O mundo
de Sofia (Excertos)
O mundo de Sofia
De Jostein
Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.
Capítulo 6 (Excerto)
O destino
O DESTINO
(Páginas 65-66.)
Bom dia mais uma vez, minha cara Sofia! Por precaução, quero dizer expressamente que você nunca deve tentar me seguir. Nós nos encontraremos algum dia, mas sou eu quem vai estabelecer quando e onde isto deve acontecer.
É isto. Você não vai querer ser desobediente, vai?
Bem, vamos retomar o tema de nossos filósofos. Vimos como eles tentaram encontrar explicações naturais para as transformações da natureza e que, antes deles, tais transformações eram explicadas pelos mitos.
Mas também em outras áreas era preciso tirar do caminho antigas superstições. E podemos constatar isto tanto no que diz respeito à saúde e doença quanto no que se refere à política. Nestes dois domínios, os gregos tinham sido absolutamente fatalistas até então.
“Ser fatalista” significa acreditar que tudo o que vai acontecer já está determinado previamente. Esta noção pode ser encontrada no mundo todo, tanto hoje quanto em qualquer outro momento da história. Aqui no Norte da Europa, as sagas de famílias islandesas, por exemplo, nos revelam uma forte crença na Providência.
Entre os gregos, bem como em outros povos, também encontramos a noção de que os homens são capazes de “ver” o seu destino através de diferentes oráculos. Isto significa que o destino de um homem ou de um Estado pode ser previsto de diferentes formas e interpretado a partir de certos “presságios”.
Até hoje, muita gente acha possível ler a sorte nas cartas do baralho, nas mãos das pessoas ou nas estrelas do céu.
Também é muito comum a “leitura da sorte” no café que sobra no fundo da xícara, depois que alguém o bebeu. Talvez este resto de café forme no fundo determinada imagem, um desenho (e é claro que, para enxergá-lo, precisamos contar com a ajuda da nossa imaginação). Se este desenho se parece com um carro, isto talvez signifique que a pessoa que bebeu o café logo vai fazer uma longa viagem de carro.
Vemos que o “adivinho” tenta adivinhar algo que de fato não pode ser adivinhado. Isto é típico da arte de prever o futuro. E justamente porque é tão vago aquilo que essas pessoas “pré-vêem”, em geral é muito difícil rebater o que o adivinho nos diz.
Quando olhamos o céu estrelado, o que vemos é um verdadeiro caos de pontinhos luminosos. Não obstante, ao longo da história muitas pessoas acreditaram que as estrelas podiam nos dizer alguma coisa sobre a nossa vida na Terra. Até hoje existem muitos políticos que pedem conselhos a astrólogos antes de tomar decisões importantes.
O ORÁCULO DE DELFOS
(Páginas 66-67.)
Os gregos acreditavam que o famoso oráculo de Delfos era capaz de lhes dizer coisas sobre seu destino. Em Delfos, o deus do oráculo era Apolo. Ele falava através de sua sacerdotisa, Pítia, que ficava sentada num banquinho colocado sobre uma fenda na terra.
Dessa fenda subiam vapores inebriantes, que colocavam Pítia numa espécie de transe. E isto era necessário para que ela se tornasse o meio pelo qual Apolo falava.
Quem vinha a Delfos fazia suas perguntas, primeiramente, para os sacerdotes locais, que depois iam consultar Pítia. A sacerdotisa do oráculo lhes dava uma resposta, que era tão incompreensível ou tão ambígua que os sacerdotes tinham que “interpretá-la” para os consulentes.
Dessa forma, os gregos podiam se valer da sabedoria de Apolo, que, para eles, era o deus que sabia de tudo, tanto do passado quanto do futuro.
Muitos chefes de Estado não ousavam entrar numa guerra ou tomar decisões importantes sem antes consultar o oráculo de Delfos. Dessa forma, os sacerdotes de Apolo eram quase como diplomatas ou conselheiros, que possuíam um profundo conhecimento do povo e do país.
No templo de Delfos havia uma famosa inscrição: CONHECE-TE A TI MESMO! E ela ficava ali para lembrar aos homens que eles não passavam de meros mortais e que nenhum homem pode fugir de seu destino.
Entre os gregos contavam-se muitas histórias de pessoas que tinham sido apanhadas por seus destinos. Ao longo do tempo, uma série de peças – as tragédias – foi escrita sobre essas “trágicas” personalidades. O exemplo mais conhecido é a história do rei Édipo, que, na tentativa de fugir de seu destino, acaba correndo ao seu encontro.
A CIÊNCIA DA HISTÓRIA E A MEDICINA
(Páginas 67-69.)
Para os antigos gregos, não apenas a vida dos indivíduos era determinada pelo destino. Eles achavam que todo o desenrolar da história do mundo também era determinado pelo destino. Assim, os gregos acreditavam, por exemplo, que o desfecho de uma guerra deveria ser atribuído a uma intervenção divina. Ainda hoje, muitas pessoas acreditam que os acontecimentos históricos são governados por Deus ou por outras forças místicas.
Mas enquanto os filósofos gregos tentavam encontrar explicações naturais para os processos da natureza, formava-se pouco a pouco uma ciência da história, cujo objetivo também era encontrar causas naturais para o curso da história universal. O fato de um Estado perder uma guerra não mais era atribuído ao desejo de vingança dos deuses. Os historiadores gregos mais conhecidos foram Heródoto (484-424 a.C.) e Tucídides (460-400 a.C.).
Os gregos dos primeiros tempos também responsabilizavam os deuses pelas doenças. Assim, as doenças contagiosas freqüentemente eram vistas como um castigo dos deuses. De outro lado, os deuses também podiam curar as pessoas, bastando para isto que lhes fosse feito o sacrifício apropriado.
Esta idéia não é típica apenas dos gregos. Em tempos mais recentes, antes que a moderna ciência da medicina se desenvolvesse, era muito comum ouvir que as enfermidades tinham uma causa sobrenatural. A palavra influenza, que empregamos até hoje, significa originariamente que alguém estava sob a “influência” maligna dos astros.
Ainda hoje, muitas pessoas no mundo todo consideram doenças como a AIDS, por exemplo, um castigo de Deus. Além disso, muitos acreditam que uma pessoa enferma possa ser curada por meios “sobrenaturais”.
Enquanto os filósofos gregos enveredavam por um caminho de reflexão absolutamente novo, surgiu também uma ciência médica grega, cujo objetivo era buscar explicações naturais para a saúde e a doença. Supõe-se que essa ciência médica grega foi fundada por Hipócrates, que nasceu na ilha de Cós por volta do ano de 460 a.C.
De acordo com a tradição médica de Hipócrates, os meios mais eficazes para prevenir as doenças eram a moderação e um modo de vida saudável. Por conseguinte, a saúde seria o estado natural do homem. Quando a doença aparece, isso significa que a natureza “saiu dos trilhos” devido a um desequilíbrio corporal ou anímico. O caminho para a saúde do homem está na moderação, na harmonia e “na mente sã em corpo são”.
Hoje em dia ainda se fala muito na “ética médica”. Isto significa que um médico deve exercer sua profissão segundo certas diretrizes éticas. Por exemplo, um médico não deve receitar a pessoas sadias medicamentos que causem dependência. Além disso, o médico deve manter o sigilo profissional, não transmitindo a outras pessoas as informações que um paciente lhe deu sobre seu estado. Todas essas idéias remontam a Hipócrates. Ele fazia seus alunos prestarem um juramento, conhecido até hoje como o juramento de Hipócrates dos médicos:
Por Apolo, o médico, e
por Asclépio, por Higia e Panacea e por todos os deuses e deusas, a quem
conclamo como minhas testemunhas, juro cumprir o meu dever e manter este
juramento com todas as minhas forças e com todo o meu discernimento: tributarei
a meu Mestre de Medicina igual respeito que a meus progenitores, repartindo com
ele meus meios de vida e socorrendo-o em caso de necessidade; tratarei seus
filhos como se fossem meus irmãos e, se for sua vontade aprender esta ciência,
eu lhes ensinarei desinteressadamente e sem exigir recompensa de qualquer
espécie. Instruirei com preceitos, lições orais e demais métodos de ensino os
meus próprios filhos e os filhos de meu Mestre e, além deles, somente os
discípulos que me seguirem sob empenho de suas palavras e sob juramento, como determina
a praxe médica. Aviarei minhas receitas de modo que sejam do melhor proveito
para os enfermos, livrando-os de todo mal e da injustiça, para o que dedicarei
todas as minhas faculdades e conhecimentos. Não administrarei a pessoa alguma,
ainda que isto me seja pedido, qualquer tipo de veneno nem darei qualquer
conselho nesse sentido. Da mesma forma, não administrarei a mulheres grávidas
qualquer meio abortivo. Guardarei sigilo e considerarei segredo tudo o que vir
e ouvir sobre a vida das pessoas durante o tratamento ou fora dele.
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