O mundo de Sofia (Excertos)

 

 

 

O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 26 (Excerto)
O Romantismo

(Páginas 368-378.)

(…)

Também desta vez Alberto Knox estava sentado à soleira da porta quando Sofia chegou.

— Sente-se aqui — disse ele, e foi logo entrando no assunto. — Até agora falamos do Renascimento, do Barroco e do Iluminismo. Hoje vamos conversar sobre o Romantismo, que podemos chamar de a última grande época cultural da Europa. Estamos chegando ao fim de uma longa história, Sofia.

— O Romantismo durou tanto tempo assim?

— Ele começou em fins do século XVIII e durou até meados do século passado [XIX]. Depois de 1850, não faz muito sentido falarmos de épocas inteiras que compreendam igualmente a poesia, a filosofia, a arte, a ciência e a música.

— O Romantismo foi uma dessas épocas?

— Sim, e, como dissemos, a última na Europa. Ele começou na Alemanha como reação à parcialidade do culto à razão apregoado pelo Iluminismo. Depois de Kant e de sua fria filosofia da razão, os jovens alemães finalmente podiam respirar aliviados.

— E o que eles colocaram no lugar da razão?

— As novas palavras de ordem eram “sentimento”, “imaginação”, “experiência” e “anseio”. Alguns pensadores do Iluminismo também tinham alertado para a importância dos sentimentos, como Rousseau, por exemplo, e criticado o fato de os iluministas enfatizarem apenas a razão. Agora, no Romantismo, esta corrente secundária se transformou no veio principal da vida cultural alemã.

— Quer dizer que a popularidade de Kant não durou muito tempo?

— Sim e não. Muitos românticos chegaram a se considerar sucessores de Kant, pois Kant havia dito que há limites para o que podemos saber. Além disso, ele também havia mostrado o quanto é importante a contribuição do nosso eu para o processo de aquisição de conhecimento. E agora, no Romantismo, o indivíduo encontrava o caminho livre, por assim dizer, para fazer a sua interpretação pessoal da vida. Os românticos professavam uma glorificação quase irrestrita do eu. A essência da personalidade romântica é, por isso mesmo, o gênio do artista.

— E houve muitos gênios durante esta época?

— Alguns. Beethoven, por exemplo. Sua música nos mostra uma pessoa que consegue exprimir seus próprios sentimentos e anseios. Nesse sentido, Beethoven foi um artista “livre”, ao contrário de mestres do Barroco como Bach e Handel, que compunham suas obras em louvor a Deus e freqüentemente segundo rígidas normas de composição.

— De Beethoven eu só conheço a Sonata ao luar e a Quinta sinfonia.

— Ouvindo essas peças dá para perceber como Beethoven conseguiu dar vazão a todo o seu romantismo na Sonata ao luar e a toda a sua dramaticidade na Quinta sinfonia.

— Em algum momento você disse que os humanistas do Renascimento também eram individualistas.

— Sim. Há muitos paralelos entre o Renascimento e o Romantismo. Um deles é a importância que se dá ao papel da arte no processo de conhecimento humano. Nesse ponto, a contribuição de Kant foi muito importante. Em sua estética, Kant investigou o que acontece quando somos arrebatados por algo de belo. Uma obra de arte, por exemplo. Quando nos voltamos para uma obra de arte sem qualquer outro interesse senão o de “vivenciá-la” o mais intensamente possível, nós ultrapassamos as fronteiras do que podemos “saber”. Ultrapassamos, portanto, as fronteiras de nossa razão.

— Quer dizer que o artista pode nos dizer coisas que o filósofo não é capaz de nos dizer?

— Era isto o que achavam Kant e os românticos. Para Kant, o artista brinca livremente com sua capacidade de cognição. O poeta Friedrich Schiller desenvolveu um pouco mais os pensamentos de Kant. Schiller disse que o processo de criação do artista é uma atividade lúdica e que só nela o homem é verdadeiramente livre, pois ele próprio determina suas regras. Os românticos acreditavam, portanto, que só a arte era capaz de nos aproximar do “indizível”. Alguns levaram esta reflexão às últimas conseqüências e chegaram a comparar o artista com Deus.

— Provavelmente porque o artista cria a sua própria realidade, exatamente como Deus criou o mundo.

— Costumava-se dizer que o artista possuía uma espécie de imaginação criadora do mundo. Em seu êxtase artístico, ele seria capaz de experimentar um estado em que as fronteiras entre sonho e realidade desaparecem. O poeta Novalis, um dos jovens gênios do Romantismo, disse: “O mundo se transforma em sonho e o sonho em mundo”. Novalis escreveu um romance ambientado na Idade Média e intitulado Heinrich von Ofterdingen, que ficou inacabado quando o autor faleceu no ano de 1801, mas que foi de grande importância para o Romantismo. Nele encontramos o jovem Heinrich, que procura incansavelmente a “flor azul” que um dia viu em sonho e por quem se apaixonou desde então. O romântico inglês Coleridge expressou assim o mesmo pensamento:

E se você dormisse? E se você sonhasse? E se, em seu sonho, você fosse ao Paraíso e lá colhesse uma flor bela e estranha? E se, ao despertar, você tivesse a flor entre as mãos? Ah, e então?

— Lindo.

— Este anseio por algo longínquo e inatingível foi um traço típico dos românticos. Vem daí o seu forte interesse por tempos passados, como a Idade Média, por exemplo, que no Iluminismo ainda era tida como uma época de trevas, mas que agora voltava a ser energicamente revalorizada; ou então por culturas distantes, por exemplo a “terra do sol nascente” e toda a sua mística. Os românticos sentiam-se atraídos pela noite, pelo “crepúsculo”, por antigas ruínas e pelo sobrenatural. Interessava-lhes muito aquilo que costumamos chamar de o lado oculto da vida: o obscuro, o misterioso, o místico.

— Acho que deve ter sido uma época muito interessante. Mas quem eram esses românticos?

— O Romantismo foi sobretudo um fenômeno urbano. Precisamente na primeira metade do século passado [XIX], a cultura urbana vivia um período de apogeu em muitas regiões da Europa, e também na Alemanha. Os “românticos” típicos eram jovens, muitas vezes estudantes, embora nem sempre fossem alunos exemplares. Eles tinham uma postura marcadamente antiburguesa e chamavam os “simples mortais”, a polícia ou a locatária dos quartos em que moravam, de “filisteus”, ou simplesmente de “inimigos”.

— Pois eu não alugaria um quarto para um romântico.

— Por volta de 1800, os românticos da primeira geração eram muito jovens. Desse ponto de vista, podemos chamar o movimento romântico de a primeira revolta de jovens da Europa. Podemos até mesmo traçar paralelos claros entre eles e a cultura hippie que viria cento e cinqüenta anos mais tarde.

— Você está se referindo a flores, cabelos compridos, sons de guitarra e ociosidade?

— Sim. Dizia-se que a ociosidade era o ideal do gênio e a indolência a primeira virtude do romântico. Era dever do romântico viver a vida, ou imaginar-se distante dela. As obrigações e tarefas cotidianas eram preocupações dos filisteus.

— Houve românticos na Noruega?

— Wergeland e Welhaven são dois exemplos. Wergeland defendia também muitos ideais iluministas, mas sua vida foi a de um típico romântico. Ele era um galanteador e vivia apaixonado, só que a Stella a quem dedicava seus poemas, e agora temos um traço tipicamente romântico, era tão distante e inatingível quanto a “flor azul” de Novalis. O próprio Novalis apaixonou-se por uma jovem de apenas catorze anos. Ela morreu quatro dias após completar quinze anos, mas Novalis a amou por toda a vida.

— Ela morreu mesmo só quatro dias depois de completar quinze anos?

— Sim…

— Estou fazendo quinze anos e quatro dias hoje

— É verdade.

— Como ela se chamava?

— Sophie.

— O quê?

— Sim, era este…

— Você está me assustando! Será que isto é uma coincidência?

— Não faço a menor idéia. Mas que ela se chamava Sophie, isto se chamava.

— Continue contando.

— Novalis só viveu até os vinte e nove anos. Ele foi mais um dos chamados “mortos jovens”, pois os românticos morriam muito cedo, freqüentemente de tuberculose. Alguns cometiam suicídio…

— Deus meu!

— E os que chegavam a envelhecer geralmente deixavam de ser românticos. Assim, aos trinta anos mais ou menos, muitos abandonavam a vida de romântico e passavam a ser totalmente burgueses e conservadores.

— Quer dizer, passavam para o lado do inimigo.

— Sim, pode ser. Mas nós estávamos falando do amor na época do Romantismo: a grande obra sobre o amor inatingível é o romance de Goethe Os sofrimentos do jovem Werther, de 1774. O romance termina quando o jovem Werther se suicida porque não pode ter aquela que ama…

— Mas isto não era ir longe demais?

— Bem, os contemporâneos de Goethe identificaram-se com os motivos que tinham levado Werther ao suicídio. Por toda a parte em que o romance circulou, os índices de suicídio aumentaram rapidamente. Na Dinamarca e na Noruega, Werther chegou mesmo a ser proibido por um bom tempo. Ser um romântico autêntico não era coisa das mais seguras. Havia sentimentos e emoções fortes em jogo.

— Quando você diz “romântico”, penso naqueles quadros que retratam grandes paisagens, com florestas misteriosas e uma natureza exuberante… geralmente envolta em neblina.

— De fato, uma das características mais importantes do Romantismo era o amor pela natureza e por sua mística. Este traço também era um fenômeno urbano, como dissemos, pois dificilmente ele apareceria em zonas rurais. Você certamente ainda se lembra de que a expressão “De volta à natureza!” é de Rousseau. Só agora, no Romantismo, é que esta palavra de ordem ganha impulso. O Romantismo também foi uma reação à visão de mundo mecanicista do Iluminismo. Não é sem razão que se diz que o Romantismo trouxe consigo um renascimento do antigo pensamento holístico.

— Me explique isto, por favor.

— Isto significa, sobretudo, que a natureza voltou a ser vista como um todo, como uma unidade. Nesse sentido, os românticos se reportavam não apenas a Spinoza, mas também a Plotino e aos filósofos do Renascimento tais como Jakob Böhme e Giordano Bruno. Todos eles tinham experimentado um “eu” divino na natureza.

— Eles foram panteístas…

— Descartes e Hume tinham estabelecido uma nítida divisão entre o eu e a realidade “estendida”. Kant também colocara uma divisão estanque entre o eu cognitivo e a natureza “em si”. Agora a natureza era vista como um único e grande “eu”. Os românticos usavam também expressões como a “alma do mundo” ou o “espírito do mundo”.

— Entendo.

— O filósofo mais importante do Romantismo foi Friedrich Wilhelm Schelling, que viveu de 1775 a 1854. Ele tentou suprimir a divisão entre “espírito” e “matéria”. Schelling dizia que a natureza inteira, tanto a alma humana quanto a realidade física, era expressão de um único Deus ou do “espírito do mundo”.

— Sim, isto me lembra Spinoza.

— Para Schelling, a natureza era o espírito visível, e o espírito a natureza invisível, pois por toda a parte podemos perceber e sentir a ação de um espírito ordenador, estruturador. Para ele, a matéria era uma espécie de inteligência adormecida.

— Isto você precisa explicar um pouco melhor.

— Schelling via o espírito do mundo na natureza, mas também via este espírito na consciência humana. Nesse sentido, tanto a natureza física quanto a consciência humana seriam expressão de uma única e mesma coisa.

— Sim, por que não?

— O espírito do mundo deve ser procurado, portanto, tanto na natureza quanto dentro de cada um. Por isso Novalis pôde dizer que “o caminho do mistério aponta para dentro”. Com isto ele queria dizer que o homem traz o universo inteiro dentro de si e que a melhor forma de se vivenciar o mistério do mundo seria mergulhar em si mesmo.

— É um belo pensamento.

— Para muitos românticos, a filosofia, a pesquisa natural e a poesia formavam uma unidade superior. Se alguém estivesse sentado em seu quarto escrevendo inspirados poemas, ou se estudasse a vida das flores e a composição das pedras, estas coisas seriam apenas duas faces da mesma moeda, pois a natureza não era um mecanismo morto, mas o espírito vivo do mundo.

— Se você continuar falando, vou acabar me tornando uma romântica.

— O pesquisador natural norueguês Henrik Steffens, que Wergeland chamava de “a folha de louro que o vento soprou da Noruega”, porque Steffens se mudou para a Alemanha, foi a Copenhague em 1801 para fazer palestras sobre o Romantismo alemão. Ele caracterizou o movimento romântico com as seguintes palavras: “Cansados da eterna luta por abrir um caminho pela matéria bruta, escolhemos outro caminho e nos lançamos, apressados, aos braços do infinito. Mergulhamos em nós mesmos e criamos um novo mundo”.

— Como você conseguiu aprender tudo isto de cor?

— Isto é só um detalhe sem importância, Sofia.

— Continue!

— Schelling também via na natureza uma evolução que ia das pedras até a consciência humana. Nesse sentido, ele chamava a atenção para estágios de evolução que iam da natureza inanimada até às formas de vida mais complexas. A visão romântica da natureza era absolutamente marcada pela concepção de natureza como um organismo, como uma unidade, portanto, capaz de desenvolver ao longo do tempo as potencialidades que lhe são inerentes. A natureza é como uma planta que desenvolve folhas e florescências. Ou como um poeta que cria seus poemas.

— Isto não lembra um pouco Aristóteles?

— Claro que lembra. A filosofia romântica apresenta traços tanto aristotélicos, quanto neoplatônicos. Aristóteles tinha uma concepção mais orgânica dos processos naturais do que os materialistas mecanicistas.

— Entendo.

— Podemos encontrar pensamentos análogos também numa nova visão de história. Para os românticos, foram de grande importância as reflexões do filósofo da história Gottfried Herder, que viveu de 1744 até 1803. Para ele, o curso da história era o resultado de um processo voltado para um objetivo específico. Justamente por isto chamamos de “dinâmica” sua visão da história. Os filósofos do Renascimento tinham freqüentemente uma visão estática da história. Para eles, só o que havia era uma única razão universal, que se concretizava às vezes mais, às vezes menos, nas diferentes épocas. Herder, ao contrário, explica que cada época da história tem um valor que lhe é peculiar e cada povo a sua forma especial de ser, sua própria “alma”. A questão seria saber se somos capazes de penetrar em outros tempos e em outras culturas para entendê-los, e como podemos fazer isto.

— Assim como às vezes temos de nos colocar no lugar de outra pessoa para entendê-la melhor, também precisamos “entrar” em outra cultura para entendê-la melhor.

— Hoje em dia, isto é uma coisa que se tornou praticamente evidente. Na época do Romantismo, porém, esta visão era nova. Desse ponto de vista, o Romantismo contribuiu para intensificar o sentimento de identidade própria de cada nação. Não é por acaso que, na Noruega, a luta pela independência nacional tenha eclodido exatamente em 1814.

— Entendo.

— Devido ao fato de o Romantismo ter trazido consigo uma reorientação em tantos setores, costumamos distinguir duas formas de Romantismo. Por Romantismo entendemos, de um lado, aquilo que podemos chamar de Romantismo universal. Nesse sentido, estamos pensando nos românticos que se preocupavam com a natureza, a alma do mundo e o gênio artístico. Esta forma de Romantismo veio primeiro e atingiu o seu apogeu por volta de 1800, sobretudo na cidade alemã de Iena.

— E a outra forma de Romantismo?

— Foi o chamado Romantismo nacional. Ele veio um pouco mais tarde e teve Heidelberg como centro. Os românticos nacionais interessavam-se sobretudo pela história do povo, sua língua e também pela assim chamada cultura “popular”. Pois o povo também era visto como um organismo preocupado em desenvolver as possibilidades que lhe eram inerentes. Exatamente como a natureza e a história.

— Diga-me onde moras e te direi quem és.

— O que unia essas duas vertentes do Romantismo era sobretudo a palavra-chave “organismo”. Todos os românticos consideravam um organismo vivo tanto uma planta quanto todo um povo e até mesmo uma obra poética. Por isto é que também não há um limite bem definido entre as duas vertentes. O espírito do mundo estava presente tanto no povo e na cultura popular, quanto na natureza e na arte.

— Entendo.

— Herder já havia recolhido canções populares de muitos países e dado à sua coletânea o eloqüente título de “As vozes dos povos em canções”. Ele chegou mesmo a chamar os contos populares de “a língua materna dos povos”. Em Heidelberg começou, então, um trabalho de coleta de canções e contos populares. Você na certa já ouviu falar dos contos dos irmãos Grimm, não ouviu?

— Claro: Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Gata Borralheira e João e Maria…

— E muitos, muitos outros. Na Noruega tivemos Asbjørnsen e Moe, que percorreram o país de ponta a ponta em busca de material para a sua coletânea dos “Contos do povo”. Realizar este trabalho era como colher em abundância um fruto suculento, cujo sabor delicioso e nutritivo acabasse de ser descoberto. E era preciso ser rápido: os frutos já estavam começando a cair das árvores. Landstad reuniu canções populares e Ivar Aasen reuniu, por assim dizer, a própria língua norueguesa. Os mitos e os poemas épicos da era pagã também foram redescobertos em meados do século XIX. E os compositores de quase toda a Europa passaram a usar em suas composições os temas de canções populares, entendidas aqui como canções folclóricas. Desta forma, eles tentavam construir uma ponte entre a chamada “música artística” e a música popular.

— Música artística?

— Estamos chamando de “música artística” aquela composta por determinado compositor, quer dizer, a música que era fruto da imaginação de um artista. A música de Beethoven, por exemplo. A música popular, por outro lado, não era criada por um compositor em particular, mas pelo povo inteiro, por assim dizer. Tratava-se, neste caso, de uma música cujo autor e data de composição não podiam ser identificados com precisão. Seguindo a mesma linha de raciocínio, podemos estabelecer a diferença entre os contos populares e os “contos artísticos”, também chamados por alguns de “contos fantásticos”.

— O que são esses “contos artísticos”?

— São contos que usam a estrutura dos contos populares, mas que são fruto da imaginação de determinado escritor. Por exemplo, os contos de Hans Christian Andersen. O gênero dos contos fantásticos foi cultivado com especial apreciação pelos românticos. Um dos mestres alemães nesse gênero foi E. T. A. Hoffmann.

— Acho que já ouvi falar dos “Contos de Hoffmann”.

— O conto fantástico era o ideal literário dos românticos, mais ou menos como o teatro foi a forma artística preferida do Barroco. Isto porque no conto o escritor podia usar livre e ludicamente toda a sua força criativa.

— Ele podia brincar de Deus num mundo de ficção.

— Exatamente. Bem, agora talvez fosse o caso de fazermos um resumo de tudo o que dissemos.

— Por favor.

— Os filósofos do Romantismo concebiam o que chamavam de “alma do mundo” como um “eu” capaz de criar todas as coisas do mundo num estado semelhante ao do sonho. O filósofo Johann Gottlieb Fichte disse que a natureza provinha de uma força imaginativa superior, inconsciente. Schelling afirmou expressamente que o mundo “era em Deus”. Para ele, Deus era consciente de alguma coisa, mas havia aspectos da natureza que representavam o inconsciente em Deus, pois Deus também teria um “lado obscuro”.

— Este pensamento é assustador e fascinante ao mesmo tempo. Ele me faz pensar em Berkeley.

— Mais ou menos semelhante era o modo como se concebia a relação entre o poeta e sua obra. O conto fantástico dava ao escritor a possibilidade de explorar ao seu bel-prazer a força de sua imaginação criativa; a força de uma imaginação que era capaz de criar mundos. E nem sempre o ato da criação acontecia de forma muito consciente. Não raro o escritor romântico tinha a sensação de que sua história nascia de uma força que estava além dele. Algo como escrever sob um estado de transe hipnótico, se você entende o que digo.

— É mesmo?

— Ao mesmo tempo, porém, o escritor também podia romper esta ilusão, intervindo na narrativa com breves e irônicos comentários endereçados ao leitor. Tudo isto para lembrá-lo de que o conto fantástico não passava de fantasia.

— Entendo.

— Assim procedendo, o escritor podia lembrar o leitor de que sua própria existência também era “fantástica”. Esta forma de se romper a ilusão é comumente chamada de ironia romântica. O escritor norueguês Hendrik Ibsen, por exemplo, colocou a seguinte frase na boca de uma das personagens de sua peça Peer Gynt: “Mas não se pode morrer no meio do quinto ato”.

— Acho que entendo o que há de estranho na fala desta personagem. Ela está dizendo claramente que não passa de imaginação.

— Esta afirmação é tão paradoxal, que acho que deveríamos usá-la para encerrar esta seção.

 

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