O mundo de Sofia (Excertos)

 

 

 

O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 17 (Excerto)
O Barroco

(Páginas 243-251.)

(…)

Sofia olhou para Alberto. Só então percebeu que ele estava usando outra fantasia.

A primeira coisa que chamou sua atenção foi uma peruca longa, toda cacheada. Depois viu que ele usava uma roupa larga, de corte abaulado, e toda rendada. Em volta do pescoço havia um lenço de seda bem espalhafatoso e de trás do pescoço saía ainda uma capa vermelha. Nas pernas Alberto usava meias brancas e, nos pés, finos sapatos de verniz com laços. Todo aquele traje lembrava a Sofia os quadros que retratavam a corte de Luís XIV.

(…)

— Vamos nos sentar na sala, minha querida aluna. Que horas são?

— Quatro.

— Hoje vamos falar sobre o século XVII.

Os dois foram, então, até a sala que tinha o teto inclinado e a clarabóia. Sofia percebeu que Alberto trocara a posição de alguns objetos desde a última vez que ela estivera ali.

Sobre a mesa havia uma caixa antiga com uma verdadeira coleção de diferentes lentes de óculos. Ao lado da caixa havia um livro aberto. Um livro muito antigo.

— O que é isto? — perguntou ela.

— Esta é a primeira edição do Discurso do método, de René Descartes. O livro é de 1637 e é uma das minhas peças preferidas.

— E esta caixinha…

— …ela contém uma coleção exclusiva de lentes, ou vidros ópticos. Eles foram polidos em meados do século XVII pelo filósofo holandês Spinoza. Essas lentes me custaram uma pequena fortuna, mas também estão entre os meus objetos preferidos.

— Eu poderia entender melhor o valor do livro e da caixa de lentes se soubesse alguma coisa sobre Descartes e Spinoza.

— É claro. Primeiro, porém, vamos tentar entender um pouco melhor o tempo em que eles viveram. Sente-se.

— Os dois se sentaram como da última vez: Sofia numa poltrona muito confortável e Alberto Knox no sofá. Entre eles havia a mesinha, sobre a qual estavam o livro e a caixa com as lentes. Quando se sentaram, Alberto tirou a peruca e a colocou sobre a escrivaninha.

— Vamos falar sobre o século XVII, ou seja, sobre a época que costumamos chamar de período barroco.

— “Barroco” não é um nome esquisito?

— A designação “barroco” tem sua origem numa palavra que na verdade significa “pérola irregular”. Típicas para a arte do Barroco foram as formas opulentas, cheias de contrastes, bem ao contrário das formas mais despojadas e mais harmônicas da arte do Renascimento. O século XVII foi particularmente marcado pela tensão entre opostos irreconciliáveis. De um lado, continuava a existir a visão de mundo do Renascimento, otimista e de exaltação da vida; de outro, o extremo oposto desta visão também encontrava muitos adeptos, que preferiam abraçar uma vida de reclusão religiosa e negação do mundo. Tanto na arte quanto na própria vida, encontramos uma verdadeira opulência de formas expressivas. Ao mesmo tempo, observamos nos mosteiros o surgimento de movimentos cujo objetivo era o isolamento do mundo.

— Castelos imponentes e mosteiros escondidos, portanto.

— Sem dúvida você pode expressar a coisa dessa forma. Uma palavra de ordem do Barroco era o dito latino Carpe diem, que significa “Aproveita o dia de hoje!”. Outro dito latino bastante em voga foi Memento mori, que significa “Lembra-te, homem, que morrerás um dia!”. Na pintura, um mesmo quadro podia mostrar a opulência da vida levada à larga, enquanto num dos cantos inferiores aparecia retratada uma caveira. Em muitos aspectos, o Barroco foi marcado pela vaidade e pela irracionalidade. Mas também havia muitos que se preocupavam com o reverso da medalha, isto é, com a transitoriedade de todas as coisas, com o fato de que tudo o que hoje é belo ao nosso redor vai morrer e apodrecer um dia.

— E é verdade. Acho triste o pensamento de que nada dura para sempre.

— Então você pensa exatamente como o homem do século XVII. Também do ponto de vista político, o Barroco foi uma época de contrastes. De um lado, a Europa foi devastada por guerras. A pior delas foi a Guerra dos Trinta Anos, que devastou quase toda a Europa entre 1618 e 1648. Na verdade, esta guerra se constituiu de muitas guerras menores, sendo que a Alemanha foi o país que mais sofreu suas conseqüências danosas. Também em decorrência da Guerra dos Trinta Anos, a França foi se tornando pouco a pouco a potência dominante na Europa.

— E qual foi o motivo dessa guerra?

— Tratava-se basicamente de uma luta entre protestantes e católicos. Mas também havia a briga pelo poder político.

— Mais ou menos como no Líbano.

— Além disso, o século XVII foi marcado por enormes diferenças de classes. Você certamente já ouviu falar da aristocracia francesa e da corte de Versalhes. Não estou bem certo, porém, se você também já ouviu falar da miséria do povo daquela época. Sim, porque toda exibição de ostentação é também uma exibição de poder. Costuma-se dizer que a situação política do Barroco pode ser comparada com a arte e a arquitetura daquela época. As obras arquitetônicas do Barroco eram sobrecarregadas de ornamentos que ocultavam as linhas da estrutura. Um correlato disso na política seriam os assassinatos, as intrigas e as conspirações.

— Não teve um rei sueco que foi assassinado num teatro naquela época?

— Você está pensando em Gustavo III, e este é um bom exemplo para o que eu estou falando. O assassinato de Gustavo III aconteceu no ano de 1792, em condições verdadeiramente “barrocas”. Ele foi assassinado num grande baile de máscaras.

— E acho que foi num teatro.

— O baile de máscaras aconteceu na Ópera e podemos dizer que o assassinato de Gustavo III pôs um fim ao Barroco na Suécia. O reinado de Gustavo III foi marcado pelo que chamamos de despotismo esclarecido, mais ou menos como tinha sido o reinado de Luís XIV, quase um século antes. Além disso, Gustavo III era um homem extremamente vaidoso, que apreciava muito todas as cerimônias e cortesias francesas. E note que ele também adorava o teatro…

— E foi o teatro que selou o seu destino.

— Sim. Aliás, o teatro foi mais do que apenas uma forma de arte do Barroco. Ele também foi o símbolo por excelência de seu tempo.

— E o que ele simbolizava?

— A vida, Sofia. Não sei quantas vezes se disse no século XVII que “A vida é um teatro”. Foram muitas vezes. E foi precisamente durante o Barroco que surgiu o teatro moderno, com toda a sua parafernália de cenários e maquinaria. O teatro criava em cena uma ilusão, para depois desmascará-la na própria peça encenada. Assim, o teatro refletia a própria vida, mostrava que a altivez precede a decadência e representava a mesquinhez humana de forma impiedosa.

William Shakespeare também viveu no Barroco?

— Sim. Shakespeare escreveu suas grandes peças por volta de 1600, o que o coloca com um pé no Renascimento e outro no Barroco. Mas já em Shakespeare encontramos muitas citações que reforçam esta idéia de que a vida é um teatro. Você quer ouvir algumas?

— Quero sim.

— Na peça Como gostais, ele diz:

O mundo é um palco, e homens e mulheres, não mais que meros atores. Entram e saem de cena e durante a sua vida não fazem mais do que desempenhar alguns papéis.

E em Macbeth lemos:

A vida é uma sombra errante;
Um pobre comediante, que se pavoneia
No breve instante que lhe reserva a cena,
Para depois não ser mais ouvido.
É um conto de fadas, que nada significa,
Narrado por um idiota, cheio de voz e fúria.

— Isto é muito pessimista.

— É que Shakespeare estava preocupado com a brevidade da vida. Talvez você já tenha ouvido a mais célebre citação de Shakespeare…

— Ser ou não ser, eis a questão.

— Sim, foi Hamlet quem disse isso. Hoje estamos por aqui e amanhã poderemos não estar.

— Obrigada pela explicação, mas a mensagem foi clara.

— E quando não comparavam a vida com um teatro, os poetas do Barroco a comparavam com um sonho. Assim, por exemplo, Shakespeare disse: “Somos feitos da mesma matéria que compõe os sonhos, e nossa breve vida está envolta em sono…”.

— Que poético…

— O poeta dramático espanhol Calderón de la Barca, que nasceu por volta de 1600, escreveu uma peça de teatro intitulada A vida é sonho. Nela ele diz: “O que é a vida? Fúria! O que é a vida? Espuma oca! Um poema, uma sombra quase! E a sorte não pode dar senão pouco: pois a vida é sonho e os sonhos, sonho…”.

— Talvez ele tenha razão. Na escola a gente leu a peça Jeppe vom Berge.

— De Ludvig Holberg. Sim, um autor da transição entre o Barroco e o Iluminismo muito importante aqui no Norte.

— Jeppe adormece na vala de uma estrada… e acorda na cama de um barão. Quando acorda, acha que sonhou que um dia foi um pobre e grosseiro camponês. Depois, é carregado de volta para a vala enquanto dorme. Desta vez, quando acorda, acha que sonhou que esteve deitado na cama de um barão.

— Holberg buscou inspiração em Calderón de la Barca, que, por sua vez, foi buscar inspiração para sua peça nos contos árabes das Mil e uma noites. Mas a comparação da vida com um sonho é um tema cujas raízes remontam a um passado longínquo e se estendem até a Índia e a China. O antigo sábio chinês Chuang-Tsu (350 a.C., aproximadamente) sonhou certa vez que era uma borboleta. Quando acordou, Chuang-Tsu se perguntou se era um homem que tinha sonhado que era uma borboleta ou era uma borboleta que agora estava sonhando que era um homem.

— Nesse caso fica difícil provar qual das opções está correta.

— Na Noruega tivemos um genuíno poeta barroco chamado Petter Dass, que viveu de 1647 a 1707. De um lado, ele queria retratar a vida aqui e agora; de outro, dizia que só Deus era eterno e constante.

— Deus é Deus, fosse erma toda a Terra, Deus é Deus, estivessem mortos todos os homens…

— No mesmo coral, porém, ele também fala da cultura do Norte da Noruega e faz referência ao salmão, ao badejo e ao bacalhau, entre outras coisas. Um recurso típico do Barroco. Num mesmo texto fala-se de coisas terrenas, quer dizer, “do lado de cá”, e de coisas celestiais, ou seja, “do lado de lá”. Tudo isto nos faz lembrar da divisão que Platão estabeleceu entre o mundo dos sentidos, concreto, e o mundo das idéias, imutável.

— E a filosofia?

— Também ela foi marcada por lutas acirradas entre modos de pensar contraditórios. Como já vimos, alguns filósofos consideravam a existência algo de natureza fundamentalmente anímica ou espiritual. Chamamos este ponto de vista de idealismo. O ponto de vista oposto se chama materialismo e designa uma filosofia que explica todos os fenômenos da existência a partir de grandezas concretas, materiais. No século XVII, o materialismo também teve muitos defensores. O de maior influência talvez tenha sido o filósofo inglês Thomas Hobbes. Ele dizia que todos os fenômenos – o que inclui homens e animais, portanto – se compunham exclusivamente de partículas materiais. Até mesmo a consciência, ou a alma, humana teria sua origem no movimento de minúsculas partículas cerebrais.

— Então ele achava a mesma coisa que Demócrito, que viveu dois mil anos antes dele.

— Idealismo e materialismo são duas constantes que atravessam toda a história da filosofia. Só que raríssimas vezes esses dois pontos de vista apareceram de forma tão flagrante num mesmo período quanto no Barroco. O materialismo foi amplamente nutrido pela nova ciência natural. Newton havia chamado a atenção para o fato de as mesmas leis do movimento valerem para todo o universo. Além disso, ele atribuiu à lei da gravidade e do movimento dos corpos todas as transformações da natureza, tanto na Terra quanto no espaço. Tudo seria determinado, portanto, pelas mesmas e imutáveis leis, ou seja, pela mesma mecânica. Em princípio, portanto, podemos calcular cada transformação da natureza com precisão matemática. Com isto, Newton colocou a última pedra no alicerce da chamada visão mecanicista do mundo.

— Ele imaginava o mundo como sendo uma grande máquina?

— Exatamente. A palavra “mecanismo” vem do grego méchané, que significa máquina. Contudo, é bom notar que nem Hobbes, nem Newton viam uma contradição entre a visão mecânica do mundo e a crença em Deus. O mesmo não se pode dizer de todos os materialistas dos séculos XVIII e XIX. Em meados do século XVII, aproximadamente, o médico e filósofo francês Lamettrie escreveu um livro intitulado L’homme plus que machine, que significa “O homem: máquina perfeita”. Ele escreveu que assim como as pernas possuem músculos para andar, também o cérebro possuiria “músculos” para pensar. Mais tarde, o matemático francês Laplace levou ao extremo a acepção mecânica com o seguinte pensamento: se uma inteligência pudesse saber a posição de todas as partículas de matéria em dado momento, todas as nossas dúvidas se dissipariam e o futuro e o passado se descortinariam diante de nossos olhos. A idéia por trás disso é a de que tudo o que vai acontecer “já está escrito”. Esta visão de mundo é chamada de determinista.

— Quer dizer que o homem não possui livre-arbítrio?

— Não. Tudo isto é produto de processos mecânicos, inclusive nossos pensamentos e sonhos. No século XIX, materialistas alemães afirmavam que os pensamentos estavam para o cérebro assim como a urina estava para os rins e a bílis para o fígado.

— Mas urina e bílis são duas coisas concretas. Os pensamentos não.

— Observação importante. Vou lhe contar uma história que expressa a mesma coisa. Certa vez, um cosmonauta e um neurologista russos discutiam sobre religião. O neurologista era cristão, e o cosmonauta não. “Já estive várias vezes no espaço”, gabou-se o cosmonauta, “e nunca vi nem Deus, nem anjos”. “E eu já operei muitos cérebros inteligentes”, respondeu o neurologista, “e também nunca achei um único pensamento”.

— O que não significa que os pensamentos não existam.

— Exatamente. A anedota apenas mostra que os pensamentos são algo completamente diferente de tudo o que se possa amputar ou dividir em partes menores. Por exemplo, não é nada fácil eliminar cirurgicamente uma delusão. De certa forma, ela é profunda demais para ser removida dessa forma. Um importante filósofo do século XVII, Leibniz, disse que a grande diferença entre tudo o que é feito de matéria e tudo o que é feito de espírito está no fato de que o material pode ser decomposto em unidades cada vez menores, ao passo que a alma não pode ser cortada em pedaços.

— É verdade… que tipo de faca a gente usaria para isto?

Alberto se limitou a fazer um gesto com a cabeça. Então apontou para a mesinha que estava entre eles e disse:

— Os dois filósofos mais importantes do século XVII foram Descartes e Spinoza. Também eles dedicaram sua reflexão a questões tais como a relação entre alma e corpo. Vamos ver um pouco mais em detalhe esses dois filósofos.

— Vamos lá. Mas se não terminarmos até as sete horas, preciso ligar para a minha mãe.

 

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