Convite à
Filosofia
Convite à Filosofia
De Marilena
Chaui
Ed. Ática, São Paulo, 2000.
Unidade 7
As ciências
Capítulo 3
As ciências da Natureza
O campo das ciências da Natureza
As ciências da Natureza estudam duas ordens de fenômenos: os físicos e os vitais, ou as coisas e os organismos vivos. Constituem, assim, duas grandes ciências: a física, de que fazem parte a química, a mecânica, a óptica, a acústica, a astronomia, o estudo dos sólidos, líquidos e gasosos, etc., e a biologia, ramificada em fisiologia, botânica, zoologia, paleontologia, anatomia, genética, etc.
Em qualquer das três concepções de ciência que vimos no capítulo anterior, considera-se que as ciências da Natureza:
● estudam fatos
observáveis que podem ser submetidos aos procedimentos de experimentação;
● estabelecem
leis que exprimem relações necessárias e universais entre os fatos investigados
e que são de tipo causal;
● concebem a
Natureza como um conjunto articulado de seres e acontecimentos
interdependentes, ligados ou por relações necessárias de causa e efeito,
subordinação e dependência, ou por relações entre funções invariáveis e ações
variáveis;
● buscam
constâncias, regularidades, freqüências e invariantes dos fenômenos, isto é,
seus modos de funcionamento e de relacionamento, bem como estabelecem os meios
teóricos para a previsão de novos fatos.
Desde Aristóteles, as
ciências da Natureza desenvolveram-se graças ao papel conferido às observações
e, mais tarde, à observação controlada, isto é, à experimentação (o laboratório
com seus instrumentos tecnológicos de precisão e medida). A experimentação é a
decisão do cientista de intervir no curso de um fenômeno, modificando as condições
de seu aparecimento e desenvolvimento, a fim de encontrar invariantes e
constantes que definem o objeto como tal.
A experimentação
permite ao cientista formular hipóteses sobre o fenômeno. Uma hipótese é uma
conjectura racional feita após um grande número de observações e experimentos;
é uma tese que precisa ser confirmada ou verificada por meio de novas
observações e experimentos. A intervenção científica sobre os fenômenos se
torna cada vez mais acurada, graças à invenção dos objetos tecnológicos de
pesquisa (balanças, termômetros, termostatos, barômetros, aparelhos para
produzir vácuo, microscópios e telescópios, cronômetros, tubos e curvetas,
câmaras escuras ou iluminadas com raios especiais, computadores, etc.).
O método experimental
é hipotético-indutivo e hipotético-dedutivo. Hipotético-indutivo: o cientista observa inúmeros fatos variando as
condições da observação; elabora uma hipótese e realiza novos experimentos ou
induções para confirmar ou negar a hipótese; se esta for confirmada, chega-se à
lei do fenômeno estudado. Hipotético-dedutivo:
tendo chegado à lei, o cientista pode formular novas hipóteses, deduzidas do
conhecimento já adquirido, e com elas prever novos fatos, ou formular novas
experiências, que o levam a conhecimentos novos. A lei científica obtida por
via indutiva ou dedutiva permite descrever, interpretar e compreender um campo
de fenômenos semelhantes e prever novos, a partir dos primeiros.
A previsão é uma das
maneiras pelas quais o ideal moderno da ciência – dominar e controlar a
Natureza – se manifesta e se realiza. Uma teoria científica permite construir
objetos tecnológicos para novas pesquisas e a previsão ou previsibilidade dos
fenômenos permite empregar as tecnologias com fins práticos, criando a ciência
natural aplicada.
Os objetos técnicos
que usamos em nossa vida cotidiana – ônibus, automóvel, avião, lâmpada,
liquidificador, máquina de escrever, de lavar, de costurar, relógios digitais,
rádio, televisão, vídeos, aparelhos de som, detergente, sabonete, desodorante,
cola, adesivos, objetos plásticos, de louça, vidro, tecidos sintéticos como nylon e poliéster, vacinas,
antibióticos, radiografias, vitaminas e proteínas em cápsulas, etc. – são
ciência aplicada ou resultado prático de ciências naturais teóricas.
Necessidade e acaso
A ciência da
Natureza, desde seus inícios gregos, sempre afirmou que a Natureza segue leis
naturais racionais e necessárias, isto é, sempre negou que houvesse acaso ou
contingência no mundo natural.
O acaso sempre foi
colocado sob duas espécies de fatos: ou fatos cuja causa ainda permanece
desconhecida, mas virá a ser conhecida (portanto, o acaso é apenas uma forma de
ignorância); ou acontecimentos individuais, como, por exemplo, um vaso que cai
sobre a cabeça de um passante (portanto, o acaso é apenas uma ocorrência
singular que não afeta as leis universais da Natureza).
No século XIX, a
afirmação da universalidade e da necessidade plena que governam as relações
causais da Natureza levaram ao conceito de determinismo.
O determinismo pode ser resumido da seguinte maneira:
● dado um
fenômeno, sempre será possível determinar sua causa necessária;
● conhecido o
estado atual de um conjunto de fatos, sempre será possível conhecer o estado
subseqüente, que será seu efeito necessário. Em outras palavras, o determinismo
afirma que podemos conhecer as causas de um fenômeno atual (isto é, o estado
anterior de um conjunto de fatos) e os efeitos de um fenômeno atual (isto é, o
estado posterior de um conjunto de fatos).
A formulação do
determinismo como princípio universal e como uma doutrina sobre a Natureza foi
feita, pela primeira vez, pelo astrônomo e físico Laplace, que escreveu:
Devemos considerar o
estado presente do Universo como efeito de seu estado passado e como causa
daquilo que virá a seguir. Uma inteligência que, num único instante, pudesse
conhecer todas as forças existentes na Natureza e as posições de todos os seres
que nela existem poderia apresentar numa única fórmula uma lei que englobaria
todos os movimentos do Universo, desde os maiores até os mínimos e invisíveis.
Para ela, nada seria incerto e, aos seus olhos, o passado, o futuro e o
presente seriam um único e só tempo.
O determinismo
universal é, assim, a afirmação do princípio da razão suficiente, ou da
causalidade, e da idéia de previsibilidade absoluta dos fenômenos naturais. As
leis exprimem essa causalidade e essa previsibilidade e, por isso, não existe
acaso no Universo.
Evidentemente, o
cientista admitia que, para nós, seres humanos que não podemos conhecer de uma
só vez a totalidade do real, existia o acaso. Caminhando por uma rua, para ir
ao mercado, posso passar sob uma janela, da qual despenca um vaso, que cai
sobre minha cabeça e, em vez de ir ao mercado, vou parar num hospital. Foi um
acaso.
No entanto, para esse
cientista, minha ida pela rua é necessária do ponto de vista da anatomia e da
fisiologia de meu corpo; passar por uma rua determinada é necessário se, por
exemplo, ficar estabelecido geométrica e geograficamente que é o trajeto mais
simples e mais rápido para chegar ao mercado; pela posição do vaso na janela,
pelo vento ou pelo toque de alguma coisa nele, é necessário, segundo a lei
universal da gravitação, que ele caia. O que é o acaso? O encontro fortuito de
séries de acontecimentos independentes, cada uma delas perfeitamente necessária
e causal em si mesma.
Uma outra situação em
que se falava de acaso refere-se aos chamados “jogos de azar”, como
cara-e-coroa, roleta, certos jogos de cartas, o jogo de dados. Ora, dizia o
cientista, aqui também não há propriamente acaso. Desde o século XVII, com
pensadores como Pascal, Leibniz, Newton e, posteriormente, Fermat, conhecemos
os estudos matemáticos chamados cálculo
de probabilidades. Em cada um desses “jogos de azar”, considerando o número
de objetos (uma moeda, dois dados, vinte cartas, etc.), o número de jogadores e
o número de partidas, é possível calcular todos os resultados possíveis e quais
são as probabilidades maiores e menores de cada resultado. Para um computador,
por exemplo, não haverá acaso algum, mas determinismo completo.
A idéia de
necessidade probabilística ou estatística tornou-se um instrumento teórico de
grande importância para aqueles ramos das ciências naturais que lidam com fatos
complexos, como, por exemplo, o estudo dos gases, pela química, pois, nesse
caso, o número de moléculas é quase ilimitado e as relações de causa e efeito
só podem ser estabelecidas estatisticamente, pelo cálculo de probabilidades. As
leis assim obtidas são conhecidas com o nome de leis dos grandes números e se exprimem em gráficos, curvas,
relações entre funções e variáveis, médias. Com essas leis, o acaso estava
excluído e os dois princípios do determinismo estavam mantidos, ainda que, no
caso dos fenômenos microscópicos altamente complexos, a noção de causa tivesse
sido substituída pela de freqüência estatística.
Acaso ou
indeterminação
A física
contemporânea, no entanto, trouxe de volta o acaso. Entre os vários estudos e
várias teorias contemporâneas, vamos mencionar apenas três aspectos com os
quais podemos perceber como e por que o acaso ressurgiu nas ciências naturais.
O pleno funcionamento
do princípio da razão suficiente ou da causalidade e do determinismo universal
exige que seja mantida a idéia de substância, isto é, de uma realidade que
permaneça idêntica a si mesma, seja causa de alguma coisa e efeito de alguma
outra. Essa realidade pode ser uma matéria, uma energia, uma massa, um volume,
mas tem que ser alguma coisa com propriedades determináveis, constantes e que
possam ser conhecidas. Deve ser uma quantidade
constante e/ou uma forma constante.
Ora, a microfísica ou física quântica veio mostrar que não há nem uma coisa nem
outra.
O estudo do átomo de
hidrogênio revelou que a quantidade de matéria ou massa não permanece
constante, mas transforma-se em energia, e esta também não permanece constante,
mas, o que é pior, não se transforma em coisa alguma: simplesmente se perde,
desaparece, não se sabe para onde foi, nem o que lhe aconteceu. A quantidade,
portanto, não permanece constante.
Ao mesmo tempo, o
estudo dos átomos revelou que, dependendo da aparelhagem tecnológica usada, um
corpúsculo é o que pode ser visto, mas, com outros aparelhos, em lugar de um
corpúsculo, vê-se uma onda. Com isso, uma mesma realidade ou substância tanto
pode ter a forma de algo que se estende no espaço (onda), quanto a de um ponto
que se concentra no espaço (corpúsculo), não tendo, portanto, forma constante.
Se quantidade e forma
perdem a constância, a regularidade e a freqüência, como continuar falando em
causas e efeitos?
Um segundo caso, que
abalou a física e ficou conhecido com o nome de princípio de incerteza ou de indeterminação, foi trazido pelos
estudos do físico Heisenberg ao descobrir que, no nível atômico, como
conseqüência dos dois fatos que apontamos acima, conhecer o estado ou a
situação atual de um fenômeno, ou um conjunto de fatos, não permite prever a
situação ou o estado seguinte, nem, portanto, descobrir qual foi a situação ou
o estado anterior.
O determinismo
baseava-se no pressuposto de que o conhecimento físico causal exige que um
fenômeno físico deva ser conhecido a partir de dois critérios simultâneos: suas
propriedades geométricas (forma, figura, volume, grandeza, posição) e suas
propriedades físicas ou dinâmicas (velocidade, movimento, repouso). Heisenberg
descobriu que, quando conhecemos perfeitamente as propriedades geométricas de
um átomo, não conseguimos conhecer suas propriedades físicas dinâmicas e
vice-versa, sendo impossível determinar o estado passado e o estado futuro do
fenômeno estudado, isto é, suas causas e seus efeitos.
Em outras palavras,
quando se conhece a posição, não se consegue conhecer a velocidade, e quando
esta é conhecida, não se consegue conhecer a posição de um corpúsculo. Há,
portanto, incerteza, indeterminação do fenômeno. A microfísica é incapaz de
determinar a trajetória de corpúsculos individuais.
O terceiro
acontecimento que abalou o determinismo universal foi a teoria da relatividade,
elaborada por Einstein. O abalo foi duplo.
Em primeiro lugar,
como vimos, a ciência moderna organizou-se graças à separação entre o subjetivo
e o objetivo, propondo uma idéia de observação-experimentação em que o fenômeno
observado será sempre o mesmo e obedecerá às mesmas leis, seja quem for o
sujeito observador.
Ora, Einstein
demonstrou que o tempo é a quarta dimensão do espaço e que, na velocidade da
luz, o espaço “encurva-se”, “dilata-se”, “contrai-se” de tal modo que afeta o
tempo. Assim, alguém que estivesse na velocidade da luz atravessaria num tempo
mínimo um espaço imenso, mas o que ficassem abaixo daquela velocidade sentiriam
o tempo escoar lentamente ou “normalmente”. Para a primeira pessoa, teriam se
passado algumas horas ou dias, mas para outros, meses, anos, séculos.
Dessa maneira,
Einstein demonstrou que nossa física é tal como é porque depende da observação
do observador ou do sujeito do conhecimento, isto é, um sujeito do conhecimento
marciano ou venusiano produzirá uma física completamente diferente da nossa,
porque o espaço é relativo ao observador. Assim sendo, nossa ciência da
Natureza não é universal e necessária em si mesma, mas exprime o ponto de vista
do sujeito do conhecimento terrestre.
O segundo abalo
provocado por Einstein refere-se à própria idéia de teoria científica da
Natureza.
Uma teoria científica,
como vimos, é uma explicação global para um conjunto de fatos naturais
aparentemente diferentes, mas, na realidade, submetidos às mesmas leis e aos
mesmos princípios. É isso que permite, por exemplo, falar na teoria universal
da gravitação, formulada por Newton, válida para os movimentos de todos os
corpos do Universo, sejam eles grandes ou pequenos, leves ou pesados, celestes
ou terrestres, aquáticos ou aéreos, coloridos ou sem cor, saborosos ou sem
sabor, etc.
Também a idéia de
teoria nos permite falar na teoria universal da relatividade, elaborada por
Einstein. Que diz ela? Que a medida da velocidade do movimento, seja este qual
for, é a velocidade da luz; que, nesta velocidade, toda matéria se transforma
em energia, deixando, portanto, de possuir massa e volume. Do ponto de vista da
velocidade da luz, a teoria da gravitação universal, baseada na relação entre
movimento, massa, tempo e velocidade, não tem valor, embora continue verdadeira
para os movimentos que não sejam medidos pela velocidade da luz. Mas não é só
isso. Do ponto de vista da velocidade da luz, todo movimento é relativo, isto
é, não há como distinguir observador e observado (fenômeno que experimentamos
em nossa vida cotidiana, quando, estando numa estação ferroviária, num trem
imóvel, vemos outro, paralelo ao nosso, mover-se, e temos a impressão de que é
nosso trem que está em movimento; ou quando, olhando um rio veloz do alto de
uma ponte, temos a impressão de que é a ponte que se move e não o rio).
Qual o problema? A
existência de três teorias físicas
simultâneas – a quântica, para os átomos; a newtoniana, para os corpos
visíveis; a da relatividade, para o movimento na velocidade da luz -, regidas
por conceitos e métodos diferentes, excluindo-se umas às outras e todas elas
verdadeiras para os fenômenos que explicam. E mais: a física quântica desfaz a
idéia de causa como quantidade e forma constantes; e a física da relatividade
desfaz a idéia clássica da objetividade como separação entre sujeito e objeto
do conhecimento, base da ciência moderna. Em lugar de um único paradigma
científico, a física nos oferece três!
As ciências da vida
As ciências biológicas (bios, em grego, significa vida) ou ciências da vida fazem parte das ciências da Natureza ou ciências experimentais.
Os primeiros biólogos foram médicos: os pré-socráticos Empédocles ou Anaxágoras, e o pós-socrático Aristóteles. Para todos eles interessava, antes de tudo, determinar a fonte ou origem da vida e a localizaram no calor, dando-lhe como sede o fígado (Empédocles) ou o coração (Anaxágoras e Aristóteles). Além da busca do princípio vital, Aristóteles interessou-se pelo fenômeno da reprodução, distinguindo os seres vivos em vivíparos e ovíparos. E a ele devemos a classificação dos seres vivos em gêneros e espécies.
Do século XVII até a primeira metade do século XX (1939-1940), predominou na biologia a investigação fisiológica. A fisiologia interessa-se pelas funções realizadas pelos seres vivos: circulação do sangue (com Harvey), digestão (com Réaumur e Spallanzani), respiração (com Priestley e Lavoisier) e locomoção ou neuromusculatura (com Haller e Whytt). A seguir, o interesse fisiológico dirigiu-se para o estudo do funcionamento específico dos vários órgãos e seus tecidos e, finalmente, para a investigação das células. Foi no estudo celular que, no século XIX, Mendel deu início ao que iria tornar-se o centro da biologia do nosso século: a genética.
Todo problema epistemológico das ciências biológicas consiste em saber se os procedimentos e os conceitos usados pela física e pela química podem ser empregados para a investigação do fenômeno da vida.
De fato, a biologia partiu da distinção entre seres inorgânicos e seres orgânicos – plantas e animais – para distinguir os fenômenos vitais dos fatos físicos e químicos. Entretanto, dois acontecimentos puseram em dúvida a descontinuidade entre a matéria (inorgânica) e a vida (orgânica). Em primeiro lugar, no século XIX, a síntese química da uréia, que revelou fenômenos químicos como essenciais ao processo vital, dando origem à bioquímica. Em segundo lugar, no século passado, a descoberta das nucleoproteínas revelou que os corpos químicos (as moléculas) e os corpos vivos (as células) comportam-se da mesma maneira. Os estudos de bacteriologia, dos corpos cancerígenos, assim como os trabalhos de embriologia e a descoberta dos vírus foram na mesma direção, revelando profundas semelhanças entre fatos químicos e vitais.
No entanto, apesar das discussões sobre a essência da vida não terem chegado a conclusões definitivas, a biologia distingue os seres inorgânicos e os vivos definindo estes últimos pelas idéias de célula e funções realizadas pela célula, unidade vital e orgânica básica. A vida caracteriza-se pelas seguintes funções:
● irritabilidade: uma célula é uma
atividade que reage e responde às excitações ou estímulos do meio ambiente –
temperatura, luz, obscuridade, pressão, alimento, etc. A vida é uma adaptação
ativa e protetora diante das alterações do meio ambiente, sendo, assim, relação do organismo com seu ambiente,
na qual o ser vivo busca equilíbrio
com o meio. A ruptura desse equilíbrio é a doença e a morte;
● metabolismo: a irritabilidade ou adaptação ao meio é feita por um conjunto de trocas entre o organismo e o meio. A célula assimila e transforma aquilo que consome sob a forma de alimentação, respiração, assimilação ou perda de substância, gastos energéticos, etc. O metabolismo é, pois, um conjunto de transformações químicas realizadas no interior do organismo numa relação de troca e consumo com o meio ambiente;
● divisão e crescimento: uma célula tem o
poder de dividir-se, ou seja, de crescer para garantir que o ser vivo atinja
seu desenvolvimento próprio e também para reparar danos sofridos pelo
organismo, como por exemplo a divisão e a multiplicação de células da epiderme
para curar um ferimento;
● reprodução: a célula tem o poder de
reproduzir-se e a reprodução de um ser vivo se faz ou pela fusão de certo tipo
especial de células (os gametas femininos e masculinos), ou, nos chamados
organismos unicelulares, pela auto-reprodução da célula, sem a função sexual. A
reprodução garante a sobrevivência da espécie através dos indivíduos;
● individualidade: um ser vivo, mesmo
unicelular, forma um indivíduo, isto é, um sistema único e fechado, cujas partes
se correspondem reciprocamente e concorrem para a mesma ação;
● organicidade: o ser vivo é constituído
por órgãos (palavra que vem do grego, órganon,
instrumento que realiza uma função), isto é, por um conjunto diferenciado de
funções, que garantem a conservação e a reprodução da vida.
O ser vivo é, pois,
um organismo e um indivíduo. É portador de quatro características principais: a
interioridade, a auto-apresentação, a auto-organização e a auto-reprodução.
Interioridade: realiza comportamentos, isto é, possui disposições internas, que lhe
permitem relacionar-se ativamente com o meio ambiente. Auto-apresentação: manifesta-se com uma estrutura ou forma externa
completa, que pressupõe a existência de estruturas internas parciais, com as
quais o organismo se apresenta como indivíduo e como espécie diferente de todas
as outras. Auto-organização: é o
resultado de um longo processo de evolução e adaptação ao meio, que permite a
um organismo tornar-se cada vez mais complexo e ter, interna e externamente,
funções cada vez mais especializadas para seus órgãos. Auto-reprodução: por meio da função sexual, o organismo é capaz de
reproduzir um outro seu semelhante, perpetuando, tanto quanto possível, a
espécie; por meio da divisão e da separação (no caso dos seres que se
reproduzem assexuadamente), o organismo é capaz de engendrar um outro,
semelhante a si, perpetuando-se.
Dificuldades
metodológicas da biologia
As ciências
biológicas enfrentam várias dificuldades para a definição de seu objeto e de
seus métodos. As principais dificuldades são:
● definição e classificação dos objetos
biológicos: o objeto da biologia não é o indivíduo, mas o gênero e a
espécie. As dificuldades científicas estão na escolha dos critérios de
classificação para definir um gênero e uma espécie. É a forma dos seres vivos
que determina o gênero e a espécie? Nesse caso, o critério é a morfologia. Ou é
a ordem temporal de aparição de um gênero e uma espécie que deve ser o
critério? Nesse caso, a paleontologia e a embriologia definiriam gêneros e espécies;
● dificuldades do método experimental: a
vida é uma relação ativa, dinâmica e diferenciada dos organismos com o meio
ambiente, mas o conhecimento experimental é realizado em laboratórios, que
definem condições fixas para o relacionamento organismo-meio. Como confiar
inteiramente nos resultados experimentais, se as condições de laboratório são
abstratas e artificiais, não correspondendo à situação vital concreta dos
organismos?;
● dificuldades de experimentação no organismo
humano: de modo geral, a experimentação biológica trabalha com animais e
não com seres humanos, e o primeiro problema consiste em saber se as conclusões
obtidas com animais teriam validade para o organismo humano. Procura-se
compensar tal dificuldade com o estudo dos organismos humanos doentes,
tomando-se a doença como uma espécie de “experimento natural”. Mas o problema,
agora, é saber se o modo de funcionamento de um organismo doente pode ser
generalizado para o sadio. O mesmo problema se põe quando a biologia estuda os
cadáveres humanos, pois cabe perguntar se o morto pode explicar o vivo.
Finalidade, evolução
e origem da vida
Uma disputa
atravessou a história das ciências biológicas e pode ser assim formulada: É a
vida de mesma natureza que os demais fenômenos físico-químicos e está, como
eles, submetida ao determinismo das causas e efeitos, ou é um fenômeno
totalmente diferente, com suas leis próprias? A primeira tendência chama-se
mecanicismo; a segunda, vitalismo.
O vitalismo tendeu a
ser vitorioso por invocar dois fenômenos que só existem para os seres vivos: a
relação com o tempo (diferença entre vida e morte) e a finalidade (a vida é um
processo ativo de interação com o meio ambiente para a realização de fins como
conservação, reprodução, reparação).
O vitalismo é
filosoficamente problemático. De fato, durante muitos séculos, para explicar a
temporalidade e a finalidade dos fenômenos vitais, afirmou-se a existência, nos
corpos vivos, de almas ou inteligências, que dirigiriam racionalmente a vida.
Mesmo afastando essas idéias, a finalidade não se torna um conceito
cientificamente claro. Por exemplo, devemos dizer que é para poder voar
(finalidade) que os pássaros desenvolvem a forma ovóide de tronco, a estrutura
de ossos leves e ocos, a leveza do pescoço e da cabeça, a disposição das penas
nas asas, ou, ao contrário, que é por haver desenvolvido essas características
que, com o passar do tempo, os pássaros puderam voar?
Os embaraços para
definir com clareza o que seja a finalidade repercute numa outra idéia da
biologia: a de evolução. A vida, por ser interação ativa com o meio ambiente,
leva a mudanças nos organismos para a adaptação dos indivíduos e a manutenção
da espécie. Como essas transformações ocorrem no tempo e como se considera que
os organismos “progridem” ou “melhoram o desempenho” graças à invenção de
mecanismos novos de adaptação, fala-se em evolução.
A finalidade da evolução é a preservação da espécie. Surge, então, a pergunta:
O que leva a vida à finalidade evolutiva?
Essa pergunta é
difícil de ser respondida, porque a idéia de evolução se refere às espécies
(não aos indivíduos) e pressupõe a noção de hereditariedade, isto é,
transmissão dos caracteres adquiridos por evolução a todos os membros da
espécie. Com a idéia de evolução das espécies e hereditariedade dos caracteres
adquiridos, surgem novas indagações:
● se a evolução
não é do indivíduo e sim da espécie, porém, se são os indivíduos que são
levados a se transformar para se adaptar, o que é uma espécie?
● se a espécie
evolui, mas se o faz transmitindo as estruturas hereditárias, o que podem ser
as leis de hereditariedade, já que uma espécie pode mudar?
● se há leis de
hereditariedade e se há mutação das espécies, como se relacionam a finalidade
hereditária e a finalidade evolutiva?
● se o
organismo vivo é, como dizem a bioquímica e a genética contemporâneas, uma
máquina que se constrói a si mesma e dá a si mesma sua finalidade, o que
significa a idéia de adaptação ao meio, central na teoria da evolução?
Questões como essas
não invalidam a biologia como ciência, pelo contrário, indicam que esta não é
um conjunto de verdades acabadas e absolutas, mas um processo de conhecimento.
Por isso, a biologia também possui suas rupturas epistemológicas e suas
revoluções científicas.
A mais recente dessas
rupturas e revoluções liga-se ao que se convencionou chamar de “descoberta do
segredo da origem da vida”, isto é, a descoberta das nucleoproteínas ou do ADN
– ácido desoxirribonucléico -, definido como código genético. Essa descoberta, recentíssima (data dos fins dos
anos 60), resulta do estudo microscópico de açúcares e bases nitrogenadas, que
são macromoléculas constituídas por micromoléculas chamadas aminoácidos (o DNA
e o RNA), considerados, até o momento, responsáveis pelo fenômeno da vida.
Essa descoberta
revela algo muito novo: por um lado, que a vida resulta de um processo químico,
mas, por outro, que esse processo é uma ruptura que separa os seres naturais
inorgânicos e os seres naturais vivos.
No entanto, os
estudiosos do ADN não hesitam em afirmar que, embora com esse conceito se possa
construir um paradigma biológico que tenha por modelo a cibernética e a
informática (donde a idéia de código
genético), a existência e os modos de funcionamento do ADN são enigmas e
mistérios e, por enquanto, a origem da vida parece ter resultado de um puro
acaso e não de uma necessidade causal, nem de uma finalidade necessária.
O que é espantoso,
porém, é que mesmo sem conhecer exata e rigorosamente os fenômenos
investigados, a biologia genética já desenvolveu tecnologias para a invenção de
novos alimentos, mutações em animais e vegetais, a fabricação de vacinas contra
vírus, etc.
Os dois grandes
campos da biologia
A biologia
contemporânea trabalha em dois grandes campos de investigação:
1. o da investigação
genética e fisiológica no nível hiper-microscópico dos processos e formas
micromoleculares e, com ajuda da bioquímica, o estudo da célula em seus
fenômenos internos e de reprodução, isto é, investiga o ADN;
2. o da investigação
das formas, das estruturas e dos processos visíveis dos organismos na relação
com o meio ambiente, isto é, o estudo do comportamento dos seres vivos e,
portanto, as relações vitais entre meios e fins. Tem em seu centro a idéia de equilíbrio vital, entendido como
conjunto de processos e funções que permitem ao organismo conservar-se e
reproduzir-se.
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