Leituras cotidianas nº 36, 11 de agosto de 2004.

O povo venezuelano está com Chávez

“Estou trabalhando para tirar (o presidente Hugo) Chávez do poder. A via violenta permitirá fazer isso. É a única via que temos”, afirma o ex-presidente Carlos Andrés Pérez ao diário El Nacional, edição de 25 de julho, domingo, em entrevista feita em Miami, Estados Unidos, onde vive. O apelo à violência, sempre perigoso, tem um efeito explosivo na atual conjuntura venezuelana. A oposição já tentou de tudo para tirar Chávez do Palácio Miraflores: golpe de Estado (abril de 2002), paralisação da indústria petroleira (dezembro de 2002 a janeiro de 2003), atentados terroristas (abril e maio de 2004), além da perspectiva constitucional, que será acionada dia 15 de agosto, com o referendo revogatório. Andrés Pérez é a face desesperada de uma elite impotente, destituída de estratégia e de qualquer projeto nacional.

Andrés Pérez funciona como uma espécie de porta-voz da oposição e seu embaixador informal nos Estados Unidos. Ele foi responsável por um dos governos mais desmoralizados da história venezuelana. Vive no exílio, desde que sofreu impeachment, por prática de corrupção, em maio de 1993. Em 27 e 28 de fevereiro de 1989, sob o seu governo, aconteceu o Caracazo, um levante de trabalhadores e estudantes de Caracas contra as políticas neoliberais implantadas por seu governo. Confrontos com a polícia, o exército e a guarda nacional deixaram, oficialmente, 300 mortos, cifra que pode chegar a 3.000, segundo organizações de defesa dos direitos humanos. Também contra o seu governo, em 4 de fevereiro de 1992, Chávez liderou uma rebelião militar que fracassou.

Suas declarações refletem, sobretudo, a vontade do imperialismo estadunidense de liquidar a revolução bolivariana, especialmente quando a oposição já sabe que será derrotada em 15 de agosto. E mais ainda, quando o quadro internacional se mostra favorável a Chávez, com a desmoralização de George Bush, a derrota do espanhol José Maria Aznar (que pressionava a Colômbia com o objetivo de isolar a Venezuela no quadro da Organização dos Estados Americanos) e a ampliação, em todo o mundo, do apoio da sociedade civil ao seu governo, incluindo políticos, intelectuais, artistas e personalidades públicas importantes.

Mas qualquer tentativa violenta fracassará, como fracassaram todas as outras, por uma questão básica e muito simples: o povo venezuelano está com Chávez. E está com Chávez por ter entendido e sentido que a revolução bolivariana é a sua revolução. Pela primeira vez na história, o povo venezuelano sente-se protagonista de seu próprio destino. Não é apenas “ouvido” pelo governo, nem é objeto de qualquer assistencialismo paternalista: ao contrário, é chamado a participar da direção política do país, a opinar sobre as decisões políticas mais importantes. Isso pode ser sentido nas ruas de Caracas, especialmente nos setores mais miseráveis, aqueles tradicionalmente considerados a escória.

Com a revolução bolivariana, a América Latina cria uma nova possibilidade de enfrentar o imperialismo. Mas, para isso, torna-se mais do que nunca necessária a manifestação da solidariedade para com os venezuelanos. É necessário multiplicar iniciativas, nos próximos dias, para esclarecer a opinião pública brasileira sobre o que acontece na Venezuela e o que estará em jogo no dia 15 de agosto, mantendo a vigilância durante as semanas seguintes, contra qualquer sinal de golpe.

Vamos fazer a nossa parte para, junto com o povo venezuelano, cantarmos o seu refrão mais popular: “Uh, ah, Chávez no se vá!

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/?page=opiniao

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