Convite à
Filosofia
Convite à Filosofia
De Marilena
Chaui
Ed. Ática, São Paulo, 2000.
Unidade 8
O mundo da prática
Capítulo 1
A cultura
Natureza humana?
É muito comum ouvirmos e dizermos frases do tipo: “chorar é próprio da natureza humana” e “homem não chora”. Ou então: “é da natureza humana ter medo do desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também é comum a frase: “as mulheres são naturalmente frágeis e sensíveis, porque nasceram para a maternidade”, bem como esta outra: “fulana é uma desnaturada, pois não tem o menor amor aos filhos”.
Com freqüência ouvimos dizer: “os homens são fortes e racionais, feitos para o comando e a vida pública”, donde, como conseqüência, esta outra frase: “fulana nem parece mulher. Veja como se veste! Veja o emprego que arranjou!”. Não é raro escutarmos que os negros são indolentes por natureza, os pobres são naturalmente violentos, os judeus são naturalmente avarentos, os árabes são naturalmente comerciantes espertos, os franceses são naturalmente interessados em sexo e os ingleses são, por natureza, fleumáticos.
Frases como essas, e muitas outras, pressupõem, por um lado, que existe uma natureza humana, a mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, que existe uma diferença de natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou ingleses. Haveria, assim, uma natureza humana universal e uma natureza humana diferenciada por espécies, à maneira da diferença entre várias espécies de plantas ou de animais.
Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e as espécies humanas particulares, de modo que certos sentimentos, comportamentos, idéias e valores são os mesmos para todo o gênero humano (são naturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os mesmos apenas para cada espécie (ou raça, ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie determinada.
Dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer que essa coisa existe necessária e universalmente como efeito de uma causa necessária e universal. Essa causa é a Natureza. Significa dizer, portanto, que tal coisa não depende da ação e intenção dos seres humanos. Assim como é da natureza dos corpos serem governados pela lei natural da gravitação universal, como é da natureza da água ser composta por H2O, ou como é da natureza da abelha produzir mel e da roseira produzir rosas, também seria por natureza que os homens sentem, pensam e agem. A Natureza teria feito a natureza humana como gênero universal e a teria diversificado por espécies naturais (brancos, negros, índios, pobres, ricos, judeus, árabes, homens, mulheres, alemães, japoneses, chineses, etc.).
Que aconteceria com as frases que mencionamos acima se mostrássemos que algumas delas são contraditórias e que outras não correspondem aos fatos da realidade?
Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradição com a idéia de que “homem não chora”, pois, se isso fosse verdade, o homem teria que ser considerado algo que escapa das leis da Natureza, já que chorar é considerado natural. O mesmo acontece com a frase sobre o medo e a coragem: nelas é dito que o medo é natural, mas que uma certa pessoa é admirável porque não tem medo. Aqui, a contradição é ainda maior do que a anterior, uma vez que parecemos ter admiração por quem, misteriosamente, escapa da lei da Natureza, isto é, do medo.
Em certas sociedades, o sistema de alianças, que fundamenta as relações de parentesco sobre as quais a comunidade está organizada, exige que a criança seja levada, ao nascer, à irmã do pai, que deverá responsabilizar-se pela vida e educação da criança. Em outras, o sistema de parentesco exige que a criança seja entregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é estabelecida com a tia por aliança e não com a mãe biológica. Se assim é, como fica a afirmação de que as mulheres amam naturalmente os seus filhos e que é desnaturada a mulher que não demonstrar esse amor?
Em certas sociedades, considera-se que a mulher é impura para lidar com a terra e com os alimentos. Por esse motivo, o cultivo da terra, a alimentação e a casa ficam sob os cuidados dos homens, cabendo às mulheres a guerra e o comando da comunidade. Se assim é, como fica a frase que afirma que o homem foi feito pela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando e a guerra, enquanto a mulher foi feita pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalho doméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?
Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elite dominante do século XIX considerou mais lucrativo realizar a abolição da escravatura e substituir os escravos africanos pelos imigrantes europeus. Essa decisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos trabalhadores brancos imigrantes e que a maioria dos escravos libertados ficasse no desemprego, sem habitação, sem alimentação e sem qualquer direito social, econômico e político.
Em outras palavras, foram impedidos de trabalhar e foram mantidos sem direitos, tais como viviam quando estavam no cativeiro. Além disso, sabe-se que quando os colonizadores instituíram a escravidão e trouxeram os africanos para as terras da América, fizeram tal escolha por considerarem que os negros possuíam grande força física, grande capacidade de trabalho e muita inteligência para realizar tarefas com objetos técnicos como o engenho de açúcar. Se assim é, se a escravidão foi instituída por causa da grande capacidade e inteligência dos africanos para o trabalho da agricultura, se a abolição foi realizada por ser mais lucrativo o uso da mão-de-obra imigrante para um certo tipo de agricultura (o café) e para a indústria, como fica a afirmação de que a Natureza fez os africanos indolentes, preguiçosos e malandros?
Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nosso cotidiano e que naturalizam os seres humanos, naturalizam comportamentos, idéias, valores, formas de viver e de agir. Veríamos como, em cada caso, os fatos desmentem tal naturalização. Veríamos como os seres humanos variam em conseqüência das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem. Veríamos que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir e pensar e que a idéia de um gênero humano natural e de espécies humanas naturais não possui fundamento na realidade. Veríamos – graças às ciências humanas e à Filosofia – que a idéia de natureza humana como algo universal, intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta cientificamente, filosoficamente e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos são culturais ou históricos.
Culto, inculto: cultura
“Pedro é muito culto, conhece várias línguas, entende de arte e de literatura.”
“Imagine! É claro que o Luís não pode ocupar o cargo que pleiteia. Não tem cultura nenhuma. É semi-analfabeto!”
“Não creio que a cultura francesa ou alemã sejam superiores à brasileira. Você acha que há alguma coisa superior a nossa música popular?”
“Ouvi uma conferência que criticava a cultura de massa, mas me pareceu que a conferencista defendia a cultura de elite. Por isso, não concordei inteiramente com ela.”
“O livro de Silva sobre a cultura dos guaranis é bem interessante. Aprendi que o modo como entendem a religião e a guerra é muito diferente do nosso.”
Essas frases e muitas outras que fazem parte do nosso dia-a-dia indicam que empregamos a palavra cultura (ou seus derivados, como culto, inculto) em sentidos muito diferentes e, por vezes, contraditórios.
Na primeira e na segunda frase que mencionamos acima, cultura é identificada com a posse de certos conhecimentos (línguas, arte, literatura, ser alfabetizado). Nelas, fala-se em ter e não ter cultura, ser ou não ser culto. A posse de cultura é vista como algo positivo, enquanto “ser inculto” é considerado algo negativo. A segunda frase deixa entrever que “ter cultura” habilita alguém a ocupar algum posto ou cargo, pois “não ter cultura” significa não estar preparado para uma certa posição ou função. Nessas duas primeiras frases, a palavra cultura sugere também prestígio e respeito, como se “ter cultura” ou “ser culto” fosse o mesmo que “ser importante”, “ser superior”.
Ora, quando passamos à terceira frase, a cultura já não parece ser uma propriedade de um indivíduo, mas uma qualidade de uma coletividade – franceses, alemães, brasileiros. Também é interessante observar que a coletividade aparece como um adjetivo qualificativo para distinguir tipos de Cultura: a francesa, a alemã, a brasileira. Nessa frase, a Cultura surge como algo que existe em si e por si mesma e que pode ser comparada (Cultura superior, Cultura inferior).
Além disso, a Cultura aparece representada por uma atividade artística, a música popular. Isso permite estabelecer duas relações diferentes com as primeiras frases: 1. De fato, a terceira frase, como a primeira, identifica Cultura e artes (entender de arte e literatura, na primeira frase; a música popular brasileira, na terceira); 2. No entanto, algo curioso acontece quando passamos das duas primeiras frases à terceira. Com efeito, nas duas primeiras, “culto” e “inculto” surgiam como diferenças sociais. Num país como o nosso, dizer que alguém é inculto porque é semi-analfabeto deixa transparecer que Cultura é algo que pertence a certas camadas ou classes sociais socialmente privilegiadas, enquanto a incultura está do lado dos não-privilegiados socialmente, portanto, do lado do povo e do popular. Entretanto, a terceira frase afirma que a cultura brasileira não é inferior à francesa ou à alemã por causa de nossa música popular. Não estaríamos diante de uma contradição? Como poderia haver cultura popular (a música), se o popular é inculto?
Já a quarta frase (a que se refere à conferência sobre cultura de massa) introduz um novo significado para a palavra cultura. Nela não se trata mais de pessoas cultas ou incultas, nem de uma coletividade que possui uma atividade cultural que possa ser comparada à de outras. Agora, estamos diante da idéia de que numa mesma coletividade ou numa mesma sociedade pode haver dois tipos de Cultura: a de massa e a de elite. A frase não nos diz o que é a Cultura. (Seria posse de conhecimentos? Ou seria atividade artística?) Entretanto, a frase nos informa sobre uma oposição entre formas de cultura, dependendo de sua origem e de sua destinação, pois “cultura de massa” tanto pode significar “originada na massa” quanto “destinada à massa”, e o mesmo pode ser dito da “cultura de elite” (originada na elite ou destinada à elite).
Finalmente, a última frase que mencionamos como exemplo apresenta um sentido totalmente diverso dos anteriores no que toca à palavra cultura. Fala-se, agora, na cultura dos guaranis e esta aparece em duas manifestações: a guerra e a religião (que, portanto, nada tem a ver com a posse de conhecimentos, atividade artística, massa ou elite). Nessa última frase, a cultura aparece como algo dos guaranis – e como alguma coisa que não se limita ao campo dos conhecimentos e das artes, pois se refere à relação dos guaranis com o sagrado (a religião) e com o conflito e a morte (a guerra).
Vemos, assim, que passar da naturalização dos seres humanos à Cultura não resolve nossas dificuldades de compreensão dos humanos, uma vez que, agora, precisamos perguntar: Como é possível a palavra cultura possuir tantos sentidos, alguns deles contraditórios com outros?
Natureza e Cultura
No pensamento ocidental, Natureza possui vários sentidos:
● princípio de
vida ou princípio ativo que anima e movimenta os seres. Nesse sentido, fala-se
em “deixar agir a Natureza” ou “seguir a Natureza” para significar que se trata
de uma força espontânea, capaz de gerar e de cuidar de todos os seres por ela
criados e movidos. A Natureza é a substância
(matéria e forma) dos seres;
● essência
própria de um ser ou aquilo que um ser é necessária e universalmente. Neste
sentido, a natureza de alguma coisa é o conjunto de qualidades, propriedades e
atributos que a definem, é seu caráter ou sua índole inata, espontânea. Aqui,
Natureza se opõe às idéias de acidental (o que pode ser ou deixar de ser) e de
adquirido por costume ou pela relação com as circunstâncias;
● organização
universal e necessária dos seres segundo uma ordem regida por leis naturais.
Neste sentido, a Natureza se caracteriza pelo ordenamento dos seres, pela
regularidade dos fenômenos ou dos fatos, pela freqüência, constância e
repetição de encadeamentos fixos entre as coisas, isto é, de relações de
causalidade entre elas. Em outros termos, a Natureza é a ordem e a conexão
universal e necessária entre as coisas, expressas em leis naturais;
● tudo o que
existe no Universo sem a intervenção da vontade e da ação humanas. Neste
sentido, Natureza opõe-se a artificial, artefato, artifício, técnico e
tecnológico. Natural é tudo quanto se produz e se desenvolve sem qualquer
interferência humana;
● conjunto de
tudo quanto existe e é percebido pelos humanos como o meio e o ambiente no qual
vivem. A Natureza, aqui, tanto significa o conjunto das condições físicas onde
vivemos, quanto aquelas coisas que contemplamos com emoção (a paisagem, o mar,
o céu, as estrelas, terremotos, eclipses, tufões, erupções vulcânicas, etc.). A
Natureza é o mundo visível como meio ambiente e como aquilo que existe fora de
nós, mesmo que provoque idéias e sentimentos em nós;
● para as
ciências contemporâneas, a Natureza não é apenas a realidade externa, dada e
observada, percebida diretamente por nós, mas é um objeto de conhecimento
construído pelas operações científicas, um campo
objetivo produzido pela atividade do conhecimento, com o auxílio de
instrumentos tecnológicos. Neste sentido, a Natureza, paradoxalmente, torna-se
algo que passa a depender da interferência ou da intervenção humana, pois o
objeto natural é construído
cientificamente.
Esse último sentido
da idéia de Natureza indica uma diferença entre a concepção comum e a
científica, pois a primeira considera a Natureza nos cinco primeiros
significados que apontamos, enquanto a segunda considera a Natureza como uma
noção ou um conceito produzido pelos próprios homens e, nesse caso, como
artifício, artefato, construção humana. Em outras palavras, a própria idéia de
Natureza tornou-se um objeto cultural.
Mas, afinal, o que é
a Cultura?
Dois são os
significados iniciais da noção de Cultura:
1. vinda do verbo
latino colere, que significa
cultivar, criar, tomar conta e cuidar, Cultura significava o cuidado do homem
com a Natureza. Donde: agricultura. Significava, também, cuidado dos homens com
os deuses. Donde: culto. Significava ainda, o cuidado com a alma e o corpo das
crianças, com sua educação e formação. Donde: puericultura (em latim, puer significa menino; puera, menina). A Cultura era o cultivo
ou a educação do espírito das crianças para tornarem-se membros excelentes ou
virtuosos da sociedade pelo aperfeiçoamento e refinamento das qualidades
naturais (caráter, índole, temperamento);
2. a partir do século
XVIII, Cultura passa a significar os
resultados daquela formação ou educação dos seres humanos, resultados
expressos em obras, feitos, ações e instituições: as artes, as ciências, a
Filosofia, os ofícios, a religião e o Estado. Torna-se sinônimo de civilização, pois os pensadores
julgavam que os resultados da formação-educação aparecem com maior clareza e
nitidez na vida social e política ou na vida civil (a palavra civil vem do latim: cives, cidadão; civitas,
a cidade-Estado).
No primeiro sentido,
a Cultura é o aprimoramento da natureza humana pela educação em sentido amplo,
isto é, como formação das crianças não só pela alfabetização, mas também pela
iniciação à vida da coletividade por meio do aprendizado da música, dança,
ginástica, gramática, poesia, retórica, história, Filosofia, etc. A pessoa
culta era a pessoa moralmente virtuosa, politicamente consciente e
participante, intelectualmente desenvolvida pelo conhecimento das ciências, das
artes e da Filosofia. É este sentido que leva muitos, ainda hoje, a falar em
“cultos” e “incultos”.
Podemos observar que
neste primeiro sentido Cultura e Natureza não se opõem. Os humanos são
considerados seres naturais, embora diferentes dos animais e das plantas. Sua
natureza, porém, não pode ser deixada por conta própria, porque tenderá a ser
agressiva, destrutiva, ignorante, precisando por isso ser educada, formada,
cultivada de acordo com os ideais de sua sociedade. A Cultura é uma segunda natureza, que a educação e os
costumes acrescentam à primeira natureza,
isto é, uma natureza adquirida, que
melhora, aperfeiçoa e desenvolve a natureza inata de cada um.
No segundo sentido,
isto é, naquele formulado a partir do século XVIII, tem início a separação e,
posteriormente, a oposição entre Natureza e Cultura. Os pensadores consideram,
sobretudo a partir de Kant, que há entre o homem e a Natureza uma diferença
essencial: esta opera mecanicamente de acordo com leis necessárias de causa e
efeito, mas aquele é dotado de liberdade e razão, agindo por escolha, de acordo
com valores e fins. A Natureza é o reino da necessidade causal, do determinismo
cego. A humanidade ou Cultura é o reino da finalidade livre, das escolhas
racionais, dos valores, da distinção entre bem e mal, verdadeiro e falso, justo
e injusto, sagrado e profano, belo e feio.
À medida que este
segundo sentido foi prevalecendo, Cultura passou a significar, em primeiro
lugar, as obras humanas que se exprimem numa civilização, mas, em segundo
lugar, passou a significar a relação que os humanos, socialmente organizados,
estabelecem com o tempo e com o espaço, com os outros humanos e com a Natureza,
relações que se transformam e variam. Agora, Cultura torna-se sinônimo de História. A Natureza é o reino da repetição; a Cultura, o da transformação racional; portanto, é a
relação dos humanos com o tempo e no tempo.
Cultura e História
Foi Hegel e, depois
dele, Marx que enfatizaram a Cultura como História. Para o primeiro, o tempo é
o modo como o Espírito Absoluto ou a razão se manifesta e se desenvolve através
das obras e instituições – religião, artes, ciências, Filosofia, instituições
sociais, instituições políticas. A cada período de sua temporalidade, o
Espírito ou razão engendra uma Cultura determinada, que exprime o estágio de
desenvolvimento espiritual ou racional da humanidade – China, Índia, Egito,
Israel, Grécia, Roma, Inglaterra, França, Alemanha seriam fases da vida do
Espírito ou da razão, cada qual exprimindo-se com uma Cultura própria e
ultrapassada pelas seguintes, num progresso contínuo.
Para Marx, há em
Hegel um engano básico, qual seja, confundir a História-Cultura com a
manifestação do Espírito. A História-Cultura é o modo como, em condições
determinadas e não escolhidas, os homens produzem materialmente (pelo trabalho,
pela organização econômica) sua existência e dão sentido a essa produção
material. A História-Cultura não narra o movimento temporal do Espírito, mas as
lutas reais dos seres humanos reais que produzem e reproduzem suas condições
materiais de existência, isto é, produzem e reproduzem as relações sociais, pelas quais distinguem-se da Natureza e
diferenciam-se uns dos outros em classes sociais antagônicas.
O movimento da
História-Cultura é realizado pela luta das classes sociais para vencer formas
de exploração econômica, opressão social, dominação política. Despotismo
asiático, modo de produção antigo (Grécia, Roma), modo de produção feudal
(Idade Média), capitalismo comercial ou mercantil, capitalismo industrial são
as maneiras pelas quais surgem e se organizam as formações sociais,
internamente divididas por lutas, cujo fim dependerá da capacidade de
organização política e de consciência da última classe social explorada (o
proletariado, produzido pelo capitalismo industrial) para eliminar a desigualdade
e injustiça históricas.
Cultura e
antropologia
Diferentemente de
Hegel e Marx, que tomam a Cultura pela perspectiva histórica ou pela relação
dos humanos com o tempo, a antropologia considera a Cultura por um outro
prisma.
O antropólogo procura,
antes de tudo, determinar em que momento e de que maneira os humanos se afirmam
como diferentes da Natureza fazendo o mundo cultural surgir. Tradicionalmente,
dizia-se que os humanos diferem da Natureza graças à linguagem e à ação por
liberdade. O antropólogo, sem negar essa afirmação, procura algo mais profundo
do que isso como início das culturas. Assim, para muitos antropólogos, a
diferença homem-Natureza surge quando os humanos decretam uma lei que não
poderá ser transgredida sem levar o culpado à morte, exigida pela comunidade: a
lei da proibição do incesto, desconhecida pelos animais. Para muitos
antropólogos, a diferença homem-Natureza também é estabelecida quando os
humanos definem uma lei que, se transgredida, causa a ruína da comunidade e do
indivíduo: a lei que separa o cru e o cozido, desconhecida dos animais.
Não vamos aqui entrar
nos detalhes das discussões antropológicas. O importante, para nós, é perceber
que os antropólogos buscam algo que demarque o momento da separação
homem-Natureza como instante de surgimento da Cultura. Esse algo é uma regra ou
norma humana que opera como lei
universal, isto é, válida para todos os homens e para toda a comunidade.
A lei humana é um
imperativo social que organiza toda a vida dos indivíduos e da comunidade,
determinando o modo como são criados os costumes, como são transmitidos de
geração em geração, como fundam as instituições sociais (religião, família,
formas do trabalho, guerra e paz, distribuição das tarefas, formas do poder,
etc.). A lei não é uma simples proibição para certas coisas e obrigação para
outras, mas é a afirmação de que os humanos são capazes de criar uma ordem de
existência que não é simplesmente natural (física, biológica). Esta ordem é a ordem simbólica.
Vimos que um símbolo
é alguma coisa que se apresenta no lugar de outra e presentifica algo que está
ausente. Quando dizemos que a Cultura é a invenção de uma ordem simbólica,
estamos dizendo que nela e por ela os humanos atribuem à realidade
significações novas por meio das quais são capazes de se relacionar com o
ausente: pela palavra, pelo trabalho, pela memória, pela diferenciação do tempo
(passado, presente, futuro), pela diferenciação do espaço (próximo, distante,
grande, pequeno, alto, baixo), pela diferenciação entre o visível e o invisível
(os deuses, o passado, o distante no espaço) e pela atribuição de valores às
coisas e aos homens (bom, mau, justo, injusto, verdadeiro, falso, belo, feio,
possível, impossível, necessário, contingente).
Comunicação (por
palavras, gestos, sinais, escrita, monumentos), trabalho (transformação da
Natureza), relação com o tempo e o espaço enquanto valores, diferenciação entre
sagrado e profano, determinação de regras e normas para a realização do desejo,
percepção da morte e doação de sentido a ela, percepção da diferença sexual e
doação de sentido a ela, interdições e punição das transgressões, determinação
da origem e da forma do poder legítimo e ilegítimo, criação de formas
expressivas para a relação com o outro, com o sagrado e com o tempo (dança,
música, rituais, guerra, paz, pintura, escultura, construção da habitação,
culinária, tecelagem, vestuário, etc.) são as principais manifestações do
surgimento da Cultura.
Em termos
antropológicos, podemos, então, definir a Cultura como tendo três sentidos
principais:
1. criação da ordem
simbólica da lei, isto é, de
sistemas de interdições e obrigações, estabelecidos a partir da atribuição de
valores a coisas (boas, más, perigosas, sagradas, diabólicas), a humanos e suas
relações (diferença sexual e proibição do incesto, virgindade, fertilidade,
puro-impuro, virilidade; diferença etária e forma de tratamento dos mais velhos
e mais jovens; diferença de autoridade e formas de relação com o poder, etc.) e
aos acontecimentos (significado da guerra, da peste, da fome, do nascimento e
da morte, obrigação de enterrar os mortos, proibição de ver o parto, etc.);
2. criação de uma
ordem simbólica da linguagem, do trabalho, do espaço, do tempo, do sagrado e do
profano, do visível e do invisível. Os símbolos surgem tanto para representar
quanto para interpretar a realidade, dando-lhe sentido pela presença do humano
no mundo;
3. conjunto de
práticas, comportamentos, ações e instituições pelas quais os humanos se
relacionam entre si e com a Natureza e dela se distinguem, agindo sobre ela ou
através dela, modificando-a. Este conjunto funda a organização social, sua
transformação e sua transmissão de geração a geração.
Em sentido
antropológico, não falamos em Cultura, no singular, mas em culturas, no plural, pois a lei, os valores, as crenças, as
práticas e instituições variam de formação social para formação social. Além
disso, uma mesma sociedade, por ser temporal e histórica, passa por
transformações culturais amplas e, sob esse aspecto, antropologia e História se
completam, ainda que os ritmos temporais das várias sociedades não sejam os
mesmos, algumas mudando mais lentamente e outras mais rapidamente.
A esse sentido
histórico-antropológico amplo, podemos acrescentar um outro, restrito, ligado
ao antigo sentido de cultivo do espírito: a Cultura como criação de obras da
sensibilidade e da imaginação – as obras de arte – e como criação de obras da
inteligência e da reflexão – as obras de pensamento. É esse segundo sentido que
leva o senso comum a identificar Cultura e escola (educação formal), de um
lado, e, de outro lado, a identificar Cultura e belas-artes (música, pintura,
escultura, dança, literatura, teatro, cinema, etc.).
Se, porém, reunirmos
o sentido amplo e o sentido restrito, compreenderemos que a Cultura é a maneira
pela qual os humanos se humanizam por meio de práticas que criam a existência
social, econômica, política, religiosa, intelectual e artística.
A religião, a
culinária, o vestuário, o mobiliário, as formas de habitação, os hábitos à
mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-se com os mais velhos e os mais
jovens, com os animais e com a terra, os utensílios, as técnicas, as
instituições sociais (como a família) e políticas (como o Estado), os costumes
diante da morte, a guerra, o trabalho, as ciências, a Filosofia, as artes, os
jogos, as festas, os tribunais, as relações amorosas, as diferenças sexuais e
étnicas, tudo isso constitui a Cultura como invenção da relação com o Outro.
Quem é o Outro? Antes
de tudo, é a Natureza. A naturalidade é o Outro da humanidade. A seguir, os
deuses, maiores do que os humanos, superiores e poderosos. Depois, os outros
humanos, os diferentes de nós mesmos: os estrangeiros, os antepassados e os
descendentes, os inimigos e os amigos, os homens para as mulheres, as mulheres
para os homens, os mais velhos para os jovens, os mais jovens para os velhos,
etc. Em sociedades como a nossa, divididas em classes sociais, o Outro é também
a outra classe social, diferente da nossa, de modo que a divisão social coloca
o Outro no interior da mesma sociedade e define relações de conflito,
exploração, opressão, luta. Entre os inúmeros resultados da existência da
alteridade (o ser um Outro) no interior da mesma sociedade, encontramos a
divisão entre cultura de elite e cultura popular, cultura erudita e cultura de
massa.
Estamos, agora, em
condições de perceber por que as frases de nosso cotidiano sobre “cultos” e
“incultos” indicam preconceitos e não conceitos. Que preconceitos?
● Aquele que
ignora que, em sentido antropológico e histórico, todos os humanos são cultos, pois são todos seres culturais;
● Aquele que
reduz a Cultura à escola e às belas-artes, sem se dar conta de que aquela e
estas são efeito da vida cultural e um dos aspectos da Cultura, mas não toda a
Cultura;
● Aquele que,
partindo da Cultura como cultivo do espírito (obras de pensamento e obras de
arte), ignora que a separação entre “cultos” e “incultos”, em sociedades
divididas em classes sociais, é resultado de uma organização social que confere
a alguns o direito de produção e acesso às obras, negando-o a outros, de tal
maneira que, em lugar de um direito, tem-se, de um lado, privilégio e, de
outro, exclusão. Em outras palavras, usa-se a Cultura como instrumento de
discriminação social, econômica e política.
Novamente a História
Os estudiosos,
partindo da filosofia da história e da antropologia, distinguem dois grandes
tipos de cultura: a das comunidades e a das sociedades.
Uma comunidade é um
grupo ou uma coletividade onde as pessoas se conhecem, tratam-se pelo primeiro
nome, possuem contatos cotidianos cara a cara, compartilham os mesmos
sentimentos e idéias e possuem um destino comum.
Uma sociedade é uma
coletividade internamente dividida em grupos e classes sociais e na qual há
indivíduos isolados uns dos outros. Seus membros não se conhecem pessoalmente
nem intimamente. Cada classe social é antagônica à outra ou às outras, com
valores e sentimentos diferentes e mesmo opostos. As relações não são pessoais,
mas sociais, isto é, os indivíduos, grupos e classes se relacionam pela
mediação de instituições como a família, a escola, a fábrica, o comércio, os
partidos políticos e o Estado.
Os agrupamentos
indígenas, por exemplo, são comunidades, portanto, internamente unos e
indivisos. Em contrapartida, nós vivemos em sociedade e não em comunidade.
O tempo, nas
comunidades, possui um ritmo lento, as transformações são raras e, em geral,
causadas por um acontecimento externo que as afeta (por exemplo, a conquista e
colonização branca imposta aos índios). Por isso, se diz que a comunidade está na História ou no tempo, mas não é histórica.
Ao contrário, a
sociedade é histórica, ou seja, para
ela as transformações são constantes e velozes, causadas pelas lutas e pelas
divisões internas. Diz-se, então, que uma sociedade é histórica quando, para
ela, ter uma história e estar no tempo são um problema, uma indagação que ela
não cessa de responder. Por quê?
Uma comunidade
baseia-se em mitos fundadores ou narrativas sobre sua origem e sobre o que nela
aconteceu, acontece e acontecerá. Os mitos capturam o tempo e oferecem
explicações satisfatórias para todos sobre o presente, o passado e o futuro.
Numa sociedade,
porém, cada classe social procura explicar a origem da sociedade e de suas
mudanças e, conseqüentemente, há diferentes explicações para o surgimento, a
forma e a transformação sociais. Os grupos dominantes narram a história da
sociedade de modo diferente e oposto à narrativa dos grupos dominados.
A classe que domina e
a que é dominada possuem, portanto, concepções diferentes e contrárias sobre as
causas dos acontecimentos, não havendo uma explicação única e idêntica para
todos sobre a origem da sociedade e suas transformações. Eis, por que, para uma
sociedade, ser histórica é um problema e não uma solução. Em outras palavras,
enquanto o mito unifica o tempo comunitário, as histórias sociais multiplicam
as interpretações sobre as causas e os efeitos temporais.
Finalmente, uma
comunidade cria a mesma Cultura para
todos os seus membros, mas numa sociedade isso não é possível, e as diferentes
classes sociais produzem culturas diferentes e mesmo antagônicas. Por esse
motivo é que as sociedades conhecem um fenômeno inexistente nas comunidades: a ideologia. Esta é resultado da
imposição da cultura dos dominantes à sociedade inteira, como se todas as
classes e todos os grupos sociais pudessem e devessem ter a mesma Cultura,
embora vivendo em condições sociais diferentes.
A ideologia é uma das
maneiras pelas quais as sociedades históricas buscam oferecer a imagem de uma
única Cultura e de uma única história, ocultando a divisão social interna.
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