Convite à
Filosofia
Convite à Filosofia
De Marilena
Chaui
Ed. Ática, São Paulo, 2000.
Unidade 7
As ciências
Capítulo 5
O ideal científico e a razão instrumental
O ideal científico
O percurso que fizemos no estudo das ciências evidencia a existência de um ideal científico: embora continuidades e rupturas marquem os conhecimentos científicos, a ciência é a confiança que a cultura ocidental deposita na razão como capacidade para conhecer a realidade, mesmo que esta, afinal, tenha que ser inteiramente construída pela própria atividade racional.
A lógica que rege o pensamento científico contemporâneo está centrada na idéia de demonstração e prova, a partir da definição ou construção do objeto do conhecimento por suas propriedades e funções e da posição do sujeito do conhecimento, através das operações de análise, síntese e interpretação. A ciência contemporânea funda-se:
● na distinção
entre sujeito e objeto do conhecimento, que permite estabelecer a idéia de
objetividade, isto é, de independência dos fenômenos em relação ao sujeito que
conhece e age;
● na idéia de
método como um conjunto de regras, normas e procedimentos gerais, que servem
para definir ou construir o objeto e para o autocontrole do pensamento durante
a investigação e, após esta, para a confirmação ou falsificação dos resultados
obtidos. A idéia de método tem como pressuposto que o pensamento obedece
universalmente a certos princípios internos – identidade, não-contradição,
terceiro excluído, razão suficiente – dos quais dependem o conhecimento da
verdade e a exclusão do falso. A verdade pode ser compreendida seja como
correspondência necessária entre os conceitos e a realidade, seja como
coerência interna dos próprios conceitos;
● nas operações
de análise e síntese, isto é, de passagem do todo complexo às suas partes
constituintes ou de passagem das partes ao todo que as explica e determina. O
objeto científico é um fenômeno submetido à análise e à síntese, que descrevem
os fatos observados ou constroem a própria entidade objetiva como um campo de
relações internas necessárias, isto é, uma estrutura que pode ser conhecida em
seus elementos, suas propriedades, suas funções e seus modos de permanência ou
de transformação;
● na idéia de
lei do fenômeno, isto é, de regularidades e constâncias universais e
necessárias, que definem o modo de ser e de comportar-se do objeto, seja este
tomado como um campo separado dos demais, seja tomado em suas relações com
outros objetos ou campos de realidade. A lei científica define o que é o
fato-fenômeno ou o objeto construído pelas operações científicas. Em outras
palavras, a lei científica diz como o objeto se constitui, como se comporta,
por que e como permanece, por que e como se transforma, sobre quais fenômenos
atua e de quais sofre ação. A lei define o objeto segundo um sistema complexo
de relações necessárias de causalidade, complementaridade, inclusão e exclusão.
A idéia de lei visa a marcar o caráter necessário do objeto e a afastar as
idéias de acaso, contingência, indeterminação, oferecendo o objeto como
completamente determinado pelo pensamento ou completamente conhecido ou
cognoscível;
● no uso de
instrumentos tecnológicos e não simplesmente técnicos. Os instrumentos técnicos
são prolongamentos de capacidades do corpo humano e destinam-se a aumentá-las
na relação do nosso corpo com o mundo. Os instrumentos tecnológicos são ciência
cristalizada em objetos materiais, nada possuem em comum com as capacidades e
aptidões do corpo humano; visam a intervir nos fenômenos estudados e mesmo a
construir o próprio objeto científico; destinam-se a dominar e transformar o
mundo e não simplesmente a facilitar a relação do homem com o mundo. A
tecnologia confere à ciência precisão e controle dos resultados, aplicação
prática e interdisciplinaridade. O caso da biologia genética revela como a
tecnologia da física, da química e da cibernética determinaram uma atividade
interdisciplinar que resultou em descobertas e mudanças na biologia;
● na criação de
uma linguagem específica e própria, distante da linguagem cotidiana e da
linguagem literária. A ciência procura afastar os dados qualitativos e
perceptivo-emotivos dos objetos ou dos fenômenos, para guardar ou construir
apenas seus aspectos quantitativos e relacionais.
A linguagem cotidiana
e a literária são conotativas e polissêmicas, isto é, nelas as palavras possuem
múltiplos significados simultâneos, subentendidos, ambigüidades e exprimem
tanto o sujeito quanto as coisas, ou seja, exprimem as relações vividas entre o
sujeito e o mundo qualitativo de sons, cores, formas, odores, valores,
sentimentos, etc.
Nas ciências, porém,
sons e cores são explicados como variação no comprimento das ondas sonoras e
luminosas, observadas e medidas no laboratório. Valores e sentimentos são
explicados pelas análises do corpo vivido e da consciência, feitas pela
psicologia; pelas análises da estrutura e organização da sociedade, feitas pela
sociologia e pela antropologia.
A linguagem
científica destaca o objeto das relações com o sujeito, separa-o da experiência
vivida cotidiana e constrói uma linguagem puramente denotativa para exprimir
sem ambigüidades as leis do objeto. O simbolismo científico rompe com o
simbolismo da linguagem cotidiana construindo uma linguagem própria, com
símbolos unívocos e denotativos, de significado único e universal. A ciência
constrói o algoritmo e fala através dos algoritmos ou de uma combinatória de
estilo matemático.
Justamente por serem
estes os principais traços do ideal científico, podemos compreender por que
existem os problemas epistemológicos examinados nos capítulos precedentes. Em
outras palavras, o ideal de cientificidade impõe às idéias critérios e
finalidades que, quando impedidos de se concretizarem, forçam rupturas e
mudanças teóricas profundas, fazendo desaparecer campos e disciplinas
científicos ou levando ao surgimento de objetos, métodos, disciplinas e campos
de investigação novos.
Ciência
desinteressada e utilitarismo
Desde a Renascença –
isto é, desde o humanismo, que colocava o homem no centro do Universo e
afirmava seu poder para conhecer e dominar a realidade – duas concepções sobre
o valor da ciência estiveram sempre em confronto.
A primeira delas, que
chamaremos de ideal do conhecimento desinteressado, afirma que o valor de uma
ciência encontra-se na qualidade, no rigor e na exatidão, na coerência e na
verdade de uma teoria, independentemente de sua aplicação prática. A teoria
científica vale por trazer conhecimentos novos sobre fatos desconhecidos, por
ampliar o saber humano sobre a realidade e não por ser aplicável praticamente.
Em outras palavras, é por ser verdadeira que a ciência pode ser aplicada na
prática, mas o uso da ciência é conseqüência e não causa do conhecimento
científico.
A segunda concepção,
conhecida como utilitarismo, ao contrário, afirma que o valor de uma ciência
encontra-se na quantidade de aplicações práticas que possa permitir. É o uso ou
a utilidade imediata dos conhecimentos que prova a verdade de uma teoria
científica e lhe confere valor. Os conhecimentos são procurados para resolver
problemas práticos e estes determinam não só o aparecimento de uma ciência, mas
também suas transformações no decorrer do tempo.
As duas concepções
são verdadeiras, mas parciais. Se uma teoria científica fosse elaborada apenas
por suas finalidades práticas imediatas, inúmeras pesquisas jamais teriam sido
feitas e inúmeros fenômenos jamais teriam sido conhecidos, pois, com
freqüência, os conhecimentos teóricos estão mais avançados do que as
capacidades técnicas de uma época e, em geral, sua aplicação só é percebida e
só é possível muito tempo depois de haver sido elaborada.
No entanto, se uma
teoria científica não for capaz de suscitar aplicações, se não for capaz de
permitir o surgimento de objetos técnicos e tecnológicos, instrumentos,
utensílios, máquinas, medicamentos, de resolver problemas importantes para os
seres humanos, então seremos obrigados a dizer que a técnica e a tecnologia são
cegas, incertas, arriscadas e perigosas, porque são práticas sem bases teóricas
seguras. Na realidade, teoria e prática científicas estão relacionadas na
concepção moderna e contemporânea de ciência, mesmo que uma possa estar mais
avançada do que a outra.
A distinção e a
relação entre ciência pura e ciência aplicada pode solucionar o impasse ou o
confronto entre as duas concepções sobre o valor das teorias científicas,
garantindo, por um lado, que uma teoria possa e deva ser elaborada sem a
preocupação com fins práticos imediatos, embora possa, mais tarde, contribuir
para eles; e, por outro lado, garantindo o caráter científico de teorias
construídas diretamente com finalidades práticas, as quais podem, por sua vez,
suscitar investigações puramente teóricas.
Pode-se dizer que são
problemas e dificuldades técnicas e práticas que suscitam o desenvolvimento de
conhecimentos teóricos. Sabemos, por exemplo, que o químico Lavoisier decidiu
estudar o fenômeno da combustão para resolver problemas econômicos da cidade de
Paris, que Galileu e Torricelli investigaram o movimento dos corpos no vácuo
para resolver problemas de carregamento de grandes pesos nos portos e para
responder a uma pergunta dos construtores de fontes dos jardins da cidade de
Florença.
No entanto, o que
sempre se verifica é que a explicação científica e a teoria acabam conhecendo
muito mais fatos e relações do que o que era necessário para solucionar o
problema prático, de tal modo que as pesquisas teóricas vão avançando já sem a
preocupação prática, embora comecem a surgir e a suscitar, tempos depois,
soluções práticas para problemas novos. Assim, por exemplo, passou-se muito
tempo até que a teoria eletromagnética de Hertz levasse às técnicas de
radiodifusão.
A ideologia
cientificista
O senso comum,
ignorando as complexas relações entre as teorias científicas e as técnicas,
entre ciência pura e ciência aplicada, entre teoria e prática e entre verdade e
utilidade, tende a identificar as ciências com os resultados de suas
aplicações. Essa identificação desemboca numa atitude conhecida como cientificismo, isto é, fusão entre ciência e técnica e a ilusão da neutralidade científica.
Examinemos brevemente
cada um desses aspectos que constituem a ideologia da ciência na sociedade
contemporânea.
O cientificismo
O cientificismo é a
crença infundada de que a ciência pode e deve conhecer tudo, que, de fato,
conhece tudo e é a explicação causal das leis da realidade tal como esta é em
si mesma.
Ao contrário dos
cientistas, que não cessam de enfrentar obstáculos epistemológicos, problemas e
enigmas, o senso comum cientificista desemboca numa ideologia e numa mitologia
da ciência.
Ideologia da ciência: crença no progresso e na evolução dos
conhecimentos que, um dia, explicarão totalmente a realidade e permitirão
manipulá-la tecnicamente, sem limites para a ação humana.
Mitologia da ciência: crença na ciência como se fosse magia e
poderio ilimitado sobre as coisas e os homens, dando-lhe o lugar que muitos
costumam dar às religiões, isto é, um conjunto doutrinário de verdades
intemporais, absolutas e inquestionáveis.
A ideologia e a
mitologia cientificistas encaram a ciência não pelo prisma do trabalho do
conhecimento, mas pelo prisma dos resultados (apresentados como espetaculares e
miraculosos) e sobretudo como uma forma de poder social e de controle do
pensamento humano. Por este motivo, aceitam a ideologia da competência, isto é, a idéia de que há, na sociedade,
os que sabem e os que não sabem, que os primeiros são competentes e têm o
direito de mandar e de exercer poderes, enquanto os demais são incompetentes,
devendo obedecer e ser mandados. Em resumo, a sociedade deve ser dirigida e
comandada pelos que “sabem” e os demais devem executar as tarefas que lhes são
ordenadas.
A ilusão da
neutralidade da ciência
Como a ciência se
caracteriza pela separação e pela distinção entre o sujeito do conhecimento e o
objeto; como a ciência se caracteriza por retirar dos objetos do conhecimento
os elementos subjetivos; como os procedimentos científicos de observação,
experimentação e interpretação procuram alcançar o objeto real ou o objeto
construído como modelo aproximado do real; e, enfim, como os resultados obtidos
por uma ciência não dependem da boa ou má vontade do cientista nem de suas
paixões, estamos convencidos de que a ciência é neutra ou imparcial. Diz à
razão o que as coisas são em si mesmas. Desinteressadamente.
Essa imagem da
neutralidade científica é ilusória.
Quando o cientista
escolhe uma certa definição de seu objeto, decide usar um determinado método e
espera obter certos resultados, sua atividade não é neutra nem imparcial, mas
feita por escolhas precisas. Vamos tomar três exemplos que nos ajudarão a
esclarecer este ponto.
O racismo não é
apenas uma ideologia social e política. É também uma teoria que se pretende
científica, apoiada em observações, dados e leis conseguidas com a biologia, a
psicologia, a sociologia. É uma certa maneira de construir tais dados, de sorte
a transformar diferenças étnicas e culturais em diferenças biológicas naturais
imutáveis e separar os seres humanos em superiores e inferiores, dando aos
primeiros justificativas para explorar, dominar e mesmo exterminar os segundos.
Por que Copérnico
teve que esconder os resultados de suas pesquisas e Galileu foi forçado a
comparecer perante a Inquisição e negar que a Terra se movia ao redor do Sol?
Porque a concepção astronômica geocêntrica (elaborada, na Antiguidade, por
Ptolomeu e Aristóteles) permitia que a Igreja Romana mantivesse a idéia de que
a realidade é constituída por uma hierarquia de seres, que vão dos mais
perfeitos – os celestes – aos mais imperfeitos – os infernais – e que essa
hierarquia colocava a Igreja acima dos imperadores, estes acima dos barões e
estes acima dos camponeses e servos.
Se a astronomia
demonstrasse que a Terra não é o centro do Universo e que o Sol não é apenas
uma perfeição imóvel, e se a mecânica galileana demonstrasse que todos os seres
estão submetidos às mesmas leis do movimento, então as hierarquias celestes,
naturais e humanas, perderiam legitimidade e fundamento, não precisando ser
respeitadas. A física e a astronomia pré-copernicanas (elaboradas por Ptolomeu
e Aristóteles) serviam – independentemente da vontade de Ptolomeu e de
Aristóteles, é verdade – a uma sociedade e a uma concepção do poder que se
viram ameaçadas por uma nova concepção científica.
Um último exemplo
pode ser dado através da antropologia. Durante muito tempo, os antropólogos
afirmaram que havia duas formas de pensamento cientificamente observáveis e com
leis diferentes: o pensamento lógico-racional dos civilizados (europeus brancos
adultos) e o pensamento pré-lógico e pré-racional dos selvagens ou primitivos
(africanos, índios, tribos australianas). O primeiro era considerado superior,
verdadeiro e evoluído; o segundo, inferior, falso, supersticioso e atrasado,
cabendo aos brancos europeus “auxiliar” os selvagens “primitivos” a abandonar
sua cultura e adquirir a cultura “evoluída” dos colonizadores.
O melhor caminho para
perceber a impossibilidade de uma ciência neutra é levar em consideração o modo
como a pesquisa científica se realiza em nosso tempo.
Durante séculos, os
cientistas trabalharam individualmente (mesmo que possuíssem auxiliares e
discípulos) em seus pequenos laboratórios. Suas pesquisas eram custeadas ou por
eles mesmos ou por reis, nobres e burgueses ricos, que desejavam a glória de
patrocinar descobertas e as vantagens práticas que delas poderiam advir. Por
sua vez, o senso comum social olhava o cientista como inventor e gênio.
Hoje, os cientistas
trabalham coletivamente, em equipes, nos grandes laboratórios universitários,
nos dos institutos de pesquisa e nos das grandes empresas transnacionais que
participam de um sistema conhecido como complexo industrial-militar. As
pesquisas são financiadas pelo Estado (nas universidades e institutos), pelas
empresas privadas (em seus laboratórios) e por ambos (nos centros de
investigação do complexo industrial-militar). São pesquisas que exigem altos
investimentos econômicos e das quais se esperam resultados que a opinião
pública nem sempre conhece. Além disso, os cientistas de uma mesma área de
investigação competem por recursos, tendem a fazer segredo de suas descobertas,
pois dependem delas para conseguir fundos e vencer a competição com outros.
Sabemos, hoje, que a
maioria dos resultados científicos que usamos em nossa vida cotidiana –
máquinas, remédios, fertilizantes, produtos de limpeza e de higiene, materiais
sintéticos, computadores – tiveram como origem investigações militares e
estratégicas, competições econômicas entre grandes empresas transnacionais e
competições políticas entre grandes Estados. Muito do que usamos em nosso
cotidiano provém de pesquisas nucleares, bacteriológicas e espaciais.
O senso comum social,
agora, vê o cientista como engenheiro e
mago, em roupas brancas no interior de grandes laboratórios repletos de
objetos incompreensíveis, rodeado de outros cientistas, fazendo cálculos
misteriosos diante de dezenas de computadores.
Tanto na visão
anterior – o cientista como inventor e gênio solitário – quanto na atual – o
cientista como membro de uma equipe de engenheiros e magos -, o senso comum vê
a ciência desligada do contexto das condições de sua realização e de suas
finalidades. Eis porque tende a acreditar na neutralidade científica, na idéia
de que o único compromisso da ciência é o conhecimento verdadeiro e
desinteressado e a solução correta de nossos problemas.
A ideologia
cientificista usa essa imagem idealizada para consolidar a da neutralidade
científica, dissimulando, com isso, a origem e a finalidade da maioria das
pesquisas, destinadas a controlar a Natureza e a sociedade segundo os
interesses dos grupos que controlam os financiamentos dos laboratórios.
A razão instrumental
Por que há uma ideologia e uma mitologia da ciência?
Quando estudamos a teoria do conhecimento, examinamos a noção de ideologia como lógica social imaginária de ocultamento da realidade histórica. Ao estudarmos o nascimento da Filosofia, examinamos a diferença entre mythos e logos, isto é, entre a explicação antropomórfica e mágica do mundo e a explicação racional. Quando estudamos a razão, vimos que alguns filósofos alemães, reunidos na Escola de Frankfurt, descreveram a racionalidade ocidental como instrumentalização da razão. Se reunirmos esses vários estudos que fizemos até aqui, poderemos responder à pergunta sobre a ideologização e a mitologização da ciência.
A razão instrumental – que os frankfurtianos, como Adorno, Marcuse e Horkheimer também designaram com a expressão razão iluminista – nasce quando o sujeito do conhecimento toma a decisão de que conhecer é dominar e controlar a Natureza e os seres humanos. Assim, por exemplo, o filósofo Francis Bacon, no início do século XVII, criou uma expressão para referir-se ao objeto do conhecimento científico: “a Natureza atormentada”.
Atormentar a Natureza é fazê-la reagir a condições artificiais, criadas pelo homem. O laboratório científico é a maneira paradigmática de efetuar esse tormento, pois, nele, plantas, animais, metais, líquidos, gases, etc. são submetidos a condições de investigação totalmente diversas das naturais, de maneira a fazer com que a experimentação supere a experiência, descobrindo formas, causas, efeitos que não poderiam ser conhecidos se contássemos apenas com a atividade espontânea da Natureza. Atormentar a Natureza é conhecer seus segredos para dominá-la e transformá-la.
O tormento da realidade aumenta com a ciência contemporânea, uma vez que esta não se contenta em conhecer as coisas e os seres humanos, mas os constrói artificialmente e aplica os resultados dessa construção ao mundo físico, biológico e humano (psíquico, social, político, histórico). Assim, por exemplo, a organização do processo de trabalho nas indústrias apresenta-se como científica porque é baseada em conceitos da psicologia, da sociologia, da economia, que permitem dominar e controlar o trabalho humano sob todos os aspectos (controle sobre o corpo e o espírito dos trabalhadores), a fim de que a produtividade seja a maior possível para render lucros ao capital.
Na medida em que a razão se torna instrumental, a ciência vai deixando de ser uma forma de acesso aos conhecimentos verdadeiros para tornar-se um instrumento de dominação, poder e exploração. Para que não seja percebida como tal, passa a ser sustentada pela ideologia cientificista, que, através da escola e dos meios de comunicação de massa, desemboca na mitologia cientificista.
Todavia, devemos distinguir entre o momento da investigação científica propriamente dita e o da ideologização-mitologização de uma ciência. Um exemplo poderá auxiliar-nos a perceber essa diferença. Quando Darwin elabora a teoria biológica da evolução das espécies, o modelo de explicação usado por ele permitia-lhe supor que o processo evolutivo ocorria por seleção natural dos mais aptos à sobrevivência.
Ora, na mesma época, a sociedade capitalista estava convencida de que o progresso social e histórico provinha da competição e da concorrência dos indivíduos, segundo a lei econômica da oferta e da procura. Um filósofo, Spencer, aplicou, então, a teoria darwiniana à sociedade: nesta, os mais “aptos” (isto é, os mais capazes de competir e concorrer) tornam-se naturalmente superiores aos outros, vencendo-os em riqueza, privilégios e poder.
Ao transpor uma teoria biológica para uma explicação filosófica sobre a essência da sociedade, Spencer transformou a teoria científica da evolução em ideologia evolucionista. Por quê? Em primeiro lugar, porque generalizou para toda a realidade resultados obtidos num campo particular de conhecimentos específicos. Em segundo lugar, porque tomou conceitos referentes a fatos naturais e os converteu em fatos sociais, como se não houvesse diferença entre Natureza e sociedade. Uma vez criada a ideologia evolucionista, o evolucionismo tornou-se teoria da História e, a seguir, mitologia científica do progresso humano.
A noção de razão instrumental nos permite compreender:
● a
transformação de uma ciência em ideologia e mito social, isto é, em senso comum
cientificista;
● que a
ideologia da ciência não se reduz à transformação de uma teoria científica em
ideologia, mas encontra-se na própria ciência, quando esta é concebida como
instrumento de dominação, controle e poder sobre a Natureza e a sociedade;
● que as idéias
de progresso técnico e neutralidade científica pertencem ao campo da ideologia
cientificista.
Confusão entre
ciência e técnica
Vimos que a ciência
moderna e contemporânea transforma a técnica em tecnologia, isto é, passa da
máquina-utensílio à máquina como instrumento de precisão, que permite
conhecimentos mais exatos e novos conhecimentos.
Essa transformação
traz duas conseqüências principais: a primeira se refere ao conhecimento
científico e a segunda, ao estatuto dos objetos técnicos:
1. o conhecimento
científico é concebido como lógica da
invenção (para a solução de problemas teóricos e práticos) e como lógica da construção (de objetos
teóricos), graças à possibilidade de estudar os fenômenos sem depender apenas
dos recursos de nossa percepção e de nossa inteligência. É assim que, por
exemplo, Galileu se refere ao telescópio como um instrumento cuja função não é
a de simplesmente aproximar objetos distantes, mas de corrigir as distorções de
nossos olhos e garantir-nos a imagem correta das coisas. O mesmo foi dito sobre
o microscópio, sobre a balança de precisão, sobre o cronômetro.
Em nosso tempo, os
instrumentos técnico-tecnológicos vão além da correção de nossa percepção, pois
corrigem falhas de nosso pensamento, uma vez que são inteligências artificiais
(o computador foi chamado de “cérebro eletrônico”) mais acuradas do que nossa
inteligência individual. Evidentemente, são conhecimentos científicos que
permitem a construção desses instrumentos, mas dando-lhes capacidades que cada
um de nós, enquanto indivíduo, não possui. Ora, os objetos técnico-tecnológicos
ampliam a idéia da ciência como invenção e construção dos próprios fenômenos;
2. os objetos
técnicos são criados pela ciência como instrumentos de auxílio ao trabalho
humano, máquinas para dominar a Natureza e a sociedade, instrumentos de
precisão para o conhecimento científico e, sobretudo, em sua forma
contemporânea, como autômatos. Estes são o objeto técnico-tecnológico por
excelência, porque possuem as seguintes características, marcas do novo
estatuto desse objeto:
● são
conhecimento científico objetivado, isto é, depositado e concretizado num
objeto. São resultado e corporificação de conhecimentos científicos;
● são objetos
que possuem em si mesmos o princípio de sua regulação, manutenção e
transformação. As máquinas antigas dependiam de forças externas para realizar
suas funções (alavancas, polias, manivelas, força muscular de seres humanos ou
de animais, força hidráulica, etc.). As máquinas modernas são autômatos porque,
dado o impulso eletro-eletrônico inicial, realizam por si mesmas todas as
operações para as quais foram programadas, incluindo a correção de sua própria
ação, a realimentação de energia, a transformação. São auto-reguladas e
autoconservadas, porque possuem em si mesmas as informações necessárias ao seu
funcionamento;
● como
conseqüência, não são propriamente um objeto singular ou individual, mas um sistema de objetos interligados por
comandos recíprocos;
● são sistemas
que, uma vez programados, realizam operações teóricas complexas, que modificam
o conteúdo dos próprios conhecimentos científicos, isto é, os objetos
técnico-tecnológicos fazem parte do trabalho teórico.
Ora, o senso comum
social ignora essas transformações da ciência e da técnica e conhece apenas
seus resultados mais imediatos: os objetos que podem ser usados por nós
(máquina de lavar, videogame,
televisão a cabo, máquina de calcular, computador, robô industrial, etc.).
Como, para usá-los,
precisamos receber um conjunto de informações detalhadas e sofisticadas,
tendemos a identificar o conhecimento científico com seus efeitos tecnológicos.
Com isso, deixamos de perceber o essencial, isto é, que as ciências passaram a
fazer parte das forças econômicas produtivas da sociedade e trouxeram mudanças
sociais de grande porte na divisão social do trabalho, na produção e na
distribuição dos objetos, na forma de consumi-los. Não percebemos que as
pesquisas científicas são financiadas por empresas e governos, demandando
grandes somas de recursos que retornam, graças aos resultados obtidos, na forma
de lucro e poder para os agentes financiadores.
Por não percebermos o
poderio econômico das ciências, lutamos para ter acesso, para possuir e
consumir os objetos tecnológicos, mas não lutamos pelo direito de acesso tanto
aos conhecimentos como às pesquisas científicas, nem lutamos pelo direito de decidir
seu modo de inserção na vida econômica e política de uma sociedade.
Eis porque, entre
outros efeitos de nossa confusão entre ciência e tecnologia, aceitamos, no
Brasil, políticas educacionais que profissionalizam os jovens no segundo grau –
portanto, antes que tenham podido ter acesso às ciências propriamente ditas – e
que destinam poucos recursos públicos às áreas de pesquisa nas universidades –
portanto, mantendo os cientistas na mera condição de reprodutores de ciências
produzidas em outros países e sociedades.
O problema do uso
das ciências
Além do problema
anterior, isto é, de teorias científicas serem formuladas a partir de certas
decisões e escolhas do cientista ou do laboratório onde trabalham os
cientistas, com conseqüências sérias para os seres humanos, um outro problema
também é trazido pelas ciências: o de seu uso.
Vimos que uma teoria
científica pode nascer para dar resposta a um problema prático ou técnico.
Vimos também que a investigação científica pode ir avançando para descobertas
de fenômenos e relações que já não possuem relação direta com os problemas
práticos iniciais e, como conseqüência, é freqüente uma teoria estar muito mais
avançada do que as técnicas e tecnologias que poderão aplicá-la. Muitas vezes,
aliás, o cientista sequer imagina que a teoria terá aplicação prática.
É exatamente isso que
torna o uso da ciência algo delicado, que, em geral, escapa das mãos dos
próprios pesquisadores. É assim, por exemplo, que a microfísica ou física
quântica desemboca na fabricação das armas nucleares; a bioquímica e a
genética, na de armas bacteriológicas. Teorias sobre a luz e o som permitem a
construção de satélites artificiais, que, se são conectáveis instantaneamente
em todo o globo terrestre para a comunicação e informação, também são responsáveis
por espionagem militar e por guerras com armas teleguiadas.
Uma das
características mais novas da ciência está em que as pesquisas científicas
passaram a fazer parte das forças produtivas da sociedade, isto é, da economia.
A automação, a informatização, a telecomunicação determinam formas de poder
econômico, modos de organizar o trabalho industrial e os serviços, criam
profissões e ocupações novas, destroem profissões e ocupações antigas,
introduzem a velocidade na produção de mercadorias e em sua distribuição e
consumo, modificando padrões industriais, comerciais e estilos de vida. A
ciência tornou-se parte integrante e indispensável da atividade econômica.
Tornou-se agente econômico e político.
Além de fazer parte
essencial da atividade econômica, a ciência também passou a fazer parte do
poder político. Não é por acaso, por exemplo, que governos criem ministérios e
secretarias de ciência e tecnologia e que destinem verbas para financiar
pesquisas civis e militares. Do mesmo modo que as grandes empresas financiam
pesquisas e até criam centros e laboratórios de investigação científica, assim
também os governos determinam quais as ciências que irão ser desenvolvidas e,
nelas, quais as pesquisas que serão financiadas.
Essa nova posição das
ciências na sociedade contemporânea, além de indicar que é mínimo ou quase
inexistente o grau de neutralidade e de liberdade dos cientistas, indica também
que o uso das ciências define os
recursos financeiros que nelas serão investidos.
A sociedade, porém,
não luta pelo direito de interferir nas decisões de empresas e governos quando
estes decidem financiar um tipo de pesquisa em vez de outra. Dessa maneira, o
campo científico torna-se cada vez mais distante da sociedade sem que esta
encontre meios para orientar o uso das ciências, pois este é definido antes do início das próprias pesquisas
e fora do controle que a sociedade
poderia exercer sobre ele.
Um exemplo de luta
social para intervir nas decisões sobre as pesquisas e seus usos encontra-se
nos movimentos ecológicos e em muitos movimentos sociais ligados a
reivindicações de direitos. De um modo geral, porém, a ideologia cientificista
tende a ser muito mais forte do que eles e a limitar os resultados que
desejariam obter.
CLIQUE AQUI PARA
FAZER O DOWNLOAD DO ARQUIVO “DOC” QUE
CONTÉM O TEXTO ACIMA.