Convite à
Filosofia
Convite à Filosofia
De Marilena
Chaui
Ed. Ática, São Paulo, 2000.
Unidade 7
As ciências
Capítulo 4
As ciências humanas
São possíveis ciências humanas?
Embora seja evidente que toda e qualquer ciência é humana, porque resulta da atividade humana de conhecimento, a expressão ciências humanas refere-se àquelas ciências que têm o próprio ser humano como objeto. A situação de tais ciências é muito especial. Em primeiro lugar, porque seu objeto é bastante recente: o homem como objeto científico é uma idéia surgida apenas no século XIX. Até então, tudo quanto se referia ao humano era estudado pela Filosofia.
Em segundo lugar, porque surgiram depois que as ciências matemáticas e naturais estavam constituídas e já haviam definido a idéia de cientificidade, de métodos e conhecimentos científicos, de modo que as ciências humanas foram levadas a imitar e copiar o que aquelas ciências haviam estabelecido, tratando o homem como uma coisa natural matematizável e experimentável. Em outras palavras, para ganhar respeitabilidade científica, as disciplinas conhecidas como ciências humanas procuraram estudar seu objeto empregando conceitos, métodos e técnicas propostos pelas ciências da Natureza.
Em terceiro lugar, por terem surgido no período em que prevalecia a concepção empirista e determinista da ciência, também procuraram tratar o objeto humano usando os modelos hipotético-indutivos e experimentais de estilo empirista, e buscavam leis causais necessárias e universais para os fenômenos humanos. Como, entretanto, não era possível realizar uma transposição integral e perfeita dos métodos, das técnicas e das teorias naturais para os estudos dos fatos humanos, as ciências humanas acabaram trabalhando por analogia com as ciências naturais e seus resultados tornaram-se muito contestáveis e pouco científicos.
Essa situação levou muitos cientistas e filósofos a duvidar da possibilidade de ciências que tivessem o homem como objeto. Quais as principais objeções feitas à possibilidade das ciências humanas?
● A ciência
lida com fatos observáveis, isto é, com seres e acontecimentos que, nas
condições especiais de laboratório, são objetos de experimentação. Como
observar-experimentar, por exemplo, a consciência humana individual, que seria
o objeto da psicologia? Ou uma sociedade, objeto da sociologia? Ou uma época
passada, objeto da história?
● A ciência
busca as leis objetivas gerais, universais e necessárias dos fatos. Como
estabelecer leis objetivas para o que é essencialmente subjetivo, como o
psiquismo humano? Como estabelecer leis universais para algo que é particular,
como é o caso de uma sociedade humana? Como estabelecer leis necessárias para o
que acontece uma única vez, como é o caso do acontecimento histórico?
● A ciência
opera por análise (decomposição de um fato complexo em elementos simples) e
síntese (recomposição do fato complexo por seleção dos elementos simples,
distinguindo os essenciais dos acidentais). Como analisar e sintetizar o
psiquismo humano, uma sociedade, um acontecimento histórico?
● A ciência
lida com fatos regidos pela necessidade causal ou pelo princípio do
determinismo universal. O homem é dotado de razão, vontade e liberdade, é capaz
de criar fins e valores, de escolher entre várias opções possíveis. Como dar
uma explicação científica necessária àquilo que, por essência, é contingente,
pois é livre e age por liberdade?
● A ciência
lida com fatos objetivos, isto é, com os fenômenos, depois que foram
purificados de todos os elementos subjetivos, de todas as qualidades sensíveis,
de todas as opiniões e todos os sentimentos, de todos os dados afetivos e
valorativos. Ora, o humano é justamente o subjetivo, o sensível, o afetivo, o valorativo,
o opinativo. Como transformá-lo em objetividade, sem destruir sua principal
característica, a subjetividade?
O humano como objeto
de investigação
Embora as ciências
humanas sejam recentes, a percepção de que os seres humanos são diferentes das
coisas naturais é antiga. Sob esse ponto de vista, podemos dizer que, do século
XV ao início do século XX, a investigação do humano realizou-se de três
maneiras diferentes:
1. Período do humanismo: inicia-se no século XV com a
idéia renascentista da dignidade do
homem como centro do Universo, prossegue nos séculos XVI e XVII com o
estudo do homem como agente moral,
político e técnico-artístico, destinado a dominar e controlar a Natureza e a
sociedade, chegando ao século XVIII, quando surge a idéia de civilização, isto é, do homem como
razão que se aperfeiçoa e progride temporalmente através das instituições
sociais e políticas e do desenvolvimento das artes, das técnicas e dos ofícios.
O humanismo não separa homem e Natureza, mas considera o homem um ser natural
diferente dos demais, manifestando essa diferença como ser racional e livre,
agente ético, político, técnico e artístico.
2. Período do positivismo: inicia-se no século XIX
com Augusto Comte, para quem a humanidade atravessa três etapas progressivas,
indo da superstição religiosa à metafísica e à teologia, para chegar,
finalmente, à ciência positiva, ponto final do progresso humano. Comte enfatiza
a idéia do homem como um ser social e propõe o estudo científico da sociedade:
assim como há uma física da Natureza, deve haver uma física do social, a sociologia, que deve estudar os fatos
humanos usando procedimentos, métodos e técnicas empregados pelas ciências da
Natureza.
A concepção
positivista não termina no século XIX com Comte, mas será uma das correntes
mais poderosas e influentes nas ciências humanas em todo o século XX. Assim,
por exemplo, a psicologia positivista afirma que seu objeto não é o psiquismo
enquanto consciência, mas enquanto comportamento
observável que pode ser tratado com o método experimental das ciências
naturais. A sociologia positivista (iniciada por Comte e desenvolvida como
ciência pelo francês Emile Durkheim) estuda a sociedade como fato, afirmando
que o fato social deve ser tratado como uma coisa, à qual são aplicados os procedimentos de análise e síntese
criados pelas ciências naturais. Os elementos ou átomos sociais são os
indivíduos, obtidos por via da análise; as relações causais entre os
indivíduos, recompostas por via da síntese, constituem as instituições sociais
(família, trabalho, religião, Estado, etc.).
3. Período do historicismo: desenvolvido no final do
século XIX e início do século XX por Dilthey, filósofo e historiador alemão.
Essa concepção, herdeira do idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling, Hegel),
insiste na diferença profunda entre homem e Natureza e entre ciências naturais
e humanas, chamadas por Dilthey de ciências do espírito ou da cultura. Os fatos
humanos são históricos, dotados de valor e de sentido, de significação e
finalidade e devem ser estudados com essas características que os distinguem
dos fatos naturais. As ciências do espírito ou da cultura não podem e não devem
usar o método da observação-experimentação, mas devem criar o método da
explicação e compreensão do sentido
dos fatos humanos, encontrando a causalidade histórica que os governa.
O fato humano é
histórico ou temporal: surge no tempo e se transforma no tempo. Em cada época
histórica, os fatos psíquicos, sociais, políticos, religiosos, econômicos,
técnicos e artísticos possuem as mesmas causas gerais, o mesmo sentido e seguem
os mesmos valores, devendo ser compreendidos, simultaneamente, como
particularidades históricas ou “visões de mundo” específicas ou autônomas e
como etapas ou fases do desenvolvimento geral da humanidade, isto é, de um processo
causal universal, que é o progresso.
O historicismo
resultou em dois problemas que não puderam ser resolvidos por seus adeptos: o
relativismo (numa época em que as ciências humanas buscavam a universalidade de
seus conceitos e métodos) e a subordinação a uma filosofia da História (numa
época em que as ciências humanas pretendiam separar-se da Filosofia).
Relativismo: as leis científicas são válidas apenas para uma determinada época e
cultura, não podendo ser universalizadas. Filosofia
da História: os indivíduos humanos e as instituições socioculturais só são
compreensíveis se seu estudo científico subordinar-se a uma teoria geral da
História que considere cada formação sociocultural seja como “visão de mundo”
particular, seja como etapa de um processo histórico universal.
Para escapar dessas
conseqüências, o sociólogo alemão Max Weber propôs que as ciências humanas – no
caso, a sociologia e a economia – trabalhassem seus objetos como tipos ideais e não como fatos
empíricos. O tipo ideal, como o nome
indica, oferece construções conceituais puras, que permitem compreender e
interpretar fatos particulares observáveis. Assim, por exemplo, o Estado se
apresenta como uma forma de dominação social e política sob vários tipos ideais
(dominação carismática, dominação pessoal burocrática, etc.), cabendo ao
cientista verificar sob qual tipo encontra-se o caso particular investigado.
Fenomenologia,
estruturalismo e marxismo
A constituição das
ciências humanas como ciências específicas consolidou-se a partir das contribuições
de três correntes de pensamento, que, entre os anos 20 e 50 do século passado,
provocaram uma ruptura epistemológica e uma revolução científica no campo das
humanidades.
A contribuição da
fenomenologia
Como vimos em vários
momentos deste livro, a fenomenologia introduziu a noção de essência ou
significação como um conceito que permite diferenciar internamente uma
realidade de outras, encontrando seu sentido, sua forma, suas propriedades e
sua origem.
Dessa maneira, a
fenomenologia começou por permitir que fosse feita a diferença rigorosa entre a
esfera ou região da essência “Natureza” e a esfera ou região da essência
“homem”. A seguir, permitiu que a esfera ou região “homem” fosse internamente
diferenciada em essências diversas: o psíquico, o social, o histórico, o
cultural. Com essa diferenciação, garantia às ciências humanas a validade de
seus projetos e campos científicos de investigação: psicologia, sociologia,
história, antropologia, lingüística, economia.
Qual a diferença
entre a perspectiva positivista e a fenomenológica? Dois exemplos podem
ajudar-nos a compreendê-la.
Recusando a
perspectiva metafísica, que se referia ao psíquico em termos de alma e de
interioridade, a psicologia volta-se para o estudo dos fatos psíquicos diretamente
observáveis. Ao radicalizar essa concepção, a psicologia positivista fazia do
psiquismo uma soma de elementos físico-químicos, anatômicos e fisiológicos, de
sorte que não havia, propriamente falando, um objeto científico denominado “o
psíquico”, mas efeitos psíquicos de causas não-psíquicas (físicas, químicas,
fisiológicas, anatômicas). Por isso, a psicologia considerava-se uma ciência
natural próxima da biologia, tendo como objeto o comportamento como um fato
externo, observável e experimental.
Ao contrário, a
psicologia como ciência humana do psiquismo tornou-se possível a partir do
momento em que um conjunto de fatos internos e externos ligados à consciência
(sensação, percepção, motricidade, linguagem, etc.) puderam ser definidos como
dotados de significação objetiva própria.
Recusando a
perspectiva da filosofia da História, que considerava as sociedades etapas
culturais e civilizatórias de um processo histórico universal, a sociologia
volta-se para o estudo dos fatos sociais observáveis. Inspirando-se nas
ciências naturais, a sociologia positivista fazia da sociedade uma soma de
ações individuais e tomava o indivíduo como elemento observável e causa do
social, de sorte que não havia a sociedade como um objeto ou uma realidade
propriamente dita, mas um efeito de ações psicológicas dos indivíduos. Somente
a definição do social como algo essencialmente diferente do psíquico e como não
sendo a mera soma de ações individuais permitiu o surgimento da sociologia como
ciência propriamente dita.
Em resumo, antes da
fenomenologia, cada uma das ciências humanas desfazia seu objeto num agregado
de elementos de natureza diversa do todo, estudava as relações causais externas
entre esses elementos e as apresentava como explicação e lei de seu objeto de
investigação. A fenomenologia garantiu às ciências humanas a existência e a
especificidade de seus objetos.
A contribuição do
estruturalismo
O estruturalismo
permitiu que as ciências humanas criassem métodos específicos para o estudo de
seus objetos, livrando-as das explicações mecânicas de causa e efeito, sem que
por isso tivessem que abandonar a idéia de lei científica.
A concepção
estruturalista veio mostrar que os fatos humanos assumem a forma de estruturas,
isto é, de sistemas que criam seus próprios elementos, dando a estes sentido
pela posição e pela função que ocupam no todo. As estruturas são totalidades
organizadas segundo princípios internos que lhes são próprios e que comandam
seus elementos ou partes, seu modo de funcionamento e suas possibilidades de
transformação temporal ou histórica. Nelas, o todo não é a soma das partes, nem
um conjunto de relações causais entre elementos isoláveis, mas é um princípio
ordenador, diferenciador e transformador. Uma estrutura é uma totalidade dotada
de sentido.
Já vimos a noção de
estrutura quando, nos capítulos dedicados à teoria do conhecimento, nos
referimos à teoria da percepção, formulada pela psicologia da Gestalt ou da forma, bem como quando nos
referimos à teoria da linguagem, elaborada pela lingüística contemporânea.
Após a psicologia e a
lingüística, a primeira das ciências humanas a se transformar profundamente,
graças à idéia de estrutura e ao método estrutural, foi a antropologia social.
Esta pôde mostrar que, ao contrário do que pensava a antropologia positivista,
as chamadas “sociedades primitivas” não são uma etapa atrasada da evolução da
história social da humanidade, mas uma forma objetiva de organizar as relações
sociais de modo diferente do nosso, constituindo estruturas culturais.
O antropólogo Claude
Lévi-Strauss, por exemplo, mostrou que as estruturas dessas sociedades são
baseadas no princípio do valor ou da equivalência, que permite a troca e a
circulação de certos seres, de maneira a constituir o todo da sociedade,
organizando todas as relações sociais: a troca ou circulação das mulheres
(estrutura do parentesco como sistema social de alianças), a troca ou
circulação de objetos especiais (estrutura do dom como sistema social da guerra
e da paz) e troca e circulação da palavra (estrutura da linguagem como sistema
do poder religioso e político). O modo como cada um desses sistemas ou
estruturas parciais se organiza e se relaciona com os outros define a estrutura
geral e específica de uma sociedade “primitiva”, que pode, assim, ser
compreendida e explicada cientificamente.
A contribuição do
marxismo
O marxismo permitiu
compreender que os fatos humanos são instituições sociais e históricas
produzidas não pelo espírito e pela vontade livre dos indivíduos, mas pelas
condições objetivas nas quais a ação e o pensamento humanos devem realizar-se.
Levou a compreender que os fatos humanos mais originários ou primários são as
relações dos homens com a Natureza na luta pela sobrevivência e que tais
relações são as de trabalho, dando origem às primeiras instituições sociais:
família (divisão sexual do trabalho), pastoreio e agricultura (divisão social
do trabalho), troca e comércio (distribuição social dos produtos do trabalho).
Assim, as primeiras
instituições sociais são econômicas.
Para mantê-las, o grupo social cria idéias e sentimentos, valores e símbolos
aceitos por todos e que justificam ou legitimam as instituições assim criadas.
Também para conservá-las, o grupo social cria instituições de poder que
sustentem (pela força, pelas armas ou pelas leis) as relações sociais e as
idéias-valores-símbolos produzidos.
Dessa maneira, o
marxismo permitiu às ciências humanas compreender as articulações necessárias
entre o plano psicológico e o social da existência humana; entre o plano
econômico e o das instituições sociais e políticas; entre todas elas e o
conjunto de idéias e de práticas que uma sociedade produz.
Graças ao marxismo,
as ciências humanas puderam compreender que as mudanças históricas não resultam
de ações súbitas e espetaculares de alguns indivíduos ou grupos de indivíduos,
mas de lentos processos sociais, econômicos e políticos, baseados na forma
assumida pela propriedade dos meios de produção e pelas relações de trabalho. A
materialidade da existência econômica comanda as outras esferas da vida social
e da espiritualidade e os processos históricos abrangem todas elas.
Enfim, o marxismo
trouxe como grande contribuição à sociologia, à ciência política e à história a
interpretação dos fenômenos humanos como expressão e resultado de contradições
sociais, de lutas e conflitos sóciopolíticos determinados pelas relações
econômicas baseadas na exploração do trabalho da maioria pela minoria de uma
sociedade.
Em resumo, a
fenomenologia permitiu a definição e a delimitação dos objetos das ciências
humanas; o estruturalismo permitiu uma metodologia que chega às leis dos fatos
humanos, sem que seja necessário imitar ou copiar os procedimentos das ciências
naturais; o marxismo permitiu compreender que os fatos humanos são
historicamente determinados e que a historicidade, longe de impedir que sejam
conhecidos, garante a interpretação racional deles e o conhecimento de suas
leis.
Com essas
contribuições, que foram incorporadas de maneiras muito diferenciadas pelas
várias ciências humanas, os obstáculos epistemológicos foram ultrapassados e
foi possível demonstrar que os fenômenos humanos são dotados de sentido e
significação, são históricos, possuem leis próprias, são diferentes dos
fenômenos naturais e podem ser tratados cientificamente.
Os campos de estudo
das ciências humanas
Se tomarmos as
ciências humanas de acordo com seus campos de investigação, podemos
distribuí-las da seguinte maneira:
Psicologia
● estudo das
estruturas, do desenvolvimento das operações da mente humana (consciência,
vontade, percepção, linguagem, memória, imaginação, emoções);
● estudo das
estruturas e do desenvolvimento dos comportamentos humanos e animais;
● estudo das
relações intersubjetivas dos indivíduos em grupo e em sociedade;
● estudo das
perturbações (patologias) da mente humana e dos comportamentos humanos e
animais.
Sociologia
● estudo das
estruturas sociais: origem e forma das sociedades, tipos de organizações
sociais, econômicas e políticas;
● estudo das
relações sociais e de suas transformações;
● estudo das
instituições sociais (origem, forma, sentido).
Economia
● estudo das
condições materiais (naturais e sociais) de produção e reprodução da riqueza,
de suas formas de distribuição, circulação e consumo;
● estudo das
estruturas produtivas – relações de produção e forças produtivas – segundo o
critério da divisão social do trabalho, da forma da propriedade, das regras do
mercado e dos ciclos econômicos;
● estudo da
origem, do desenvolvimento, das crises, das transformações e da reprodução das
formas econômicas ou modos de produção.
Antropologia
● estudo das
estruturas ou formas culturais em sua singularidade ou particularidade, isto é,
como diferentes entre si por seus princípios internos de funcionamento e
transformação. A cultura é entendida como modo de vida global de uma sociedade,
incluindo: religião, formas de poder, formas de parentesco, formas de
comunicação, organização da vida econômica, artes, técnicas, costumes, crenças,
formas de pensamento e de comportamento, etc.;
● estudo das
comunidades ditas “primitivas”, isto é, tanto das que desconhecem a divisão
social em classes e recusam organizar-se sob a forma do mercado e do poder
estatal, quanto daquelas que já iniciaram o processo de divisão social e
política.
História
● estudo da
gênese e do desenvolvimento das formações sociais em seus aspectos econômicos,
sociais, políticos e culturais;
● estudo das
transformações das sociedades e comunidades como resultado e expressão de
conflitos, lutas, contradições internas às formações sociais;
● estudo das
transformações das sociedades e comunidades sob o impacto de acontecimentos
políticos (revoluções, guerras civis, conquistas territoriais), econômicos
(crises, inovações técnicas, descobertas de novas formas de exploração da
riqueza ou procedimentos de produção, mudanças na divisão social do trabalho),
sociais (movimentos sociais, movimentos populares, mudanças na estrutura e
organização da família, da educação, da moralidade social, etc.) e culturais
(mudanças científicas, tecnológicas, artísticas, filosóficas, éticas, religiosas,
etc.);
● estudo dos
acontecimentos que, em cada caso, determinaram ou determinam a preservação ou a
mudança de uma formação social em seus aspectos econômicos, políticos, sociais
e culturais;
● estudo dos
diferentes suportes da memória coletiva (documentos, monumentos, pinturas,
fotografias, filmes, moedas, lápides funerárias, testemunhos e relatos orais e
escritos, etc.).
Lingüística
● estudo das
estruturas da linguagem como sistema dotado de princípios internos de
funcionamento e transformação;
● estudo das
relações entre língua (a estrutura) e fala ou palavra (o uso da língua pelos
falantes);
● estudo das
relações entre a linguagem e os outros sistemas de signos e símbolos ou outros
sistemas de comunicação.
Psicanálise
● estudo da
estrutura e do funcionamento do inconsciente e de suas relações com o
consciente;
● estudo das
patologias ou perturbações inconscientes e suas expressões conscientes
(neuroses e psicoses).
Devemos observar que:
● cada uma das
ciências humanas subdivide-se em vários ramos, definidos pela especificidade
crescente de seus objetos e métodos. Assim, podemos falar em psicologia social,
clínica, do desenvolvimento, da aprendizagem, da criança, do adolescente, etc.
Ou em sociologia política, do trabalho, rural, urbana, econômica, etc. Também
podemos falar em história econômica, política, oral, social, etc. Ou levar em
consideração que a antropologia depende de investigações feitas pela etnografia
e pela etnologia ou pela arqueologia, assim como a lingüística trabalha com a
fonologia, a fonética, a gramática, a semântica, a sintaxe, etc.;
● embora com
campos e métodos específicos, as ciências humanas tendem a apresentar
resultados mais completos e satisfatórios quando trabalham
interdisciplinarmente, de modo a abranger os múltiplos aspectos simultâneos e
sucessivos dos fenômenos estudados;
● os
desenvolvimentos da lingüística, da antropologia e da psicanálise suscitaram o
aparecimento de uma nova disciplina ou interdisciplina científica: a semiologia, que estuda os diferentes
sistemas de signos e símbolos que constituem as múltiplas e diferentes formas
de comunicação. O desenvolvimento da semiologia conduziu à idéia de que signos
e símbolos são ações e práticas sócio-históricas, isto é, estão referidos às
relações sociais e às suas condições históricas, cada sociedade e cada cultura
constituindo-se como um sistema que integra e totaliza vários subsistemas de
signos e símbolos (linguagem, arte, religião, instituições sociais e políticas,
costumes, etc.).
Vários estudiosos
propuseram que o método das ciências humanas fosse capaz de descrever e
interpretar esses subsistemas e o sistema geral que os unifica. Esse método é a
semiótica, tomada como metodologia
própria às ciências humanas e capaz de unificá-las.
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