constrangimentos básicos da sobrevivência e da reprodução (p. 195), e para isso, iso que não é proibido é permitido (idem).

Neste sentido, o processo evolutivo, ainda nas palavras de Varela, muda da seleção ótima para a viabilidade (p.196). Sobreviver é manter-se viável. As teorias da mente que consideramos pertinentes para nossa área de interesse, e relevantes para o entendimento da subjetividade, são, portanto, as poucas que 1) consideram a mente como algo mais do que a consciência; 2) consideram a mente como parte integrante da biologia, isto é, do organismo; 3) consideram a mente como resultante do processo evolutivo da espécie humana. E 4) consideram que não se deve cair num reducionismo tolo (Edelman,1992), que afirma ser possível conhecer uma pessoa, ou explicá-la, apenas em termos moleculares, ou fisiológicos, ou quânticos, sem incluir os seus aspectos sociais e interacionais. Tendo em vista toda essa rica teorização, não é possível a psicanálise manter-se isolada. Podemos dizer de uma revolução na forma de ver o cérebro, que aparece tanto na literatura científica como na mídia escrita e televisionada. E muitas questões apresentadas pela neurociência têm afinidades com a psicanálise: por exemplo, conceitos como cisão (complexificada como sub-sistemas em interação), consciência, self, identidade, identidades múltiplas, memória.

Assim, se por um lado algumas correntes da psicanálise se excluem do encontro com a neurociência, terminam por participar desse encontro. Inúmeros neurocientistas referem-se de maneira mais ou menos explícita a conceitos originados da psicanálise, dada a relevância desses para o entendimento da problemática das subjetividades socialmente instituídas. E se considerarmos a ciência como uma forma de cultura produzida dentro de uma forma de vida, torna-se crucial localizar as relações entre a psicanálise, que se propõe a estudar o ser humano em sua especificidade e singularidade, e as outras ciências, ditas naturais, que atualmente também se propõem a isto.

A teoria psicanalítica contemporânea parece carecer de categorias conceituais básicas que participem da redefinição de algumas teorizações propostas por Freud. E as repetidas afirmações de um esgotamento da teoria e da clínica psicanalítica, consideradas desatualizadas e cientificamente erradas são outra fonte de pressão sobre a psicanálise. Consideramos, portanto, que não basta falar das neurociências e da psicanálise. Precisamos definir, e escolher usando critérios epistemológicos consistentes, as teorias em neurociência que melhor nos servem, as mais adequadas a nossos propósitos. Nesta escolha, é crucial o critério da preocupação com os aspectos sócio-culturais da subjetividade. Assim como temos várias teorias em psicanálise, o mesmo se dá na neurociência.

Do ponto de vista da neurociência, atendendo aos critérios propostos acima, as teorias que atualmente demonstram maior relevância para nós, das ciências humanas, são as teorias de Gerald Edelman, Antonio Damásio, Francisco Varela e Michael Gazzaniga. Certamente essas teorias apresentam inúmeras diferenças entre si. Mas propõem-se a ser teorias abrangentes da mente, e não teorias limitadas em diferentes níveis (Rose, op. cit.). No campo da neurologia clínica, já são bastante conhecidos os escritos de Oliver Sacks (1995; 1997; 1998), onde ele enfatiza a importância de várias teorias da neurociência atual, e mais especificamente a teoria de Gerald Edelman (1989, 1992, 2000). Tais teorias são fundamentais para Sacks explicar seus casos clínicos, do ponto de vista de reorganizações fisiológicas e anatômicas na microestrutura do cérebro. As reorganizações realizadas por animais e humanos nas suas inumeráveis capacidades de adaptação individual frente a situações totalmente novas - muitas vezes causadas por adoecimentos - geram novas percepções, novas categorizações e organizações, novos modos de relacionar-se com o mundo. A doença tem o papel paradoxal de revelar tais capacidades latentes.

Também são interessantes os trabalhos de Israel Rosenfield (1992, 1994), onde ele propõe uma teoria da memória (a memória não é uma entidade precisa; as lembranças não estão estocadas numa espécie de almoxarifado cerebral) e da consciência, incluindo a tentativa de explicação de alguns distúrbios de identidade e de consciência. Rosenfield considera que a neurofisiologia contemporânea possibilita formas de entendimento da subjetividade a partir de mecanismos neurológicos específicos que tinham sido negligenciados até então, e afirma que a memória, o reconhecimento e a consciência são parte integrante de um mesmo processo. Elogia a teoria freudiana da memória pois esta edifica uma problemática mais profunda e mais interessante (p. 46) não somente do que aquela das concepções dos neurologistas contemporâneos de Freud, como ainda se mantém vigorosamente atual.

 Em artigo dedicado à questão do descentramento do sujeito realizado pelo conceito de inconsciente, Bezerra (1994) observa que o fato de se utilizar os mesmos termos - inconsciente, pulsão, sujeito, desejo, interpretação, transferência - não significa que não existam divergências profundas entre os psicanalistas quanto ao entendimento e à utilização desses conceitos. As diferentes elaborações em torno da teoria freudiana redefinem continuamente o campo psicanalítico, e podem ser o motivo mais importante nas disputas que ocorrem em seu interior. Além disso, dessas diversas interpretações podem ser elaboradas descrições diferentes tanto da experiência clínica quanto do lugar a ser ocupado pela psicanálise no interior da cultura (Bezerra, p. 120). A primeira onda de interesse entre os psicanalistas desejosos de incluir a psicanálise no campo científico objetivista deu-se entre as décadas de 50 e 70, nos anglo-saxônicos; propunham-se a redefinir conceitos a partir da teoria da informação, a teoria de sistemas, e da biologia que já começava a interagir com estes dois referenciais. Para ser aceita, a psicanálise deveria reconstruir sua teoria de maneira a viabilizar a verificação experimental. A cientificidade da psicanálise seria conquistada pela adoção da filosofia neopositivista e do fisicalismo das ciências da natureza; aliás, nos Estados Unidos, a psicanálise expandiu-se ao ser aceita pela psicologia e pela psiquiatria, e incorporada a elas. Assim, os primeiros psicanalistas dedicados a estabelecer bases consideradas científicas para a teoria psicanalítica buscaram tais bases na neuropsicologia e na teoria da informação: temos dois pequenos exemplos das obras de Peterfreund (1971) e Rosenblatt e Thickstun (1977). É no contexto da heterogeneidade reinante no campo da Psicanálise, e do sucesso da neurociência e áreas afins que alguns psicanalistas, principalmente de língua inglesa, e após um intervalo de aproximadamente 20 anos, têm-se preocupado em estabelecer conexões entre a perspectiva psicanalítica e algumas dessas ciências contemporâneas, visando explicar como e porquê a psicanálise (e a psicoterapia psicanalítica) funciona, como se dá - ou não - a mudança psíquica. Tais conexões estabelecem-se a partir de diferentes campos, tais como a neurobiologia, a observação de bebês, a etologia e outros aspectos da teoria do desenvolvimento contemporânea, pesquisas em psicoterapia, psicologia cognitiva, psicofarmacologia, redes neurais e estudos de imagens do cérebro. A preocupação maior desses psicanalistas parece consistir em confirmar suas teorias nos achados da ciência contemporânea, procurando afirmar o lugar da psicanálise na contemporaneidade científica.

Assim, por exemplo, estabelecem conexões entre a psicanálise e estudos sobre aprendizagem e memória; ou explicam em termos neuronais parte do que acontece numa sessão psicanalítica. Por outro lado, defendem também a posição pró-psicanálise, na medida em que utilizam estes mesmos argumentos para provar que a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica podem ser consideradas meios eficazes de se alterar as representações de relacionamentos que compõem o psiquismo, propiciando, portanto, mudança psíquica. Porém, como não definem exatamente o que lhes interessa, e os temas relevantes para seu esforço de atualização da Psicanálise, acabam por recorrer a um amálgama de teorias, onde se misturam abordagens eliminativistas com outras, dos variados matizes reducionistas.

Ficamos, então, com uma colcha de retalhos, onde os vários tipos de pesquisas em neurociência não passam por um crivo epistemológico mais rigoroso. Por outro lado, temos também vários indicadores da crescente preocupação de alguns psicanalistas da atualidade em relacionar de maneira consistente teórica e epistemologicamente a psicanálise com a neurociência; no caso, a teoria biológica da mente mais utilizada tem sido a proposta por Gerald Edelman.

Arnold Modell (1993, 1996) propõe-se a estudar o funcionamento interno do tratamento psicanalítico: como o setting psicanalítico pode funcionar como um ambiente facilitador da experiência transferencial. Em que consiste exatamente a transferência: é uma repetição do passado, ou uma nova criação? Para Modell, nem uma nem outra: a transferência só pode ser entendida como um paradoxo, tempo cíclico e não linear, onde existem relações extremamente complexas entre memórias e fantasias. As memórias são reconstruídas pela experiência, e ao mesmo tempo, o sujeito pode utilizar a fantasia para preencher os buracos nos seus registros. Modell afirma, então, que a transferência apresenta múltiplos níveis de realidade, que lhe dão sua qualidade fugidia e a dificuldade de se dizer qual é a relação irreal ‚do analisando com o analista. Porém, o mais interessante para nós é que Modell, como Rosenfield, encontra na teoria da seleção de grupos neuronais de Edelman uma confirmação inesperada das concepções freudianas de memória. Para Edelman, memória é recategorização da experiência; assim, Modell arrisca-se a explicar de uma maneira nova a função biológica da repetição e, especificamente, o Nachtraglichkeit (a posteriori). Além disso, Modell estuda o conceito de self (1993) numa perspectiva interdisciplinar que envolve a teoria das relações de objeto, psicologia do self, e neurociência (novamente, a proposta de Edelman). Nesse segundo livro, Modell afirma a existência de uma crise conceitual na psicanálise, causada por dois grandes problemas: primeiro, a teoria das pulsões estaria incompatível com a biologia contemporânea. Ao tentarem solucionar essa questão, alguns afirmam ser a pulsão um conceito psicanalítico, e não biológico. Mas assim discordam da própria definição freudiana, que coloca a pulsão como conceito limítrofe entre o biológico e o psíquico. Em segundo lugar, a teoria do self apresenta conceituações totalmente diferentes da teoria das pulsões; então, como conciliá-las? Modell utiliza o conceito edelmaniano de valor evolucionário para substituir o conceito de pulsão Esta substituição permitiria abranger tanto os sistemas homeostáticos do organismo como seu sistema de sentidos e preferências pessoais - e, portanto, englobaria a psicologia do self. Cabe observar que as propostas de Modell não são isentas de crítica; a primeira seria que o autor busca substituir conceitos da psicanálise por conceitos da teoria de Edelman, e não estabelecer uma relação entre as teorias.

Além de Modell, existem inúmeros autores psicanalistas que se propõem a estabelecer uma aproximação entre os dois campos, quase sempre se referindo ao exemplo de Freud e seu Projeto para uma Psicologia Científica (1895) como uma proposta seminal refletindo esse tipo de preocupação. A revista Neuropsychoanalysis, fundada em 1999, tem trazido grandes contribuições ao debate, buscando novas formas de aproximações entre os dois campos de saber. Outro psicanalista interessado no tema, e de outra tradição em Psicanálise, é André Green que, desde 1995, demonstra interesse pela mesma teoria de Gerald Edelman. Em 1995, Green afirma que os neurobiólogos se interessam pelas relações entre o cérebro e a consciência não se interessam de modo algum pelo inconsciente. Quer dizer, existe de fato uma recusa do conceito de Ics tal como nós, psicanalistas, o concebemos (p. 16). Fala da interação dos sistemas imunológico, neuronal e hormonal, heterogêneos com o aparelho psíquico de Freud. Diz que as teorias que mais o interessam são a de Jean-Didier Vincent, que enfatiza a importância do sistema hormonal na regulação psíquica, e a de Edelman. Como Modell, Green advoga o uso do conceito de categorização, ou de ‚categorias-valor para dar conta do funcionamento do inconsciente. Propõe a relação entre conceito de investimento/catexia e a determinação de que algo tenha valor para um dado indivíduo. No seu segundo exemplo, propõe que, no sistema freudiano, a angústia de castração poderia ser uma ‚categoria-valor. Critica o desejo de se chegar a um procedimento objetivo, que se manifesta principalmente pela tentativa de dessubjetivação, o que leva os cientistas a recorrerem a categorias que funcionam segundo um modelo puramente fisiológico, e que não faz sentido para os psicanalistas. Esta ponderação confirma nossas observações quanto à escolha das teorias em neurociência.

No segundo artigo, de 1999, após discorrer sobre fatos clínicos e a diferenciação iniciada em Freud entre afeto e representação no inconsciente, Green fala sobre algumas formas de transferência onde prevalece o irrepresentável, formulando algumas hipóteses para tais situações clínicas. Aqui, ele reafirma a segunda teoria das pulsões e, ao fazer ‚especulações utiliza o conceito edelmaniano de reentrada. Green duvida que as abordagens ditas observacionais científicas possam dar conta da complexidade da situação analítica. Simultaneamente, para ele, a teoria de Edelman mostra que, no estudo da consciência e a fortiori do inconsciente, o melhor referente são outros seres humanos, pois seus sentimentos formam a base indispensável sobre a qual podemos correlacionar todas as suas experiências. E afirma que esta teoria seria a única que não reduz a atividade psíquica à atividade neuronal.

 CONCLUSÃO

Nosso interesse em apresentar mais detalhadamente as idéias de dois psicanalistas decorre do fato de ambos referirem-se de maneira consistente a um neurocientista que propõe uma teoria da mente, e sua busca de integrá-lo às suas propostas teóricas e técnicas. Consideramos que a viabilização do tipo de discussão proposto neste encontro demandaria, primeiramente, uma redefinição metodológica e epistemológica de ambos os campos. Nesse contexto, são grandes as dificuldades encontradas pelos autores psicanalistas que tentam articular contribuições da neurociência com problemáticas propriamente psicanalíticas. Em conseqüência, são feitas justaposições até superficiais de aspectos teóricos, os quais remetem não apenas aos diferentes pressupostos, do tipo i. fisicalismo VS. dualismo, como também aos diferentes propósitos das respectivas teorias.

Num segundo momento, caberia realizarmos uma discussão das principais contribuições da neurociência que seriam relevantes para a psicanálise. Por exemplo, a questão da cisão e da fragmentação do sujeito, definidas como múltiplos sub-sistemas que se interrelacionam através de inúmeras vias e formas de conexão, sendo este processo praticamente inconsciente; a questão da percepção e da memória consideradas como contínuos processos de construção e reconstrução envolvendo os sub-sistemas acima citados; a questão da dimensão valorativa inerente a todo esse funcionamento, em seus vários níveis de complexidade, sendo que tais valores refletem não apenas a programação genética e as predisposições, mas também toda a trajetória idiossincrática de vida do indivíduo.

 

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[1] Agradeço à Profª Anamaria Ribeiro Coutinho pelos preciosos comentários e sugestões ao

presente artigo.

[2] Professora assistente do Departamento de Psicologia da PUC-RJ

 

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