O mundo
de Sofia (Excertos)
O mundo de Sofia
De Jostein
Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.
Capítulo 24 (Excerto)
O Iluminismo
(Páginas 336-342.)
(…)
Sofia fechou a porta e colocou o boletim cheio de boas notas sobre a mesa da cozinha. Depois atravessou de gatinhas a sebe do jardim e se embrenhou na floresta.
Mais uma vez teve de atravessar o lago a remo. Alberto estava sentado à porta da cabana quando ela chegou. Ele acenou para que ela viesse se sentar a seu lado.
O tempo estava bom, se bem que do lago vinha uma corrente de ar frio, penetrante. O lago parecia não ter se recuperado ainda da tormenta do dia anterior.
— Vamos direto ao assunto — disse Alberto. — Depois de Hume, o alemão Kant foi o próximo grande construtor de um sistema filosófico. Mas também a França teve muitos pensadores importantes no século XVIII. Podemos dizer que na primeira metade do século XVIII o centro filosófico da Europa esteve na Inglaterra, em meados do século se deslocou para a França e em fins do século para a Alemanha.
— Para resumir, um deslocamento da parte ocidental para a oriental.
— Exatamente. Vou resumir de forma extremamente breve alguns pensamentos que eram comuns a todos os filósofos do Iluminismo francês. Trata-se aqui de nomes importantes como Montesquieu, Voltaire, Rousseau e muitos, muitos outros. Vou me concentrar em sete pontos.
(…)
— (…) Muito bem, o primeiro conceito-chave é, portanto, a revolta contra as autoridades. Muitos dos filósofos do Iluminismo francês tinham visitado a Inglaterra, que em certo sentido era mais liberal do que a própria França. A ciência natural inglesa, sobretudo Newton e sua física universal, fascinou esses filósofos franceses. Mas também os filósofos ingleses foram fonte de inspiração para eles, principalmente Locke e sua filosofia política. De volta à sua pátria, a França, eles começaram pouco a pouco a se rebelar contra o velho autoritarismo. Eles achavam que era muito importante permanecerem céticos a todas as verdades herdadas e acreditavam que o próprio indivíduo deveria encontrar respostas às suas perguntas. Nesse ponto, a fonte de inspiração era a tradição de Descartes.
— Pois ele propunha a reconstrução de tudo de baixo para cima.
— Exatamente. A revolta contra o velho autoritarismo não tardou a se voltar também contra o poder da Igreja, do rei e da aristocracia. No século XVIII, essas instituições eram muito mais poderosas na França do que na Inglaterra.
— E então veio a Revolução.
— Sim, no ano de 1789. As novas idéias, porém, vieram mais cedo. Nosso próximo conceito chave é o racionalismo.
— Eu pensei que o racionalismo tivesse sido enterrado junto com Hume.
— Hume só morreu em 1776, vinte anos depois de Montesquieu e só dois anos antes de Voltaire e de Rousseau, que morreram em 1778. Talvez você se lembre de que Locke não foi um empírico muito coerente. Ele achava, por exemplo, que a crença em Deus e em certas normas morais era parte integrante da consciência humana. Esta idéia também foi o núcleo da filosofia do Iluminismo francês.
— Você também disse que os franceses sempre foram mais racionalistas do que os ingleses.
— E esta diferença remonta à Idade Média. Quando os ingleses falam de common sense, os franceses gostam de falar de évidence. A expressão inglesa pode ser traduzida por “o que é do conhecimento de todos” e a expressão francesa por “evidência”. O common sense apelava à razão, e o fato de ela existir era évident.
— Entendo.
— À semelhança dos humanistas da Antigüidade, como Sócrates e os estóicos, a maioria dos filósofos do Iluminismo tinha uma crença inabalável na razão humana. Isto era algo tão evidente que muitos chamam o período do Iluminismo francês simplesmente de “racionalismo”. A nova ciência natural deixara claro que tudo na natureza era racional. Assim, os filósofos iluministas consideravam sua tarefa criar um alicerce para a moral, a ética e a religião que estivesse em sintonia com a razão imutável do homem. E isto levou ao pensamento do Iluminismo propriamente dito.
— Nosso terceiro ponto.
— Dizia-se, então, que era chegado o momento de “iluminar” as amplas camadas da população, ou seja, de esclarecê-las. Esta seria a condição sine qua non de uma sociedade melhor. Entre o povo, porém, imperavam a incerteza e a superstição. Por isso, dedicou-se especial atenção à educação. Não é por acaso que a pedagogia, como ciência, foi fundada na época do Iluminismo.
— Quer dizer que o sistema educacional vem da Idade Média e a pedagogia do Iluminismo.
— Podemos dizer que sim. O grande monumento do Iluminismo é, paradigmaticamente, uma enciclopédia. Refiro-me à chamada Enciclopédia surgida entre 1751 e 1772 em vinte e oito volumes, com contribuições de todos os grandes filósofos iluministas. Dizia-se que ali “havia de tudo, da produção de agulhas à fundição de canhões”.
— O próximo ponto é o otimismo cultural.
— Você poderia deixar este cartão de lado enquanto estou falando?
— Desculpe.
— Os filósofos iluministas diziam que somente quando a razão e o conhecimento se tivessem difundido entre todos é que a humanidade faria grandes progressos. Era apenas uma questão de tempo para que desaparecessem a irracionalidade e a ignorância e surgisse uma humanidade iluminada, esclarecida. Este pensamento dominou a Europa ocidental até há poucos décadas. Hoje não estamos assim tão convencidos de que o progresso do conhecimento leva necessariamente a melhores condições de vida. Mas esta crítica da “civilização” já tinha sido feita pelos próprios filósofos do Iluminismo.
— Então deveríamos ter ouvido o que eles disseram.
— “De volta à natureza!”: esta era a palavra de ordem da crítica à civilização. Só que para os filósofos do Iluminismo a natureza era quase a mesma coisa que a razão. Isto porque, para eles, a razão era uma dádiva da natureza ao homem, em oposição, por exemplo, à Igreja ou à civilização. Enfatizava-se que os “povos naturais” eram freqüentemente mais sadios e mais felizes do que os europeus, exatamente porque não possuíam uma civilização. A palavra de ordem “De volta à natureza” é de Jean-Jacques Rousseau. Ele dizia que a natureza era boa e que o homem, portanto, era “naturalmente bom”. Todo o mal estaria na sociedade civilizada, que afasta o homem de sua natureza. Por isso Rousseau também queria que as crianças vivessem por mais tempo possível em seu estado “natural” de inocência. Podemos dizer que a noção de um valor próprio da infância vem do Iluminismo. Até então, a infância tinha sido vista como uma preparação para a vida adulta. Mas somos todos seres humanos, e vivemos nossa vida na Terra também como crianças.
— Concordo plenamente.
— Por fim, os filósofos do Iluminismo se preocuparam também com uma “religião natural”.
— E o que eles queriam dizer com isto?
— Queriam dizer que a religião também devia estar em consonância com a “razão natural” do homem. Muitos lutaram por aquilo que podemos chamar de cristianismo humanista, nosso sexto ponto da lista. É claro que também houve os materialistas convictos, que não acreditavam em Deus e professavam o ateísmo. Mas a maioria dos filósofos iluministas achava irracional imaginar um mundo sem Deus. Para eles, o mundo era racional demais para ser encarado de outra forma. Newton, por exemplo, defendera o mesmo ponto de vista. Da mesma forma, a crença na imortalidade da alma era vista como algo racional. À semelhança de Descartes, para os filósofos do Iluminismo a questão de saber se o homem possuía uma alma imortal também era mais uma questão da razão do que da fé.
— É exatamente isto que me incomoda um pouco. Para mim, este é um exemplo típico de algo em que só se pode acreditar, mas que não se pode saber.
— Mas você não vive no século XVIII. Os filósofos iluministas queriam libertar o cristianismo dos muitos dogmas e princípios religiosos irracionais que, ao longo da história da Igreja, tinham sido amalgamados à simplicidade dos ensinamentos de Jesus Cristo.
— Ah, bom. Nesse caso acho que entendo o que eles queriam dizer.
— Muitos também professavam o chamado deísmo.
— Explicação, por favor.
— Por deísmo entende-se uma concepção segundo a qual Deus criou o mundo em tempos há muito passados, mas nunca se revelou a ele desde então. Desse modo, Deus é visto como um ser superior, que só se revela ao homem através da natureza e de suas leis, mas nunca através de uma forma “sobrenatural”. Tal “Deus filosófico”, nós o encontramos já em Aristóteles. Para ele, Deus era a causa primeira, o impulsor do universo.
— Só nos resta agora um ponto: os direitos humanos.
— Em compensação, talvez ele seja o mais importante. Podemos dizer com segurança que a filosofia do Iluminismo francês era mais prática do que a inglesa.
— Você quer dizer que as conclusões que eles tiravam de sua filosofia eram aplicadas diretamente na prática?
— Sim. Os filósofos iluministas franceses não se contentaram apenas com concepções teóricas sobre o lugar do homem na sociedade. Eles lutaram ativamente por aquilo que chamaram de “direitos naturais” dos cidadãos. Tratava-se sobretudo de uma luta contra a censura, ou seja, pela liberdade de imprensa. No que respeita à religião, à moral e à política, o indivíduo precisava ter assegurado o seu direito à liberdade de pensamento e de expressão de seus pontos de vista. Além disso, lutou-se contra a escravidão e por um tratamento mais humano dos infratores das leis.
— Acho que concordo com tudo isto.
— O princípio da “inviolabilidade do indivíduo” acabou resultando na “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”, promulgada pela Assembléia Nacional Francesa em 1789. Esta declaração dos direitos humanos foi uma base importante para a Constituição da Noruega, de 1814.
— Mas muitas pessoas ainda precisam continuar lutando por esses direitos.
— Sim, infelizmente. Os filósofos do Iluminismo queriam estabelecer determinados direitos de que todas as pessoas seriam titulares, simplesmente por terem nascido como seres humanos. É isto que eles chamam de “direito natural”. Até hoje falamos do “direito natural” que em certos casos pode se opor frontalmente às leis oficiais de um país. E até hoje vemos indivíduos – ou mesmo populações inteiras – que evocam esses “direitos naturais” para se defender da falta de liberdade, da falta de direitos e da repressão.
— Como eram os direitos da mulher naquela época?
— A Revolução Francesa de 1789 declarou uma série de direitos que deveriam valer para todos os cidadãos. Só que cidadãos eram basicamente os homens. Apesar disso, é exatamente durante a Revolução Francesa que surge o primeiro exemplo de um movimento de mulheres.
— Já não era sem tempo!
— Já em 1787, o filósofo iluminista Condorcet publica um artigo sobre os direitos da mulher. Nele, o filósofo garante às mulheres os mesmos direitos naturais dos homens. Durante a Revolução Francesa de 1789, muitas mulheres participaram ativamente da luta contra a aristocracia. Por exemplo, foram elas que lideraram as passeatas que acabaram levando o rei a abandonar o seu castelo em Versalhes. Em Paris, formaram-se diferentes grupos de mulheres. Paralelamente à igualdade de direitos políticos em relação aos homens, elas reivindicavam também mudanças na legislação conjugal e melhores condições de vida.
— E elas conseguiram esses direitos?
— Não. Conforme aconteceu outras vezes mais tarde, a questão dos direitos da mulher foi colocada no bojo de uma revolução. Contudo, logo que as coisas se acalmaram numa nova ordem, a antiga predominância dos homens foi restabelecida.
— Típico…
— Uma das que mais lutaram pelos direitos da mulher durante a Revolução Francesa foi Olympe de Gouges. Em 1791, dois anos depois da Revolução, portanto, ela publicou uma declaração dos direitos da mulher. É que a “Declaração dos direitos do homem e do cidadão” não tinha dedicado muito espaço aos direitos naturais das mulheres. Olympe de Gouges reivindicava para as mulheres exatamente os mesmos direitos dos homens.
— E qual foi o resultado disso?
— Ela foi decapitada em 1793 e as mulheres proibidas de toda e qualquer atividade política.
— Que loucura!
— Somente no século XIX é que o movimento de mulheres começa efetivamente a ganhar terreno, tanto na França quanto em toda a Europa. E foi muito lentamente que essa luta começou a dar os seus primeiros frutos. Na Noruega, por exemplo, as mulheres só passaram a ter direito ao voto em 1913. E em muitos países elas continuam a lutar pela igualdade de direitos.
— Pois elas podem contar com a minha ajuda.
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