Leituras cotidianas nº 49, 23 de agosto de 2004.
Os oligarcas
(Texto original, “The Oligarchs (Or How the Virgin Became a
Whore)”, em http://www.counterpunch.org/avnery08032004.html.)
Uri Avnery
Escritor
israelense e ativista da paz, com Gush Shalom. É um dos escritores apresentados em The Other Israel: Voices of Dissent and Refusal e contribuiu para
o livro The Politics of Anti-Semitism.
Há uma série de TV sobre a Rússia. Mas também poderia ser sobre Israel. Ou sobre os Estados Unidos. Intitula-se “Os oligarcas” e está, agora, sendo exibida na televisão israelense.
Alguns dos seus episódios são simplesmente inacreditáveis — ou teriam sido, se não viessem diretamente das pessoas envolvidas no assunto: os heróis da história, que alegremente jactam-se acerca dos seus desprezíveis feitos. A série foi produzida por imigrantes israelenses procedentes da Rússia.
Os “oligarcas” são um minúsculo grupo de empresários que explorou a desintegração do sistema soviética para saquear os tesouros do Estado e acumular pilhagens que montam a centenas de milhares de milhões de dólares. A fim de preservar a perpetuação do seu negócio, eles assumiram o controle do Estado. Dos sete, seis eram judeus.
Na linguagem popular eles são chamados “oligarcas” — da palavra grega que significa “governo de poucos”.
Nos primeiros anos do capitalismo russo pós-soviético eles foram os sujeitos arrojados e ágeis que sabiam como explorar a anarquia econômica a fim de adquirir enormes haveres por um centésimo ou um milésimo do seu valor: petróleo, gás natural, níquel e outros minerais. Eles usaram todos os truques possíveis, incluindo a trapaça, o suborno e o assassínio. Cada um deles tinha um pequeno exército privado. No decorrer da série eles se manifestam orgulhosos por contar, em pormenores, como fizeram isso.
Mas a parte mais intrigante da série relata o modo como assumiram o controle do aparelho político. Após um período de combate uns contra os outros, decidiram que seria mais lucrativo para si próprios cooperarem a fim de tomar o comando do Estado.
Àquela altura, o presidente Boris Yeltsin estava num declínio agudo. Nas vésperas das novas eleições para a presidência, a sua classificação nos inquéritos de opinião pública mantinha-se nos 4%. Ele era um alcoólatra com uma grave doença do coração que trabalhava cerca de duas horas por dia. O Estado era, na prática, governado pelos seus guarda-costas e pela sua filha; a corrupção estava na ordem do dia.
Os oligarcas decidiram tomar o poder através dele. Tinham fundos quase ilimitados, controle de todos os canais de TV e da maior parte da outra mídia. Puseram tudo isto à disposição da campanha para a reeleição de Yeltsin, negando aos seus opositores mesmo um minuto de tempo de TV e despejando enormes somas de dinheiro neste esforço. (A série omite um pormenor interessante: eles trouxeram secretamente os mais notáveis peritos americanos em eleições, bem como copywriters, que aplicaram métodos anteriormente desconhecidos na Rússia).
A campanha deu frutos: Yeltsin foi realmente reeleito. Nesse mesmo dia teve outro ataque de coração e passou o resto do seu mandato no hospital. Na prática, os oligarcas governaram a Rússia. Um deles, Boris Berezovsky, indicou-se a si próprio como primeiro-ministro. Houve um escândalo menor quando se soube que ele (como a maior parte dos oligarcas) havia adquirido a cidadania israelense, mas ele entregou o seu passaporte de Israel e tudo ficou em ordem outra vez.
A propósito, Berezovsky jacta-se de ter provocado a guerra na Tchetchênia, na qual dezenas de milhares de pessoas foram mortas e todo um país foi devastado. Ele estava interessado nos recursos minerais e num oleoduto em perspectiva ali. A fim de obter isto, pôs um fim ao acordo de paz que dava ao país alguma espécie de independência. Os oligarcas despediram e destruíram Alexander Lebed, o general popular que concebeu o acordo, e a guerra prosseguiu desde então.
Por fim, houve uma reação: Vladimir Putin, o taciturno e duro operacional da ex-KGB, assumiu o poder, tomou o controle da mídia, pôs um dos oligarcas (Mikhail Khodorkovsky) na prisão, levou a que os outros fugissem (Berezovsky está na Inglaterra; Vladimir Gusinsky está em Israel; um outro, Mikhail Chernoy, supõe-se que esteja escondido aqui).
Uma vez que todas as façanhas dos oligarcas se tornaram públicas, há um perigo de que o caso possa provocar um aumento do anti-semitismo na Rússia. Na verdade, os anti-semitas argumentam que estes feitos confirmam os “Protocolos dos Sábios do Sião”, um documento fabricado pela polícia secreta russa um século atrás, pretendendo revelar uma conspiração judaica para controlar o mundo.
Movendo da Rússia para os Estados Unidos — o mesmo aconteceu, naturalmente, nos EUA, mas há mais de uma centena de anos atrás. Naquele tempo, os grandes “barões ladrões” – Morgan, Rockefeller et allii –, eram todos bons cristãos, e utilizaram métodos muitos semelhantes para adquirir capital e poder numa escala maciça. Hoje, isto funciona de forma muito mais refinada.
Na presente campanha eleitoral, os candidatos coletam centenas de milhões de dólares. Tanto George W. Bush como John Kerry alardeiam o seu talento para levantar enormes somas de dinheiro. De quem? De pensionistas? Da mítica "velha senhora com tênis"? É claro que não, mas das cabalas de multimilionários, as corporações gigantes e os lobbies poderosos (negociantes de armas, organizações judias, médicos, advogados e assemelhados). Muitos deles dão dinheiro para ambos os candidatos — só para ficarem do lado seguro.
Toda esta gente espera, naturalmente, receber um bônus generoso quando o seu candidato for eleito. “Não existe almoço gratuito”, escreveu o economista de extrema-direita Milton Friedman. Tal como na Rússia, todo dólar (ou rublo) investido sabiamente numa eleição renderá um retorno de dez ou cem vezes.
A raiz do problema é que os candidatos presidenciais (e todos os outros candidatos a cargos políticos) precisam quantias cada vez maiores de dinheiro. As eleições acontecem principalmente na TV e custam somas enormes. Não é uma coincidência que todos os atuais candidatos nos EUA sejam multimilionários. A família Bush acumulou uma fortuna a partir do negócio do petróleo (ajudada pelas suas conexões políticas, naturalmente). Kerry é casado com uma das mulheres mais ricas dos Estados Unidos, outrora esposa do rei do ketchup, Henry John Heinz. Dick Cheney foi o chefe de uma corporação enorme que acumulou contratos no valor de milhares de milhões no Iraque. John Edwards, candidato a vice-presidente, fez uma fortuna como advogado.
De tempos em tempos, há conversas nos Estados Unidos sobre a reforma das finanças eleitorais, mas não vem daí nada que valha a pena. Nenhum dos oligarcas tem qualquer interesse em mudar um sistema que lhes permite comprar o governo dos Estados Unidos.
Também em Israel, a conversa sobre “dinheiro e poder” está, agora, em voga. Ariel Sharon e um dos seus dois filhos tornaram-se suspeitos de aceitar subornos de um magnata imobiliário. Foi bloqueada uma acusação pelo novo procurador-geral, que acontece ter sido nomeado pelo governo Sharon na altura do caso. Uma outra investigação quanto a Sharon e os seus filhos ainda está pendente. Ela refere-se a milhões de dólares que chegaram aos seus cofres eleitores por caminhos sinuosos, cruzando três continentes.
As conexões de Shimon Peres com multimilionários são bem conhecidas, tal como o são as enormes somas despejadas por judeus americanos multimilionários para as causas da extrema-direita em Israel. Um dos oligarcas russos é o proprietário parcial do segundo maior jornal israelense.
Um escândalo político, referente ao ministro israelense da infra-estrutura, espalhou-se num caso que envolve corporações multinacionais competindo por contratos para o fornecimento de gás natural à companhia de eletricidade israelense; um caso de milhares de milhões no qual figuras do submundo, políticos e investigadores privados desempenham os seus papéis. A revelação tornou claro para os israelenses que, aqui, também, políticos do mais alto nível têm estado desde há muito atuando como mercenários para interesses financeiros poderosos.
Estes fatos devem alarmar todo o mundo que se preocupa com a democracia — em Israel, na Rússia, nos Estados Unidos e por toda a parte. Oligarquia e democracia são incompatíveis. Como disse um comentador russo na série de TV sobre a nova democracia russa: “Eles transformaram uma virgem numa prostituta.”
Fonte: http://resistir.info/russia/oligarcas.html
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