O mundo de Sofia (Excertos)

 

 

 

O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 25 (Excerto)
Kant

(Páginas 346-360.)

(…)

— (…) Vamos nos sentar perto da lareira. Vou lhe contar alguma coisa sobre Kant.

Nesse momento, Sofia encontrou uns óculos sobre uma mesinha colocada entre duas poltronas. Ela percebeu que as duas lentes eram vermelhas. Talvez fosse um par de óculos de sol bem fortes…

— São quase duas horas — disse ela. — Preciso estar em casa o mais tardar às cinco. Minha mãe na certa deve ter planejado alguma coisa para o meu aniversário.

— Então temos três horas.

— Vamos começar.

— Immanuel Kant nasceu em Königsberg, uma cidade da Prússia oriental, em 1724. Ele era filho de um seleiro e passou quase toda a sua vida em sua cidade natal, até falecer aos oitenta anos. Sua família era muito fervorosa em sua fé cristã, razão pela qual a convicção religiosa do próprio Kant foi um elemento muito importante para a sua filosofia. Como Berkeley, Kant também queria salvar o fundamento da fé cristã.

— Já ouvi o bastante sobre Berkeley, obrigada.

— Dos filósofos de que falamos, Kant foi o primeiro a trabalhar como professor numa universidade. Ele foi o que freqüentemente chamamos de “especialista em filosofia”.

— Especialista em filosofia?

— A palavra “filósofo” é empregada hoje em dia em dois sentidos levemente diferentes. Por filósofo entendemos, sobretudo, aquele que tenta encontrar suas próprias respostas para questões filosóficas. Mas um filósofo também pode ser um especialista em história da filosofia, sem necessariamente querer desenvolver sua própria filosofia.

— E Kant foi um especialista em filosofia?

— Ele foi ambas as coisas. Se tivesse sido apenas um professor brilhante, um especialista, portanto, no pensamento de outros, ele não ocuparia um lugar tão importante na história da filosofia. Igualmente importante, porém, é o fato de Kant realmente conhecer como poucos a tradição filosófica. Ele conhecia muito bem tanto os racionalistas como Descartes e Spinoza, quanto empíricos como Locke, Berkeley e Hume.

— Já pedi para você não tocar mais no nome de Berkeley.

— Sabemos que, para os racionalistas, a base de todo o conhecimento humano estava na consciência do homem. E sabemos também que os empíricos queriam derivar das impressões dos sentidos todo o conhecimento do mundo. Além disso, Hume chamara a atenção para o fato de haver limites definidos para as conclusões que podemos tirar com a ajuda dos nossos sentidos.

— E com qual deles Kant concordava?

— Ele achava que todos tinham um pouco de razão, mas que também tinham se enganado em alguns pontos. De qualquer forma, todos eles tinham se dedicado à tarefa de investigar o que podemos saber do mundo. Este era o projeto filosófico comum a todos os filósofos depois de Descartes. Havia duas possibilidades em discussão: o mundo seria exatamente como nós o percebemos, ou como se mostra à nossa razão?

— E o que Kant achava?

— Kant achava que tanto os sentidos quanto a razão eram muito importantes para a nossa experiência do mundo. Contudo, ele achava que os racionalistas atribuíam uma importância exagerada à razão, enquanto os empíricos eram parciais demais ao defender a experiência centrada nos sentidos.

— Se você não citar logo um exemplo, tudo isto não vai passar de palavras.

— Como ponto de partida, Kant concorda com Hume e com os empíricos quanto ao fato de que devemos todos os nossos conhecimentos às impressões dos sentidos. Mas, e nesse ponto ele concorda com os racionalistas, nossa razão também contém pressupostos importantes para o modo como percebemos o mundo à nossa volta. Em nós mesmos, portanto, existem certas condições que determinam nossa concepção do mundo.

— É este o exemplo?

— Acho melhor fazermos um experimento. Você poderia pegar os óculos que estão sobre a mesinha? Isso, obrigado. Agora coloque-os.

Sofia colocou os óculos. Tudo à sua volta ficou vermelho. As cores claras ficaram vermelho-claras e as escuras vermelho-escuras.

— O que você está vendo?

— O mesmo de antes, só que tudo vermelho.

— A explicação para isto é que as lentes dos óculos determinam o modo como você percebe a realidade. Tudo o que você vê é parte do mundo que está fora de você mesma; mas o modo como você enxerga tudo isto também é determinado pelas lentes dos óculos. Você não pode dizer que o mundo é vermelho, ainda que neste momento ele pareça vermelho.

— Não, é claro que não…

— Se você caminhar com eles pela floresta, ou usá-los em casa, na curva do capitão, você verá tudo o que sempre viu. Contudo, não importa o que você visse, tudo seria vermelho.

— Até que eu tirasse os óculos, certo?

— Os óculos são a premissa para o modo como você enxerga o mundo. Da mesma maneira, para Kant, também possuímos certas premissas em nossa razão, que deixam suas marcas em todas as nossas experiências.

— A que premissas ele está se referindo?

— Não importa o que possamos ver, sempre perceberemos o que vemos sobretudo como fenômenos no tempo e no espaço. Kant chamava o tempo e o espaço de “formas da sensibilidade”. E ele sublinhava que essas duas formas já existem em nossa consciência antes de qualquer experiência. Isto significa que podemos saber, antes de experimentar alguma coisa, que vamos experimentá-la como fenômeno no tempo e no espaço. Somos incapazes, por assim dizer, de tirar os óculos da razão.

— Ele achava, portanto, que o fato de percebermos as coisas no tempo e no espaço era uma característica inata aos seres humanos?

— De certa forma, sim. O que vemos depende de termos crescido na Índia ou na Groenlândia. Em toda a parte, porém, percebemos o mundo como algo no tempo e no espaço. E isto é uma coisa que podemos afirmar de antemão.

— Quer dizer que o tempo e o espaço não existem fora de nós mesmos?

— Não. Ou pelo menos isto não é o mais importante. Kant explica que o espaço e o tempo pertencem à condição humana. Tempo e espaço são sobretudo propriedades da nossa consciência, e não atributos do mundo físico.

— Esta é uma visão totalmente nova.

— A consciência humana não é, portanto, uma “placa” que só registra passivamente as impressões sensoriais vindas de fora. Ela também é criativa; é uma instância formadora. A própria consciência coloca sua marca no modo como percebemos o mundo. Talvez possamos comparar isto com o que acontece quando colocamos água num jarro de vidro. A água toma a forma do jarro. Do mesmo modo, as impressões dos sentidos se adaptam às nossas “formas da sensibilidade”.

— Acho que entendo o que você quer dizer.

— Kant afirma que não é apenas a consciência que se adapta às coisas. As coisas também se adaptam à consciência. O próprio Kant chama isto de “a virada de Copérnico” na questão do conhecimento humano. Com isto ele quer dizer que esta reflexão é tão nova e tão radical em relação à tradição quanto a afirmação de Copérnico de que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário.

— Agora entendo o que ele queria dizer quando afirmou que tanto os racionalistas quanto os empíricos estavam certos em parte. De certa forma, os racionalistas tinham esquecido a importância da experiência dos sentidos, enquanto os empíricos não quiseram ver que a razão co-determina nossa concepção de mundo.

— Para Kant, até a lei da causalidade, que, segundo Hume, o homem era incapaz de experimentar, é elemento componente da razão humana.

— Explique um pouco melhor.

— Você ainda se lembra de que, para Hume, era a força do hábito que nos fazia ver uma relação de causa entre os processos da natureza. Isto porque Hume achava que não podemos sentir que a bola preta de bilhar é a causa do início do movimento da bola branca. Por esta razão, segundo ele, não podemos provar que a bola preta sempre colocará em movimento a branca.

— Ainda me lembro disso.

— Mas Kant considera uma propriedade da razão humana exatamente isto que, para Hume, não pode ser provado. A lei da causalidade é eterna e absoluta, simplesmente porque a razão humana considera tudo o que acontece dentro de uma relação de causa e efeito.

— E novamente eu diria que a lei da causalidade está na natureza e não em nós mesmos.

— Kant diz que ela está dentro de nós. Ele concorda com Hume em que não podemos saber com certeza como o mundo é “em si”. Só podemos saber como o mundo é “para mim” e, portanto, para todos os homens. A diferença que Kant estabelece entre as “coisas em si” e as “coisas para nós” é a sua mais importante contribuição para a filosofia. Nunca seremos capazes de saber com toda a certeza como as coisas são “em si”. Só podemos saber como elas “se mostram” a nós. Em compensação, podemos dizer com certeza como as coisas serão percebidas pela razão humana.

— E isto está certo?

— De manhã, antes de sair de casa, você não pode saber o que vai ver e vivenciar no dia que está começando. Entretanto, você pode saber que o que verá e viverá será percebido como um evento no tempo e no espaço. Além disso, você pode estar certa de que a lei da causa e efeito terá validade, simplesmente porque você a carrega consigo enquanto parte da sua consciência.

— E poderia ser de outro jeito?

— Sim. Nossos sentidos poderiam ser outros, completamente diferentes, e também poderíamos perceber o tempo e o espaço de uma maneira completamente diferente. Além disso, poderíamos ser feitos de modo a não buscar a causa para os acontecimentos à nossa volta.

— Você tem um exemplo?

— Imagine um gato deitado no chão do quarto. Imagine, então, uma bola rolando pelo chão. O que o gato faz neste caso?

— Já fiz esta experiência. O gato corre atrás da bola.

— Certo. Agora imagine que, em vez do gato, você esteja no quarto. Se de repente você vê uma bola rolando, você sai correndo atrás dela?

— Primeiro eu me viro para ver de onde a bola veio.

— Sim, isto porque você é uma pessoa e quer necessariamente saber a causa daquele acontecimento. A lei da causalidade faz parte, portanto, da sua constituição.

— Mas isso é verdade mesmo?

— Hume tinha explicado que não podemos nem sentir, nem provar as leis da natureza. Kant se sentia muito pouco à vontade em relação a esta afirmação. Ele acreditava poder provar a validade absoluta das leis da natureza, à medida que mostrasse que quando falamos em leis da natureza estamos falando, na verdade, de leis do conhecimento humano.

— Será que um bebê também se viraria para tentar descobrir quem tinha empurrado a bola?

— Provavelmente não. Mas Kant diz que, numa criança, a razão ainda não está plenamente desenvolvida, porque ela ainda não dispõe de material sensitivo para trabalhar. De um lado, temos as condições exteriores, sobre as quais nada podemos saber antes de as termos percebido. Podemos chamá-las de material do conhecimento. De outro, temos as condições intrínsecas ao próprio homem: por exemplo, o fato de que percebemos tudo como eventos no tempo e no espaço e como processos sujeitos a uma imutável lei da causalidade. A isto podemos chamar de forma do conhecimento.

(…)

[Alberto continuou:]

— Kant também chamou a atenção para o fato de haver limites bem claros para o que o homem pode saber. Podemos dizer que são os óculos da razão que nos impõem esses limites.

— Como assim?

— Você ainda deve se lembrar de quais tinham sido as “grandes” questões filosóficas dos filósofos anteriores a Kant: se o homem possui uma alma imortal, se Deus existe, se a natureza é composta por unidades mínimas indivisíveis, se o universo é infinito ou não.

— Sim.

— Kant achava que o homem jamais seria capaz de chegar a um conhecimento seguro acerca dessas coisas. Isto não significa que ele não queria se ocupar dessas questões. Ao contrário. Se ele simplesmente tivesse se recusado a abordar essas questões, dificilmente poderíamos chamá-lo de filósofo.

— E o que ele fez?

— Sim, agora você vai precisar de um pouco de paciência. Kant achava que precisamente nessas grandes questões filosóficas a razão operava fora dos limites daquilo que nós, seres humanos, podemos compreender. Por outro lado, uma característica intrínseca à nossa natureza, à nossa razão, seria justamente um impulso básico no sentido de colocar estas perguntas. Só que quando perguntamos, por exemplo, se o universo é finito ou infinito, na verdade estamos querendo saber algo sobre um todo do qual nós mesmos somos apenas uma (ínfima) parte. Assim, nunca poderemos conhecer inteiramente este todo.

— Por que não?

— Quando você colocou os óculos de lentes vermelhas, ficamos sabendo que, para Kant, existem dois elementos que contribuem para o nosso conhecimento do mundo.

— Sim, a experiência dos sentidos e a razão.

— Isso mesmo. O material para o nosso conhecimento nos é dado através dos sentidos, mas este material se adapta, por assim dizer, às características de nossa razão. Uma dessas características, por exemplo, é a de perguntar pela causa dos acontecimentos.

— Por exemplo, querer saber quem atirou a bola que vem rolando pelo quarto.

— Ou qualquer outra coisa. Mas quando nos perguntamos de onde vem o mundo, e discutimos algumas respostas possíveis, a consciência fica como que parada, pois não possui qualquer material sensorial para “processar”; não possui o registro de qualquer experiência que possa retrabalhar. Isto porque, como dissemos, nunca iremos experimentar toda a enorme realidade de que somos apenas uma ínfima parte.

— De certa forma, somos uma pequena parte da bola que rola no chão. E por isso não podemos saber de onde ela vem.

— Só que sempre continuará sendo uma característica da razão humana perguntar de onde a bola vem. Por esta razão é que perguntamos e perguntamos a nos esforçamos a mais não poder para encontrar respostas a estas graves perguntas. O problema é que não temos nada de sólido a que nos apegar. Nunca conseguimos chegar a respostas seguras, pois nossa razão está em ponto morto, por assim dizer.

— Conheço muito bem esse sentimento.

— Nas grandes questões que concernem à realidade como um todo, dois pontos de vista exatamente opostos parecerão sempre igualmente prováveis e igualmente improváveis.

— Exemplos, por favor.

— Faz tanto sentido dizer que o mundo teve um começo no tempo, quanto dizer que não houve começo algum. A razão não é capaz de decidir sobre as duas possibilidades, pois não é capaz de “abarcar” nenhuma delas. Podemos afirmar que o mundo sempre existiu, mas será que alguma coisa pode ter sempre existido sem nunca ter tido um começo? E se adotamos o ponto de vista oposto e dizemos que o mundo teve de começar em algum momento, isto significa que ele teve de surgir do nada, senão estaríamos falando apenas da passagem de um estado para outro. E, nesse caso, pode alguma coisa surgir do nada, Sofia?

— Não, as duas possibilidades são igualmente inconcebíveis. E, apesar disso, uma deve estar certa e a outra errada.

— Você ainda se lembra de que Demócrito e os materialistas disseram que a natureza consiste em minúsculas unidades, a partir das quais tudo se compõe. Outros, como Descartes por exemplo, acreditavam que a realidade estendida podia ser dividida em partes cada vez menores. Qual dos dois tinha razão?

— Ambos… e também nenhum dos dois.

— Continuando, muitos filósofos disseram que a liberdade do homem era uma de suas principais características. Ao mesmo tempo, encontramos filósofos, como os estóicos e Spinoza, por exemplo, para quem tudo no mundo acontece necessariamente por força das leis da natureza. Também nesse ponto Kant acha que a razão do homem não pode emitir um julgamento seguro.

— Ambos os pontos de vista são igualmente sensatos e insensatos.

— E, por fim, também não podemos provar a existência de Deus com nossa razão. Aqui, racionalistas como Descartes, por exemplo, tentaram provar que deve haver um Deus, simplesmente porque temos em nós a idéia de um ser perfeito. Outros, dentre eles Aristóteles e são Tomás de Aquino, defendiam a opinião de que deveria haver um Deus, porque tudo precisa ter uma causa impulsora.

— E o que achava Kant?

— Ele rejeitava ambas as provas da existência de Deus. Nem a razão, nem a experiência são capazes de embasar com segurança a afirmação de que Deus existe. Para a razão, é tanto provável quanto improvável que Deus exista.

— Mas no começo você disse que Kant queria salvar os fundamentos da fé cristã.

— Sim, e de fato ele garante espaço para a religião em seu pensamento justamente naquela zona à qual não conseguem chegar nem a nossa experiência, nem a nossa razão. E justamente este vácuo pode ser preenchido pela fé religiosa.

— E foi assim que ele salvou o cristianismo?

— Podemos dizer que sim. É preciso observar que Kant era protestante. Desde a Reforma, um traço do cristianismo protestante era justamente a fé. Desde o início da Idade Média, a Igreja católica acreditava mais na razão como um pilar da fé.

— Entendo.

— Mas Kant foi mais além do que simplesmente constatar que estas questões mais abrangentes deveriam ser deixadas à fé do homem. Ele achava que as premissas de que a alma é imortal, de que existe um Deus e de que o homem possui livre-arbítrio eram pressupostos de certa forma imprescindíveis para a moral do homem.

— Isso se parece com Descartes. Primeiro ele reflete de forma bastante crítica sobre o que podemos ou não compreender. Depois coloca Deus e tudo o mais para dentro de casa pela porta dos fundos.

— Em contraposição a Descartes, porém, Kant afirma expressamente que não foi a razão, e sim a fé, que o levou até a este ponto. Ele mesmo chama de postulado prático a fé numa alma imortal, em Deus e no livre-arbítrio do homem.

— O que significa isto?

— Postular alguma coisa significa afirmar alguma coisa que não se pode provar. Por postulado prático Kant entende algo que precisa ser afirmado para a “prática” do homem; para o seu agir e, portanto, para a sua moral. “É moralmente necessário supor a existência de Deus”, dizia ele.

(…)

[Alberto continuou:]

— (…) Antes de terminarmos nossa conversa de hoje, ainda preciso falar um pouco sobre a ética de Kant.

— Então se apresse, pois tenho de ir para casa.

— O ceticismo de Hume quanto ao que a razão e os sentidos realmente são capazes de nos dizer levou Kant a repensar muitas das questões mais importantes da vida. E isto também vale para o campo da moral.

— Hume disse que não podemos provar o que é certo e o que é errado, pois não podemos tirar nossas conclusões saltando de uma “oração do ser” para uma do “dever ser”.

— Hume achava que nem a nossa razão, nem as nossas experiências podiam estabelecer a diferença entre certo e errado. Para ele, isto era tarefa exclusiva dos nossos sentimentos. Aos olhos de Kant, este era um fundamento frágil demais.

— Dá para entender muito bem.

— Desde o início, Kant tinha a forte impressão de que a diferença entre certo e errado tinha de ser mais do que uma questão de sentimento. Nesse ponto ele concordava com os racionalistas, para quem a diferenciação entre certo e errado era algo inerente à razão humana. Todas as pessoas sabem o que é certo e o que é errado; e não o sabem porque aprenderam, e sim porque isto é algo inerente à nossa razão. Kant acreditava que todos os homens possuem uma razão prática, que nos diz a cada um o que é certo e o que é errado no campo da moral.

— Ela é uma coisa inata, portanto.

— A capacidade de distinguir entre certo e errado é tão inata quanto todas as outras propriedades da razão. Todas as pessoas entendem os acontecimentos do mundo como causados por alguma coisa e todos têm também acesso à mesma lei moral universal. Esta lei moral tem a mesma e absoluta validade das leis do mundo físico. Ela é tão basilar para a nossa vida moral quanto é fundamental para a nossa razão o fato de que tudo possui uma causa, ou de que sete mais cinco são doze.

— E o que diz esta lei moral?

— Uma vez que ela é anterior a toda e qualquer experiência, ela é “formal”. Isto significa que ela não está ligada a um grupo específico de opções na esfera da moral. Ela vale para todas as pessoas, em todas as sociedades, em todos os tempos. Ela não diz, portanto, o que você deve fazer nesta ou naquela situação. Ela diz como você deve se comportar em todas as situações.

— Mas que sentido tem uma lei moral que não nos diz como nos devemos comportar em determinada situação?

— Kant formula sua lei moral como um imperativo categórico. Por imperativo categórico Kant entende que a lei moral é “categórica”, ou seja, vale para todas as situações. Além disso, ela é também um “imperativo”, uma “ordem”, portanto, e também é absolutamente inevitável.

— Hmm…

— Entretanto, Kant formula o seu imperativo categórico de várias maneiras. Primeiro ele diz que devemos sempre agir de modo a podermos desejar que a regra a partir da qual agimos se transforme numa lei geral. Literalmente, Kant diz: “Age apenas segundo aquelas máximas através das quais possas, ao mesmo tempo, querer que elas se transformem numa lei geral”.

— Quando faço alguma coisa, preciso estar certa de que posso desejar que todos os outros façam a mesma coisa na mesma situação.

— Exatamente. Só assim você estará agindo em consonância com a lei moral interna. Kant formulou o imperativo categórico de modo a que nós tratemos as outras pessoas sempre como um fim em si mesmo, e não como um simples meio para se chegar a outra coisa.

— Não devemos, portanto, “usar” as outras pessoas em proveito próprio.

— Não, pois todas as pessoas são um fim em si mesmas. Mas isto não vale apenas para os outros; vale também para nós. Da mesma forma, não devemos usar nós mesmos como meios para se chegar a outra coisa.

— Isso me lembra um pouco a “regra de ouro”: “não faças para os outros aquilo que não desejas para ti”.

— Sim, e esta é uma diretriz formal que compreende basicamente todas as possibilidades de escolhas éticas. Podemos dizer que esta regra de ouro expressa, de certa maneira, o que Kant chamou de lei moral.

— Mas tudo isto não passa de afirmações. Hume na certa tinha razão quando disse que não podemos provar com nossa razão o que é certo e o que é errado.

— Kant considerava a lei moral tão absoluta e universal quanto a lei da causalidade, por exemplo. Esta também não pode ser provada pela razão, e nem por isso deixa de ser inevitável. Ninguém contestaria isto.

— Começo a sentir que estamos falando mesmo é sobre a consciência. Todo mundo tem uma consciência, não tem?

— Sim, quando Kant descreve a lei moral, o que ele descreve é a consciência humana. Não podemos provar o que a consciência diz, mas sabemos o que ela diz.

— Às vezes sou muito simpática e dócil para com outras pessoas, simplesmente porque sei que aquilo será bom para mim. Dessa forma, posso ser querida dos outros, por exemplo.

— Mas se você é simpática e dócil para com os outros apenas para se tornar querida das pessoas, então você não está agindo de acordo com a lei moral. Talvez você esteja agindo apenas superficialmente de acordo com ela, o que já é alguma coisa, mas aquilo que se pode chamar de ação moral tem de ser o resultado do esforço em superar-se a si mesmo. Só quando você faz alguma coisa por considerar seu dever seguir a lei moral é que você pode falar de uma ação moral. Por isso é que a ética de Kant também é freqüentemente chamada de ética do dever.

— Posso considerar meu dever conseguir dinheiro para os que não têm o que comer ou onde morar.

— Sim, e o importante é que você o faça porque considera isto certo. Mesmo que o dinheiro que você conseguiu ajuntar se perca a caminho e jamais chegue a saciar a fome daqueles a quem se destinava, ainda assim você seguiu a lei moral. A sua atitude estava correta e a atitude correta é para Kant decisiva para que possamos chamar algo de moralmente correto, não as conseqüências da ação. Por isso é que também chamamos a ética de Kant de ética da atitude.

— Por que era tão importante para ele saber quando exatamente estamos agindo segundo a lei moral? Não é muito mais importante que o que fazemos sirva às outras pessoas?

— Sim, Kant certamente concordaria com você. Mas só quando nós mesmos sabemos que estamos agindo segundo a lei moral é que agimos em liberdade.

— Só porque obedecemos a uma lei estamos agindo em liberdade? Isto não é um pouco estranho?

— Kant acha que não. Você ainda se lembra de que ele teve de “afirmar” ou “postular” que o homem possui livre-arbítrio. Este é um ponto importante, pois Kant também acredita que tudo segue a lei da causalidade. Nesse caso, como poderíamos ter livre-arbítrio?

— Boa pergunta.

— Aqui Kant divide a humanidade em duas partes, e nesse sentido ele lembra Descartes, para quem o homem era um ser dual composto de um corpo e de uma razão. Para Kant, enquanto seres sensíveis, estamos absolutamente entregues às imutáveis leis da causalidade. Não decidimos o que sentimos: os sentimentos e sensações aparecem forçosamente e nos marcam, queiramos ou não. Mas o homem não é apenas um ser dotado de sentidos. Ele é também um ser dotado de razão.

— Explique.

— Enquanto seres dotados de sentidos pertencemos inteiramente à ordem da natureza; por conseqüência, também estamos sujeitos à lei da causalidade. Desse ponto de vista, não possuímos livre-arbítrio. Como seres dotados de razão, porém, também temos em nós uma parte do mundo “em si”, ou seja, do mundo que existe independentemente de nossos sentidos. Somente quando seguimos nossa “razão prática”, que nos habilita a fazer uma escolha moral, é que possuímos livre-arbítrio. Isto porque ao nos curvarmos à lei moral somos nós mesmos que estamos determinando a lei que vai nos governar.

— Sim, de certa forma isto está certo. Afinal, sou eu, ou alguma coisa em mim, quem diz que não devo maltratar os outros.

— Quando você mesma decide não maltratar mais os outros, ainda que isto venha a ferir os seus próprios interesses, nesse momento você está agindo em liberdade.

— De qualquer forma, ninguém é particularmente livre e independente quando segue apenas os seus desejos.

— A gente pode se escravizar a toda a sorte de coisas. Podemos nos tornar escravos do nosso próprio egoísmo, por exemplo. Ir além de seus próprios desejos e vícios é uma coisa que requer exatamente autonomia e liberdade.

— E quanto aos animais? Eles só seguem a sua vontade e a sua necessidade. Isto significa que eles não têm a liberdade de seguir uma lei moral?

— Isso mesmo. E é exatamente esta liberdade que faz de nós seres humanos.

— Agora entendi.

— Para concluir, podemos dizer que Kant conseguiu encontrar uma saída para o impasse a que a filosofia tinha chegado através da briga entre racionalistas e empíricos. Com Kant termina, assim, toda uma épica da história da filosofia. Ele morreu em 1804, no início da época que chamamos de Romantismo. A lápide de seu túmulo em Königsberg traz inscrita uma de suas citações mais conhecidas: “Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e freqüentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”. Aí estão os grandes enigmas que o moveram e à sua filosofia.

 

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